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E se algumas das descobertas científicas que podem melhorar a vida de milhões de pessoas estivessem a acontecer neste momento em Portugal? "A próxima descoberta".
Seja bem-vindo a A Próxima Descoberta. É uma série de conversas numa parceria entre o Observador Lab e a Hovione uma multinacional farmacêutica de origem portuguesa, e onde vamos abrir as portas do seu mundo para nos contar histórias reais de ciência, inovação e impacto global. Ao longo de seis episódios, vamos conhecer as pessoas por trás de tecnologias que ajudam a desenvolver e a produzir medicamentos inovadores para as maiores farmacêuticas mundiais e que chegam todos os anos a mais de 80 milhões de doentes. Eu sou o Nelson Ferreira e neste primeiro episódio vamos perceber como é que uma história improvável, que começou numa cave em Lisboa, se transformou numa liderança global. E para falar sobre esse legado, tenho a honra de receber Diane Villax. É cofundadora e administradora não-executiva da Hovione que aos 91 anos continua a ser uma testemunha viva desta viagem. Muito bem-vinda, dona Diane Villax. Vamos começar a nossa conversa em 1959. A Hovione nasce de forma improvável numa cave em Lisboa, fundada pelo seu marido, Ivan Villax, pela Diane e mais dois sócios. Como é que se geriu uma vida familiar e ao mesmo tempo o nascimento de uma empresa farmacêutica, tudo no mesmo espaço? Imagino que tenha causado aqui alguns desafios logísticos interessantes.
Desde o início, decidimos que iríamos fabricar matéria-prima para a indústria farmacêutica, isto é, os ingredientes ativos dos medicamentos. Não tínhamos dinheiro, portanto, teria que ser a partir da nossa casa, que era um bairro residencial de Lisboa. Desde logo, dividimos as tarefas. O meu marido, brilhante engenheiro químico húngaro, ficaria o inventor, o produtor, o vendedor, e eu ficava com toda a parte administrativa: importações, exportações, contabilidade, bancos. Tarefas essas que mantive durante pelo menos 30 anos. Simultaneamente, também pensámos nos valores que iriam nos dirigir durante este longo período: transparência, inovação, procura de excelência e grande consideração para quem viesse trabalhar conosco através dos anos.
Logo no início, o seu marido definiu bem que a Hovione não ia competir pelo preço baixo, mas sim pela qualidade e por resolver problemas complexos. Como é que foi aplicar este princípio de rigor quando os recursos ainda eram escassos? Até porque desde o primeiro dia, o vosso objetivo sempre me pareceu que era global. O mundo seria o vosso mercado.
Desde o início achámos que Portugal, uma população de 10 milhões de habitantes, não seria um mercado muito significativo e que o mundo seria o nosso. Talvez um pouco naïves, porque iríamos entrar num mercado global já bastante sofisticado. Mas a decisão foi tomada e andámos para a frente. Andámos para a frente e tivemos a sorte que rapidamente o Japão nos descobriu. Veio bater à nossa porta, porque obviamente nós não tínhamos meios para ir bater à porta deles, mas eles naquela altura não fabricavam, só formulavam, portanto, precisavam de comprar matérias-primas. O meu marido tinha patentes de invenção de processos independentes e houve grandes conversas. Eles acharam que a nossa tecnologia era boa, o nosso IP era muito robusto e a nossa qualidade excelente. Iniciou-se uma cooperação que durou 10, 15 anos, muito lucrativa para ambas as partes, bem me parece.
Nos anos 80 e 90, a Hovione dá uma espécie de salto mais importante. Quais é que foram as decisões, as apostas tecnológicas ou até os momentos de maior coragem que permitiram transformar esta pequena empresa portuguesa numa multinacional de referência?
Em 1982, após uma inspeção satisfatória da parte da FDA, entidade reguladora dos Estados Unidos da América, entrámos no mercado americano com o nosso antibiótico doxiciclina genérico. A patente do inventor já tinha caducado e nós tínhamos um processo independente de fabrico. Um mercado enorme, exigente, competitivo, mas que respeita o bom serviço e a qualidade. E foi de facto um grande salto, pois é um mercado tão grande que nós não tínhamos a noção do que iria ser, e a procura foi bem maior do que nós conseguíamos produzir. Lembro-me, deve ter sido o verão de 83, deve ter havido muita gente que teve que guardar as suas férias para o outono ou para o inverno, porque falhar com os prazos de entrega não era opção. Posteriormente, nos anos 90, lançámo-nos num novo setor de negócios, que são os serviços. Descobrimos que as grandes farmacêuticas americanas, bem como as pequenas biotechs, estavam cada vez mais inclinadas a outsource o trabalho de desenvolvimento das novas moléculas, pois é um período muito comprido, que pode durar de quatro a seis, 10 anos O processo de desenvolvimento das novas moléculas antes de chegarem a serem reguladas pelas entidades e a ficar um produto comercial. E então começamos a oferecer esse serviço de desenvolvimento, que correu muito bem. Daí desenvolvemos novas tecnologias, o chamado spray drying, para moléculas que fossem pouco solúveis, porque assim aumentaria muito a bioequivalência dos mesmos. E hoje em dia é o nosso maior setor, é esse setor dos serviços.
