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A Nossa Cultura, da Rádio Observador, em Viseu. Hoje, na Quinta da Cruz, continuamos a olhar para este gabinete de curiosidades que nos dá a conhecer vários bichos, folhas, a fauna e a flora que existem por aqui na Quinta da Cruz, mas também em toda a região de Viseu. Comigo tenho Rui Macário, que é o pensador por detrás deste projecto, deste gabinete de curiosidades. Rui, das primeiras coisas que reparamos quando entramos aqui neste gabinete de curiosidades, são nas várias gavetas que existem, com etiquetas que identificam as espécies que estão lá dentro, mas não são as espécies verdadeiras, são desenhadas por uma artista. Estava-me a contar.

Sim, originalmente os gabinetes de curiosidades eram locais, portanto quando foram pensados, os gabinetes de maravilhas, eram locais onde se poderia colocar tudo aquilo que era fora do comum. Quando o gabinete de curiosidades foi criado, com esta sensação de urgência no conhecimento do que nos envolvia, e portanto, felizmente, nalguns casos ainda sendo comum, era afastar do olhar. Mas ao afastar do olhar e ao colocar essas etiquetas nos puxadores destas 40 gavetas, há quatro módulos de gavetas na exposição, era que isso fosse o suficiente para atrair o gesto e portanto, conhecer através da ação. As etiquetas são muito simples, têm o nome comum e o nome científico, em cada um dos lados da etiqueta. E abrindo, nós, por exemplo, no caso imediato, temos a margarida. E a margarida é uma criação plástica da Liliana Velho. Ela fez as 40 espécies que estão inseridas nestas gavetas, usando técnicas muito diversas. Nalguns através da manipulação da pasta, noutros através do empimento de alguns dos elementos das espécies e portanto, permitindo um vidrado diferenciado, muito mais realista. Mas esse contraste das técnicas e das experiências também em nível artístico, era para nós interessante, do mesmo modo que o queríamos graficamente na parede e quanto aos animais representados. Que as pessoas não sentissem receio ao tocar nas espécies. O que curiosamente sentem, porque sendo em cerâmica, pode partir e portanto há algum cuidado. Tudo em tudo, uma das grandes valências do gabinete de curiosidades acaba por ser aquilo a que nós chamamos o Sobre Rodas. Uma das dimensões do gabinete de curiosidades é precisamente as suas visitas guiadas, a sua interação com grupos, nomeadamente escolares. E portanto, nós criamos uma deriva, que se chama gabinete de curiosidades Sobre Rodas, onde visitamos as escolas que nos convidam a apresentar o projeto. E levamos alguns destes módulos e algumas das obras que estão em espécie. Portanto, desmontamos parcialmente a exposição para ir aos locais. E o fascínio, independentemente da idade, o fascínio de poder ter uma caixa fechada e a partir disso começar a desenvolver alguma narrativa que é familiar aos próprios. "Eu isso já vi, isso está no meu jardim, isso está no jardim do meu avô. E às vezes vejo lá aquele bicho. Mas sabes como é que se chama aquele bicho?" E é este tipo de conversa e diálogo que vai sendo construído a partir do conhecimento que cada um já tem ou daquilo que pode ser adicionado ao seu mundo, que faz com que o gabinete de curiosidades se construa a partir das curiosidades coletivas. Este é um dos elementos, estes elementos gráficos que aqui estão, estas gavetas fechadas, que depois se abrem, inevitavelmente, acabam por ser um bom catalisador, um despoletador de conversa.

E o objetivo também é que estas peças em cerâmica sejam elas próprias o mais fidedignas possível à realidade também.

Sim, garantidamente. E obviamente quando se usa essa técnica de empilhamento, é quase literal. Quando há uma técnica mais de modelagem, aqui exporta muito mais aquilo que é a capacidade de autor de o fazer, que o faz muito bem, inevitavelmente.

E nessas visitas escolares que ocorrem por vezes aqui ao gabinete de curiosidades, já reparou nalguma criança que veio e que decorou, por exemplo, o nome real da espécie, em vez de ser o nome comum?

