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As escolas privadas, sobretudo as do Grande Porto, continuam a liderar o ranking das escolas. Com meses de atraso, foram divulgados esta sexta-feira os resultados e no top cinco estão: o Grande Colégio Universal do Porto, que mantém a liderança, depois o Colégio Nossa Senhora do Rosário, também do Porto. Em terceiro lugar, ex aequo, duas escolas, o Colégio Efanor, de Matosinhos, e o Colégio Horizonte, de Vila Nova de Gaia. Em quinto lugar, está a Academia de Música de Santa Cecília, em Lisboa. No top 50 das melhores médias nos exames, encontramos apenas três escolas públicas. A situação das escolas públicas neste ranking piorou em relação ao ano de 2024, aqui estamos a falar de 2025. Ora, em 2024 havia quatro no top 50, em 2025 há apenas três. E em 2024, a primeira escola pública surgia no lugar 37, agora é preciso descer até ao lugar 44 para encontrar a primeira pública. Estará a escola pública condenada a não figurar nos melhores lugares? E a escola está ou não funcionando como elevador social? E por quê o sucesso destes colégios que mantêm o top cinco no ranking? Eu sou o Ricardo Conceição, comigo está a Judite França. Quem são os nossos convidados, Judite?

João Trigo, é diretor do Colégio Efanor, e Rui Paiva, diretor da Academia de Música de Santa Cecília. Bem-vindos, obrigada pela disponibilidade. Eu começo por si, João Trigo. O Colégio Efanor está no terceiro lugar no ranking geral de exames. Chegou a liderar durante três anos. Esta é uma boa posição?

Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Com certeza que é uma boa posição. É claro que gostamos sempre do melhor, mas estar nos primeiros lugares é bom, até porque verdadeiramente o que distingue estas escolas são décimas, portanto, não é algo de muito relevante. Penso que estão todas de parabéns, especialmente os seus alunos, os seus professores, as suas comunidades educativas, pelo trabalho que desenvolvem. No caso particular do Colégio Efanor, registo com especial satisfação o facto de isto ser uma normalidade, portanto, é um resultado consistente. Primeiro, segundo, terceiro, aliás, desde que temos exames nacionais, do secundário ou finalistas, 12° ano, que foi no ano de 2020 o primeiro grupo a terminar, sempre estivemos nestes lugares, nos três primeiros lugares, e portanto, isso para nós é importante, porque antes de mais comparamos o nosso trabalho de cada ano com o trabalho que já fazíamos antes e com a ambição de que temos de fazer sempre melhor.

Rui Paiva, a Academia de Música de Santa Cecília é a quinta classificada e a primeira da zona de Lisboa. Alguma explicação para haver mais escolas privadas bem classificadas a norte?

Boa tarde, presentes. Boa tarde aos ouvintes da Rádio Observador. Muito obrigado pelo convite. Não tenho uma explicação evidente. Tenho uma convicção de que se trabalha muito bem no norte. Não significa que não se trabalhe bem no sul, mas não tenho uma explicação evidente para isso.

As diferenças, realmente, como dizia o João Trigo, são de décimas, em alguns casos, sobretudo aqui no topo. E há também o ranking de superação, que compara o desempenho com o contexto das famílias. E aqui, João Trigo, o Colégio Efanor ficou em sétimo lugar. Que valor dá a este ranking quando comparado com o ranking dos exames?

Ora, é uma análise como muitas outras. Eu confesso que não conheço em detalhe quais são os critérios. Com certeza que, em termos genéricos, sei e imagino que são critérios que têm em conta os contextos sociais, os percursos históricos das escolas e, portanto, é uma análise seguramente válida e estarmos nessa análise também em sétimo lugar, penso que é sétimo, é igualmente bom. De facto, isto quer dizer que mesmo face às expectativas, é assim que eu interpreto isto, face às expectativas e ao contexto que temos, estamos a conseguir ir mais além do que seria expectável. É essa a nossa ambição, é pra isso que trabalhamos e, portanto, é mais uma análise interessante e que de facto vem repor algum equilíbrio entre público e privado, o que também é interessante, porque de facto é bom que reconheçamos que as escolas públicas, muitas não têm contextos tão favoráveis como as escolas privadas, na generalidade. Também haverá algumas que não serão assim tão diferentes.

