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Sejam bem-vindos. No programa desta semana vamos mergulhar, dar cacholadas, nadar, chapinhar e boiar. Isto porque o nosso viajante não tem feito outra coisa nos últimos 10 anos. Desde 2016, que ele anda a percorrer Portugal para ver com os seus próprios olhos praias fluviais, cascatas, açudes, poços e também pequenas bacias de água que se escondem ou que se revelam nas nossas serras. Arregaçem as calças, porque vamos meter água. Bem-vindo, Henrique Mendes.

Bem-vindo. Obrigado ao Observador por ter-me chamado.

Ora essa. Qual foi a última praia fluvial onde mergulhaste?

Praia fluvial Malhada do Rei.

Malhada do Rei, isso é onde?

Concelho Pampilhosa da Serra.

Isso é zona centro, não é?

Exatamente.

Isso é quase ali no centro geodésico de Portugal, não é?

Sim.

Mais ou menos.

Mais ou menos.

Por aí. Zona de Pinhal. É preciso conduzir muito.

Há muitas curvas.

É, não é?

É. Aquilo parece um mundo, parece que não estou cá em Portugal. Isso é verdade.

Portugal é um país pequenino, mas é muito diverso, não é?

É muito. Muitas montanhas, é giro.

Há zonas do país, sobretudo lá para cima, para a zona centro e zona norte, onde fazer 50 km demora muito tempo, não é?

Às vezes faço 29 km em 50 minutos.

A conduzir?

A conduzir.

O que torna a tua missão difícil. Isto é uma missão, não é?

É um hobby.

É um hobby que te ocupa durante os fins de semana.

Exatamente.

Todos os fins de semana tu vais por aí em busca de poços, açudes, cascatas, praias fluviais?

Sempre. Sempre que eu posso.

Como é que isto começou, Henrique?

Foi uma coisa de motard, em Góis. E fui com um colega meu, que me convidou. Depois fomos à praia fluvial da Peneda, tem uns banquinhos em água numa praia fluvial, e depois eu disse ao colega meu: "Vou começar a andar a percorrer praias fluviais." E foi a partir daí que comecei a percorrer.

Muito bem. E foi aí que te lançaste nesta aventura.

Exatamente.

A tua ideia é ir a todas as praias, todos os açudes, conhecer todas as cascatas e todos os poços do país?

O meu objetivo é.

É?

É. Eu faço uma praia fluvial por dia, faço uma cascata por dia, nunca estou para andar depressa. Por exemplo, pode estar uma praia fluvial ao pé de uma da outra, mas eu vou àquela, amanhã vou à outra. Nem que faça meia hora de viagem, ou 40 minutos.

Portanto, não olhas para o mapa e dizes: "Agora vou conhecer estes poços aqui." Num dia vais a um, no outro dia vais a outro.

Estou a falar de praia fluvial.

Praias fluviais.

Praia fluvial. Poços, pelo caminho, há muitos. Agora, em praias fluviais, se tiver uma ao pé de uma da outra, eu faço uma por dia.

Boa. Quantos poços, praias, açudes e cascatas é que já conheces, Henrique?

Perto de 400. 400 não, 350, por aí.

350 lugares?

É, já.

Uau!

Estamos a falar de muito.

É muito fim de semana.

É. E depois as minhas férias.

Também aproveitas as férias para fazer isto?

Exatamente.

Ok.

E as minhas férias não é sempre no mesmo sítio.

Imagino que não. Para 350 lugares.

Pronto.

Mas são sobretudo na zona centro e norte do país, não é?

É mais na zona centro. Já cheguei à Guarda, já cheguei a Coimbra. É o ponto norte que eu conheço. A parte para baixo é em direção a Reguengos de Monsaraz, por aí. Mas pouco.

Porque daí para baixo também há poucas.

Ainda há.

Ainda há?

Há.

Ali na zona do Guadiana, sobretudo, não é?

Sim.

Já foste aí ou estás a guardar-te para uma outra oportunidade?

