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Ora viva, sejam bem-vindos. A refinaria de Sines é uma das unidades mais importantes do país na área da energia e a sua operação tem um impacto econômico assinalável. É precisamente sobre Sines que vamos falar com Sérgio Machado. Ele é diretor da área de hidrogênio e combustíveis renováveis da Galp. E por que vamos falar isto? Porque importa discutir os planos futuros para a unidade, para a refinaria e a sua reconfiguração, isto dentro do processo de redução das emissões de carbono. Eu sou o Paulo Ferreira e este é o "ADN da Energia", o podcast do Observador em parceria com a Galp. Sérgio Machado, bem-vindo, antes de mais, é um gosto recebê-lo aqui. Isto basicamente é a refinaria de Sines para pessoas que não entendem, de facto, tecnicamente este assunto. Antes de mais, o que é a refinaria de Sines e qual a importância que ela tem para o país?

Eu gosto de começar esta conversa sempre com uma curiosidade de que eu gosto particularmente, mas que nos diz muito sobre o potencial da refinaria e nos ajuda a perceber o que é que são as refinarias na Europa. A refinaria de Sines entrou em operação em 1978 e ainda assim é a refinaria mais recente da Europa. E a verdade também é que nós, se passarmos na via rápida em Sines e olhamos pra refinaria, vemos chaminés grandes, vemos colunas, vemos muitos tanques e visto de fora, até nos pode parecer a mesma unidade industrial que entrou em operação em 1978.

E diz que é mais recente, não é porque não tenha havido outras a serem ativadas.

Construída do princípio, como nós costumamos dizer, greenfield, não houve nenhuma refinaria na Europa a ser construída depois de 1978. E ainda assim, estas unidades, todas elas evoluíram bastante, incluindo a refinaria de Sines. Por isso é que eu estava a dizer, aquela unidade já não é propriamente a mesma de 1978, porque teve que se adaptar ao mercado. E foi se adaptando com muitos investimentos, alguns deles incrementais, mas alguns investimentos, houve duas fases muito grandes de investimento. E depois nós até agrupamos e chamamos aquilo que existia inicialmente, chamamos a Fábrica Um, depois disso já fizemos a Fábrica Dois e depois disso já fizemos a Fábrica Três. E o que que isso foi? Foi uma vaga muito grande, foi um investimento muito grande nos anos 90, na tal Fábrica Dois, em que adequamos aquela refinaria à procura que tínhamos no mercado, ou seja, viramos a nossa produção mais para a produção de gasolinas. E depois, há pouco mais de 10 anos, entrámos em operação, em 2012, entrámos em operação com aquilo que chamamos a Fábrica Três, que foi um novo complexo dentro da refinaria virado para a produção de diesel, porque estávamos a dieselizar a nossa frota automóvel e combustíveis de aviação. Cada vez que fazemos uma vaga dessas de investimento, é preciso ter a noção do que é que são estes números, numa refinaria, falamos de muitos milhões, muitas centenas e até milhares de milhões de euros. O investimento que fizemos e que concluímos em 2012 na tal Fábrica Três, foram mais de mil milhões de euros de investimento.

Neste momento, o que é que se produz na refinaria de Sines? Depois dessas mudanças, desse acompanhamento do mercado, se quisermos.

A refinaria de Sines hoje faz mais ou menos o equivalente a 90% do consumo de Portugal de combustíveis.

Estamos a falar da gasolina que metemos no carro, do gasóleo.

Estamos a falar desde a gasolina e do gasóleo, que é muito fácil pra nós nos relacionarmos, porque é aquilo que como cidadãos no dia a dia utilizamos mais próximo, mas também estamos a falar de GPL, que nós consumimos nas garrafas de gás ou canalizado também, mas estamos a falar, muito importante, combustível pra aviação, jet pra aviação. Estamos também a falar de matéria-prima pra indústria química, nomeadamente nós produzimos a maior parte da matéria-prima para o complexo petroquímico que existe também em Sines, mas também produzimos combustíveis pra marinha e também já produzimos hoje biocombustíveis.

São combustíveis feitos a partir de bases biológicas, como eu bem diga.

