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A Nossa Cultura, na Rádio Observador. Estamos, como sempre, em Viseu, na Quinta da Cruz. Hoje vamos olhar para várias espécies de animais, de fauna e de flora. Comigo tenho Rui Macário, que é o pensador por trás desta exposição, deste gabinete de curiosidades que existe aqui na Quinta da Cruz. Rui, se calhar começamos pelo que deu o mote disto tudo, que é um livro que dá a conhecer os polinizadores, os polinizados e os vizinhos destes animais.

Sim, o projeto era algo muito simples, era uma questão de curiosidade por aquilo que estava à nossa volta e pelo facto de muitas vezes não sabermos exatamente o que é que determinado inseto que estava dentro de nossa casa ou porque é que lá fora agia de determinada maneira. Essa curiosidade levou-nos a congeminar, digamos assim, aquilo que chamámos na altura o Corredor Verde. O Corredor Verde foi um projeto que nós estávamos muito entusiasmados em 2019 por executar durante 2020 e depois, entretanto, acontece a pandemia, o fecho do mundo. Portanto, deixou de ser um projeto de rua, comum, partilhado com muita gente, e passou a ser um projeto de muita gente no registo daquilo que observava, plantas e animais, através da sua janela, nos vasos que tinha na sua varanda ou nos passeios que poderiam realizar, aquilo que encontravam à sua volta. Era um projeto de encontrar o que está lá fora no âmbito natural. Sobretudo aquilo que havia em Viseu, obviamente, o projeto estava centrado em Viseu, e tinha a ver com o facto de esta preocupação com os polinizadores, com o facto de cada vez mais termos uma noção expressa de que há alterações a ocorrer. E, portanto, estas alterações da nossa parte, que não éramos e não somos ainda especialistas em biologia ou em sustentabilidade ou em ambientes ambientais, orientava-se para, em primeiro lugar, o que é que são os polinizadores de que tanto falam, qual é a sua importância, quais são, onde estão. E a partir daí, foi um processo de conhecimento muito direto de várias das espécies, não todas, obviamente, mas que nos permitiu compreender um pouquinho mais as dinâmicas do que nos circundava.

E falava-me também há pouco que um dos principais objetivos é dar a conhecer estes animais, que normalmente apelidamos de bichos, às pessoas no geral. Isto não é um projeto que se foca apenas nos mais pequenos.

Não, ele parte dessa base por um motivo muito simples, ou seja, como explicar ao nosso filho ou ao nosso vizinho mais pequeno, ou ao nosso sobrinho, o que é que estamos a ver. Até porque há uma reação muito natural de susto quando algo se interpõe, uma aranha que nos salta, uma abelha que nos passa à frente. E lá está, são bichos, é um apelido comum para uma generalidade imensa de espécies. E, portanto, uma das preocupações era exatamente essa: quando estamos a ver um bicho preto, grande, esvoaçante à nossa frente, o que é que ele está a fazer? E esse processo de descoberta foi acontecendo e foi sendo transmitido. E, portanto, a nossa preocupação era poder transmiti-lo a qualquer público, em qualquer faixa etária, mas que obviamente disseminasse essa experiência. Portanto, no caso local, em princípio, estamos a olhar para uma Xylocopa violacea, ou seja, estamos a olhar para uma abelha carpinteira violeta. E ela, provavelmente, quase garantidamente, não fará absolutamente nada, nem sequer está interessada em nós, só quer ir à sua vida. E, portanto, o seu papel também de interveniente no ecossistema, aliás, são quase das primeiras a aparecer quando surgem as flores roxas. Portanto, essa probabilidade, nós sabemos que são dos primeiros a sair às flores, são dos primeiros a auxiliar no processo de polinização. Não fazem mel. Não são a abelha que nós conhecemos, mas há outras abelhas, com outros comportamentos, com outras diferenças. É grande, faz barulho, sim, mas não nos vai fazer mal absolutamente nenhum. E esse foi o caminho que nós quisemos assumir quanto a cada uma das espécies. Algumas fazem, sim, também cá está a vespa asiática, mas é sobretudo uma noção de ter cuidado, de como agir perante outros a quem passamos a conhecer o nome e os comportamentos, ou pelo menos parte disso.

E depois deste pequeno manual de como conhecer melhor estes animais, estes bichos, como é que é dado o mote para esta exposição que tem agora aqui na Quinta da Cruz?

A exposição da Quinta da Cruz nasce concretamente já em 2022. Houve um projeto ao nível da DGArtes, um programa de arte em parceria, que nós nos candidatamos, com uma deriva do projeto inicial dos polinizadores. E, portanto, esse gabinete de curiosidades nasce nessa forma, no contexto que acabei de explicar. A Quinta da Cruz foi o espaço final de acolhimento da exposição. A exposição é composta por 40 criações gráficas de artistas que trabalham o grafismo e, portanto, podem ser desenhadores, ilustradores, podem ser pintores, mas a parte gráfica é a sua essência. Distribuímos um conjunto de 40 espécies distintas para que cada um pudesse, mantendo o seu traço e a sua identidade, apesar de tudo, fazer uma representação de identificabilidade garantida de cada um destes animais aqui expressos. Que ocupam a parede e ocupavam uma ou outra parede na Quinta da Cruz. Por outro lado, também a Liliana Velho, e só falo o nome dela porque os restantes posso citá-los, são bastantes mais, onde plasticamente vai reproduzir 40 espécies de flora. Essas 40 espécies estão encerradas, por assim dizer, em gavetas, 40 gavetas distintas, cada uma identificada por nome comum e nome científico, onde podemos observar espécies mais comuns no contexto local. Começou, pelo menos, dessa maneira. E foi ficando. No final desse período, foi estabelecida uma parceria de longo prazo, plurianual, que se mantém ainda hoje na Quinta da Cruz. Portanto, quem vier conseguirá encontrar essas 80 espécies originais, mais um conjunto superior a 20 outras, no que chamamos o livro gigante, e aí já com adições específicas da Quinta da Cruz, nomeadamente quanto às árvores que compõem aquilo que é a possibilidade de um circuito no espaço da Quinta da Cruz.

São tudo vários itens desta exposição do Gabinete de Curiosidades aqui na Quinta da Cruz, que vamos conhecer melhor no próximo episódio. Foi a Nossa Cultura.