Não, já fui. Já fui à Mina de São Domingos, Tapada Grande e por aí fora.

Muito bem, fantástico. Tinhas ideia, quando te lançaste neste projeto de conhecer todos os poços, todas as cascatas, todos os açudes, todas as praias fluviais, tinhas ideia do volume de lugares que havia no país?

Nunca pensei.

Não?

Não. Eu fui pondo e depois ia vendo na televisão ou na rádio. "Olha, deixa-me cá ver." Chegou uma determinada altura, pode ser que agora neste momento me tenha escapado uma ou outra, mas agora o que eu vejo na televisão, eu vejo e marco e olho se ainda me falta ou já fui.

Muito bem. São tudo lugares fáceis de aceder?

As praias fluviais sim.

As praias são fáceis, não é? Porque estão identificadas e são mantidas pelos municípios.

Exatamente. Agora cascatas, isso tudo, há algumas cascatas fáceis, outras difíceis, depende.

Qual foi a mais difícil onde estiveste até hoje?

Acho que foi a cascata do Leandro. Isso é na Lousã.

Na serra da Lousã.

Lousã.

Cascata do Leandro. Porque é difícil lá ir?

É.

Não tem caminho?

Tem caminho, mas...

Caminho de cabras.

Caminho árduo. E andar com os cordéis e subir aquelas pontes. É um bocadito assustadora.

Assustador?

Uma maneira de dizer, mas é lindo.

Nós estamos a falar de lugares que são sobretudo lugares isolados e inóspitos, ou não?

Sim, é muito isolado.

Tirando as praias fluviais, porque essas são em grandes rios e portanto, têm espaço para estacionamento, têm manutenção, etc. São espaços mais humanizados.

Exatamente.

Agora, as cascatas, os poços, etc.

Isso. Há coisas fáceis e coisas difíceis. Mas é boa aventura.

É boa aventura?

É boa aventura. Mas a cascatas e açudes eu nunca vou sozinho.

Não?

Não, cascatas não Cascatas, porque é ao ar livre, posso torcer a perna, pode acontecer alguma coisa.

Sim.

Agora, praias fluviais é diferente. Cascatas, normalmente, nunca vou sozinho. Só me disserem: "Olha, esta é mesmo fácil, mas é encostada à estrada." Aí vou. Agora, estar metido dentro da serra, nunca vou sozinho.

Tu já tiveste que subir serras, até lugares muito altos?

Serras, subir cordas.

A sério?

Serras. A cascata do Leandro também.

Sim, a tal na Serra da Lousã.

Sim, na Lousã é uma coisa espetacular.

Mas cordas que outros deixaram ou cordas que tu levaste?

Não, é cordas mesmo que está no trail.

Que estão amarradas já lá no lugar, que outros deixaram. Portanto, outros já lá estiveram. E já descobriste alguma cascata ou algum poço que nunca ninguém tivesse visto?

Acho que sim.

Então, e batizaste-a?

Batizei.

A sério?

Batizei. Não está no Google, nem nada, mas tenho isso escrito. Agora não me recordo, porque é tantos, mas eu tenho no computador perto de 105 mil fotos e vídeos.

Uau!

Em 75 concelhos. Tenho tudo no computador, agora assim de repente não me lembro.

Quer dizer que tu tens mais de 100 mil fotografias.

100 mil fotografias, tudo dividido por concelhos e tenho três discos externos.

Três discos externos, sim.

Três discos externos, mas o primeiro está igual ao segundo. É uma cópia.

São redundâncias.

Se partir um, tenho outro.

Ok.

Pronto.

Boa. Qual é a ideia, Henrique? É fazer um livro, é publicar um álbum de fotografias, só documentar?

Um blog ou fazer um livro, isso tudo. Ainda não chegou a um ponto, mas eu acho que um dia vou conseguir.

É que é muita fotografia e muito lugar, não é?

Sim, e tenho tudo dividido por concelhos. Conselho, o nome das terras e por datas.

A quantos concelhos é que já foste?

