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Mais um episódio da Nossa Cultura da Rádio Observador. Em Viseu, estamos na Quinta da Cruz. Hoje a olhar para o Gabinete de Curiosidades, uma exposição que faz parte deste Museu Municipal da Quinta da Cruz, que é totalmente dedicada a animais, flora e fauna. É justamente sobre o ambiente que é feita esta exposição e comigo tenho Rui Macário, que é o pensador por detrás deste projeto. No último episódio falámos de como é que nasceu esta ideia de dar a conhecer melhor os chamados bichos e vamos perceber como é que foi dado este salto para estas pinturas e para esta exposição que aqui está. Como é que escolheu os artistas que foram desenhar cada uma destas espécies? Explicou-me que cada artista ficou encarregue de uma espécie, não é? Por exemplo, uma pessoa de um grupo de espécies.
Sim. Fundamentalmente quando começámos a pensar o projeto, a ideia era poder ter um bocadinho de tudo o que conseguimos encontrar lá fora à escala local. Haver alguma diversidade, com certeza, mas dentro dessa diversidade, ter espécies que estivessem inseridas no mesmo grupo. As borboletas, dentro dessas temos as noturnas e as diurnas, em linguagem comum, um conjunto de formigas, temos escaravelhos. E, portanto, a ideia era que cada um dos artistas convidados, cada um dos intervenientes que pudesse participar no projeto, fosse responsável por um desses grupos. Por dois motivos muito simples: em primeiro lugar, para permitir cada um deles, com a sua linguagem, o seu modo de exprimir, o seu modo de interpretar também aquilo que era o desafio. Muitos deles nunca tinham desenhado nem animais, nem plantas, ou pelo menos não deste modo, com a noção expressa de que qualquer pessoa, qualquer cientista, qualquer profissional que fosse observar o seu resultado, teria de saber de que espécie se tratava. E portanto, isto era um desafio também para os artistas convidados. E assim, dentro daquilo que era o conjunto de pessoas com quem gostamos de trabalhar, porque apesar de tudo, há essa vantagem de podermos fazer essa escolha, lhes lançar um desafio que não era fácil de aceitar. E, portanto, o resultado que aqui está mostra algumas visões um bocadinho mais técnicas, outras propositadamente mais avant-garde. Por exemplo, um deles, o Filipe Santos, propositadamente desfocou as espécies de aracnídeos que representa. De um modo ou de outro, também tinha a ver com o modo como ele se sentia quando interagia com os aracnídeos. Mas o facto de estarem desfocadas não impede a sua identificação. Noutro caso, o Delfim Ruas coloca-os num contexto de notícia de jornal antigo. Falamos, por exemplo, de algumas espécies que fazem lembrar pequenos aviões do início da aviação. Portanto, ele coloca o seu inseto num contexto de uma luta de aviões. Ainda assim, a espécie é identificada e mantém-se todo esse pressuposto. Retirar o fundo e apreender a essência.
E a borboleta, as várias espécies de borboletas que aqui estão, estão desenhadas com muita cor, justamente porque é para isso que nos remetem as borboletas, não é?
Sim, e no caso, Rosário Pinheiro, ao colocar um fundo que era absolutamente destacado, fazia também com que essa identificação de que ali estava algo para o que olhar, também nos captava. E é isso que também nos interessa numa exposição, não é? Portanto, não precisamos de ter apenas a circunstância da identificabilidade, de lhe saber o nome, de lhe conseguir apreender as características. Parte do objetivo era também apropriarmo-nos esteticamente do que estava. Portanto, o convite e o desafio aos artistas foi exatamente esse.
E estava a explicar há bocado também que um dos principais objetivos quando falou com estes artistas foi que mantivessem as espécies o mais fidedignas possível. Ou seja, o mais correspondente à realidade possível.
Sim, a equipa era muito vasta e, portanto, estamos a referir alguns nomes e é absolutamente injusto, porque imensos nomes ficam de fora. Mas sim, ao nível da coordenação científica, ao nível daquilo que foi a participação nos próprios registos, porque todos estes exemplos foram escolhidos a partir de um conjunto de espécies que foram fotografadas, foram registadas, durante um largo período de tempo e a partir de 2019 em diante e foi-se mantendo e ainda hoje se mantém, aliás. E o grande objetivo era que qualquer pessoa, literalmente qualquer pessoa, pudesse identificar a espécie sem grandes dúvidas. Para isso, não só a coordenação científica de Sónia Ferreira foi absolutamente importante, como também aquilo que foi a nossa tentativa de incorporar procedimentos de ciência e cidadã e que permitissem que estamos a olhar para um bicho, com aspas, mas poderemos, com um bocadinho de calma, sobretudo, apreender-lhe características suficientes para ir ao grupo, à espécie. E esse era o grande objetivo, saber que as formigas não são todas iguais e que essa diferença pode permitir identificar hábitos, pode permitir identificar habitats, pode permitir identificar épocas do ano em que as encontramos. E isso era parte do procedimento. Do mesmo modo que, e voltando à noção original do projeto dos vizinhos, do mesmo modo que não é por termos vários vizinhos num dos andares que eles são todos iguais, embora vivam todos no segundo andar. E aqui era exatamente a mesma coisa. As formigas não são apenas formigas, têm hábitos, têm características, têm proveniências, têm modos de fazer e épocas do ano em que o fazem.
E para além dos vários animais que estão aqui representados nesta exposição, temos joaninhas, formigas, borboletas, cravelhos, várias espécies que existem aqui na região de Viseu. Temos também, Rui Macário, várias folhas. Estas folhas existem em concreto aqui na Quinta da Cruz ou também apenas na região de Viseu?
Quanto ao que está neste momento na parede, portanto, estas criações plásticas, também da autoria da Liliana Velho, a Liliana é quem faz o acompanhamento quanto às espécies de flora. Estas, em particular, sim, são observáveis na Quinta da Cruz, fazem parte daquilo que é o seu inventário herbário, que conjuga, de um modo ou de outro, com aquilo que são as espécies que estão engavetadas e que fizeram o corpo original do Gabinete de Curiosidades ao nível da flora. Portanto, ao olhar para aqui, nós podemos imediatamente fazer o contraponto com o que se encontra fora desta sala. E esse também é um dos grandes objetivos. Ou seja, se algo existe nas nossas paredes, vamos aproveitar enquanto conseguimos encontrar lá fora também. Aliás, o Gabinete de Curiosidades tem também muito isso subjacente. Não queremos correr o risco de que as espécies de fauna e flora, nomeadamente ao nível dos insetos, desapareçam. Não queremos que passem a ser peças de museu. E, portanto, aqui é apenas um desafio para irmos lá para fora, não para ficarmos cá dentro. Muito se fala sobre aquilo que são as alterações climáticas, aquilo que são as alterações comportamentais ou a diminuição do número de espécies e da variedade ou da diversidade dentro dessas espécies. Portanto, o Gabinete de Curiosidades tenta chamar isso a um patamar quase imediato. Vamos entender o seu papel, vamos ver quem são e vamos ter um bocadinho mais de atenção quando pudermos observá-los. O que é necessário nós fazermos ou deixarmos de fazer para que eventualmente esta diversidade continue a existir.
É uma diversidade sobre a qual podemos ouvir falar e ver aqui na Quinta da Cruz, nesta exposição que é o Gabinete de Curiosidades. Foi a Nossa Cultura.