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Sejam bem-vindos ao programa "A Nossa Cultura". O meu nome é Martim Madeira. Voltamos outra vez à exposição de Liliana Velho, "Regenerar Estados Transitórios" no Teatro Viriato. Já vamos para a quarta peça desta exposição, em que temos mais um coração, desta vez a seguir um pouco a mesma forma do anterior, maior, na minha opinião, mas também mais abstrato. Na minha opinião, mais abstrato, Liliana. Não sei o que a Liliana tem a dizer, mas parece-me ser mais abstrato. Desta vez, temos pelos. Isto foi feito como?

O material é lã de ovelha. Queria dizer uma coisa também sobre esta peça, porque agora a partir de setembro até ao final do ano, esta exposição vai sendo um pouquinho alterada. Vou introduzindo peças novas dentro da mesma temática. Esta foi a última peça que foi colocada. O que eu estou a tentar fazer com estas peças que vão agora integrando a exposição? É trazer materiais que eu encontro na minha aldeia, sobretudo, e no campo. Então, esta peça que vem é feita com lã de ovelha. A parte de cima é lã de uma ovelha branca e a parte de baixo é de uma ovelha castanha. E isto foi uma lã que nós lavamos em casa, é um excedente que os pastores têm, que não conseguem comercializar. Está a ser uma questão agora. Esta segunda leva de peças que vão entrar, eu queria que trouxessem um pouco do que é este mundo rural que me acompanha, e vou invadindo um pouquinho o espaço com estes elementos naturais.

Portanto, para quem está a ouvir, tem uma nova oportunidade de vir aqui. Quando cá vierem ao Teatro Viriato, não serão estas peças que estamos a descrever, serão algumas, mas também existirão peças diferentes. Portanto, fica aqui esta nota de algumas peças diferentes. A minha pergunta também é: não se consegue ver, porque temos a lã de ovelha à frente, mas o que é que está usado para o molde de baixo?

Fiz uma estrutura em arame, que depois foi revestida com papel e cola branca. A estrutura é supersimples. E depois o desafio foi a lã, porque pode não parecer, mas a lã foi cozida à estrutura, que eu estava com pena de colar a lã, simplesmente. Então eu cozi uns pedacinhos de lã a toda a estrutura da peça.

Antes deste episódio, a Liliana estava-me a dizer que queria juntar já o quinto elemento desta exposição, que também se nota perfeitamente que é um coração, pelo menos eu consigo ver que é um coração perfeitamente.

Acho que é a mais abstrata.

Acho que é a mais abstrata de todas, garantidamente, mas dá para perceber o coração, dá para perceber esta forma meio oval, diria, porque o coração tem uma espécie de forma oval, mais ou menos. Dá para perceber essa forma. E a melhor maneira que eu tenho para descrever esta peça mais abstrata, parecem uma espécie de vários copinhos de barro pintados de branco, juntos a formar um coração.

Exatamente isso. É o próprio barro, é a própria cor que o barro tem quando é cozido e eles simulam artérias ou tentam sintetizar essa forma da artéria. E depois basicamente foi brincar com o espaço, tentar outra vez desenhar com escultura e colocar vários copinhos em vários sítios. Aqui também dizer que a sombra, que é provocada pela iluminação, também ajuda um pouquinho a compor.

É propositada?

Por acaso não foi, mas aqui funcionou muito bem.

Eu ia por acaso tocar nesse ponto, porque de facto as sombras ajudam bastante a perceber melhor a forma. Eu pelo menos acho isso. Acho que as sombras ajudam bastante e por acaso percebi se era propositada. Não foi propositada.

Neste caso, não, mas nesta peça em específico resultou muito bem. Tivemos muita sorte.

A mim também me parece ter resultado bastante bem estes copinhos e alguns diferentes tamanhos. Também é propositado ou simplesmente aconteceu?

É um pouquinho de tudo. Eu vou deixando o acaso muitas vezes também tomar conta. E neste caso foi para ter variedade de tamanhos. Mas depois a forma, a maneira como ela foi composta, foi um pouquinho aleatória. Era só para fazer uma forma oval, mesmo abstrata.

E em termos de, pelo menos, tenho interligado todas as peças à natureza. Minha pergunta: esta aqui liga-se como à natureza?

Todos eles são propostas de transformação neste sentido. Se o coração tivesse sido abandonado no campo ou se estivesse lá a viver, como é que a natureza entra por ele adentro? Que transformações a natureza vai trazer? Então, algumas das transformações que eu sugiro é a desagregação. Ele vai separando e cada peça vai vivendo sozinha, que é um pouquinho o que está a acontecer aqui. Nós já não temos a base, já só temos as estruturas das artérias. Foi essa a última coisa que ficou. E basicamente é isso, a proposta de transformação neste foi essa desagregação e foi este o elemento que sobrou da estrutura principal.

Temos aqui a quarta e a quinta peça descritas por Liliana Velho, e também por mim, da forma mais simples possível, de acordo com os meus olhos. Mas temos aqui a quarta e a quinta peça desta exposição, que continuaremos a acompanhar nos próximos episódios de "A Nossa Cultura".