75.

Uau, ora bem, 308, isso é um quarto do país, não é?

Pronto, ainda vamos.

Ainda te falta muito. Se bem que há concelhos que não têm ou têm? Todos os concelhos têm uma praia, um açude ou um poço?

Sim, tem sempre.

Sim, grosso modo, sim.

Por exemplo, se calhar o de Leiria nem é tanto, que eu saiba, mas pode haver mais. Por exemplo, o Arganil acho que tem perto de 20 e tal praias fluviais.

Uau!

No concelho de Arganil.

Pois, é muita praia.

É. 20 e tal, quase 30.

Ok, boa. Ia te perguntar, tu fazes isto sobretudo aos fins de semana, não é?

Todo aos fins de semanas. E também queria dizer, para ficar registado. Eu fui caminhando, e cheguei a Mação, concelho de Mação.

Ok.

E fui para uma praia fluvial, que é o Carvoeiro. Cheguei a um ponto, disse: "Não avanço mais, porque é uma hora de viagem da minha casa." E fui sendo àquela praia, também gostei muito, que é o Carvoeiro. Depois o dono do café perguntou: "Quem é este rapaz?" Depois conversa para ali e tal. Somos grandes amigos, com a mulher e depois mais amigos por ali. "Então, Henrique, quando é que vens para vir?"

Portanto, esta tua viagem que tu andas a fazer pelo país, a descobrir os lugares que contêm praias fluviais, poços e cascatas, também é uma boa forma de fazer amigos, é isso?

Exatamente.

E de descobrir Portugal.

Exatamente, e ao mesmo tempo.

Sim.

Fui lá à praia fluvial do Carvoeiro. Depois já disse assim: "Então, Henrique, se é para continuar, tu dormes na minha casa. Chegas aqui um dia antes e depois no outro dia arrancas." E fui até ao Fundão.

Até ao Fundão?

Até ao Fundão.

Que é perto de Castelo Branco.

Sim. Não, ainda para lá de Castelo Branco.

Sim, para cima de Castelo Branco.

Castelo Branco e Trancoso. E depois arranjei também lá amizades.

Ok.

Estive lá no parque de campismo do Fundão e também arranjei amizades, isso tudo. E também já fui a Oliveira do Hospital, também arranjei amizades.

Portanto, tu fazes amigos em todo lado, à boleia das cascatas e das praias fluviais.

Só para terminar.

Sim.

Eu tenho um grupo que é o pessoal de Mação, o pessoal do Fundão e o pessoal de Oliveira do Hospital, a gente reúne-se sempre para um jantar por ano.

Boa.

É.

Para celebrar as cascatas e os poços. Boa. Henrique, aquilo que toda a gente pensa agora é: já viste tanto, qual é a praia fluvial mais bonita do país?

Se calhar é Minas de São Domingos.

Minas de São Domingos?

Sim.

Lá embaixo no Alentejo?

Ali Tapada Grande.

É?

Sim.

E a cascata mais bonita?

A cascata mais bonita é a Cabreira, fica na Lousã.

Na Lousã?

Sim.

Por que é a mais bonita? É difícil de descrever, não é?

É muito difícil. Só mesmo na mentalidade é que dá para ver que aquilo é giro.

Mas foi difícil chegar a essa cascata da Cabreira?

Também foi um bocado.

Quando tu fazes o teu trabalho de casa e procuras os lugares através do Google Maps ou dos mapas, ou enfim, das outras plataformas, normalmente a realidade surpreende-te ou desilude-te, Henrique?

Para ir à praia, ver se é bonita?

Sim A maior parte das vezes chegas lá.

Sim. Por exemplo, eu não gosto de dizer: "Olha, aqui uma praia fluvial ao lado." Eu não quero ir lá ver porque eu vou lá amanhã. Se eu for lá hoje, por exemplo, caminho para casa, depois não dá tão graça ir lá amanhã.

Ok.

