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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Penso tanto no Aguiar Branco às 04:00, quando estou a dormir.

Ainda ontem um ouvinte me falava disso. É muito bom este.

Vai sempre para o telemóvel: calma.

Este indicativo.

Paulo, está tudo esclarecido sobre a nova prestação social única?

Está tudo explicado, como se costuma dizer, está tudo tratado e nada resolvido ou qualquer coisa assim. Neste caso, está tudo explicado e o diploma até foi aprovado ontem em votação final no Parlamento. O PS absteve-se e viabilizou, claro, viabilizou esta nova prestação, isto depois de se ter entendido com a bancada da AD. Antes disso, ainda houve ali durante algumas horas, durante quase um dia, algum ruído sobre a obrigatoriedade ou não dos beneficiários prestarem serviços de cariz comunitário e social. Mas as duas bancadas esclareceram ontem devidamente o regime que acordaram. No fundo, para as pessoas em idade ativa, em condições para trabalhar, deve haver disponibilidade para essas tarefas e as recusas têm que ser depois analisadas caso a caso. Portanto, está tudo pronto para fazer a mudança e para o país receber um chequezinho de 500 milhões de euros do PRR, que dependiam desta medida. Mas agora falta o mais complicado, que é fazer uma aplicação da lei que seja escorreita, que seja transparente e que de facto sirva os cidadãos.

Calma.

Que é uma coisa de cada vez.

Calma. Isto está resolvido, não é?

Está resolvido. Próximo tema.

Próximo. Há mais uma mudança a caminho. Precisamos de novas regras na contratação pública?

A experiência de muitas décadas diz-nos que sim. Aqui trata-se da forma como o Estado, no fundo, contrata, sobretudo a execução de obras públicas. Não se trata das compras de produtos ou serviços, mas de, no fundo, lançar projetos e ter quem os faça. Uma das principais mudanças é que deixa de ser obrigatória a existência de um preço base. Se pensarmos bem, no fundo, era anacrônico que o comprador, o dono da obra, neste caso, que é o Estado, dissesse à partida que o preço tinha que ser superior a um determinado montante. Então, vamos pensar: mas quem contrata uma obra não quer que ela seja o mais barato possível? Então por que vai logo meter um mínimo de valor? Parece-me lógico isto. A qualidade da proposta também passa a ter mais peso na avaliação face ao preço. O processo burocrático vai ser mais simples e se a entidade pública que está a contratar não disser nada no prazo de 30 dias, considera-se então uma aprovação tácita. No fundo, é para pôr as entidades públicas a decidir mais depressa. Não deixarem ganhar pó na secretária de dossiês que às vezes duram meses.

Portanto, passa a haver prazos.

Passa a haver prazos, e prazos com esta decisão de facto. Não dizendo nada, considera-se aprovado. Ponto. O diploma foi aprovado ontem em Conselho de Ministros, vai para promulgação agora do Presidente da República e basicamente já vem tarde.

Paulo, então pão de pobre cai sempre com a manteiga para baixo.

É verdade. É um provérbio brasileiro que conhecemos, que infelizmente tem uma aplicação prática demasiado frequente. Volta a acontecer agora na Venezuela, com este sismo ou este duplo sismo.

Foi um a seguir ao outro.

Sismos gémeos, ouvi hoje na história do dia, que provocaram esta devastação e uma perda de vidas humanas que ainda estamos muito longe mesmo de conhecer em toda a extensão. As autoridades, no fundo, vão contabilizando oficialmente o número de vítimas pelos cadáveres que têm, que já estão identificados.

Há pessoas muito mais debaixo dos escombros.

A questão são os desaparecidos. Eu vi que, neste momento, são como desaparecidos.

Nesta altura ainda há pessoas com vida, ainda há um tempo para o socorro.

Exatamente.

Mas o tempo está a contar.

Sempre, é verdade.

É terrível.

E claro que estamos aqui a falar de um povo pobre, martirizado por décadas de ditaduras corruptas, com políticas ruinosas, num país que até é rico em recursos, a começar pelo petróleo. E por isso mesmo, as condições de resgate e auxílio às populações também não são as de primeiro mundo, a começar pela construção dos edifícios. Isto é todo um ciclo vicioso. E é um ciclo vicioso de pobreza.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus