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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Paulo, estamos a caminho da normalidade orçamental?

Estamos lá quase. Está a avaliar pelos desenvolvimentos mais recentes, nomeadamente de ontem e dos últimos dias. E o que se pode chamar a isto de normalidade orçamental? No fundo, é ter um documento que reflete os impactos financeiros das leis e dos projetos do país e das medidas do governo, obviamente. No fundo, as receitas e despesas previstas para o Estado. Não precisamos de um orçamento de Estado que seja uma espécie de árvore de Natal, em que cada bancada parlamentar quer decorar com os seus enfeites próprios e com presentinhos para toda a gente. Também não precisamos que o orçamento de Estado seja uma espécie de moção de confiança anual ao governo, dependendo da aprovação do documento, a continuidade do governo em funções ou não. E foi isso que aconteceu durante muitos anos em Portugal. Também estamos a chegar lá. A este nível, o PS já anunciou que vai viabilizar o orçamento do próximo ano com a abstenção. E depois, obviamente, o PS e o resto da oposição e o país julgarão o governo pela sua execução e resultados. E é assim que deve ser, como evidente.

Claro. Bruno, e o Volta tem de dar uma volta ao lixo?

É, Luís, o governo quer que a empresa gestora do Volta dê uma volta e até deu um prazo para a resolução do problema. Um problema criado pela solução que o Volta criou para as embalagens. Em várias cidades, começou a acontecer aquilo que aparentemente ninguém esperava. As pessoas passaram a procurar as embalagens dentro de caixotes do lixo e dos contentores para receberem os 10 cêntimos do depósito. E quando retiram essas garrafas e latas, acabam muitas vezes por deixar o resto do lixo espalhado na rua. Portanto, não se trata aqui da intenção de acabar com o sistema, porque aparentemente estará a correr bem. Há 400 milhões de embalagens devolvidas, embora também não se saiba quantas é que foram lançadas no mercado nesse tempo para se ter uma ideia da taxa. Porque 400 milhões pode ser muito ou pode não ser assim tanto. Mas de qualquer forma, a intenção não é acabar com o sistema, mas de mitigar os problemas, quer materiais, logísticos, por assim dizer, quer sociais que ficaram à vista com este sistema. Para as pessoas em situação vulnerável, pessoas que estão sem abrigo, os 10 cêntimos aqui e 10 cêntimos ali significam a diferença muitas vezes entre ter uma refeição ou não ter. E podemos dizer que o problema social já existia, que a diferença é que agora está à vista de todos, mas não deixa de ser um problema real, tal como o problema do lixo espalhado pelas ruas, e alguém vai ter de o resolver, inevitavelmente.

E voltamos a falar de habitação, Paulo. O Estado continua a ser um mau proprietário de casas?

Continua a ser péssimo. Ainda ontem o Parlamento discutiu propostas para alterar o arrendamento e sabemos a crise de habitação que se arrasta há anos no país, mas o Estado é dono de muitos imóveis e basicamente não sabe o que lhes fazer. O Tribunal de Contas fez as contas dos 3059 imóveis, portanto um pouco acima dos 3 mil imóveis da Segurança Social, 640 estão devolutos e 380 encontram-se ocupados indevidamente, ou seja, cerca de um terço do património da Segurança Social está sem utilização. Pior, o número de imóveis devolutos subiu 14% de 2024 para 2025. Portanto, é uma realidade que ainda se está a agravar. Podíamos ter estes números, mas a tendência ia ser ao contrário, mas não. Cada vez mais imóveis sem utilização. E o Estado sabe muito bem, aparentemente, como é que cada proprietário deve gerir os seus imóveis, e basta ver a quantidade de leis que são feitas para proprietários, mas é incapaz de gerir os seus e de lhes dar uma utilidade digna.

Bruno, vamos ter um três toques dedicado a isto, um campeão especial também depois das nove.

Não se fala de outra coisa.

Não se fala de outra coisa, também. É o fim da linha para Cristiano Ronaldo na seleção.

Parece que sim, Maria João. Muito dificilmente, vendo aquilo que aconteceu, poderá haver aqui uma alteração. Teria de acontecer uma grande reviravolta para que voltássemos a ver Cristiano Ronaldo na seleção, mas nunca se sabe.

São duas pessoas com muita personalidade.

Muita personalidade e também está aqui no meio uma federação que eu não sei se tem realmente a capacidade ou o poder para inverter esta situação. Só que, olhando para tudo o que aconteceu ao longo do tempo, dificilmente isto poderia acontecer de outra maneira. Os sinais já estavam lá desde sempre, de forma mais evidente no mundial do Qatar, ainda com Fernando Santos. Esse conflito e o desfecho demonstrou claramente na altura onde é que se encontrava o poder. Ficou Ronaldo, saiu Fernando Santos. E depois o consulado de Roberto Martínez veio prová-lo. O treinador espanhol chegou com uma missão diplomática, praticamente, não de tanto treinador, mas como de diplomata, para dar a Cristiano Ronaldo todas as condições que o jogador julgasse necessárias para representar a seleção, fosse isso ou não o melhor para a equipa. Vimos isso inúmeras vezes. Mesmo quando o bom senso aconselhava uma gestão diferente do tempo de Cristiano Ronaldo no relvado, em campo, Roberto Martínez acabava por fazer o contrário. A insistência na titularidade de Cristiano contra todas as evidências foi a prova de quem, de facto, mandava na seleção era o jogador. E isso fazia adivinhar um choque com o treinador com o perfil de Jorge Jesus, mesmo que os dois já se conhecessem da Arábia Saudita, porque Ronaldo nem mesmo nesta fase final da carreira aceita apenas ser mais um, viu-se isso agora, e isto só podia acabar mal. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.