Mas tenho que ir lá para tirar fotos e vídeos e normalmente vou sempre de manhãzinha. De manhãzinha para tirar fotografia, se tem nadador-salvador, se tem casas de banho e etc.

Ok, muito bem, isso é tudo extraordinário. Como é que tu descobres estes lugares? Vão te dizendo? Tu tens uma página no Facebook, não é?

Não, ainda não tenho.

Tens a tua página pessoal, não é? Onde publicitas a tua missão. Vão te mandando muitas dicas?

Algumas. A maior parte estão no Google, mas vou falando com aquelas pessoas e vou marcando e há as pessoas que pegam no telemóvel: "Olha, é mesmo aqui, marca" e pronto.

E lá vais tu.

E o GPS depois indica-me lá.

Nunca te perdeste?

Já me perdi.

De perder, de ficar lá a noite inteira.

Já me perdi, porque havia lá música ao vivo e isso tudo.

Ah, ok. Outra perdição.

Tipo andanças.

Festival?

Não é o Festival das Andanças, é outro tipo de andanças.

Ok.

E pronto.

Muito bem. Estamos à conversa com o Henrique Mendes. Henrique, estamos aqui a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem. Tens contigo algum objecto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial, Henrique?

Agora neste momento, não tenho.

Mas tens algum que seja especial e que tenhas lá em casa e que seja mesmo uau!

O que me deram foi o Praia Fluvial do Carvoeiro.

O que te deram?

Um imanzinho. Dois ou três ímanes para pôr no frigorífico. Quando eu vou à praia fluvial, ninguém me conhece, eu falo, mas como a Praia Fluvial do Carvoeiro vou lá muita vez, olham: "É o Henrique."

Ah, és um repetente.

Pronto, exatamente. Também já me deram um livro sobre praias.

Sobre praias. Boa. Diz-me uma coisa, os portugueses tratam bem quem anda a descobrir o país?

Isso também é uma graça engraçada.

Então conta.

Por exemplo, vou a uma praia fluvial e falo. Eu levo sempre o piquenique. Muito raro eu almoço no café.

Levas sempre o teu farnel.

Sempre o meu farnel. E às vezes levo o farnel e as pessoas sabem que eu lá estou porque eu faço conversas. "Então olha, Henrique, venham cá, mas sentem-se aqui na mesa, a gente almoça todos." Sem me conhecer. E empalharam o convívio. Já foi muita vez que acontece.

Boa. Os portugueses tratam-se bem uns aos outros, não é?

Sim.

Ao fim de semana também às vezes temos um feitiozinho estranho, não é? Ou não?

Não.

Nada disso.

Às vezes o pessoal não liga.

Não liga. Muito bem. Henrique, o que é que fazes na vida?

Sou electricista. Armazem electricidade.

Muito bem. E nas horas vagas és um andarilho que anda aí pelo país à procura de poços, também de cascatas e de açudes. Vamos fazer aqui uma pausa nas conversas do fim do mundo. Regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das conversas do fim do mundo, esta semana com Henrique Mendes. O Henrique tem uma missão, há 10 anos que ele anda a percorrer o país em busca de poços, açudes e também cascatas. Tem mais de 100 mil fotografias de lugares perdidos por esse país todo. Henrique, tu repetes as praias fluviais, as cascatas? Tens repetido ou costumas ir uma vez e já não voltas?

90% nunca volto. Em relação à Praia Fluvial do Carvoeiro.

Que é a tua preferida, não é? Ou uma das?

Sim, é uma das preferidas e tenho lá amizades e vou lá sempre dar uma voltinha.

Eu pergunto isto para tentar perceber se ao longo destes últimos dois anos tem havido muitas mudanças na paisagem, se tu tens sentido muitas mudanças na paisagem.

Eu às vezes, por exemplo, quando passa os fogos, agora foi em Oliveira do Hospital no ano passado, ainda não fui para aquela zona, porque depois as águas não dá para nadar. E às vezes tenho que mudar. E eu, por enquanto, não vejo. Não vejo porque eu sei.

Não vês como?