Exatamente, em que não utilizamos como matéria-prima petróleo.

O petróleo e derivados do petróleo.

Isso. E utilizamos diretamente matéria-prima de origem biológica, sempre avançada, como por exemplo, óleos alimentares usados ou produtos que resultam subprodutos que seriam resíduos de processos, por exemplo, pra a produção de óleos alimentares e que utilizamos na refinaria para fazer combustíveis. E já fazemos isso hoje ao mesmo tempo que estamos a produzir os combustíveis normais, porque fazemos em coprocessamento.

O Sérgio há pouco falou de um número, 90%, que impõe respeito quando se diz que 90% dos combustíveis consumidos no país saem dali. Agora as refinarias estão a ser vistas como tendo uma necessidade de reconversão, por questões de transição energética e no processo de descarbonização da economia. Como é que se mexe numa unidade que tem esse peso na economia portuguesa e que impacto é que isso pode ter? Isto é, não se pode chegar e desligar.

Claro. Ainda por cima falamos de energia. Nós sabemos, e temos também aprendido neste podcast, a importância que a energia tem para o nosso dia a dia. E portanto, um ativo como estes é fundamental na segurança de abastecimento, em todos os países e em Portugal, muito em particular, é todos os dias na produção, é também porque é ali que fazem a maior parte das reservas estratégicas do país, portanto, onde se cria uma almofada para qualquer coisa que possa acontecer.

Isto é, daqueles depósitos grandes que se houver, de repente, uma quebra de fornecimento de combustíveis, há ali uma reserva de dois, três meses de consumo, talvez.

Ou uma perturbação nos mercados. Portugal faz parte de um conjunto de países que se agrupa na Agência Internacional de Energia e que acordaram ter 90 dias do consumo energético em reservas. Depois têm formas de fazer essas reservas e a gente faz muitas dessas reservas em Sines. Mas a pergunta era uma pergunta sobre o desafio. Eu gosto de olhar para o desafio da seguinte forma: atualmente na Europa, os combustíveis fósseis fazem 95% da energia para os transportes. Este é o panorama atual na Europa. Há quase 5% que é feito a partir de biocombustíveis e a eletricidade ainda faz menos de 1%. E porque temos alterações climáticas, porque estamos no processo de transição energética, nós estamos a mudar a forma como fazemos os transportes e como temos a energia para os transportes. Nos próximos 15 anos, não só nós vamos consumir menos energia nos transportes, porque vamos ser mais eficientes no que estamos a fazer, mas vamos mudar a energia que estamos a meter nos transportes. E portanto, grosso modo, e depois há números que variam um pouco, mas podemos dizer que o que podemos esperar nos próximos 15 anos, até 2040, é que a procura de produtos petrolíferos para os transportes se reduza em 50%.

Que é bastante.

Que é imenso. E isso vai, naturalmente, impactar as refinarias todas. As que temos na Europa e no mundo também, a velocidades diferentes, este é um fenómeno que estamos a assistir. E portanto, o que isso significa? Significa que ou as refinarias se adaptam e fazem outra coisa.

Aos novos produtos que vão seguramente ter um aumento da procura.

Ao mesmo tempo em que a procura por estes produtos, que hoje são os produzidos, os combustíveis fósseis para os transportes, se reduz em 50%, nós vamos precisar de outros produtos para os transportes. Vamos ter muita eletricidade, vamos eletrificar, tudo o que pudermos eletrificar diretamente, eletrificamos diretamente.

Porque isso garante-nos fontes de energia mais limpas.

Porque isso nos garante acesso direto à energia renovável. E portanto, automóveis ligeiros, estamos a ver, são razoavelmente fáceis de eletrificar. Mas depois há áreas dos transportes que nós não conseguimos descarbonizar tão facilmente e continuamos a precisar de combustíveis líquidos. Qual é a solução para descarbonizarmos esses setores? É descarbonizarmos esses combustíveis, ou seja, termos uns combustíveis que são em tudo iguais aos que temos hoje, mas que no seu ciclo de vida eles não tenham o impacto no ambiente, nomeadamente através das emissões de gases com efeitos de estufa.

E é essa mudança que vão fazer em Sines?

