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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte com um princípio errado?
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Paulo, não sei se tens mais o que fazer, mas eu tenho uma pergunta pra te fazer.
Então vá, força.
O mapa eleitoral já não é o que era.
Já não é o que era. Nós fomos nos habituando, pelo menos uma certa geração, a olhar para um mapa muito organizado, aquele mapa pintado com as cores dos partidos que vencem em cada conselho. Estava muito organizadinho ali durante umas décadas com as cores dos partidos mais votados e agora quem olha pra aquilo parece um Vieira da Silva. As cores não têm ordem, pelo menos não têm uma ordem aparente. No caso dos artistas, aquilo tem uma lógica. Nós é que podemos não percebê-la. Bom, antes víamos o interior, centro e norte do país, sobretudo laranja, zona clara do PSD. O cavaquistão de Viseu vem por aí, mas era um cavaquistão alargado a todo o interior. O litoral centro e as áreas mais urbanas eram mais cor-de-rosa, em plantação maior do PS. Havia muito vermelho no Alentejo, era quase todo vermelho, e algumas zonas da margem sul de Lisboa também. Que também é Alentejo. Muitas, quase todas. Que também é Alentejo, nós é que nos esquecemos que aquilo é Alentejo.
E sempre teve esse tráfego e essa ligação muito forte com a população migrante do Alentejo.
Que vinha, exatamente. E a ligação também entre a cintura industrial e a agricultura, se quisermos, e o país mais agrícola do Alentejo, do latifúndio. E depois o Algarve, que era muito matizado rosa e laranja. E depois aqui e ali havia, sobretudo ao centro, pequenos toques azul do CDS, algumas câmaras que o CDS ia ganhando.
E agora o quadro é diferente.
Agora é uma confusão.
Tudo ao molho em fé em Deus.
Tudo ao molho em fé em Deus, há tudo em quase todo lado. O PS ganha muito no interior. Olhamos pro mapa agora e o laranja mistura-se com o rosa de uma forma quase perfeita. O Algarve é quase todo socialista, mas até o PSD já ganha no Alentejo. Portanto, o vermelho da CDU desapareceu praticamente do Alentejo e até já há laranja, depois muito rosa, como é evidente, mas muito laranja também no Alentejo. Imagine-se. O Chega, recém-chegado, é escasso ainda e é disperso, não tem uma lógica regional ainda.
É escasso no número de câmaras.
Três câmaras. Ainda não se nota no mapa.
A votação aumentou bastante em todo o país. Aliás, como o número de eleitos.
Claro. O Chega, por acaso, teve uma tendência fortíssima regional, se quisermos geográfica, nas legislativas. Muito Alentejo e Algarve. Aqui não se nota tanto. Há uma câmara no Ribatejo, outra no Algarve e outra na Madeira.
Paulo, e estás a falar em geografia de cito, ou dizes vermelho, ou dizes vermelho. Disseste as duas coisas. Ou é Viseu ou é Lisboa.
É pra agradar toda a gente.
Estás a ver o diabo a puxar-me para o erro do vermelho.
Joelho.
Portanto, resumindo, já não se fazem mapas eleitorais como dantes.
E ainda falando de autárquicas, Bruno, para Pizarro, não houve duas sem três? A corrida à Câmara do Porto esteve longe de ser um passeio no parque para Pedro Duarte. Durante algum tempo até se julgou que a vitória poderia ir para o candidato do PS, mas de fato ainda não foi desta que Manuel Pizarro chegou à presidência da Câmara e pode ter sido mesmo a melhor oportunidade para conseguir esse objetivo, visto que Rui Moreira, o anterior presidente da Câmara chegava ao fim do seu terceiro mandato. Havia aqui uma oportunidade para quem lhe quisesse suceder. Mas Manuel Pizarro, que já se tinha candidatado duas vezes, ainda foi a terceira e continua sem conseguir. Não foi, e muito longe disso, uma derrota humilhante. O PS e o próprio Manuel Pizarro saem mais ou menos ilesos desta disputa em particular pela Câmara do Porto. O maior problema, não tanto aqui para o candidato como para o partido, é que já são muitos anos que o PS se vê afastado da liderança da segunda maior cidade do país. Cumprem-se 28 anos em 2029, portanto desde 2001 que o PS não tem um presidente de câmara no Porto. E a pergunta que se pode fazer é se estes votos agora amealhados, por assim dizer, poderão servir para ainda uma outra tentativa de Manuel Pizarro ou outro nome forte do PS para conseguir recuperar, ou tentar conseguir recuperar a câmara em 2029.
É o persistente.
Vamos ver se vai à quarta vez.
Claro.
Paulo, e ainda outra pergunta: este país não é para mulheres?
Não, pelo menos o país autárquico não é. Não, estas autarquias não são pra mulheres, claramente.
São pouquíssimas.
51 apenas, dizemos nós, que foram eleitas presidentes. Já agora encontrei três números diferentes em várias órgãos de comunicação social. Encontrei 51, 40 e 47. Então, quando há dúvidas, fazemos uma coisa: pegamos na lista do Ministério da Administração Interna e contamos. Havia uma, duas, três, 51. Contei.
E mesmo assim, olha que me surpreende, porque pensei que eram seis mulheres.
Que eram mais.
Até agora eram 30 as mulheres que presidiam câmaras municipais, e estas 51 correspondem a cerca de 16% do total, que são 308 municípios. Açores, Faro, Porto, Setúbal e Vila Real têm mais presidentas, se quisermos usar aqui a terminologia mais brasileira. Dilma Rousseff era presidenta.
E Pilar del Río também fazia questão de ser tratada por presidenta da Federação Sorama.
E naturalmente o PS e o PSD também têm mais mulheres, têm mais câmaras também, portanto 22 câmaras municipais. Aqui estão empatados
No acesso. Mas 16% ainda é tão pouco e há muito a fazer ainda aqui no acesso das mulheres à política.
E o Nobel da Paz para Trump está escrito nas estrelas, podia ser um novo romance do Nicholas Sparks.
Do Nicholas Sparks, escrito nas estrelas, o Nobel da Paz. Para sermos honestos, Trump não merece menos do que Barack Obama, que menos de um ano após chegar à Casa Branca recebeu o galardão. Devia ser um wishful thinking, no fundo, desejava-se que ele contribuísse para a paz, mas não tinha feito nada, honestamente, para merecer o galardão naquela altura. A questão é saber se quem atribui o prémio Nobel da Paz vai conseguir ultrapassar os preconceitos que uma boa parte do mundo tem em relação a Trump. E também vai ser preciso ver se este plano de paz tem resultados duradouros.
Ele está otimista, não é?
Claro, ele está espetacularmente otimista, é amazing. Diz que se inaugurou agora uma época de fé, de esperança e de Deus. Vamos ver quanto tempo é que isto dura. Os primeiros sinais são, de facto, promissores, mas já vimos os falsos amanheceres muitas vezes no Médio Oriente. Basta um pequeno percalço, um pequeno incidente e volta tudo ao mesmo. Mas é justo também dizer que nos últimos tempos ninguém fez mais pela paz efetiva no Médio Oriente do que Donald Trump, mesmo que ele possa estar mais interessado no Nobel da Paz do que na paz propriamente dita. E é a prova que, afinal, Deus, que Trump mencionou, até pode escrever direito por linhas tortas. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente. Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.