Por exemplo, houve fogo em Oliveira do Hospital.

Sim.

Eu ouvi na televisão, águas interditadas.

Ah, ok.

E isso tudo, eu já não vou para ali.

Riscas esse do mapa. Aqui já não vou.

Já não vou, se calhar só daqui a cinco ou seis anos.

Os fogos são o teu maior inimigo, digamos assim?

Sim. Mais no verão. No verão a gente fica com aquele receio, como às vezes vou para uma cascata, ou mais cascatas e açudes. Olhar sempre à volta. Como eu não sou dali, penso assim: "Espero bem que não, porque depois eu não sei voltar para trás."

Exato.

E pode aparecer algum fogo. Isso também é a minha preocupação.

O teu receio.

O meu receio.

E é muito determinante na tua "missão", de fotografar. O teu objetivo, Henrique, é ir a todas?

Era. O meu objetivo é ir a mesmo todas. Ainda faltam muitas.

Faltam?

Faltam muitas.

Já cartografaste todos os lugares que existem por esse país fora e que podem dar uma visita tua?

Não, ainda não comuniquei com ninguém.

Sim, mas tens os lugares identificados?

Estão os lugares identificados.

Ok. Quantos é que te faltam? Tens ideia?

Muitos. Deve ser para aí umas 500.

A sério? Então vais a meio. Tens mais uma década de trabalho pela frente.

E depois falo com uma pessoa: "Ainda há mais esta?" Há muitas.

E há lugares desaparecidos? Ou seja, há cascatas que foram identificadas ou poços que foram identificados e que desapareceram do mapa por causa dos incêndios, por exemplo, ou por causa do desvio de cursos de água? Tens reparado com isso ou não?

Nunca reparei nisso. Quando eu vou, encontro sempre uma cascata. Depois pode haver um fogo antes de ter lá ido, não sei nada como é que estão, porque eu só vou lá uma vez.

Pois. As câmaras têm investido muito nos últimos anos a promover os seus territórios, as suas praias, os seus lugares aquáticos. Tens sentido isso também, Henrique?

Sim, por exemplo, este ano foram 20 e tal praias e cascatas que eu andei a percorrer. A minha média é entre uns 30, por volta disso.

E sentes que as câmaras e as entidades públicas tratam bem desses lugares?

Sim.

Sim? Podiam fazer mais publicidade ou não? Ou se calhar assim está bom. Depois aquilo enche-se de Henriques. É um problema.

Sim, eu já meti umas fotos no Google, mas também não quero dar muito na cara por enquanto.

Ok. Onde é que sentiste que se está a investir muito na divulgação das cascatas e das ribeiras?

Muita divulgação.

A investir em publicidade, em manter, em limpar, em promover.

Não faço ideia. Não sei.

Tu não te preocupas com isso. Tu queres é ir e ver, não é?

É ir e ver.

Ok. E a água é gelada, não é?

É gelada, muito gelada. Muito gelada. Mas lá para o Alentejo já é um bocadinho mais.

É mais quente?

Claro, é óbvio.

Claro. Tu no inverno não mergulhas.

Já calhou.

Já?

Nas cascatas. Praias fluviais eu deixo. As praias fluviais já estão a acabar, agora é mais cascatas. Porque as praias fluviais, quando eu vou agora, por exemplo, a uma praia fluvial no inverno, não se passa lá nada.

Pois, exato.

E eu evito ir às praias fluviais. Agora é mais cascatas.

Portanto, na tua missão há um calendário, é isso?

Exatamente.

No verão?

Quando está a época balnear aberta.

Praias fluviais.

Sim.

No inverno, açudes e cascatas, é isso?

Exatamente, porque ir para lá, o café fechado e não tem nadador salvador. Umas têm, outras não. E eu falo com os nadadores salvadores se eu posso tirar uma fotografia, eles dizem que sim. E se for no inverno, isso não se passa.

Pois, as praias estão desertas.

É como se fosse um álbum incompleto.

