Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
A história da etnografia no Museu Etnográfico de Silgueiros. Continuamos a fazer uma visita guiada com a ajuda do António Lopes Pires, que foi diretor do museu. António, uma das primeiras coisas em que eu reparo é uma placa onde se pode ler: "Uma das primeiras bandeiras da República Portuguesa". Conte-nos tudo sobre isto.
Esta bandeira é uma bandeira estampada num pano de algodão muito pobre. Se calhar, naquele tempo, os revolucionários não tinham dinheiro para fazer uma bandeira de luxo. E esta bandeira pertenceu a um dos revolucionários de 1910, que foi o doutor Ricardo Pais Gomes, que era daqui de Paços de Silgueiros, e esta bandeira era dele e nós conseguimos que no-la oferecessem. Esse senhor foi o primeiro governador civil de Viseu depois da República e chegou a ser Ministro da Marinha.
E a bandeira está aqui por cima de uma série-
De uma escrivaninha da época, onde há várias coisas que também me parecem interessantes.
Como por exemplo, senhor doutor?
Como por exemplo, queria lhe chamar a atenção para estes envelopes que estão por aqui, os tinteiros da tinta com canetas de molhar, a pasta de escritório, de escrivaninha, de gente muito rica.
Isto não pertencia diretamente ao doutor Ricardo Pais Gomes.
Não pertencia ao doutor Ricardo Pais Gomes, mas era de gente da mesma categoria.
Certo. Tem uma caixa de lápis da fábrica de lápis Viarco.
Não, neste caso não são lápis, são canetas da escola. Estas coisas são para ir lá para baixo, porque nós vamos montar uma escola lá embaixo.
Ok, acho ótimo.
Atrás dos brinquedos, aquela parte da frente é para se montar a escola.
E este busto aqui?
É o busto da República.
O busto da República. Também da mesma altura?
Sim, da mesma altura.
Ok, 1910. E à nossa direita continuamos a ter uma panóplia de material de escritório, aqui canetas, muito grandes antepassados das esferográficas.
Sim, porque a esferográfica é uma coisa recente. Já era um luxo quando se passou da caneta de molhar para a caneta de tinta permanente.
Sendo que, por exemplo, temos aqui um tinteiro que vem do solar dos Morgados de Loureiro.
Dos Morgados de Loureiro. Isto é do século XVII, século XVIII. Era a família mais antiga e mais importante da freguesia de Silgueiros, criadores da paróquia de Silgueiros.
E as cartas de luxo que estão atrás, o que é que são cartas de luxo?
As cartas são de luxo, porque se reparar, tem um forro de seda, não é um forro de papel.
Ok.
Isto aqui são os escritos que eram utilizados na altura do luto, desde o luto mais recente, o chamado luto carregado, até ao luto mais antigo, que tinha uma coisinha preta, mas muito mais fininha à tarja. Esta, por exemplo, tem aqui uma tarja preta larga, porque é um cartão de agradecimento. A família agradecia às pessoas que iam ao funeral e que lhe apresentavam os sentimentos, mandava um cartãozinho a agradecer.
E de alguma forma, isto conta também a história da escrita neste Portugal mais contemporâneo.
Sim.
Ao nosso lado temos algumas máquinas de escrever, mas voltam a ser caixas de fósforos ali ou é uma pena, ligadas já ao Estado Novo.
Ali é uma homenagem de uma fábrica inglesa de aparos ao Salazar, porque a pena é o aparo. A fábrica fabricou as caixas com uma fotografia de Salazar, chamou-lhe Pena Salazar e o próprio aparo tem lá escrito Salazar.
E dá-se um salto no tempo e a escrita passa a ser feita aqui com recurso às máquinas.
Esta coisa tem que ser arrancada e composta, que eles enganam.
As máquinas de escrever. Estas máquinas de escrever já são de que altura?
Estas máquinas de escrever são do século XX e algumas vêm de grande qualidade de fabrico estrangeiro. Estas já começam a aparecer aqui de fabrico português, mas de qualquer maneira é muito interessante esta etapa.
Claro.
Aqui são os ferros.
Ferros de engomar.
Os ferros de engomar.
Uma tábua de passar gravatas.
Esta é uma tábua de passar gravatas. As gravatas com o uso ficavam enrugadas, era preciso passá-las, mas para passar as gravatas era preciso que no bordo elas não ficassem vincadas, porque ficavam feias se ficassem vincadas. Então metia-se esta tábua lá dentro e passava-se.
Com estes ferros na altura.
Este é um ferro muito curioso, que é um ferro de viagem. É um ferro que funcionava a álcool.
Ok. A álcool?
A álcool.
Punha-se lá dentro e fazia-se-
Punha-se ali o álcool naquele depósito e depois aquilo tem uma peça lá dentro que o álcool sai por uns furinhos fininhos e pronto.
Mas tinha que se aquecer o ferro.
Esperar um bocadinho que aquilo aquece com o álcool. O álcool a arder. Aqui a barba.
Frizador de bigode.
Frizador de bigodes. As lâminas de barbear. Eu quando comecei a coleção, pensava que quando tivesse uma dúzia, que já as tinha todas. Temos aqui quase 100 e ainda não sei quantas me faltam.
Muito já ligados à Gillette.
Sim.
Já era a marca de referência.
Já era a marca.
Isto continuamos no século XIX ou já no século XX?
Já no século XX. Eu usei algumas destas.