E é essa mudança que nós vamos fazer em Sines, é essa mudança que já estamos a fazer em Sines. Nós desde 2017 já coprocessamos e temos vindo a aumentar esse coprocessamento.

Explica-me lá esse palavrão.

Esse coprocessamento era isso que eu dizia há bocadinho, é nós trazermos matéria-prima de biocombustíveis, os tais óleos usados, os tais resíduos de processos, trazermos para dentro da refinaria e junto com o petróleo, nas mesmas unidades, ao mesmo tempo, com o processo, produzirmos o que no final é um produto que tem, na sua origem, uma determinada percentagem de componente renovável.

Mas tem um impacto ambiental muito menor e produz o mesmo efeito em termos de fonte de energia.

Isso. Nós não notamos isso nos nossos carros, nós não notamos isso quando levamos esses combustíveis para a aviação, mas o impacto que esses combustíveis têm em ciclo de vida nas emissões é bastante reduzido, é menos de 65%, menos de 70%, menos 80% de gases de efeitos de estufa.

Na preparação para esta nossa conversa, estive a ver, de facto, o projeto da Galp para Sines, deparei-me aqui com algumas expressões e siglas HVO, o SAF também, e agora pedia-lhe, de facto, que nos descodificasse isto.

Muito bem. Indiretamente, HVO, basicamente é um produto, é como o diesel, é um produto de origem biológica, portanto, a matéria-prima são os exemplos que acabei de dar há bocadinho, e tem a característica de ser um produto que é tão bom ou até melhor nas características físicas do que o diesel Só que tem um efeito nas emissões, tem uma intensidade carbônica muito inferior. E o SAF é a sigla inglesa para Sustainable Aviation Fuels, que é combustível para aviação, é a mesma coisa, mas para aviação, mas também feito a partir de fontes renováveis e, por isso, com muito menos impacto.

Impacto ambiental.

Exatamente.

Deixei-o aí pendurado no final da frase. Ora bem, então o que se vai fazer na refinaria de Sines é deixar progressivamente de refinar os combustíveis tradicionais, chamemos-lhe assim, e passar cada vez mais a produzir estes novos combustíveis que têm um impacto ambiental muito mais reduzido, uma pegada carbônica mais reduzida.

Eu diria assim, esta progressividade é muito importante, porque nós vamos precisar de combustível, e de combustíveis fósseis, durante algum tempo. E precisamos que estas unidades onde os produzimos agora estejam equilibradas no seu processo, mas também economicamente. Portanto, o que nós vamos fazer, e estamos a fazer é, progressivamente, vamos trazendo para a refinaria a produção destes combustíveis renováveis. E eu dizia há bocadinho, em coprocessamento, é uma das formas, mas até mais significativo, e é aí que nós estamos a realizar dois grandes projetos agora, é trazer novas unidades industriais que estamos a construir. São unidades industriais novas, de raiz, na refinaria, portanto, em sinergia com o resto da refinaria, usando a mesma logística, tirando o melhor partido daquilo que já lá temos para produzir de uma forma mais competitiva estes novos combustíveis. E, portanto, por isso é que em setembro de 2023, em setembro do ano passado, no mesmo dia, aquilo a que chamamos, tomamos a decisão final de investimento, foi o dia em que se aprovou na Galp a realização destes dois investimentos, que é um investimento total de 650 milhões de euros, portanto, mais uma vez, é uma grande vaga de investimento, e que complementa naquele caminho que eu digo da fábrica um, da fábrica dois, da fábrica três, e agora estamos a fazer isso. O que é que são essas duas unidades? Uma unidade é uma unidade de hidrogênio. É uma unidade que no dia em que nós tomamos essa decisão final de investimento, era a segunda maior unidade sobre a qual já se tinha tomado uma decisão dessas na Europa, uma das únicas duas na escala da centena de megawatts, e, portanto, é mesmo uma unidade precursora e que vai à frente no hidrogênio. E depois podemos falar um pouco mais sobre isso, por que é importante termos hidrogênio verde na refinaria. Mas, portanto, essa é uma grande unidade, são 250 milhões de euros de investimento. E a outra é uma unidade, a tal unidade HVO SAF, portanto, ela vai poder produzir esse diesel renovável e esse combustível de aviação renovável, não em coprocessamento, mas dedicado, portanto, produto 100% renovável, num investimento de 400 milhões de euros, e os dois estão em construção e contamos que entrem em operação durante o ano de 2026.