Um álbum incompleto? Tu queres gente nas fotografias, é isso?

É gente nas fotografias e quero aquilo aberto para ver com os meus olhos.

Ok, boa, muito bem. Tens ideia de qual foi a praia com a mais altitude que foste até hoje?

Foi Penhas da Saúde.

Penhas da Saúde, ok. Na Covilhã, na Serra da Estrela.

Sim, acho que foi a mais alta. Acho que sim, foi a mais alta.

E a cascata?

A cascata é brutal, é os Cortes do Meio.

Cortes do Meio. É ao lado, não é?

É ao lado. É por aí.

É concelho da Covilhã. Eles investiram muito nos poços ali.

Sim, aquilo está tudo limpo, aquilo é um espetáculo, mas é duro.

É duro?

Eu fiz, desde a praia fluvial até à torre, fiz para aí umas cinco etapas.

Tu foste até à torre a pé?

É quando acaba. Desde a praia fluvial, que é a praia fluvial da Monteiro, até lá acima. Depois é vários poços, já não é praias, é poços.

Poços são...?

Lagoas.

Pequeninas lagoas. Vasias de água.

Sim, dá para tomar banho e dar uns mergulhos.

Aquilo é granito.

E aquilo, dou lá uns mergulhos, tiro umas fotos.

Mas não no inverno.

Diga?

Não no inverno.

Não, no inverno não fui. Por causa disso não fui, no inverno não. Não, porque depois o piso é muito escorregadio. Depois temos que ver.

Sim.

Como eu digo, às cascatas também vou no inverno, é por isso que eu estou dizendo. Eu nunca vou sozinho nessas coisas, eu gosto de ir sempre acompanhado.

Ok, nunca tiveste nenhum susto?

Susto, não, mas pernas a tremer, sim.

Ah, pernas a tremer, por quê?

Porque subi cordas e aquelas pontes, sei lá se estão boas, se não estão. É sempre aquela história.

Provoca algum medo. E viste a fazer isto lá fora, por exemplo, ir a Espanha? Não.

Não, por enquanto.

Por enquanto não, só Portugal.

Primeiro, sou português, convém. Conhecer Portugal.

Conhecer Portugal.

E depois se calhar as ilhas.

Ok. E as ilhas?

As ilhas nunca fui.

Na Madeira, então. Com aquelas levadas, meu amigo, tens ali uma empreitada para uma vida. Olha, diz-me uma coisa, olhando para Portugal, depois desta experiência toda adquirida ao longo de uma década a viajar por Portugal, que ideia é que tu tens do país?

É giro.

É?

É muito giro. Eu nunca pensei que Portugal era assim. Há pessoal que vai para fora do país, eu respeito, mas há muito pessoal que não sabe o que Portugal tem, o que o português tem.

Que é a riqueza deste país, não é?

Sim.

Não acaba por ser todo muito igual? Não sei, estou a perguntar porque eu não-

Não, não é igual.

Não?

Os pontos são sempre muito diferentes.

Vamos lá, explora essa diversidade. Contraste entre o quê? Entre uma praia e outra. Coloca duas praias ao lado uma da outra e que sejam completamente diferentes. Henrique.

Isso foi em Arganil.

Em Arganil?

Sim, que é uma praia fluvial que é de um lado e outra praia fluvial do outro.

Uma praia de um lado da serra e outra praia do outro lado da serra.

Sim, isso há muito.

E parece que estás em mundos diferentes, é isso?

Exatamente. Depois temos muitas curvas, a paisagem gira. Eu às vezes não sei onde é que eu ando, só pelo GPS. Eu já andei com um outro telemóvel, que eu tenho um novo, já andei com um telemóvel com 9396.

Aham. Que tem rede.

Pronto, exatamente.

Pois estamos a falar de sítios que muitas vezes não têm ninguém.

Ninguém. Eu admiro-me aquelas serras todas com umas aldeiazinhas ali. É giro.

Sim, aldeiazinhas e com gente lá dentro, não é?

Exatamente.

