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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus!

Paulo, e tudo isto só para tentar contrariar a proposta do Chega para as pensões?

É verdade, é isso que diz André Ventura. O líder do Chega não faz isto por menos, como é evidente. E diz que o governo só pediu o estudo sobre a Segurança Social e resolveu divulgá-lo logo agora, só para pintar um cenário mais negro nas contas das pensões e então conseguir justificar porque é que não quer baixar a idade da reforma. Foi isto que Ventura disse na rentrée do seu partido. Ele e o Chega estão no centro de tudo e o governo só pensa e age para tentar contrariá-los. Isto independentemente do calendário não bater certo, porque o estudo foi pedido há muito tempo, há cerca de um ano, talvez mais até. E o Chega só se lembrou desta ideia peregrina das pensões há dois ou três meses. Bom, o certo é que a proposta do Chega faria mais para desequilibrar a Segurança Social do que certamente alguns efeitos da demografia. Aí sim, o nível das reformas poderia ficar em risco se nos reformássemos mais cedo. É que nestas coisas a matemática não nos engana.

E perante o impasse dos políticos, Paulo, os portugueses vão fazendo pela vidinha?

É, muitos cidadãos vão percebendo que é importante ter um complemento de reforma e que esse complemento tem que estar em produtos de poupança tradicionais, já que não há maneira de o governo ou o parlamento criarem novos produtos que sejam mais adequados, eventualmente, a esse fim. Já são cerca de 2 milhões os portugueses que têm PPR, os Planos de Poupança Reforma, e têm lá aplicados quase 19 mil milhões de euros. Este montante é cerca de um terço daquela chamada almofada da Segurança Social de que se fala agora. E em certificados de aforro, um produto diferente, atenção, não é desenhado para a reforma, mas também é um produto de médio e longo prazo, com benefícios a médio e longo prazo. Os certificados de aforro, emitidos também pelo Estado, aí há cerca de 50 mil milhões de euros aplicados pelos portugueses, que é precisamente o montante dessa almofada da previdência. Portanto, os que podem já vão tomando precauções, os que podem estão alerta. O problema é sempre, basicamente, os que não podem.

A negociação do Orçamento do Estado já começou.

Já começou, em pleno período de férias. Esta coisa percebemos que os políticos não metem férias.

Agora houve as rentrées.

Houve as rentrées em meados de agosto. Mesmo quando parece que estão de férias, os políticos não estão de férias.

Voltam sempre.

E os telemóveis não param, de facto. José Luís Carneiro avançou com quatro áreas essenciais para que o PS permita que o orçamento passe no Parlamento. Basta, neste caso, a abstenção. A saber, uma revisão constitucional feita com o PS e não com o Chega, pensões públicas protegidas e Segurança Social fora da privatização. Cá está a discussão da Segurança Social, sempre a voltar aqui a intrometer-se no orçamento. Dinheiro para concluir investimentos do PRR que foram ficando para trás e apoios às vítimas das tempestades, a terem que chegar às famílias, empresas e autarquias. Bom, em princípio, serão condições fáceis de cumprir por parte do governo. No caso da revisão da Constituição, o PS nem se opõe sequer a uma participação do Chega no processo, mas quer um acordo prévio, se quisermos, com a AD, que era obviamente uma situação de privilégio nesta negociação. Com um orçamento que, em princípio, estará também despojado de medidas de política, como aconteceu no último ano. A negociação passou agora para fora do documento e cá está, para o momento antes ainda deste ser elaborado.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus!