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Ainda no Conselho de Vila Nova de Paiva, em Vila Cova à Coelheira, está o Centro de Memória Judaica, que é feito de memória, de tradição, de objetos que foram doados por dois judeus americanos que aqui estiveram e ajudaram a enriquecer este espaço, que apela também à tolerância e que contribui para a educação dos mais novos, para recordar as memórias dos mais velhos. É um espaço com bastantes objetos e cada um deles com um forte significado, ou significados relacionados com a tradição judaica. Comigo tem estado a sua Cláudia Ferreira, que nos tem ajudado a explorar este mundo, a imergir dentro deste mundo e destas memórias. Já falamos um bocadinho sobre alguns símbolos do judaísmo. Falemos agora, se calhar, do judaísmo aplicado a esta terra, Vila Cova à Coelheira. Como é que há este cruzamento entre o judaísmo e esta terra?

O cruzamento tem a ver com uma decisão do rei Dom Manuel I de espalhar, por assim dizer, os judeus que havia em Portugal, por diversas zonas. Todos nós temos conhecimento que aquelas zonas do interior junto à Espanha, como por exemplo Pinhel, Sabugal, Belmonte, Trancoso, Castelo Branco, são concelhos onde está muito mais enraizada a prática judaica do que aqui em Vila Cova à Coelheira e que nesse tempo havia grandes comunidades. E não querendo expulsar esses judeus do país, eles foram espalhados por Portugal e neste caso, Vila Cova à Coelheira recebeu alguns desses judeus, dessas famílias que praticavam a religião judaica. O que acontece é que, de facto, a vinda dessas pessoas para cá fez, como nós podemos ver aqui neste painel informativo, no primeiro andar, no rés-do-chão, que a população aumentou imenso. Está aqui que o concelho, na altura, no tempo do rei Dom João III, em Vila Cova à Coelheira havia apenas 75 habitantes. Estamos a falar que já no século XVIII, o censo populacional de Vila Cova à Coelheira eram 700 moradores, ou seja, fez com que esta localidade crescesse imenso. Claro que há coisas que vieram para bem, há coisas que vieram para mal. Porque o que é que acontece? De facto, a prática da religião judaica era feita às escondidas. E era feita às escondidas, por quê? Se calhar é mais vale explicar isso. Porque a ideia do rei na altura era que se transformassem em cristãos novos, mas não era possível mudar a mentalidade, a maneira de ser, de estar das pessoas, muito menos da prática religiosa. E esses ditos cristãos novos praticavam a religião judaica às escondidas. E há quem diga, não sei se sabem, que o famoso fumeiro, a alheira ou a farinheira, que surgiu dessa necessidade dos praticantes da religião judaica mostrarem que estavam a comer fumeiro. Normalmente, o fumeiro que todos nós conhecemos é feito com carne de porco, que é uma carne que os judeus acérrimos não comem. Então, as famosas alheiras ou farinheiras levavam a carne de frango, carnes de coelho e disfarçavam. Mas nem tudo era prática fácil de disfarçar. O facto de na noite de sexta para sábado acenderem suas velas, começarem a praticar o seu Shabbat, o seu dia de descanso, isso também os denunciava. Havia algumas ações que faziam que os denunciavam. Infelizmente, essas eram algumas das coisas que ficaram marcadas e também ficaram marcadas em algumas casas aqui da freguesia de Vila Cova à Coelheira. Tudo que era casas desses cristãos-novos ou desses criptojudeus, eram assinaladas no exterior com uma cruz. E a Inquisição andava constantemente e andava em cima sempre dessas pessoas, havia sempre quem as quisesse denunciar e isso era algo muito ruim para a prática. E por isso é que nós não tínhamos aqui grande espólio, grande material. Basicamente, resume-se a isso.

E porque como antes de começarmos esta visita me disse, acabou por não ser uma herança fácil essa do judaísmo aqui em Vila Cova à Coelheira. Isto porque, lá está, antes de começarmos esta visita me tinha dito que Antes de nascer este espaço, havia uma certa vergonha na tradição, é isso?

Exatamente. Há pessoas de descendência de judeus, porque houve casamentos que eram o cruzamento de pessoas de religião judaica e de religião católica. Esta localidade, Vila Cova à Coelheira, é óbvio que têm sangue judaico a correr-lhes nas veias, porque são ótimos comerciantes, é a terra onde nós temos os melhores comerciantes do concelho. Mas, de facto, o que acontecia é que havia uma certa vergonha por terem essa descendência judaica e a criação deste espaço em 2017 acho que abriu um pouco a mentalidade das pessoas e fazerem pensar: "Não, isto não é assim tão pejorativo, nós termos uma raiz judaica, é algo que nós até devemos valorizar". E começaram com orgulho até a trazer pessoas aqui ao espaço e a assumir que têm descendência judaica.

E para além disso, é por isso que passa a missão deste Centro de Memória Judaica, para ajudar a combater um pouquinho estes estigmas que possam existir, a preservar a memória para os que vêm a seguir também não esqueçam todas as tradições, tudo aquilo que já existiu, nomeadamente aqui em Vila Cova à Coelheira. É cá que por hoje está a nossa cultura da Rádio Observador Viseu, que vai continuar por estes dois pisos a fazer a visita pela tradição judaica.