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A Nossa Cultura, a Rádio Observador está em Viseu. Estamos em Penalva do Castelo a visitar a Casa da Ínsua, uma propriedade que é um verdadeiro marco aqui no distrito de Viseu e um pouco também para o país, pelas várias histórias que fomos contando ao longo destes episódios gravados aqui na Casa da Ínsua. Eu sou o João Costa Campos, continuamos com a companhia de José Luís Nogueira, historiador da Casa da Ínsua, que nos tem dado a conhecer a história por detrás desta propriedade. Saímos do Salão Nobre, uma das estrelas desta Casa da Ínsua. Estamos agora na capela, uma capela de grandes dimensões para uma casa privada, e daria principal destaque para a Madre de Deus ali no centro do altar.
Exatamente, é o nome que continuamos a dizer, que a capela é a Capela Madre de Deus, que foi assim que ela nasceu. Já agora, dando um passo atrás, recordando, a Casa da Ínsua teve uma primeira capela de evocação a Santo António, que foi dos primórdios da casa. Está datada mesmo, é de 1538, que o primeiro Diogo vem da Índia e constrói a primeira casa, que está em ruínas, e esta capela, que vem a desaparecer e que depois é substituída por um painel do Luigi Battistini, um painel em relevo com a imagem de Santo António, uma enorme imagem de Santo António, que ele reproduz de um quadro que ele próprio pintou e que está na Igreja dos Italianos, no Chiado, em Lisboa. Essa primeira capela desapareceu em data incerta, não sabemos quando. O que sabemos é que esta nasce em 1667. E nasce-se por invocação precisamente à Madre de Deus, que era assim que se chamava na altura a Nossa Senhora. Com o evoluir dos tempos, ela perde o seu nome, passa a chamar-se Nossa Senhora da Conceição, depois do Papa Pio IX, na sua bula "Ineffabilis Deus", com data de 8 de dezembro de 1854, decretou o dogma da Senhora da Conceição e o Jesus nasceu vindo do céu, e portanto ela deixou de ser Madre de Deus. Mas aqui a nossa capelinha continua a manter o nome original de Capela Madre de Deus e está ali bem representada, como disse o João, muito bem representada, num excelente quadro do Pedro Alexandrino, que é uma obra de arte que aqui está e que é imponente, de facto. Cria aqui no altar uma posição de relevo que dá a imagem da Madre de Deus. Por baixo está o altar. Antes disso, só dizer que manteve-se Madre de Deus também nas obras feitas por Luís de Albuquerque em 1780, que ampliaram a capela e que lhe deram a dimensão, como há bocado já foi referido, é uma capela de grande dimensão, com uma enorme cúpula, onde nós estamos debaixo dela. Principalmente, nós devemos chamar a atenção para a pouca liturgia que aqui há. Apenas dois santos. De um lado, São Teotónio, do outro lado, São Francisco Xavier. São Francisco Xavier é uma devoção antiga da família Albuquerque. Eu diria, exagerando, que 50% da família se chama Francisco Xavier. É uma evocação que tem a ver com o santo padroeiro dos descobrimentos portugueses. Mas mais importante para mim aqui hoje é a presença do São Teotónio. O São Teotónio é só o primeiro santo português. Foi contemporâneo de Afonso Henriques e foi um dos seus braços direitos em fazer de Portugal um reino. É, aliás, tão importante a sua função, que ele está aqui em Viseu, é prior aqui de Viseu. Como se sabe, desconfia-se que Afonso Henriques terá nascido aqui, pelo menos era aqui que a família vivia. E há hoje uma tese muito bem sustentada. É muito engraçada a forma como a tese começa, que é: "Eu não sei onde nasceu Afonso Henriques, eu não tenho o certificado de nascimento dele, mas consigo provar onde estava a mãe dele quando ele nasceu". Portanto, é por aqui que se chega ao local de nascimento do Afonso Henriques. E o São Teotónio, dessa época, tem episódios deliciosos, como aquele em que, na homilia da missa, na Sé de Viseu, faz sair a meio da sua própria homilia, pelas suas palavras, aqui durante a homilia, faz sair a então rainha dona Teresa, com o seu companheiro, o Fernão Peres