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A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta, essa.
E hoje falamos da difícil gestão das manifes. Votar é preciso, saúde no boletim de voto. Mas para começar, Paulo, o que queremos nós das eleições que ninguém quis?
Ora bem, cada um de nós quererá alguma coisa. Em concreto, terá o seu resultado preferencial, obviamente, mas para o país, diria que o mais importante é que saia daqui uma solução de governabilidade clara, que não deixa o governo preso por molas durante muitos meses. Até porque durante os próximos 12 meses o Parlamento não vai poder ser dissolvido. Não podemos então realizar novas eleições. E mesmo que a Constituição permitisse.
O Bruno está nostálgico.
Já estou muito habituado a eleições todos os anos.
Tu gostas é deste circo. Está mais que visto. Responsabilidade para o país, esquece. Não, mesmo que a Constituição o permitisse, tem aqueles prazos constitucionais que impedem o presidente que sai e o presidente que entra dissolver durante meio ano. Andar com eleições todos os anos acho que não é vida para ninguém, a não ser para o Bruno.
Eu gosto.
Tu gostas, claro. E a avaliar pelas declarações dos últimos meses, nenhum partido queria estas eleições, mas elas aí estão. Por mais que também resistam a entendimentos que garantam uma solução estável para a governação, os partidos devem obrigar-se a criar essas condições. Aos 50 anos de democracia, já vai sendo tempo de sermos adultos a esse nível, de criar alguma estabilidade e deixar, no fundo, brigas, que muitas vezes são artificiais, de lado.
Entretanto, coloca-se também agora aqui uma questão, Bruno, que é o efeito que terão os problemas de saúde de André Ventura nos resultados das eleições.
Isto, Carla, como dizia o outro, é uma faca de dois legumes, porque a primeira indisposição de André Ventura na noite de terça-feira foi muito mobilizadora. Mobilizou os adeptos, os fanáticos do líder do CHEGA e os críticos, de igual forma, e terá suscitado a compaixão de alguns, o desprezo de outros, que alinharam em teorias da conspiração. Para a maioria das pessoas, foi um momento de fragilidade do líder do CHEGA e que até o poderá ter humanizado aos olhos dos eleitores. Mas um segundo momento de crise já é mais complicado, porque a empatia pode dar lugar à ideia de que André Ventura está afetado, não está em condições, que está numa situação de grande fragilidade. Todos nós gostamos de sentir apoio nos momentos difíceis, mas também ninguém gosta que tenham pena de nós. Saber o que vai prevalecer será determinante para avaliar o efeito eleitoral destes achaques de André Ventura.
E entretanto temos que refletir. Ainda bem que temos amanhã o dia para refletir. Que programa é que podemos ter agora para domingo? Votar ou testar a temperatura da água do mar? Podemos refletir na praia.
Pode-se refletir na praia amanhã.
A questão é no domingo. No domingo, o que é que fazemos?
O dia mais estúpido sempre, que é o dia de reflexão, pode ser passado na praia.
Isto por que nunca é mais é mudado?
Tu sabes que nós gostamos das coisas.
Nós queixamo-nos sempre.
É preciso mudar a lei, só.
Eu acho que é um dia de descanso para os políticos, que estão há duas semanas na pressa.
Mas eles que descansem.
Eles podem descansar à vontade.
Agora o que é que se faz? O que é que fazemos no domingo?
Essa dualidade entre votar e ir à praia, Carla, eu diria que as duas coisas não são incompatíveis. Até os homens conseguem fazer as duas coisas.
O dia tem 24. Estar a apanhar sol e a pensar.
Podemos fazer as duas coisas, sobretudo se a praia estiver ali pertinho. Sábado e domingo, de facto, vão ser, amanhã e depois, os dias mais quentes do ano até agora, com temperaturas que já poderão chegar aos 25°C e com as saudades de praia, que muita gente já tem nessa altura do ano, a tentação de ir ali dar um mergulhinho pode ser muito grande.
E mais, já há sardinhas.
Ainda por cima já há sardinha e caracóis. Vocês não falem disso. Vamos esperar que isso não seja desmobilizador para alguns eleitores, porque a abstenção elevada é de facto um dos problemas que temos para combater. Se os partidos não queriam estas eleições, o melhor que os cidadãos têm a fazer agora é dizer que eles, partidos, não percebem nada disto e os eleitores têm que dizer que não desprezam nenhuma oportunidade de dizer que rumo querem ao país e ir votar. O Bruno gosta disto.
Eu gosto.
Olhem, linda pela voto. E por falar em sardinhas, o ERCT.
O ERCT.
Não se pode manifestar. Sardinha é rija?
Sardinha é carnada.
O problema não é a sardinha.
Pensa em sardinhas. Não se pode manifestar no Martim Moniz hoje.
Porque isto ainda não é domingo, ainda não é dia de reflexão, hoje ainda há campanha. Mas de facto, Carlos Moedas, o presidente da Câmara de Lisboa, respondeu negativamente ao pedido de manifestação do partido, que é uma ação de campanha que estava agendada para o final do dia de hoje na Praça do Martim Moniz e que assinalava o final da campanha. A Câmara levou em conta o parecer da PSP para desobjetar a realização da manifestação e comício, tendo em conta o risco real e fundado de perturbação da ordem pública. Mas Carlos Moedas foi mais longe e considerou que a manifestação seria uma afronta à dignidade de comunidades residentes em Lisboa e ameaça à convivência democrática. Isto porque o ERCT, de Rui Fonseca e Castro, previa o consumo público de carne de porco, que é o que consta do parecer da PSP, e a exibição da cruz cristã. O partido, entretanto, diz que vai manter a manifestação. Toda a gente sabe qual é a intenção do ERCT ao realizar a manifestação no Martim Moniz. Sobre as tendências violentas de alguns elementos ligados ao partido, também ficamos esclarecidos no 25 de Abril, mas é preciso muito cuidado ao andar sobre o gelo fino das proibições de manifestações partidárias, sobretudo nesta altura, para que não se crie a ideia de que há partidos com menos direitos do que outros.
A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar.
É uma boa pergunta, essa.