Isso é que é incrível.

Eu fui a uma praia fluvial, como é que se chama?

Onde, em que concelho?

No Piolho.

Ok, aí eu já sei. Foz d'Égua. É essa? Não.

Não.

Já vamos encontrar. Conta lá a história.

Só vivem lá sete habitantes.

Nessa aldeia?

Nessa aldeia. Fui lá à praia fluvial, também foi uma praia fluvial gira. Depois eu perguntei lá a uma senhora: "Você vê aqui um café?" Eles disseram: "Não, aqui não há café. Aqui ouves uma campainha e o bar está aberto para estas sete pessoas, mas tu podes lá ir, estás aqui, mas quando ouvires uma campainha, entras." "Então, mas agora está aberto?" "Não, só toca depois do almoço" e é aquele convívio pequenino, depois fecha e está feito. O pessoal a jogar as cartas é o único entretenimento que eles têm.

Portanto, o café abre só para aquelas sete pessoas, ali naquele espaço de tempo para servir os cafés.

Depende das pessoas. Lá não se vê muitas pessoas. No mês de agosto parece que há mais pessoal. Vêm todos para cá, emigrantes, isso tudo. Têm lá casas, mas em si são sete habitantes. E acho que já passou a nove, porque eu acho que foi um casal para lá.

Uau! Sete para nove.

O que eu ouvi dizer.

Isso é fantástico. Muito bem. Estamos à conversa com o Henrique Mendes, português que anda a percorrer Portugal em busca das cascatas e das praias fluviais e dos poços e açudes. Isto nunca mais acaba, não é? Isto é um trabalho inacabado, ele vai a meio porque já tem mais uma lista de mais 400 ou 500 sítios para onde ir. Henrique, isto é uma atividade muito dispendiosa ou não?

É um bocado.

É um bocado.

É um bocado.

Faz isto todos os fins de semana, não é?

É uma coisa que eu gosto. É uma aventura.

É uma aventura. Tens vivido boas aventuras nesta tua missão?

Sim, eu acabei de dizer há pouco, acho eu, que eu chego lá, algumas pessoas não ligam, mas outras pessoas ligam. "Olha, agora vens cá almoçar com a gente", isso tudo. E levo o piquenique sempre atrás. Mas às vezes o piquenique é pra noite.

É pra noite. Muito bem. Henrique, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out?

Sim.

Vamos embora. Então vou pedir-te para completar as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Uma toalha.

Uma toalha, claro, tem que ser.

Uma toalha, um fato de banho.

E para mergulhar nesses lugares por onde tens andado. Já aconteceu ires a uma praia e nem sequer tomares banho? Claro que sim. Não. Ou mergulhas em todas?

Eu mergulho em todas, mas venho logo para trás. Mas eu sou assim, eu já mergulhei nesta praia, que eu já mergulhei.

Pois.

Nem que seja só os pés. Mas a maior parte é com o corpo todo lá para dentro.

Ok. Sem medos, não é?

Sim.

Lá para dentro. Muito bem. Ora bem, depois na minha mala vai sempre a viagem com mais peripécias que realizei até hoje, ou a cascata que me obrigou a viver maiores peripécias.

Foi se calhar a Zibreira.

Zibreira?

Sim, a cascata.

O que é isso?

Isso fica em Mação.

No concelho de Mação. Ok, é preciso vencer muitas adversidades para lá chegar?

Sim, com a estrada cheia de pó e é muito a descer, e aquilo quase só ocupa um carro.

Só passa um carro nessa estrada?

Sim. Mas o que eu vou lá é pouca gente. Já lá encontrei, mas é muito raro.

Haver lá gente.

Haver gente. É quase também uma cascata que está meio escondida e acho que muita gente não sabe.

O crime de passaporte ou visto mais difícil a obter. Aqui será o lugar mais difícil de encontrar.

Difícil mais de encontrar? A cascata.

Onde andaste ali às voltas.

É a cascata do Leandro.

Do Leandro?

Sim.

