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Sejam bem-vindos. Há muita inovação na revolução que está acontecendo no mundo da energia e não sabemos ainda o que essas novas soluções e descobertas vão trazer ao futuro próximo no setor e, sobretudo, dirigido aos consumidores de energia. Para falar de inovação na energia, temos hoje conosco Paulo Ferrão, é professor catedrático do Instituto Superior Técnico e lidera, neste momento, o grupo de missão da União Europeia para as cidades climaticamente neutras e inteligentes. Eu sou Paulo Ferreira e este é o "ADN da Energia", o podcast do Observador em parceria com a Galp. Paulo Ferrão, bem-vindo. É um gosto recebê-lo aqui neste podcast. Se nós quisermos perceber genericamente as tendências principais que a inovação nos últimos tempos trouxe e continua a trazer ao setor da energia, o que destacaria?
Olha, eu destacaria o que o Paulo Ferreira acabou de dizer, que é a ênfase no consumidor. E a grande revolução que está a acontecer é porque o consumidor de antes era um sujeito passivo. Pagava a conta da eletricidade, pagava a conta do gás e o que acontecia era que a eletricidade era produzida ou por uma hidroelétrica ou por uma central térmica, com enorme ineficiência, depois já lá vamos, e que tinha a capacidade de quando a gente ligava a luz ou desligava, ela produzia mais ou menos eletricidade.
Porque a eletricidade tem essa característica de ter que ser consumida assim que é produzida.
Exatamente. Mas tinha também a característica de ser abundantemente produzida por centrais térmicas, e vamos começar talvez por aí. Uma central térmica tinha uma eficiência, na altura, provavelmente da ordem dos 40%. Ou seja, estávamos a desperdiçar 60% da energia e ainda pior, quando queimávamos, estávamos a libertar CO₂.
Que hoje é impossível suportarmos isso.
Ora bem, e é daí que começa a inovação. Hoje em dia não podemos suportar isso. Temos que descarbonizar o setor da eletricidade, em particular, que é o mais fácil descarbonizar, e isso está se a ver agora com o vento, com o sol, com a hídrica, e portanto vamos ter que eletrificar os nossos consumos. E aí começa a nova história da inovação da energia.
Primeiro na produção, digo eu.
Na produção de eletricidade.
Claro, as eólicas, há o momento em que alguém percebe que, de facto, com o vento, e com alguma intensidade de vento, obviamente, há uma forma de produzir eletricidade.
Exatamente. Mas que é uma forma que tem esta benesse e esta magia de não produzir diretamente CO₂, mas também tem o problema de qualquer das renováveis, de ser intermitente.
Intermitente, isto é, pode parar a qualquer momento se parar o vento.
Se parar o vento. Ou se passar uma nuvem, claro, ou durante a noite. Aí nem é intermitente, aí é bastante constante, não há sol.
Exato.
E isso começa a ser um problema. No entanto, há outra coisa que contribui para a revolução da energia e para a inovação. Uma das principais inovações foi o preço da eletricidade, quando fornecida por o vento ou pelo sol, passou a ser mais barato do que as energias convencionais. E isso dá poder ao consumidor. Nós hoje, se comprarmos um painel solar fotovoltaico e se o instalarmos na nossa casa, vamos ter energia mais barata do que a comprássemos na rede. Esta é a grande revolução.
Tornasse produtor, o consumidor.
O consumidor passa a ser produtor.
E ganha dinheiro com isso.
E ganha dinheiro com isso. E isso é fantástico. É fantástico e a inovação começa aí. É claro que isto democratiza a energia, de alguma maneira. A pessoa pode comprar um painel e pode consumir energia, mas também tem os seus problemas. E o problema é, por exemplo, nós instalamos uns quantos painéis solares fotovoltaicos em nossa casa, e o que vai começar a acontecer é que durante uma parte do dia estamos a produzir mais eletricidade do que o que consumimos e passamos a injetar na rede.
Isto é, estamos a vender à rede.
Estamos a vender. A vender, depende das condições, isso é um aspeto que vale a pena pensar e discutir. Estamos pelo menos a injetar na rede e durante outros períodos não estamos a injetar na rede.
E estamos a comprar, de alguma maneira, porque também não estamos a produzir o suficiente para o nosso consumo.
Exatamente.
E o sistema gere isso automaticamente.
O sistema gere isso.
Isto é tecnologia.
A rede gere isso, as redes passam a ser muito fortemente bidirecionais e falamos em redes inteligentes, falamos em contadores inteligentes que são essenciais.
Que são aqueles que já estão a chegar na nossa casa.