2026, aí entrar em operação significa começar a sair produto dali.

Começar a sair o produto, exatamente.

Sérgio Machado, estamos quase aqui a chegar ao fim do nosso tempo da emissão da rádio. Depois desta transição feita, como é que Sines se integra aqui no puzzle energético nacional e europeu também?

O que para mim me parece mais importante neste contexto é nós olharmos para a refinaria de Sines, como poderíamos olhar para outras refinarias na Europa, e vê-las não só pelo papel que hoje têm, e que é, como começámos a nossa conversa, extremamente importante no abastecimento energético atual e na segurança energética, mas vê-los como os melhores candidatos e uma peça fundamental na descarbonização, no caminho da descarbonização. E é exatamente ao contrário. É fácil para uma opinião menos informada diabolizar este tipo de instalações e dizer: "Bem, isso é uma coisa do passado". Não é uma coisa do passado, uma expressão que às vezes se usa é um ativo amortizado, foi construído em 1978.

E já está pago, diriam.

Não está, porque ele tem vindo sempre a evoluir.

Claro. Sim, investimentos recorrentes, como explicou já.

Exatamente. Mas é neste sítio que se têm as competências, a capacidade, até muitas dessas unidades. Eu diria há bocadinho que era progressivamente nós vamos trazendo por coprocessamento, mas depois a seguir o que vamos fazer até é algumas daquelas unidades, uma refinaria são 30 e tal unidades que lá estão agrupadas naquelas fábricas. Algumas dessas unidades, depois de estarem a coprocessar, podem ser convertidas também para a utilização exclusivamente destes combustíveis renováveis. E, portanto, este é um caminho e, de facto, a refinaria de Sines Fruto das decisões que estão a ser tomadas agora, de iniciar este caminho de descarbonização, de ir ao encontro daquilo que é a procura futura de combustíveis, mas também fruto da nossa localização. É um dos melhores candidatos para fazer esta descarbonização.

Muito bem, e é isso então que está a levar a este processo de reconversão da refinaria de Sines. Sérgio Machado, há pouco terminámos a conversa na emissão da rádio a falar da importância ou do papel de Sines e da refinaria de Sines no xadrez, se quiser, no mosaico energético nacional. Ficaram aqui algumas pontas soltas, nomeadamente sobre o hidrogénio verde. O que é isso, para que serve, qual é a importância dele neste processo todo?

Sim, muito bem. Para a refinaria e para nós na refinaria, o hidrogénio é mais uma das matérias-primas que utilizamos no nosso processo. De facto, não só para nós, aliás, a nível mundial, os maiores utilizadores de hidrogénio no mundo são as refinarias, que precisam de hidrogénio para o seu processo e por isso são também, na maior parte das vezes, os maiores produtores de hidrogénio nas regiões onde se encontram. E isso também nos acontece em Sines. Nós já trabalhamos hidrogénio desde que abrimos a refinaria, há bastantes décadas, e à medida que fomos alterando o nosso processo, fomos precisando cada vez mais. E isso faz de nós, atualmente, os maiores produtores e utilizadores de hidrogénio.

Do país.

Esse hidrogénio, nós chamamos, há um arco-íris do hidrogénio e decidiu-se chamar o hidrogénio cinzento. E por quê? Este hidrogénio que hoje produzimos e utilizamos, fazemo-lo a partir de gás natural. E portanto, pegamos nas moléculas de gás natural, separamos para ir buscar esse hidrogénio de que precisamos para o processo. Ao fazermos isso, emitimos CO₂. E a refinaria de Sines, que por si só é o maior emissor de CO₂ em Portugal, é a unidade industrial com maior emissão de CO₂ em Portugal, e portanto, que é evidentemente um tema que nós estamos a endereçar e temos que endereçar, 20% a 25% das emissões da refinaria resultam da produção de hidrogénio. O que o hidrogénio verde nos permite fazer? Permite-nos fazer duas coisas muito importantes, que é ao fazermos hidrogénio cinzento, que é por eletrólise da água, através da utilização de eletricidade renovável, fazemos hidrogénio com praticamente sem emissões de CO₂. E portanto, endereçamos aquilo que são as nossas emissões e que se fizermos a substituição total do hidrogénio cinzento por hidrogénio verde, cortamos os tais 20% a 25% das emissões da refinaria.