Claro, aí chegamos a uma das grandes dúvidas que estes rankings nos levantam sempre. Rui Paiva, é impossível ter uma escola pública nos 10 primeiros? O que se passa aqui? Qual é, na sua opinião, quais são as grandes diferenças entre um colégio como a Academia de Música de Santa Cecília e uma escola pública? Ajude-nos lá a perceber melhor o que se passa aqui.

Isto é uma análise muito pessoal, mas eu creio que a escola pública tem todas as condições Para ser uma escola de grande qualidade, eu diria mesmo de excelência. Mas é um fato que há problemas na escola pública, ou pelo menos diferenças relativamente à escola privada, que eventualmente dificultam um bocadinho. Estou a pensar em alguns aspectos, como por exemplo, a escola privada ter talvez um pouco mais de liberdade do que a escola pública para definir o seu projeto educativo, portanto, a forma e o caminho pelo qual leva os seus alunos. Por outro lado, a escola privada, sobretudo aquelas que, como nós, implicam a participação nos custos por parte dos encarregados de educação, tem a liberdade, de certa forma, de selecionar alunos à partida que estejam mais alinhados com o projeto. No nosso caso, por exemplo, nós recebemos alunos a partir dos três anos de idade. Não há aqui qualquer leitura sobre desempenhos ou capacidades, isso não tem lugar nestas idades. Mas naturalmente, quando temos um número vasto, como habitualmente temos, de candidatos, procuramos selecionar aqueles que estão mais alinhados com o projeto, e isto é algo muitíssimo importante. Depois temos também, de certo modo, mais facilidade na seleção do corpo docente e dos colaboradores em geral do que a escola pública. Claro que nós estamos num momento crítico de disponibilidade de professores, e isto é válido tanto para o público como para o privado, mas dentro daqueles professores que são candidatos, sim, a escola privada tem mais facilidade de fazer a sua seleção. Há outros aspectos, mas estes só por si seriam suficientes para marcar alguma diferença.

Eu não sei se o João Trigo concorda com a sua análise, mas faço-lhe aqui já uma pergunta, João Trigo. Ou seja, se a escola pública pudesse atuar como os colégios na definição dos currículos, na contratação de professores, poderia ter melhores resultados?

Ora bem, eu concordo em grande parte com o que o Rui disse e sem dúvida que aspectos como a definição do projeto, podermos ter alguma margem de liberdade para definir o nosso currículo e a nossa forma de organização, as nossas atividades e, sobretudo, a contratação de professores, são aspectos fundamentais e que dão, de facto, como o Rui referiu, vantagem à escola privada, neste tema. Agora, eu sublinhei isso, para ser justo em relação à escola pública, que sabemos bem que precisamente porque as famílias que nos procuram têm que suportar os custos da sua opção, sabemos bem que há uma seleção natural. Pelo menos no nosso caso particular, de que uma seleção de alunos face ao excesso de procura, e nós também o temos em larga escala, mais do que essa seleção de alunos, há uma seleção natural daqueles que têm condições para exercer esta liberdade de opção e poderem escolher o percurso educativo para os seus filhos e, portanto, têm que ter contextos econômicos e sociais mais altos para que isso seja possível. E portanto, esse fator também com certeza contribuirá para explicar, em parte, estes resultados, ou mais do que explicar os bons resultados das escolas privadas, explica alguns maus resultados de algumas escolas públicas.

E mostra que as dificuldades e as diferenças estão cada vez mais acentuadas.

Sim, é possível que seja assim. Tudo aparenta que sim. Não tenho dados que me permitam dizer que essa é uma tendência. Na verdade, nós temos 20 e tal anos deste tipo de análises de resultados dos exames nacionais e isso sempre foi mais ou menos o que é hoje. Vocês referiram aí uma pequena diferença o ano passado.

Uma pequena variação. Exato.

Uma pequena variação, mas, na verdade, o que sempre se verificou é que há um conjunto de escolas privadas, também curiosamente mais a norte, mais curioso ainda, que tendencialmente as mesmas, que estão sempre nos primeiros lugares e que obtêm os melhores resultados.

Eu imagino, estou a pôr-me agora na pele dos pais que vão agora a caminho de casa, que estão a ouvir a nossa conversa no carro e pensam: "Bom, se eu tenho meu filho num liceu público, numa escola pública, ele terá muito menos hipóteses de singrar na vida do que um aluno do Colégio Efanor ou da Academia de Música de Santa Cecília."

Se posso dizer alguma coisa, não tem que ser necessariamente assim.

Sim, esta é uma pergunta.

