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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte com um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Até tu, José Luís Carneiro.

Até José Luís Carneiro. Em tempos de guerra, não se limpam as armas, nem as matas, as matas não se limpam nunca, e cita-se muito sem olhar a quem. É uma boa altura para citar, ou então ao olhar muito bem a quem se cita. Ontem tivemos José Luís Carneiro a citar Cavaco Silva. Onde é que isto já escorregou? É verdade. O secretário-geral do PS criticou as medidas do governo para fazer face aos incêndios, disse que eram medidas avulsas, e acusou o executivo de falta de uma visão abrangente e coesa para todo o território. E lá acabou então a citar Cavaco Silva, o antigo primeiro-ministro social-democrata, que já disse uma vez: seis meses depois de um governo estar no poder, se ainda se desculpa com a herança recebida, então é porque é um governo incompetente.

Que governo não o faz?

Pois é, fazem todos, mas há este prazo determinado por Cavaco Silva e ele lá sabe do que fala. E diríamos que assim, ao citar uma das grandes referências do PSD, o objetivo de José Luís Carneiro é que as suas críticas, as suas palavras, doam mais ou tanto do que pedras atiradas aos adversários políticos.

É verdade, mas olha que eu acho que a culpa disto tudo é de Passos.

Ainda não chegámos lá. A citar o Passos Coelho é que já é um passo longe demais.

É a seguir. Paulo, e o que está mal pode sempre ficar pior? Eu acho que sim. Aliás, os brasileiros têm um provérbio, um dito que eu acho uma delícia, que é: o pão de pobre cai sempre com a manteiga para baixo.

Não está longe da verdade.

Não está longe da verdade. E neste caso, não estamos a falar de pão de pobre, estamos a falar de incêndios, de regiões desfavorecidas, desertificadas, empobrecidas, enfim, um retrato daquilo que é o interior do país. Sabemos agora, estatísticas feitas, que o incêndio de Arganil e de Piodão é o maior de sempre alguma vez registado em Portugal, em área ardida.

E foi impressionante ver como ele foi galgando concelhos e concelhos, dias a fio.

Dias, noites, por aí fora, sem conseguir ser travado. E, portanto, destruiu uma parte do território muito importante. E isto é um ciclo vicioso, de alguma maneira, porque são zonas desertificadas, onde há cada vez menos pessoas. Por isso também, e isso é uma das causas atribuídas a este tipo de incêndios, é precisamente esse certo abandono de terras, da floresta. Não há lá pessoas para tratar delas, as pessoas estão cada vez mais desligadas daquelas áreas. São áreas que por isso ficam mais vulneráveis e expostas ao risco. Depois chegam os incêndios e fica tudo ainda pior com o impacto dos incêndios, fica tudo mais pobre, menos capacidade económica. São áreas onde o turismo acaba por ter alguma importância, turismo de natureza, precisamente. E agora vai haver muita gente durante dois ou três anos que não vai querer ir para aqueles locais, como é evidente, porque é tudo menos agradável. Para já, durante uns meses, o cheiro a queimado e depois a paisagem cinzenta. E, portanto, não se vê como é que se quebra esta espiral de empobrecimento, em que, de alguma forma, o abandono leva ainda a mais abandono e a condições económicas ainda piores.

Mas isto não é só azar, pelo que dizes. Não é só por acaso que o pão do pobre...

Aí é azar.

Cai sempre com a manteiga virada para baixo.

Exatamente. Aí é quase moeda ao ar. É pão ao ar, fatia ao ar, se quisermos.

Aqui não. Aqui há um método para se chegar a estes resultados.

Há, sem dúvida. E falta de método para dar a tragédia.

Ó Bruno, explica-nos lá, afinal, a polícia pode ou não prender?

Olha, Luís, a Polícia Municipal, por muito que seja essa a vontade de Carlos Moedas.

Ontem estava furioso.

Não pode. Pois é, mas é assim. O presidente da Câmara de Lisboa gostava muito que isso fosse possível. Chegou a dizer que ia ser assim, que a Polícia Municipal passaria a deter suspeitos de crime, até porque assim poderia recorrer ao efetivo da Polícia Municipal para um combate mais musculado ao crime e ter assim mais presença policial nas ruas e também com uma liberdade de ação maior. Mas exceto em situações de flagrante delito e até à chegada da PSP, a Polícia Municipal, de facto, não pode efetuar detenções. Isto de acordo com não um, mas dois pareceres. Havia um do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República e agora o Diário de Notícias revelou que desde outubro de 2024, e a pedido da Margarida Blasco, que era então a ministra da Administração Interna, havia um outro, um parecer interno, que apontava também no mesmo sentido. A Polícia Municipal não pode atuar como a PSP, ainda que o seu efetivo seja composto por elementos da PSP, mas são entidades diferentes. Ou seja, não há confusão entre as competências e áreas de atuação de cada entidade e isto não é uma perseguição a Carlos Moedas. É o que é.

A próxima podia ser uma pergunta para o Bruno, mas também era óbvio demais, não é?

O Bruno vai participar certamente.

É para o Paulo.

Paulo, consegue um livro captar a alma de uma cidade?

Eu acho que sim. Pode ter vários formatos, se quiserem, pode ser romance, pode ser ensaio, livro de crónicas, ou pode ser um dicionário assumido. Eu ontem estava a ler jornais, a ler o Público e vi uma peça sobre este livro que vai ser lançado. É uma proposta de João Carlos Brito, autor, eu não conheço, também não li nada dele. Vai lançar o "Dicionário Sentimental do Porto". Achei curioso o formato. É mesmo uma forma de dicionário, vai falar de lugares, de personagens, expressões, da comida, sei lá, desde o Totil, expressão, ao Carlos T, o letrista de Fabuloso, clássico, do Centro Comercial Dallas à Francinha. O Centro Comercial Dallas, houve uma altura, quando eu estava na secundária, que havia visitas de estudo ao Porto, de Viseu, imaginem, excursões, basicamente. Era para passar um dia fora e era ponto obrigatório vir ao Centro Comercial Dallas, porque na altura era próximo de Viseu, era o centro comercial maior, com mais lojas. E, portanto, era um bocadinho icónico. Matéria não falta sobre o Porto, sobre uma cidade que tem uma identidade própria tão forte. Eu só tenho é pena que o formato de livro não tenha sotaque.

Se calhar quando estiveres a ler, lês com sotaque.

Com sotaque, exato. Mas achei a proposta curiosa, este formato de dicionário sentimental, neste caso, de uma cidade, e acho que é um formato que provavelmente podia e devia ser repetido em relação a outras cidades.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte com um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.