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O Museu Etnográfico de Silgueiros tem várias salas e uma dessas salas, António Lopes Pires, é uma reconstrução de uma casa de uma certa época, que época é essa e o que nós estamos a ver?
Procuramos reproduzir aqui uma casa de habitação de finais do século XIX, princípios do século XX.
Ok.
Aqui deste lado, a cozinha.
Uma lareira grande.
Uma lareira grande. Falta-nos ali naquele cantinho um móvel que está numa exposição que temos em Viseu, que é a cantareira, que é o sítio onde se guardavam os cântaros de barro com água, visto que não havia água canalizada.
Ok.
E tudo mais que diz respeito à cozinha. Depois, aqui, a sala de jantar, já um pouco mais rica.
Sim, uma mesa bem composta, pratos.
Aqui duas peças curiosas.
Diga.
São esta e esta, que são duas migalheiras.
E o que são migalheiras?
Migalheiras, conforme o próprio nome diz, são pequenas vassouras que no fim da refeição serviam para varrer as migalhas da comida.
Um daqueles panos amarelos da altura.
E é muito curiosa porque esta é feita para quem trabalhava com a mão direita e esta é feita para quem trabalhava com a mão esquerda.
Ok. Sendo que a mesa está completamente posta, temos pratos, temos talheres.
Sim, está posta.
Os talheres-
Com a campainha para chamar a empregada, ou esta.
Pois, portanto, isto já seria uma mesa de uma classe-
De gente rica. É uma mesa de gente rica.
E vemos isso por causa da louça.
Certo.
O galheteiro.
O pote do mel.
Que nem todas as casas tinham na altura.
Pois claro. E estes suportes para os talheres, estes suportes onde pousavam o garfo e a faca. Havia estes suportes de vidro e de outras espécies. Faltam-nos aqui algumas neste momento que estão, como lhe disse, numa bela exposição que temos em Viseu.
E da cozinha para a sala de jantar, vamos pra onde?
Olhe, passamos aqui para o quarto.
Para o quarto.
E aqui à entrada do quarto, temos aqui uma peça fabulosa que não me canso de elogiar, que é...
O banco parideiro.
O banco parideiro.
Para ajudar na altura dos partos.
Era aqui que a mulher se sentava, pegando nestas duas asas, fazia força e uma aparadeira aparava o bebê para não o deixar cair no chão.
Ok. Portanto, isto no século XIX? Talvez um pouquinho antes?
Século XX. Século XX, usou-se por aí. O banco parideiro.
Portanto, temos o banco parideiro e temos uma cama que também é dessa altura.
A cama, que é da mesma altura, e depois uma série de apetrechos. A religiosidade marcada por aquele crucifixo. E estas pecinhas eram feitas pelas meninas mais prendadas, onde guardavam, por exemplo, neste sapatinho, guardavam aqui os pentes, os ganchinhos do cabelo.
À volta do espelho do quarto para ajudar a arrumar.
E esse por aí, exatamente a mesma coisa.
Portanto, seria um quarto de um casal com um bebê, não é?
Sim. Este é um berço de 1914.
Ok.
E aqui também é uma peça curiosa, que é o biberão.
De vidro, completamente de vidro.
Completamente de vidro, com uma rolha de cortiça. À frente tinha uma coisinha de borracha. E curioso, porque naquele tempo, século XIX, século XX, como é que durante a noite se aquecia o leite para dar ao bebê? Não havia micro-ondas, só havia uma coisa de lenha que fazia-se uma fogueira para poder aquecer. Como é que se fazia?
Punha-se ao pé da lareira, não?
Não, muito mais à mão. A mãe dormia com o biberão e o leite entre as pernas. E o leite estava quentinho, à temperatura do corpo, em condições de poder dar ao bebê.
Ok. Sendo que biberões, na altura, não eram muito usuais.
Não, isso era só pra gente rica, porque os pobres não tinham coisa nenhuma.
E temos aqui também um exemplar dos pentes que estava a falar.
Este são os chamados pente dos piolhos.
Certo.
Eram estes pentes fininhos que serviam para passar no cabelo e tirar os piolhos, porque o piolho era uma instituição nacional.
Pois.
Havia piolhos com fartura.
Pois.
A falta de higiene levava a isso. Aqui deste lado.
Portanto, ainda no quarto. Ah, vamos agora na casa de banho, não é?
Na altura não havia casas de banho, havia os bacis ou penicos. Havia uma peça muito bonita, que não está aqui, que está em Viseu, nessa exposição, que era uma peniqueira.
Ok
Tinha um sistema e um buraco de madeira, a pessoa sentava-se e o penico ficava metido por baixo.
Ok.
Uma peça muito bonita Aquele penico ali também é curioso, porque é uma oferta de noivado, é uma oferta à noiva.
Ok.
É de fabrico francês e lá está escrito que era oferta para a noiva.
E além dos penicos, temos duas peças aqui dos lados desta casa de banho.
Aqui eram botijas para aquecer a cama no inverno.
Ok.
Eram ou aquelas lá em cima, que levavam água quente, ou estas aqui, aquelas duas que se metiam no forno do fogão para aquecer e depois meter na cama, ou esta aqui já mais recente, que era elétrica e corria um risco muito grande: pertencia dar-lhe cinco minutos de corrente para ela aquecer, mas como ela não aquecia logo, porque isto era cheio de areia, acontece que a pessoa só dava conta que ela estava quente quando já estava muito quente.
Ok.
Metia na cama e chegou a haver casos em que a botija queimou a própria cama.
E estes utensílios de madeira?
Estas ganchetas de madeira eram os dispositivos com que o colchão da cama se enchia de palha centeia, porque este colchão foi cheio com palha centeia. Tinha uma abertura ao meio, por aquela abertura metia-se a palha e depois com este gancho ia-se empurrando a palha até aos cantinhos para ficar tudo como deve ser.
Portanto, na prática, o que nós estamos a ver aqui seria uma casa de uma família abastada do século XIX aqui na região de Viseu.
XIX, XX. Sim, aqui na região de Viseu.