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Silgueiros tem um museu etnográfico, talvez não conhecido por todos. O António Lopes Pires foi um dos criadores deste museu, em 1978. António Lopes Pires está aqui conosco a fazer uma visita guiada. Por que nasceu esta necessidade de criar um museu etnográfico aqui em Silgueiros?
Nasceu em consequência do aparecimento aqui de um grupo folclórico, que para ser verdadeiramente etnográfico, tinha que traduzir a verdade da época que procurava representar. Então foi preciso meter pés a caminho e ir à procura dessa verdade, quer nos trajes, que foi por aí que começamos, e depois, a seguir aos trajes, veio tudo quanto tinha a ver com a vida do povo. Fomos juntando uma peça hoje, outra amanhã, devagarinho, até que quando demos conta, tínhamos milhares de peças que era preciso albergar adequadamente e assim nasceu o museu.
Quantas peças é que tem agora no museu?
Eu até tenho vergonha de dizer, porque depois dizem que eu que sou mentiroso, mas ultrapassa as 300 mil.
300 mil peças e temos vários episódios dedicados a várias coleções. O que lhe quero perguntar é: este museu começou em sua casa?
Começou em minha casa, porque eu comecei a juntar algumas peças, não havia nenhuma estrutura que as pudesse receber, recebia-as em minha casa. E às tantas já eu não tinha uma cadeira pra me sentar, porque estava tudo, como eu costumo dizer, cheio de lixo. Arranjei depois nos meus domínios, deixe-me dizer assim, arranjei lá um barracão onde se guardaram as primeiras peças. Já era uma coisa bonita. Até que em 1993 se construiu esta casa e se dedicou um andar inteiro, cerca de 400 metros quadrados, para albergar este museu.
E para colecionar as diferentes peças, o António Lopes Pires viajava pelos quatro cantos do país ou não?
Não, viajava aqui pelos quatro cantos da minha região, porque me interessava a cultura local mais do que a cultura geral. O que não quer dizer que, com o andar do tempo e com o enriquecimento das coleções, não fosse alargando o âmbito das várias peças que fui recolhendo. E assim temos aqui peças do país inteiro.
E além-fronteiras também.
E até de além-fronteiras. É o que temos e é o que somos.
Para quem não sabe o que é etnografia, como é que o António explicaria?
A etnografia é o estudo do povo e de todas as componentes da sua cultura. São os trajes, a alimentação, são as rezas, são as orações, são todos os comportamentos e procedimentos do povo de uma determinada época que nós situamos entre os finais do século XIX e o princípio do século XX.
É uma verdadeira viagem atrás no tempo.
Exatamente. E essa viagem para nós é muito importante, porque a ela corresponde o conhecimento do povo que somos e é sobre este povo que se construiu o atual povo português, que por mais que queiramos, nunca deixa de ter uma forte ligação com a gente dessa época, que tinha uma vida, uma cultura e um comportamento e procedimentos completamente diferenciados dos de hoje.
O Museu Etnográfico, bem aqui no coração de Silgueiros, neste momento não está aberto ao público. O que lhe quero perguntar é: quando é que está prevista essa reabertura?
Já marcamos a data. Vamos inaugurar solenemente no dia 17 de maio, porque o dia 18 é o Dia Internacional dos Museus e como calha a uma segunda-feira, nós antecipamos para o domingo anterior a sua abertura e estamos desejando que tudo corra pelo melhor, porque este espaço cultural bem merece ser tratado com carinho e bem merece ser apreciado e estudado por quem deseja fazê-lo.
O António Lopes Pires colecionou centenas de milhares de peças. Eu pergunto se continua a colecionar ou se acha que o acervo já está montado e não precisa de mais.
Não, isto é uma coisa que nunca mais para. E depois acontece o vício. Ainda ontem, um indivíduo aqui da aldeia veio ter comigo a mostrar uma pedra que achou lá no seu terreno, a dizer: "Olhe, que eu nunca vi disto, que esta pedra tem isto aqui a luzir. Dou-lha para o museu". E eu tive que dizer: "Sim, senhor, vamos guardá-la com muito gosto". E aí está. É um quadro de granito que se transformou em calhau rolado e que partiu, que estava lá numa propriedade dele.
Portanto, as peças muitas vezes até vêm ter consigo, não têm de ser levantadas.
Algumas vezes já vêm ter conosco. Há algumas pessoas que nos vêm aqui trazer algumas peças. É o caso, por exemplo, de um dos colecionadores das caixas de fósforos, que antes de falecer andou a ver onde é que havia de deixar a sua coleção e não encontrou, não quero dizer nomes, mas mesmo naqueles que formalmente se têm como museus da especialidade, visitou, não encontrou a qualidade que entendia para a sua coleção e já foi depois da sua morte que a viúva nos ofereceu. Portanto, ainda bem que se lembram de nós e ainda bem que nós temos uma certa qualidade que alguns amigos nos reconhecem. Não sei se bem, se mal, mas que nos reconhecem e que até nos trazem cá algumas peças.
E por isso o Museu Etnográfico de Silgueiros vai voltar a abrir portas no dia 17 de maio.
Dezassete de maio deste ano de 2026. E ainda vamos ter lá fora, nessa altura, duas grandes coleções, que também gostaríamos de cá ter e que hão de vir, que é no Museu do Quartzo, em Viseu, uma coleção de botões, uma exposição sobre botões, e na Casa da Ribeira, que é outro museu da Câmara Municipal, sobre instrumentos musicais.