São aqueles que hoje em dia quase todos nós já temos na nossa casa. E isso é muito importante, porque nós podemos contabilizar a cada instante qual é a energia que estamos a comprar ou que está a sair, como potencial de venda. Mas isso permite outra coisa muito bonita, que depois a regulamentação também permitiu, é que nós hoje podemos começar a vender aos vizinhos. E isso é extraordinário, porque dantes era uma incumbência só das grandes empresas que vendiam eletricidade. Hoje, qualquer um de nós pode vender eletricidade aos vizinhos.
Mas isso diretamente ou através da rede?
Através da rede.
Nós nem sabemos, então, que estamos a vender àquele vizinho.
Não sabemos. E na verdade, não estamos. Estamos a pôr energia na rede, depois isto é tudo virtual. Ele vai comprar a energia.
É de quem apanhar, de alguma maneira.
Exatamente. Mas há aqui uma grande inovação também na regulação e na regulamentação. Passa a ser possível eu vender esta energia ao meu vizinho. E até mais, passa a ser possível eu organizar-me numa comunidade de pessoas, que se chama as comunidades de energia, e essas pessoas vão poder trocar energia entre si. Qual é a vantagem técnica disto? É que eu posso não estar a consumir naquele momento, mas o meu vizinho estará. E eu consigo lhe vender energia mais barata do que ele a compraria.
Mas o comprador é o mesmo, se quiser. É quase um negócio comunitário?
É um negócio comunitário. O comprador não é o mesmo. Eu realmente vendo ao vizinho e posso, com isso, gerar uma receita. Quer dizer, normalmente quem vende é a entidade gestora da comunidade de energia, não é? É a GCE.
Já agora, que é geograficamente unitária, é um bairro, digamos, pode ser um bairro?
Pode ser um bairro. De acordo com a legislação portuguesa, hoje em dia podemos comprar e vender numa periferia de 2 km. Portanto, sim, um bairro, com certeza. Eu posso instalar um conjunto de painéis fotovoltaicos que até podem estar, por exemplo, no parque de estacionamento ao lado da minha casa, e depois aquilo vai abastecer as pessoas ali à volta. E elas definem o modo como transacionam entre si. Isto é muito interessante, porque é outra inovação, isto vai permitir imensos modelos de negócio para duas coisas. A primeira é que o indivíduo enquanto tal poupe dinheiro, portanto, gaste menos dinheiro com a aquisição de eletricidade, mas também outra, é que esta intermitência das energias renováveis, e esta é outra inovação que vai ser necessária, causa problemas à rede global. Portanto, eu se tiver nesta comunidade a capacidade de gerir o consumo, que ajude a dar flexibilidade à rede, isto é muito importante. O que isto quer dizer em palavras mais comuns? Por exemplo, se na nação houver num momento pouco vento, podemos ter uma falta de eletricidade renovável para disponibilizar às pessoas. Portanto, se esta comunidade tiver a capacidade de, nesse momento, reduzir os consumos, eu, na verdade, estou a atuar como se fosse uma bateria e estou a dar flexibilidade ao sistema.
Está a deixar energia disponível para outros.
Para os outros. E isso vai ser remunerado. Isto é completamente inovador.
Ou seja, não só há aí um fator que é as pessoas serem pagas, não por fornecer alguma coisa, mas por deixarem de consumir energia.
Exatamente. E a isso chama-se os serviços de sistema, que são pagos. E no futuro, Paulo, quando nós tivermos energia, por exemplo, 100% renovável, quer dizer, basicamente o custo marginal da eletricidade, de acrescentar mais ou menos eletricidade, é nulo, porque ela é toda renovável. Agora a grande dificuldade vai ser gerir o sistema e gerir esta flexibilidade. Portanto, no futuro, eu creio que estaremos a pagar mais por esta flexibilidade do que pela energia propriamente dita. Portanto, este investimento é muito interessante. E aqui a tecnologia, a ciência dos dados, a capacidade de atuar nos consumos, que se chama a gestão da procura na nossa casa. Por exemplo, dar-lhe um exemplo concreto. Eu, neste momento, não sei o que se passa em minha casa e tenho o frigorífico ligado. O frigorífico vai ligando e desligando para manter a temperatura. Mas que diferença me faz a mim, que agora em minha casa, onde eu não estou, o frigorífico ligue agora ou ligue daqui a 45 minutos? Nenhuma.
Desde que mantenha a temperatura relativamente constante.
Sim, a variação será um décimo de grau ou dois décimos de grau, e isto oferece a tal flexibilidade. Se o país precisar e se eu tiver necessidade daquela energia, vejam que são agora milhões de frigoríficos a desligarem-se naquele instante.
Nem que seja por 45 minutos.
Nem que seja por 45 minutos, nem que seja por 30 minutos, porque depois o vento pode voltar. Esta é a inovação dos sistemas energéticos do futuro.
Altamente inteligentes.