Eu não sei se permanecem muito, mas sim, eu acho que há sempre uma curiosidade muito grande quanto à possibilidade de haver nomes um bocadinho mais diferenciados. Quer dizer, por vezes os nomes comuns são distintos o suficiente para causar interesse, com certeza, mas os nomes científicos e a explicação do porquê de existir um nome internacionalmente reconhecível, até porque estamos a falar hoje em dia em contextos escolares com uma diversidade muito grande de proveniências, isso permite saber que os desafios de interagir com outros e com outras línguas, é um desafio de sempre. Portanto, acho que também os cativa. Sim, pois há alguns nomes, a Xylocopa é sempre uma diversão. Também é uma diversão nossa, diga-se de passagem, mas também de quem vem. E eu tentar explicar por que o nome é aquele, por que é Xylocopa, o que Xylo quer dizer madeira. Ah, OK, a partir de madeira já vamos. Então o que é que fazem com a madeira? Fazem móveis? Pronto, aquelas pequenas brincadeiras começam e a partir de determinado altura não há necessidade nenhuma de estar a brincar com o mais básico. Eles conseguem encontrar o seu caminho para colocar as suas questões, para ter as suas próprias problemáticas, mas dizemos: "isso parece menos bem, ou parece melhor, ou não devíamos fazer assim, ou eu vou continuar a fazer daquela maneira". Pronto, e é sobretudo uma discussão que se gera independentemente da idade, e isso é muito curioso. E quando há turmas que por vezes se repetem, por exemplo, alguém que vem quando tem três anos e depois regressa quando tem quatro, apesar de tudo, isso já aconteceu Uma permanência de alguma da informação e o modo de interligar essa informação, que se torna muito curiosa e significativa também para nós que estamos deste lado com o projeto.

Outro item que está também em destaque aqui no Gabinete de Curiosidades na Quinta da Cruz é um livro gigante, no meio da exposição, que contém vários grupos de espécies, que dá a conhecer também o nome comum e o nome científico de cada animal. Rui, o objetivo é que cada página não seja virada sozinha, é isso?

Sim, quando criamos o livro gigante, poderíamos tê-lo feito de várias maneiras. O nosso objetivo era, por um lado, ampliar as espécies para as quais estivéssemos a olhar e permitir comparações entre algumas delas. Nós escolhemos abelhas, vespas e moscas. Portanto, numa primeira fase era isso, porque havia, e surge muito empiricamente, a noção de que eu vi uma abelha asiática. Apesar de tudo, é das menos simpáticas que nós aqui temos e não é uma abelha, é uma vespa. E qual é a diferença entre uma vespa e uma abelha? E uma mosca? Tudo isso levou-nos a esta conjugação de elementos que pudéssemos colocar lado a lado, por assim dizer. Por outro lado, se estamos a falar quanto a uma intervenção no espaço, que é de todos, é um espaço comum, a noção de que só podemos agir ou só conseguimos agir verdadeiramente, alterando alguma coisa para o bem ou para o mal, se o fizermos em conjunto. Não é uma pequena ação individual que vai estragar alguma coisa, portanto, não sintam esse peso, mas se todos formos fazendo pequenas coisinhas, individualmente, as mesmas, se calhar, vamos alterar para o bem ou para o mal. Criar um pouquinho essa sensação. Ou seja, o livro precisa de mais do que um. Os esforços têm de ser partilhados, têm de ser comuns. E daí o livro gigante com essa página que tem de ser passada uma de cada vez, com alguma dificuldade. Passamos mais tempo a virar as páginas do que a fazer qualquer outra coisa, mas esse tempo de passagem de páginas permite que todos o façamos de um modo ou de outro e vamos conversando sobre o que são aquelas espécies, o que vimos, o que vamos ver mais à frente e por aí fora, e comparando também com os elementos que nós encontramos na parede. Essa era mais uma característica. As patas são aquelas, quantas asas têm, já conseguimos identificar aquele que se calhar já é diferente ou parecido com algum outro que nós vimos noutra circunstância e verdadeiramente o tamanho, aqui a dimensão cativa.

É para isso que serve esta mesma exposição, Gabinete de Curiosidades na Quinta da Cruz, para dar a conhecer várias espécies, também fauna da região de Viseu e não só. Foi a nossa cultura da Rádio Observador.