É a mais difícil de encontrar?

É.

Porque está escondida no meio da vegetação? Porquê?

É só pinhal. Às vezes eu ouço: "Está ali água a correr".

Sim.

Eu vou lá e quando lá estou é que eu encontro.

OK. A recordação de viagem mais cara, qual foi, Henrique?

Há praias fluviais que se paga.

Tem entrada paga?

Acho que pelo menos duas ou três. Depois estive no Parque Campismo do Fundão, tenho de pagar a autotenda e isso tudo. E por aí é que vou para as praias também. Tenho de pagar ao dia para estar no parque de campismo.

Pois. De resto, não gastas dinheiro com nada. Levas o teu farnel e é isso.

Levo o farnel para pôr a coisa. E é o gasóleo.

Pois, claro. Olha, a refeição mais estranha, qual foi?

A refeição mais estranha, acho que não há.

Não há?

Porque eu levo sempre piquenique.

Muito bem. Olha, gostava de viajar com?

Agora neste momento com a minha namorada.

Boa. Onde é que tu levarias a tua namorada?

Agora ela anda a percorrer também comigo.

OK.

E pronto. Por enquanto é cá em Portugal. Ela também vai para as praias fluviais comigo. Também é uma coisa que ela gosta.

Boa! Então são almas gémeas.

Exatamente.

Boa, muito bem. Henrique, estamos a chegar ao fim. Foi um gosto, muito obrigado.

De nada. Obrigado eu.

Por teres aceitado o convite. E a música, qual é?

É os Caminhos de Portugal.

Muito bem, a pedir aí música popular portuguesa no fecho da conversa do Fim do Mundo desta semana. Estamos de regresso dentro de oito dias. Já sabem, sejam bons e bons viagens.

Pelos caminhos de Portugal. Eu vi tanta coisa linda, vi um mundo sem igual. Eu vi Estoril, eu vi Sintra, eu vi Cascais. De Batalha eu fui a Fátima, onde a fé vivi bem mais. Eu vi Coimbra, terra de muito aconchego. De Viseu fui para Lamego e cheguei a Vila Real. Pelos caminhos de Portugal. Eu vi tanta coisa linda, vi um mundo sem igual. Em Trás-os-Montes, com carinho, vi Bragança. Terra cheia de amizade, de amor e de esperança. E vi aldeias, vi o Parâmio, vi o Seide. Onde nasceu minha mãe e uma infância feliz teve. Pelos caminhos de Portugal. Eu vi tanta coisa linda, vi um mundo sem igual. Estive em Chaves, vi o Bom Jesus em Braga. De Monção fui pelo Minho, onde a beleza não se acaba. Fiquei contente em Viana do Castelo. E de Póvoa do Varzinho ao Porto que eu tanto quero. Meu rico Espinho, meu rico Aveiro. E depois fui por Figueira da Foz. E de Leiria, Nazaré e Alcobaça. Fui por Caldas da Rainha e Santarém logo após. Pelos caminhos de Portugal. Eu vi tanta coisa linda, vi um mundo sem igual. Lá em Peniche comi boa caldeirada. Em Sesimbra foi sardinhas e em Setúbal sol molhada. Vale do Lobo, lá no Algarve, Portimão. Em Tavira e em Faro eu deixei meu coração. Serra da Estrela, que é tão célebre. E a boa Évora e a linda Portalegre. Castelo Branco, Coguilhã e já não tarda. A terra do meu pai, a tão querida Guarda. Pelos caminhos de Portugal. Eu vi tanta coisa linda, vi um mundo sem igual. Tenho que ir à Madeira e aos Açores. À procura de belezas e também novos amores. Sei que me falta ver muita coisa e boa. Porém, já estou bem contente, pois vi o céu, eu vi Lisboa. Eu vi o céu, eu vi Lisboa. Eu vi o céu, eu vi Lisboa. Eu vi o céu, eu vi Lisboa. Eu vi o céu, eu vi Lisboa. Eu vi o céu, eu vi Lisboa.