Claro, sim. A escola pública, naturalmente, tem excelentíssimos professores. Não me sinto minimamente em condições de dizer que a escola privada tem melhores professores do que a escola pública. Penso que isso seria um erro de análise. Essa questão não se coloca. O que se coloca são depois condições de trabalho, são questões de políticas que se definem para as escolas, para o seu modo de funcionamento. Portanto, um aluno que tenha condições em termos familiares Para de organização familiar, de foco no ensino, algum acompanhamento em casa e que tenha vontade de trabalhar, vai seguramente encontrar na escola pública excelentíssimos professores que vão corresponder a essa vontade. Claro que depois se levantam outros problemas, como a diversidade cruzeiro de cada turma e um conjunto de outras circunstâncias. Mas a minha ideia fundamental é de que sim, é possível fazer um bom percurso na escola pública.

João Trigo, mais ou menos a mesma pergunta. Pergunto-lhe se o elevador social estará posto em causa.

Ora bem, eu concordo com o Rui, em parte. É possível, há excelentes professores nas escolas públicas, naturalmente.

E excelentes alunos também, como é óbvio.

E há também excelentes alunos, e há também muitos alunos com as mesmas condições económicas e sociais que há na escola privada, porque na verdade, muitos pais, mesmo tendo a possibilidade económica de exercer opção, optam pela escola pública. Agora, se isto é verdade, também é verdade que eu acho que há mais homogeneidade, e eu penso que isso é uma obrigação da escola privada, eu pelo menos vejo assim e vejo como uma responsabilidade minha, a partir do momento em que eu posso selecionar os meus professores, definir as condições de trabalho, definir até remunerações, eu tenho aqui ferramentas que a escola pública não tem para poder ter um corpo docente mais homogéneo e seguramente que uma parte da explicação destes resultados passa por aí. Eu costumo às vezes dizer que a escola pública é um pouquinho mais aleatória, pode ter muito bom, mas também pode ter muito mau. Para além disso, sabemos todos que há aqui um tema que tem a ver com as regras de colocação de professores, de concurso e de colocação, que originam que muitos professores estejam deslocados, estejam em contextos que não eram aqueles em que desejavam estar, afastados das famílias, com custos acrescidos. Portanto, há aqui um conjunto muito alargado de problemáticas que penalizam tendencialmente a realidade da escola pública. É uma questão organizacional. Mas também é verdade, e por isso é que eu tenho sempre sido cauteloso em dizer que há algumas escolas públicas, que têm contextos muito próximos daqueles que alguns colégios têm. Ou até mais favoráveis do que outros colégios, que também não estão, por vezes, no topo do ranking, estão em lugares mais intermédios desse ranking.

Obviamente que também estou aqui a falar com dois diretores de escolas do top cinco, estão habituados a estar no topo deste ranking. Até que ponto é que também orientam o vosso trabalho para continuar a alimentar estas posições, olhando para estes resultados?

Eu posso sair cá com o contributo. Vamos a ver, os rankings são uma medida entre outras.

Mas o Rui Paiva não gostaria de ver a sua escola cair para 15º ou 16º lugar, não é?

Não, claro que sim, evidentemente. Há uma situação, desde logo, que é a satisfação de todos os colaboradores da escola, sejam eles professores ou não, pelo facto de a escola estar no topo já de uma forma consistente também há vários anos. O que é algo bastante normal e compreensível, mas eu creio que nenhuma escola, mesmo destas que estão no topo, trabalharão com vista a resultados nos rankings. Eu estou convencido que os rankings acabam mais por ser uma consequência de um determinado tipo de trabalho do que propriamente um objetivo em si mesmo. No nosso caso, nós temos, como para nós uma medida mais válida, a facilidade de acesso e até a percentagem de alunos que ficam nos primeiros lugares ou nas escolas que escolheram em primeiro lugar no acesso ao ensino superior do que propriamente os rankings. Claro que os rankings são uma forma de as escolas se compararem entre si, são uma ferramenta que eu imagino extraordinária para o Ministério da Educação organizar o seu trabalho e as suas perspetivas. Penso que no momento em que estamos, a escola pública e a escola privada estarem dentro do mesmo modelo é algo injusto para a escola pública, mas mesmo assim, é preferível que existam rankings.

Rui Paiva e João Trigo, muito obrigado pela vossa disponibilidade e também parabéns pelos resultados, mais um ano. Muito obrigado por terem estado neste Explicador da Rádio Observador.

Muito obrigado.

Muito obrigado.