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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Calma é que parece que não vai acontecer este verão, pois não, Paulo? Vai ser um verão muito conturbado nas praias portuguesas.
Adivinha-se isso.
Eu já comprei dois chapéus. Dois. E espreguiçadeira também.
Laranjo.
A grande questão é onde é que os vais espetar quando chegares à praia.
No avante e para o lado das consolas.
Exato. É que parece, de facto, que estão criadas todas as condições para nós, durante este verão, termos aqui uma espécie de guerra civil nas praias. As palhotas e os toldos alugados contra os chapéus de sol que são levados de casa. Este era um problema que não existia, quer dizer, independentemente do que diz a lei, as praias estavam organizadas, não consta que houvesse conflitos, reclamações ou até falta de espaço para todos poderem levar o seu guarda-sol e instalá-lo nos locais indicados. Mas a Agência Portuguesa do Ambiente veio explicar, de facto, que a lei não proíbe nada e a lei é o quê? Nada a fazer. E apostamos então que este verão vai haver muitos conflitos que antes não existiam, porque vai haver muito cidadão que quer exercer o seu direito, que a lei lhe permite, é claro, e que ele não sabia.
Eu já tenho vários printscreens.
Exato.
Exato.
E pode escolher o que tu queres.
E pode escolher.
E vais ali mesmo ao toldo 17, que é o local ideal para colocar.
Vou estampar na toalha ou no toldo.
E dizer assim: "Está na internet, eu tenho direito."
Está na internet. Ora bem, portanto, tudo isto cria um problema, que acaba por ser um problema fútil, que não existia, mas como obviamente o país não tem problemas graves para resolver, este pequeno problema sempre vai animando o verão.
É a season.
Claro.
Por falar em trabalhos por resolver, Bruno, há quem trabalhe em dia de greve geral?
Não há. Olha, nós aqui somos a prova viva de que há quem trabalhe, mas claro, não somos os únicos. Carlos Moedas manteve na agenda uma reunião da Câmara de Lisboa para o dia de hoje, o que suscitou fortes críticas de PS, PCP e Bloco de Esquerda, que falaram em pressão e desrespeito em relação aos trabalhadores. A Câmara também, na verdade, não parece muito convencida, porque pôs a hipótese de a reunião não se vir a realizar, caso à hora marcada não haja condições para o fazer. Portanto, foi uma reunião marcada, mas sem grande convicção. Foi só mesmo para criar um certo alvoroço e esse objetivo foi alcançado, porque os vereadores do PS garantiram que estarão presentes, mas sob protesto contra o que consideram ser o desrespeito pelos trabalhadores da autarquia. O PCP terá mesmo chegado a pedir o adiamento da reunião, mas sem sucesso, e o Bloco de Esquerda falou em grave afronta aos trabalhadores. E assim, entre greves e afrontas graves, se vão entretendo os nossos representantes em dia de greve geral.
Paulo, por que deixamos sempre tudo para a última da hora, para fazermos em cima do joelho?
Porque de outra forma não seríamos nós. Seríamos outro país qualquer, não era Portugal. Veja-se este caso mais recente, o da prestação social única, que está agora em discussão em ritmo acelerado. O país está vinculado à criação desta prestação quando assinou o PRR, o Programa de Recuperação e Resiliência. Aquela bazuca, lembram-se, que trouxe muitos milhares de milhões de euros quando António Costa estava com Ursula von der Leyen nesta assinatura e ele pegou naquele cheque grande e disse: "Já posso ir ao banco levantado o cheque."
A sequência pandemia.
Pandemia, exatamente.
Pandemia, PRR.
Desde essa altura que nós, Portugal, o governo ou os governos, sabem que tinham que criar esta prestação social única, porque se comprometeram nesse momento. Isto foi formalmente assinado no dia 18 de janeiro de 2022, portanto, há quase quatro anos e meio. É claro que os governos de António Costa nada fizeram para cumprir esse compromisso, os de Luís Montenegro também nada até agora, e só agora à última hora estão a tratar do assunto, senão o país perde 620 milhões de euros que estão destinados no PRR à medida, isto é, para implementar essa medida, e por isso a criação desse apoio social está agora a ser tratado com caráter de urgência no Parlamento. O Parlamento aprovou ontem, de facto, o caráter de urgência. O governo tem poucos dias, alguns dias para apresentar a proposta aos deputados e isto vai ter que acontecer tudo em semanas, aquilo que não foi feito em vários anos. Depois, daqui a uns tempos, vamos perceber que provavelmente a lei está mal feita, tem ali um detalhe ou outro que não devia lá estar. Enfim, Portugal. Olé!
Olha, Bruno, eu tenho um sonho.
Tens, Carla.
Tenho.
Partilha.
Alguma vez teremos-- um anjo, esse é o anjo da guarda. Alguma vez teremos todos os portugueses com médico de família?
Que doce ilusão, Carla, que belíssima utopia. A resposta, já todos sabemos, é não. Nem vale a pena perder tempo com promessas, o melhor é traçar novos objetivos. Por exemplo, um médico de família, mas para cada família, não para cada utente. Ou então um médico de família por cada prédio. Eu acho que era uma boa solução, os médicos de prédio, porque assim, bem, não sei, se calhar também não havia médicos suficientes. Ou de condomínio. Bem, vamos aos números. Em abril, o número de utentes sem médico de família voltou a aumentar. São mais 22 mil do que no mês anterior, 1.646.279 utentes sem médico de família. É um número que tem aumentado quase todos os meses. Em seis dos últimos sete meses foi isso que aconteceu e parece não haver forma de contrariar a tendência. Ou até poderá haver. A Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar acredita que a implementação de algumas medidas, como uma maior flexibilidade na mobilidade dos médicos, poderia contribuir para a inversão destes números. Ou seja, há quem não deite já a toalha ao chão, mas a força dos números torna quase inevitável a desistência e aquela certeza de que nunca, mas nunca vamos ter um médico de família para cada utente.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.