A Hovione trabalha hoje com 19 das 20 maiores farmacêuticas do mundo. Como é que se mantém um espírito ágil, um espírito pioneiro que nasceu nessa cave, mas hoje é uma estrutura com 2600 colaboradores, mais de 300 cientistas, tornou-se até o maior empregador privado de doutorados em Portugal.
Pois, a agilidade tem que se manter. Por exemplo, agora quando foi da pandemia, de repente nós recebemos encomendas grandes, não esperadas, para fabricar um componente do Remdesivir, que foi o produto que foi autorizado para ajudar os doentes de Covid. Portanto, a agilidade tem que se manter e mantemos sempre a nossa qualidade e hoje em dia, com 60 e tal anos de história, os clientes vêm ter conosco, pois sabem que podem contar com a nossa qualidade e a nossa responsabilidade de produzir e entregar a tempo e horas o que eles encomendam.
Há aqui um outro número impressionante. Os vossos produtos chegam a 80 milhões de pessoas por ano e a Hovione participa em até 10% dos novos medicamentos que são aprovados anualmente pela FDA nos Estados Unidos. Quando olha para este impacto, sente que esse sonho de 1959 foi totalmente cumprido?
Eu acho que foi ultrapassado e muito, porque nós quando formamos a Hovione, o meu marido, que era um cientista, queria era ter o seu próprio laboratório, mas nunca imaginou que desenvolveríamos de tal maneira como hoje em dia somos procurados pelas grandes farmacêuticas internacionais e que vêm ter conosco frequentemente.
Esta é uma série sobre ciência, mas também é sobre pessoas. E o rigor, a ética e a visão de longo prazo que a Diane sempre imprimiu na gestão continuam lá na Hovione. Que mensagem é que deixa aos cientistas que hoje entram na Hovione com a missão de encontrar a próxima descoberta? Pelo que percebi, a Diane faz questão de os receber sempre que eles entram na empresa.
Sim, quatro vezes por ano, duas vezes em inglês, duas vezes em português, eu falo aos recém-chegados à Hovione, contando muito resumidamente qual foi o nosso percurso, quais são os nossos valores, os nossos objetivos, os sonhos, quais foram os desafios que encontrámos, como ultrapassámos para chegar aos dias de hoje. E eu recomendo sempre que quem entra nesta casa tem que trabalhar com paixão. Tem que trabalhar com paixão e lembrar sempre que o nosso trabalho é produzir medicamentos para quem deles precisa. Temos o privilégio de servir os pacientes. Somos uma empresa que trabalha para a sociedade. Eu acho que o "In it for life", que é o nosso lema, tem muito a ver conosco, porque estamos cá há 67 anos como uma empresa familiar e assim pensamos continuar por muitos e bons. Sobtudo no setor da saúde, há muita vantagem, porque podemos olhar a longo prazo, não temos que pensar nas ações da bolsa a cada trimestre, como têm que as empresas públicas. E, por outro lado, estamos cá justamente para dar vida a quem dela precisa. "In it for life".
Aos 91 anos, como é que a própria Diane também mantém essa paixão e faz planos a longo prazo?
Porque eu fui fundadora desta empresa, vejo-a progredir e a desenvolver com sucesso, portanto, é uma alegria para mim e tenho uma família grande que vem atrás de mim. Tenho seis netos e sete bisnetos e eu espero deixar a empresa para eles continuarem como eu a geri.
Isso é muito inspirador. Dona Diane Vilax, muito obrigado por nos trazer as memórias e a inspiração deste legado que continua bem vivo. Foi um privilégio. Este foi o primeiro capítulo de "A Próxima Descoberta". Nas próximas semanas, vamos continuar a abrir as portas da Hovione para descobrir como é que o talento português lidera o mundo da química complexa à engenharia de partículas, das terapias respiratórias aos medicamentos biológicos de nova geração. Podem ouvir os próximos episódios em observador.pt e na sua plataforma habitual de podcasts. Até à próxima descoberta.