Que são resultantes aí, claro.

Exatamente. Portanto, muito importante. Diria que é das formas mais diretas de, em grande escala, abatermos emissões de CO₂. Mas, por outro lado, fazemos outra coisa muito importante, que é trazermos o hidrogénio cinzento para dentro da energia que levamos aos transportes e com isso vamos ao encontro de um mandato europeu, ou seja, cumprimos uma diretiva europeia, que é a diretiva europeia de renováveis, que foi revista e que agora teve a sua segunda revisão, portanto, está na sua terceira vida, é a RED III, Renewable Energy Directive III, que está a ser transposta para a legislação de cada Estado-membro e que obriga que se faça exatamente isto, que se introduza uma percentagem mínima de hidrogénio verde nos transportes e as refinarias, como a refinaria de Sines, é a melhor e a mais eficiente porta de entrada do hidrogénio verde na energia dos transportes.

Como combustível, como fonte de energia.

E depois está incorporado nos nossos combustíveis do dia a dia.

Claro. A utilização destes novos combustíveis, se quiser, ou fonte de energia. Nós, os automóveis elétricos, já sabemos como é que funcionam, basicamente. Quando passamos para estes combustíveis, implica algum tipo de adaptação dos equipamentos? Como é que isto funciona?

Não. Essa é uma das grandes vantagens. O que nós estamos a dizer é, quando começámos a conversa, vamos descarbonizar esses combustíveis. E portanto, o que estamos a fazer são uns combustíveis que são em tudo semelhantes àqueles que já usamos e que por isso podem ser utilizados nos mesmos carros, nos mesmos navios, nos mesmos aviões, mas que esses combustíveis, em ciclo de vida, têm um impacto ambiental muito menor. E ao mesmo tempo que fazemos isso, e claro, com efeito positivo sobre o ambiente, e porque é esse efeito que se procura, também respondemos àquilo que são as nossas obrigações legais. A União Europeia, com estas diretivas, tem vindo a regular e a impor metas de introdução de combustíveis renováveis, de energia renovável na nossa vida e, em particular, de energia renovável nos transportes e, por isso, também nos combustíveis. As refinarias são também o melhor sítio para fazer isso. É isso que nós estamos a fazer e com os investimentos que a Galp está a fazer em Sines, é isso que nos vai permitir, a nós, enquanto parte do sistema energético, mas também ao país, cumprir essas obrigações, esses mandatos europeus.

Claro. Há um tema ainda que tem a ver, obviamente, com o custo da energia, que é fundamental para a competitividade, sobretudo de unidades industriais, sobretudo aquelas que são mais consumidoras ou mais dependentes da energia. Com estas mudanças todas, com os investimentos que estão a ser feitos pela Galp, não só, mas pelas Galp, se quiser, neste projeto de transição energética, devemos esperar um aumento dos custos da energia decorrente destes investimentos ou não? Ou os processos em si são suficientemente eficientes para garantir que não há aqui um choque de preços finais?

Estamos a endereçar aquilo a que se costuma dizer que é o trilema da energia. Temos três problemas que estamos a endereçar ao mesmo tempo. Estamos a endereçar a segurança de abastecimento. Nós precisamos de aceder e não queremos sequer pensar o que é não ter energia quando precisamos dela. E vimos como, eu ia dizer que abanámos, até acho que foi mais do que abanámos, agora recentemente, quando tivemos a invasão da Ucrânia pela Rússia, o que abanámos na Europa.

Sobretudo na Europa Central.

Exatamente, mas com impactos diretos. Portanto, segurança de abastecimento, a competitividade da energia. Nós precisamos que a energia seja competitiva porque ela impacta-nos a todos, impacta a nossa economia e a competitividade da economia, mas também estamos a endereçar o tema ambiental. Endereçamos sempre os três.