É isso mesmo.
E se gerem a si próprios, de alguma maneira.
A si próprios. Isto leva-nos ao grande volume de dados, leva-nos à inteligência artificial. Portanto, por quê? Há que compreender os padrões de consumo, há que os antecipar e há também que compreender e antecipar a produção de eletricidade pelas energias renováveis. E isso já se faz hoje. Eu consigo antecipar através de estimativas de meteorologia, se vai estar vento, se não vai, se vai estar sol. E portanto, começa a ser possível, através da ciência e da inteligência artificial, eu poder jogar com isto. Depois, como disse o Paulo Ferreira muito bem, eu não estou em minha casa para ligar e desligar o frigorífico a toda hora. Isto depois entra na internet das coisas. Seguramente, num futuro muito próximo, aliás, isto já se passa, não é no futuro, isto já se passa.
Isto já se passa, ainda não está massificado.
Não está massificado, já se passa. Já há operadoras energéticas.
E temos uma app, eventualmente.
Nem precisamos. Portanto, eu só digo, sim, senhora, há equipamentos que eu permito que seja deslocada no tempo a sua utilização. Por exemplo, se eu estiver a ver um jogo de futebol em casa, não vou admitir que me desliguem a televisão por 30 minutos.
Porque depois acabou o jogo.
Depois acabou o jogo.
E não quero vê-lo em diferido.
Exatamente. E por isso vamos classificar os equipamentos que temos em casa, em equipamentos que se podem desligar, equipamentos que não se podem desligar. Mas o que eu estava a querer dizer era: vamos ter muito brevemente os equipamentos a falar com a rede e a negociar com a rede, em função do preço que ela vai oferecer para eu desligar o equipamento, se ele se desliga ou não, porque eu depois posso dar instruções ao meu equipamento e dizer: "Olha, se te pagarem mais do que isso, tu desligas. Se não te pagarem, não desligas."
Portanto, já não são ligar e desligar cegos.
Já não é um desligar e ligar cego. Esta é a minha antevisão do futuro.
Portanto, esse on e off de cada aparelho vai estar ligado ao preço que está naquele momento o mercado a praticar.
Exatamente, naquele momento.
Isso implica ter um sistema que saiba os preços, obviamente, que estão no mercado.
Evidente, nós temos que ter uma indicação do preço.
Define o consumidor ou define bandas, imagino?
Definirá bandas, sim.
Desliga só quando a energia estiver a determinado valor.
Exatamente. Já temos um instrumento fundamental, como falámos há pouco, que é o contador inteligente.
Que já tem algumas dessas, ou facilita, pelo menos, algumas destas funcionalidades.
Que ao menos consegue medir tudo a cada instante, isso é, de facto, vital. E depois o tipo de sinal pode vir da internet. E isto exige inteligência e eu acho que estas serão o que se chama as empresas de serviço de energia do futuro. Uma empresa que hoje não se capacite para fazer isto, corre um sério risco de estar fora do mercado.
Porque vai havendo pequenos operadores, digamos.
Exatamente.
Nós conhecemos os incumbentes, os chamados incumbentes.
O incumbente tem que começar a aportar inteligência para o seu exército. E é isso que eu vejo. Atrevo-me a dizer que Portugal está muito bem preparado nas universidades, está a produzir conhecimento, está a produzir doutorados, está a produzir mestres nesta matéria, e eu o que entendo é que isto é uma oportunidade enorme para dar bons empregos a estas pessoas. Em particular para eles não irem para outros países fazer isto. Eu acho que há aqui uma urgência de valorizar isto, de antecipar estes movimentos, que não são nada difíceis de antecipar. Eles estão aí, eu estou aqui a falar disto, não é preciso ser um gênio para antecipar que isto vai acontecer. E de facto, usar esta inovação para uma coisa que é fundamental em Portugal, que é pagar melhor às pessoas. E pagar melhor com retorno, porque isto vai ter retorno social, pode pagar mais e poupa no que importa de combustíveis e de divisas.
Paulo Fontain, se me permite agora fazer aqui uma média daquilo que foi dizendo, estamos a começar a ter um setor muito mais pulverizado no fornecimento, com pequenos fornecedores locais, autoconsumo e por aí fora. Os consumidores vão ter mais peso. Deixe-me abrir agora aqui um parêntese para lhe perguntar nesta relação dos consumidores com os fornecedores, esse peso vai refletir-se de alguma maneira? Já falámos dos ganhos que podem ter, obviamente, com a gestão de consumos e com o fornecimento à rendi por aí fora, mas os consumidores vão ter uma palavra mais forte a dizer também na evolução do setor?
