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É dentro da sala de uma exposição temporária da Quinta da Cruz, em Viseu, que a "Nossa Cultura" começa o episódio de hoje. Este que é o reencontro com "A lã e o barro", um trabalho da autoria de Samira Jamouci e que veio de longe. Veio da Noruega. Já passámos por diversas obras, por várias dimensões, até nesta sala onde nos encontramos. E agora perante uma obra que é a favorita de uma das curadoras desta exposição, Teresa Eça, que podemos observar como tendo várias dimensões e uma obra que até se torna bastante diferente, dependendo do ponto de vista, do ponto da sala para onde olhamos para ela. Não é verdade, Teresa?
Sim, Beatriz. De facto, esta obra, quando a estivemos a montar, com a ajuda do senhor Magalhães e do Pedro, cada um tinha a sua perspetiva. O Pedro dizia: "Ela é mais bonita vista de dentro, entre os dois feltros". E o Pedro dizia: "Não, é mais bonita vista de frente". E a Samira dizia: "Não, ela tem que ser vista como uma escultura, pelo seu todo". É uma peça muito bonita, é a peça "Espaço Liminal", onde a Samira fala do espaço entre espaços, onde cria uma peça quase escultórica, onde se revela o interior, se revela algo que está escondido, mas que, no entanto, toda a gente sente, sem saber muito bem o que é. É o espaço liminal, o nosso espaço liminal, onde nós sonhamos, onde nós vivemos uma outra vida. Partindo desta peça e depois já falarei nas outras, é interessante também como é que a Samira pega neste material tão desprezado no século XXI. É desprezado, tanto nos três países de onde ela vem, a Marrocos, a Bélgica e a Noruega, como em Portugal e Espanha e em muitos outros países. A lã, neste momento, é subaproveitada, é um material desprezado. Muitas vezes queimam-na. É uma pena, porque é um material tão bonito, é um material com umas potencialidades enormes, tanto na arquitetura, como no revestimento de espaços, como no vestuário. E a Samira deixa-nos esta chamada de atenção para este material. Este material tão poético, tão plástico, é um material para ela imperfeito e ela gosta da imperfeição, porque se deixa levar pelo material para descobrir formas, coisas que não existiam antes e que só o próprio material, na sua imperfeição, na sua rudeza, a pode levar a esses caminhos. Depois temos aqui outras peças muito grandes também, esta peça, o Alif Branco.
Mas se calhar, antes de irmos lá, e até para contextualizar um bocadinho mais para quem nos está a ouvir, esta é uma obra que tem duas camadas, uma camada mais longínqua, cinzenta, com uma linha vermelha vertical e uma segunda camada à frente, também composta por feltro preto, feltro cinzento e ainda uma faixa vermelha. Parece-me, pelo menos na minha análise, uma janela para aquilo que está por detrás, na camada de detrás. Teresa, esta foi uma maneira de a Samira, de certa forma, chamar-nos a atenção para aquilo que está mais longe?
Sim, o que está mais longe, o desconhecido e também o que já não é mais lembrado. As coisas que nós esquecemos, sobretudo na história da humanidade. E é nessas janelas, nessas aberturas, nesses espaços entre, que ela vai criar um discurso poético, um discurso de evocação de outras histórias, de materiais, através da história da humanidade. É uma janela para o tempo, também uma janela para a introspeção sobre si e sobre os outros.
Há pouco falávamos e dizia que era a sua peça favorita desta sala. Por quê? Por que é tão especial para si?
É muito especial, primeiro por causa das camadas que criam espaço tridimensional. Enquanto todas as outras peças são bidimensionais, esta tem corporeidade, tem bastante volume. E nesse volume cria um espaço vazio, que é o espaço liminal. O espaço vazio entre as duas camadas, o feltro do fundo e o feltro da frente. Nessas camadas podemos criar todo um imaginário, o imaginário do espetador. A Samira terá a sua história, mas cada espetador vai trazer uma história para esta janela, para este quase descobrir o mundo que não existe. E é por isso que eu gosto dela, pelo lado da abertura para o desconhecido.
E é um espaço onde cabem, certamente, muitas histórias daqueles que cá vêm, muitas interpretações também. Por cá vamos continuar a conhecer a sala desta exposição temporária que marca o reencontro com a lã e o barro aqui na Quinta da Cruz, onde está a "Nossa Cultura" da Rádio Observador.