E às vezes podemos não conseguir o ótimo nos três, digo eu.

Exatamente. Como é que na Europa estamos a endereçar este equilíbrio? Introduzindo estes mandatos e estas obrigações. Por que nós temos que introduzir isso? Porque de facto os combustíveis fósseis, aquilo que chamamos os combustíveis fósseis, são muito competitivos. Então se pensarmos antes de impostos, a gente quando pensa, claro que pensamos que a gasolina e o gasóleo são caros e gostaríamos que fossem bastante mais baratos, temos que nos lembrar sempre que eles têm uma carga fiscal que duplica o seu custo. E é essa carga fiscal só aqui nos nossos países. Não pensamos normalmente na carga fiscal que já tiveram nos países de origem da matéria-prima, nomeadamente do petróleo.

Ao longo de todo o processo, claro.

De facto, os combustíveis fósseis são muito eficientes e são bastante competitivos, mas nós não podemos só consumir combustíveis fósseis, porque temos o impacto ambiental. Estes combustíveis renováveis são mais caros, só que têm uma externalidade positiva, ou os combustíveis fósseis tinham uma externalidade negativa. Então, para os introduzirmos, porque eles são mais caros, temos que os introduzir com estas obrigatoriedades. Acho que o objetivo da indústria é encarar isto de uma forma bastante séria, é pelo menos o que nós estamos a fazer, e ter um cuidado muito grande com a eficiência dos nossos processos e com a competitividade daquilo que estamos a fazer. Normalmente, as pessoas não têm consciência disto. O sistema de refinação ou os grandes sistemas de energia são extremamente competitivos. Nós vivemos em concorrência, embora sejamos a única refinaria em Portugal, nós enfrentamos concorrência de todas as refinarias do mundo. Elas todas estão a contribuir para o fornecimento destes produtos no mundo.

Ou seja, quem compra em Sines, na refinaria, podia comprar a outro qualquer.

Se Sines não for competitivo, vai perder essa procura para as refinarias que estão em Espanha, ou para as refinarias que estão em França, ou para as refinarias que estão na costa ocidental africana, ou no Médio Oriente, ou no Extremo Oriente. Estes produtos viajam relativamente bem e estão sob esta enorme competitividade. E nos renováveis vai ser a mesma coisa. O que nos cabe a nós é sermos competitivos, porque temos que isso fazer, porque nos cabe, porque somos agentes responsáveis no mercado, mas também porque se não o fizermos, não vamos ter hipótese.

E para terminar esta nossa conversa, desta reconversão de uma refinaria, como é que é feito, por exemplo, com os técnicos, os engenheiros, eles são reconvertidos também? Há uma aprendizagem constante destas mudanças?

São. Eu diria que as pessoas, e não é aquela frase comum, as pessoas são de facto o mais importante. As nossas pessoas são as pessoas que sabem operar com estes processos. Nós não seríamos a empresa que está a fazer um dos maiores eletrolisadores do mundo, um dos maiores projetos de hidrogénio verde do mundo e um dos grandes projetos de biocombustíveis avançados do mundo, se não tivéssemos o know-how das nossas pessoas. E neste mundo de transição energética, nós estamos a recrutar em Sines. Nós tivemos, agora, já este ano, a entrada de um número significativo de novos operadores para a refinaria de Sines, para operarmos estas novas unidades. E como é que nós estamos também a fazer isto? Nem todos os novos operadores vão diretamente para as novas unidades. O que nós estamos a fazer é: alguns virão para as novas unidades, muitos deles virão para as antigas unidades e das antigas unidades vamos trazer essa experiência para as novas unidades. E é isso mesmo que queremos continuar a fazer.

Muito bem, vamos ficar então à espera também, obviamente, da concretização desses investimentos. Sérgio Machado, obrigado pela presença neste nosso episódio do "ADN da Energia" e pelas explicações que nos deu sobre este projeto de reconversão da refinaria de Sines. Nós terminamos aqui, agora também em podcast, este episódio, mas voltaremos proximamente com um novo tema e novo convidado. Até lá.