Vão ter uma palavra muito mais forte e, em particular, quando se organizarem. É muito difícil, nem uma pessoa só por ela está interessada nisto. Agora, o que eu vejo que vai acontecer é aumentar muito o peso das comunidades de energia, com os gestores dessas comunidades que são profissionalizados. Portanto, vamos ter bairros energéticos, se calhar. Vamos ter com gestores profissionais, e são as empresas que se estão a constituir, às vezes sob a forma de cooperativa, às vezes sob a forma de empresa, e que todos juntos terão um peso enorme. As grandes empresas nacionais estão a se preparar para isso. Mas tem que se preparar.
São grandes consumidores também.
E que são fornecedores. E este será o negócio no futuro. O que eu queria dizer diretamente à sua resposta, eu não vejo que isto vá acontecer à unidade do indivíduo, mas à unidade das comunidades de energia, do conjunto de indivíduos com uma gestão relativamente profissionalizada e com transparência na distribuição dos benefícios, porque isto depois passa a ser outro fator de inovação e gestão de informação, e lá está da inteligência artificial. Porque agora há que dizer, temos uma comunidade com 100 indivíduos. Um está a consumir, o outro está a produzir, tem que haver regras para distribuir os benefícios, sem que nenhum fique prejudicado relativamente aos outros. Isto não é trivial. Mais uma vez, isto vai exigir conhecimento, vai exigir transparência, vai exigir algoritmos, vai exigir atuadores para ligar e para desligar. É uma coisa maravilhosa e de facto vai dar muito emprego, vai exigir novas soluções e seria formidável que Portugal pudesse ter a oportunidade de criar aqui as startups que sejam os unicórnios do futuro nesta área.
Estamos a criar algumas, ou não?
Ainda não há, mas eu vejo potencial para poderem vir a aparecer se de facto se começar a investir nisto a sério.
Porque o cenário que está a traçar, de facto, é de um enorme potencial, sobretudo na área tecnológica, o tratamento desses dados todos e a forma como se põem esses dados ao serviço da comunidade e dos consumidores. Há pouco falou da questão do serviço de energia, os consumidores, vai haver empresas que sejam quase consultoras da minha fatura energética, por exemplo. Nós neste momento relacionamo-nos com os comercializadores. Pode haver intermediárias aqui no meio?
Acho que o Paulo Ferreira está a tocar num ponto importantíssimo. Por exemplo, nós tivemos uma spin-off que saiu do Instituto Superior Técnico e que hoje o que faz são plataformas para gerir estas comunidades. E já faz há 10 anos. O que eles faziam era essencialmente procurar ler o perfil de consumos da nossa casa e identificar, só lendo os perfis, que podem sair de um contador inteligente, o que é que está ligado e o que é que está desligado a cada instante. Ou seja, eles só com isso conseguem saber quais são os equipamentos que estão ligados e até conseguem saber, com isto, qual é o serviço que está a ser usado na casa, se é aquecimento, se é arrefecimento, se é máquina. E agora, o que estão a fazer, por exemplo, é a ajustar isso a fazer a gestão destes equipamentos. Cá está o caso, quem sabe, uma empresa que começou como uma startup, hoje em dia já faz plataformas e, na verdade, eles depois dão conselhos ao consumidor. Porque como eles, mais uma vez, da inteligência artificial, eles sabem. Por exemplo, aquele frigorífico tem um certo padrão de ligar e desligar. Está a consumir um X. Aquilo está dentro do standard ou já está demais. E se estiver demasiado relativamente a um standard, ele pode dizer à pessoa: "Olhe, era altura de trocar o seu frigorífico". E portanto, são verdadeiramente, Paulo Ferreira, um consultor em tempo real, que dá ajuda às pessoas, mas também estas plataformas, depois, e que têm que ser agnósticas relativamente a equipamentos e a fornecedores, naturalmente, e até a comercializadores da eletricidade. Isto está a acontecer, já temos cá empresas destas e eu acho que temos é que correr, porque os outros também têm. Na Alemanha, já têm um ou dois unicórnios nesta área, mas eu tenho muita esperança que com apoio, que possa de facto ser um setor onde se valorize o conhecimento e onde valorizemos os nossos técnicos. Eu, como professor, o que mais desejo-
Alguns deles devem ser e terem sido seus alunos.
Sim, e que sejam muito bem-sucedidos e que ajudem Portugal a andar para frente e a pagar melhor às pessoas. Eu acho que este é, de facto, o grande desafio que nós temos pela frente.
Muito bem, é com esta mensagem também positiva, e ligando o setor de energia a um objetivo econômico mais transversal, que terminamos esta nossa conversa. Paulo Fontain, foi um gosto recebê-lo neste ADN de Energia. Obrigado pela disponibilidade e partilha do seu conhecimento nesta área. Quanto a nós, voltamos proximamente com um novo tema e novo convidado. Até lá.