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Algumas das histórias do Museu Etnográfico de Silgueiros, a propósito destas coleções, não só de material de escritório, mas também de material de cuidado mais masculino.
Aqui é a barbearia.
A barbearia.
Aqui, o barbeiro da cidade.
Mas o barbeiro da aldeia, que vai até o barbeiro da cidade. Qual é que é?
E depois o barbeiro da aldeia.
Qual é que é a diferença?
A diferença é: o barbeiro da cidade, todo de medidas, tratava os clientes com delicadezas especiais. Tinha uma cadeira de grande luxo, tinha uma mesa com mármore, tinha uma série de peças que utilizava. Enquanto que o barbeiro da aldeia tinha uma cadeira, e eram os que tinham uma cadeira feita pelo carpinteiro da aldeia, de uma madeira que não é o pinheiro.
Não tem apoio para os pés.
Depois, o barbeiro da aldeia, por um alqueire de milho por ano, cortava o cabelo uma vez por mês e fazia a barba todos os sábados. E também havia outro barbeiro da aldeia, que cortava o cabelo e fazia a barba de porta a porta e que exercia também a sua atividade numa loja que era à rua.
E era tudo registo daqui de Silgueiros?
Tudo registo aqui de Silgueiros. Este da cidade era de Viseu. Esta veio de Viseu. Aqui uma peça que existia nos barbeiros, nas câmaras, nos bancos, não faltava em lado nenhum.
Que é o quê?
Que é o quê? É um escarrador, porque os portugueses sempre tiveram o bonito hábito de cuspir para o chão. E então, em pleno século XX, quando a tuberculose grassava por aí, fez-se uma grande campanha contra o cuspir no chão. E então nesses bancos, câmaras, finanças, serviços oficiais, aperiam à porta, havia escarradores para as pessoas cuspirem para ali, porque as pessoas tinham o hábito de cuspir para o chão.
Museu Etnográfico de Silgueiros, numa zona dedicada a artigos de farmácias antigas. António Lopes Pires, temos também, do ano de 1900, uma tablete de cocaína.
É que ao tempo usava-se a cocaína e aquilo que são as drogas, usavam-se com uma série de finalidades.
Por exemplo, aqui podemos ler.
Por exemplo, aqui podemos ler o que é que lá diz.
"Indispensáveis para cantores, professores e oradores, abrandavam dores de garganta e davam um efeito animador, entre aspas, para que estes profissionais atingissem a máxima das suas capacidades".
Com as tabletes de cocaína. Mas não só.
Nós poderíamos encontrar isto no ano 1900 numa farmácia normal em Viseu.
Sim. Olhe aqui. Drops de cocaína.
Para a dor dos dentes.
Para a dor dos dentes. Cura instantânea. E depois diz como é que é.
É drops de cocaína para a dor de dentes de 1885, populares para as crianças, porque não só punham fim à dor, mas também melhoravam o humor de quem os tomasse.
Está a ver? E ainda dizem que a droga que faz mal.
Era um mundo diferente na altura. Vinho Mariani, de 1865, o principal vinho de coca do seu tempo. O Papa Leão XIII carregava um frasco de vinho Mariani consigo e premiou o seu criador, Angelo Mariani, com uma medalha de ouro. Portanto, era universalizado o consumo de substâncias que hoje não.
Exatamente. Olhe, tem aqui, parece uma caneta. É uma peça que salvou milhões.
Varíola, não é?
Era com o que se vacinava contra a varíola.
As primeiras vacinas.
Sim, nos braços. Vacinava-se. Ainda hoje a gente da minha idade tem uma marca no braço de ter feito ali uma vacina que fazia uma ferida e deixava uma marca.
E além disso, o que nós vemos aqui nesta vitrine?
Vemos aqui um bule de dar o caldinho aos doentes.
Ok.
Que estavam muito doentinhos na cama, dava por aquele biquinho. Temos aqui algumas caixas de remédios que fizeram moda naquele tempo. Estou-me a referir, por exemplo, ao Brocolax, que era um medicamento para fazer funcionar o intestino.
Um chocolate laxativo.
Chocolate laxativo. O meu amigo Zé Dinis descobriu, via a avó tomar umas tabletesinhas de chocolate para esse fim.
Certo.
Então quando a avó não estava no quarto, ele foi ao quarto, porque ele gostava muito de chocolate, mas tinha poucos, então foi lá e comeu a caixa toda de chocolate de uma vez.
Não deve ter acabado lá.
Pois não, não foi lá grande coisa.
Também umas caixas de aspirinas. Pronto, os medicamentos na altura.
Também tem aqui este frasquinho. Este frasquinho é altamente significativo, porque é o frasco onde se vendia a penicilina, que foi a grande descoberta que salvou milhões de pessoas, porque era o único antibiótico que havia na época.
Isto são tudo itens colecionados. Foi buscá-los a Viseu?
Olhe, isto fui buscá-los onde calhou. Alguns vieram de um armazém de produtos farmacêuticos.
Mas todos em Portugal?
Todos em Portugal.
Sim, aliás, dá para ver. Tudo escrito em português.
Sim.
Portanto, isto era o que nós encontraríamos numa farmácia na altura do século XX.
E havia também parte da farmácia em Portugal, em casa.
Certo.
Por exemplo, aqui estas ventosas usavam-se para as gripes e para os males cá do peito.
Ok.
Aquilo punha-se um bocadinho de algodão a arder embebido em álcool lá dentro e de repente punha-se sobre o peito e sobre as costas, aquilo ficava lá preso e pensava-se que aquilo dada a diferença de pressão, aquilo puxava e tirava o mal cá para fora.