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O Museu Etnográfico de Silgueiros tem uma das suas principais salas apenas dedicadas a fósforos. O António Lopes Pires é pai deste museu. Por que é importante colecionar fósforos?
Os fósforos são uma das grandes descobertas dos povos. Por quê? Porque antes do fósforo, o fogo tinha que se guardar vivo, porque fazer fogo, como sabemos, era muito demorado, era friccionar dois pauzinhos duros ou friccionar duas pedras ou, sobretudo, um pedaço de aço com uma pedra dura e demorava muito tempo a fazer o fogo. Então as pessoas tinham de guardar o fogo vivo e era frequente os vizinhos chegarem-se à beira do que lhe ficava mais perto: "Ó vizinho, empreste-me o seu lume". E era assim que o lume ia passando de casa em casa. Com a descoberta dos fósforos, resolveu-se esse problema.
Os fósforos mais antigos que estão aqui guardados são de que altura, senhor António?
Os primeiros fósforos foram descobertos na Alemanha, por acaso, em 1669, se me não falha a memória. Mas só bastante mais tarde é que passaram a ser utilizados, porque o fósforo foi descoberto por um alquimista que estava a trabalhar na descoberta do ouro. Portanto, ficou pra ali durante um século sem ninguém lhe ligar, até que um inglês descobriu que aquele fósforo, quando se friccionava no enxofre, soltava uma chama. Estava feita a descoberta, a grande descoberta. Os primeiros fósforos eram muito perigosos, porque acendiam-se sozinhos, mesmo dentro da caixa ou onde quer que fosse. E, por isso, as pessoas mais ricas tinham umas fosforeiras, que nós temos aqui. Não está aqui, está na parte de cima do museu. Fosforeira de prata, de gente rica, mas temos aqui umas mais pobres, mais modestas, de ferro, que serviam para meter os fósforos lá dentro, que quando eles se acendiam, não queimavam as pessoas, porque estavam dentro da fosforeira de metal.
António, diga-me uma coisa, eu vejo aqui muitos atletas de futebol, também alguns políticos. O que a coleção pretende mostrar com estas peças?
Os fabricantes de fósforos serviam-se de motivos para ilustrar as caixas e depois as carteiras, que lhes davam mais possibilidades de venda. Assim, por exemplo, como temos aqui uma coleção de caixas com os atletas do Benfica, vendiam muito bem. E depois havia muita gente que nem os gastava, que os guardava, porque era a coleção. Ou esta que está aqui de desportistas do país inteiro, uma coleção de 70 exemplares que dá uma coleção muito bonita. Estes, por exemplo, que estão aqui, são fósforos fora de todo o vulgar. Pouca gente sabe o que são. São os chamados fósforos de puxar.
O que são fósforos de puxar?
O que serão fósforos de puxar? São fósforos que não têm cabeça.
Ok.
Apertava-se embaixo.
Ok.
Puxava-se pra cima, a cabeça estava do outro lado e acendia a seguir.
Ok. Diferente do que estamos habituados.
É como estes aqui.
E também aqui o lado mais político, não é?
Sim.
Ligados à campanha do Mário Soares.
A própria política também se serviu das caixas de fósforos pra fazer propaganda, sobretudo na altura das eleições. Em vez de oferecerem canetas, como depois também aconteceu, ofereciam carteiras de fósforos. E outra coisa também muito interessante era esta oferta que os noivos faziam aos seus convidados no dia do casamento, carteiras de fósforos com o nome dos noivos.
Ok.
Penso que são muito interessantes. Depois, os motivos. Olhe, o Marco Paulo também vem numa caixa de fósforos, a Rosa Mota. E depois todos os motivos mais variados. E assim há caixas lindíssimas, desde as motos, os automóveis, os automóveis antigos, as bicicletas, os animais, as plantas, as flores, tudo foram motivos que as fábricas utilizaram para poder vender o seu produto. As primeiras fábricas de fósforos em Portugal, com significado, foi a partir, podemos dizer, de 1870 Havia por Portugal inteiro, talvez centenas de grandes e pequenas fábricas, algumas verdadeiras fabriquetas. Por exemplo, aqui no concelho de Viseu, havia 11, que funcionavam sem condições higiênicas e condições de trabalho, porque eram normalmente criadas em lojas que eram roubadas aos animais. E depois havia um outro inconveniente: é que o fósforo, designadamente o fósforo branco, era altamente perigoso. Primeiro, porque o fósforo branco e o tal enxofre, era matéria explosiva, de vez em quando aquilo explodia e matava gente. Depois, porque o fósforo branco era feita uma massa para fazer as cabeças dos fósforos, e essa massa fosfórica exalava vapores que destruíam os ossos da cara dos trabalhadores que trabalhavam sobre aquela massa. E foi por isso que em 1895, o governo fez sair uma lei que acabou com todas as fábricas em Portugal e criou um monopólio por 30 anos, que entregou a uma fábrica, a uma empresa, Companhia Portuguesa de Fósforos, que se comprometia a fabricá-los com monopólio, mas a receber, se fosse caso disso, todos os trabalhadores que estavam espalhados pelas outras fábricas.