de Trava, vem a ter dois filhos depois da morte do marido e ele estava realmente do lado do Afonso Henriques e não gostava do comportamento da mãe, que tinha uma política completamente diferente, pretendia alargar o país. Também tinha ideias expansionistas, pretendia alargar o país para norte, para a Galiza. Na Galiza, como sabemos ainda hoje, se fala uma língua muito próxima do português. Mas Afonso Henriques tinha uma filosofia diferente, queria crescer para sul e retirar os mouros da Península, e foi, como sabemos, essa a tese que vingou e hoje temos um Portugal do Minho ao Algarve e não um Portugal do Minho à Galiza. Opções. É por isso que eu acho que é muito importante também ter aqui a presença deste santo. A filosofia da recuperação desta capela foi um bocadinho a mesma de toda a casa, tentar ir buscar a alma, e a alma já aqui estava. Foi praticamente só restaurar tudo o que aqui tínhamos. O maior trabalho que se teve de fazer é que o altar estava cortado, porque depois do Vaticano II mandou afastar o altar para a missa ser dada de frente para os fiéis, e a única coisa que fizemos foi reencostá-lo à sua posição original. De resto Temos aqui a presença também do Battistini. O Battistini tem aqui dois grandes painéis de azulejo, um de cada um, um do lado da epístola, outro do lado do evangelho, ao lado do altar, um dedicado ao nascimento e outro à crucificação de Jesus Cristo, que são dois pontos importantes. A simetria mantém-se com o confessionário de um lado, que faz uma das cenas mais fabulosas do "Viúva Rica Solteira Não Fica", que já falámos sobre ele. É a cena do confessionário, por exemplo. Do outro lado, está a sacristia. E é aqui nesta envolvente, que nós temos o coro alto onde nós estamos, com uma cruz em vitral colorido por trás de nós e um pequeno pormenor delicioso, que é o genuflexório, onde se ajoelha. Tem um sistema de aquecimento para as pessoas se manterem confortáveis quando se ajoelham aqui durante os serviços religiosos.
Portanto, nada de passar frio na missa.
Exatamente. Aqui havia hierarquias. Este era o sítio da família, onde a família assistia às cerimônias religiosas. Há um varandim lateral, um pouco mais abaixo, para os principais empregados da casa e os restantes responsáveis e funcionários estavam, obviamente, na plateia, nos bancos da igreja lá embaixo. Do outro lado, temos exatamente para compensar o varandim, um varandim com uma porta falsa para manter a simetria.
A simetria.
Os desenhos, os relevos, tudo isto só realmente vindo cá é que se percebe toda a beleza disto e toda a capacidade de criar arte, porque, de facto, mais uma vez aqui temos algo surpreendente. As paredes são a imitar uns mármores, mas são pintados. E todo o imenso trabalho de granito que aqui é feito, e é uma grande parte, todos os vãos, as paredes, as janelas, tudo isto tem granito. Mas se nós verificarmos com alguma atenção, é granito pintado. Curiosamente, e foi uma dúvida que tivemos no restauro, é que por baixo está granito verdadeiro, mas aquilo que se pretende é este efeito cênico. Tudo isto é pintura. E vão a um detalhe tão interessante que na entrada, por baixo, está um desenho feito com o A e com o M, muito entrelaçados, que a gente nunca sabe se se deve ler primeiro o A ou o M. É uma curiosidade interessante, porque qualquer igreja, como sabemos, tem o A e o M, que quer dizer Ave Maria. Só que neste caso, há aqui um truquezinho: é que foi o irmão do Luís de Albuquerque que concluiu aqui os trabalhos e fez questão de pôr ali a assinatura, porque o A e o M, lidos na inversa, são Manuel de Albuquerque, que é o nome dele.
E fica aqui o mistério deixado por José Luís Nogueira, que deixa também o convite para que venha conhecer a Casa da Ensua, em particular a capela, que tem tantos detalhes para conhecer. Fica por aqui este episódio. No próximo episódio vamos conhecer um pouco de uma das suítes da Casa da Ensua, mais especificamente a Varanda dos Milagres, em especial o relógio Eugène Ducretet.