Enquanto trabalhava na gestão de apartamentos, o lisboeta Diogo Infante, hoje com 32 anos de idade, queria ter um pretexto para todos os meses aprender ou viver algo novo. Com a venda do negócio em 2024, Diogo juntou-se a Tomas Arches, de 38 anos (e antigo dono da empresa de arrendamento de imóveis) para desenvolver uma empresa que pudesse atender pessoas que se quisessem iniciar, por exemplo, na cozinha, surf ou fazer trabalhos manuais dos mais variados tipos.
“Aprendi muito sobre o mundo dos negócios, mas sentia que trabalhar com arrendamentos já não fazia sentido para mim“, admite o empreendedor. “Eu próprio não conseguia pagar a renda de uma casa, então não queria fazer parte deste mercado”. Durante um ano, Diogo desenvolveu a ideia que resultaria, em janeiro de 2025, no lançamento da Hands On, uma plataforma de venda de workshops presenciais em todo o país. O nome deriva da principal proposta da marca: “colocar as mãos na massa”, como é referido por Diogo.
Com experiências a partir de 20 euros, a proposta passa por “provocar as pessoas a sair do sofá e conhecer gente“, diz Diogo ao Observador. “Gosto de aprender a fazer coisas novas, de ensinar, de me relacionar com pessoas e de pensar em como unir isto à tecnologia”, define. A plataforma, que arrancou com 30 aulas com professores que já organizavam formações, tem hoje 869 workshops registados no seu portfólio. Destes, dezasseis concentram quase metade da procura do público, como é o caso das aulas de como fazer massa fresca, cerâmica e olaria, tufting (tapetes criados com pistola de lã) e sushi. Há ainda propostas como a construção de casas ecológicas (Sintra), perfumaria intuitiva (Algarve) e observação de aves na Comporta.
Os clientes têm perfis variados: dividem-se entre portugueses e estrangeiros que vivem em Portugal, na sua maioria entre os 25 e os 45 anos. “Mas já tivemos idosos e também crianças em algumas das aulas”, acrescenta Diogo. Por mês, cerca de 250 pessoas participam nos workshops — em 2026, já foram mais de duas mil. Lisboa e Porto são as cidades com maior procura durante todo o ano. No verão, a empresa investe na venda de mais experiências no Algarve.
▲ Em pouco mais de três horas, a designer de joias Lea Nogueira ensina a desenhar e moldar pendentes em prata
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Na equipa de sete pessoas a trabalhar na startup, há uma dedicada a encontrar especialistas para o catálogo virtual da marca. “O senhor que ensina a fazer sushi, por exemplo, aprendeu a fazer o prato no Japão, onde vivia. Além de cozinhar peixes portugueses com os participantes, ele também traz curiosidades da cultura daquele país”. As mulheres são maioria entre os professores registados: 95%, sendo portugueses a maioria dos formadores. “Passamos horas à procura de artistas e entramos em contacto na maioria dos casos por telefone e e-mail, afinal muitos dos professores não têm página na internet”, diz.
Entre os workshops mais procurados por residentes estrangeiros e turistas estão os de pintura de azulejo e confeção de pastéis de nata. E há ainda um que desperta a curiosidade de todos os públicos: o de filigrana portuguesa, vendido a 160 euros por pessoa. O Observador acompanhou uma das aulas, que teve como um dos alunos o próprio Diogo. Num pequeno atelier em Carnide, a designer de joias Lea Nogueira explica calmamente como moldar fios de prata (que são comprados a uma empresa no Norte do país) para desenvolver um pendente.
▲ Diogo juntou-se ao team building de uma empresa norte-americana na aula de filigrana portuguesa
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
A lisboeta de 22 anos de idade aprendeu aos 18 a técnica de joalharia que agora ensina a quem se interessa por este ofício, que requer olhar atento, paciência e tempo — a aula dura pelo menos três horas. No seu percurso académico, Lea completou um curso de mediação artística e cultural no Instituto Politécnico de Lisboa, outro de ourivesaria na Escola Artística António Arroio e um estágio no Museu do Tesouro Real. Mesmo após anos de estudo, uma das suas joias com detalhes minuciosos pode levar até 20 horas para ser finalizada.
Depois de Lea explicar o que é a filigrana e como esta é trabalhada em Portugal, os participantes desenham a lápis, numa folha, a forma desejada para o pendente. Depois, com o apoio de ferramentas como pinças e alicates, devem torcer um fio de metal para criar a moldura da joia. A parte mais complexa é formar os “olhos de gato” e as “escamas de peixe” (termos referidos pela própria Lea) que compõem a parte interna das figuras. Lea explica que os fios são superfinos e, para chegar a um formato de “caracol”, é preciso ter calma e aplicar a pressão adequada para que nenhum se solte antes da soldadura. “A beleza da vida é que não se aprende 100% de coisa nenhuma num único dia“, afirma Diogo, que planeia, com o seu sócio, lançar “níveis de aprendizagem” de alguns dos workshops para quem desejar aprofundar-se nas técnicas.
Apaixonado pelo surf, Diogo decidiu fazer um pendente que remete para uma onda do mar. Foi a primeira vez que o empreendedor tentou desenvolver uma peça em filigrana. “Muitas vezes não damos a devida atenção às joias quando estão prontas numa montra. Só quem faz é que sabe quão difícil é. Eu próprio nunca tinha pensado nisso até estar cá hoje”, disse. “Eu já dei aulas de surf e stand up paddle em vários lugares do mundo, então percebo o desafio que os professores têm de conseguir alunos e gerir o tempo das aulas”.
Naquela mesma tarde, ocupava a mesa do atelier um grupo de quatro funcionários de uma empresa de tecnologia dos Estados Unidos. Em Lisboa numa viagem de trabalho, o chefe da equipa, James, decidiu oferecer a experiência a Alex, Andy e Sindhu. “Para deixarmos um pouco o ecrã, que usamos todos os dias o dia todo, de lado”, explica. A proposta de team building decorreu num ambiente descontraído — estava também incluída uma pausa para um brunch.
Cada um seguiu as etapas de soldadura e polimento com as orientações de Lea e do seu assistente, Patrick. No fim, todos tinham uma peça pronta para ser usada. “A ideia é mesmo esta: criar algo com as próprias mãos e levar o resultado para casa”, explica Diogo, que recorda ter participado também numa aula em que produziu o próprio vinho. “Escolhi as castas das uvas e selei a garrafa com o meu nome!”, diz.
Há ainda aqueles que acedem ao marketplace para reservar experiências para grupos de amigos e festas de aniversário. De forma a incentivar também a participação de pessoas sozinhas, a Hands On organiza os eventos “Friends On”, que são descritos como encontros onde “toda a gente vai com o mesmo objetivo: fazer uma atividade diferente e conhecer pessoas novas pelo caminho”.
Com a chegada do fim do ano, a empresa vai arrancar com a venda de gift cards em mais de 5.000 pontos de venda, incluindo retalhistas. Em 2027, Diogo já prevê dar o seu passo mais ambicioso: vender workshops em Espanha, país para o qual já tem uma lista com mais de 400 professores que pretendem convidar a participar na iniciativa. “Tem sido uma trajetória incrível, com feedbacks super positivos das pessoas. Hoje sinto que existe um propósito no que estou a fazer“.