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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

É este o estado da Nação.

Este é que é o estado da Nação. Nem é preciso cantar, embora cantar também sirva para espantar os males. E se o país vai andando assim, o país real, não vivemos uma crise financeira, a economia até cresce, pouco, mas cresce. O país político, a instabilidade intrínseca a um governo minoritário, dá a impressão de estar tudo por um fio e de que basta um ligeiro abanão para que a crise se instale. Ainda não chegámos ao pântano, mas há uma sensação de mal-estar indefinido que se estende à população. Ninguém baixa os braços, mas há uma falta de esperança em que o país consiga finalmente arrancar. Luís Montenegro, como é sua obrigação, tenta contrariar o pessimismo, só que o esforço às vezes é tão grande que às tantas começa a falar de um país que não existe ou que só o primeiro-ministro é que vê. O estado da Nação é, por isso, complicado.

É complicado, mas estavas a falar do otimismo do Montenegro.

Eu não disse otimismo irritante.

Não. Aliás, falaste em contrariar o pessimismo. Eu é que estou aqui a tirar conclusões. Isto é partilhado pelos seus ministros?

Não por todos, Carla. Há quem seja realista. O ministro da Economia, Castro Almeida, deixou claro que a revisão dos números da população pelo INE, com o que isso acarretará para as contas do PIB per capita, é verdadeiramente preocupante. O PIB per capita, que já é possível calcular em paridade de poder de compra, estará na ordem dos 80% da média da União Europeia, o que significa que Portugal, nos últimos 30 anos, não avançou. E o ministro não dourou a pílula. Foram 30 anos a marcar passo, foi o que disse Castro Almeida. Trinta anos em que quem mais tempo governou foi o PS, mas que representam um falhanço do país, um falhanço de quem governou mais tempo, de quem governou menos tempo e de quem foi governado o tempo inteiro. Olhar para os números e tirar conclusões, como fez o ministro, não é ser otimista ou pessimista, é olhar para a realidade tal como ela é, mas isto dá uma grande vontade de emigrar.

Quinta-feira é dia de estreias no cinema.

Antigamente era à sexta.

Mas agora é à quinta.

Eu digo-vos já, é há 22, 23 anos.

Pronto, isso é há muito tempo, é praticamente a minha idade.

A minha vida toda foi sempre à quinta.

Vocês se lembram.

Sim, mas para te perguntar se vamos ter pacote laboral parte dois: a vingança da ministra.

Perfeito, Maria João. Quando eu estava a pensar nisto, não podia imaginar melhor. Mas parece que sim, vamos ter aí um regresso, só que não será um blockbuster de verão, quando muito será um blockbuster de outono, porque agora metem-se as férias e depois só no regresso às aulas. Nem todos concordam com esta necessidade de trazer a reforma laboral de volta à discussão, mas para a ministra, a reforma laboral vai ter de acontecer mesmo, porque temos uma legislação atrasada e pouco preparada. Mas para que essa reforma se dê, Maria do Rosário Palma Ramalho sabe que vai ser preciso negociar e aqui a questão é saber com quem. A CGTP, naturalmente, já se pôs de fora, também não é novidade. É um assunto que para a Intersindical está enterrado, mas sabemos como é que é nos filmes. A personagem que julgávamos morta depois reaparece na sequela. Provavelmente com balida, esta reforma terá de passar novamente pela concertação social, onde anteriormente não se concertou grande coisa. E se voltar a não existir acordo, nem vale a pena procurar parceiros no Parlamento depois do que já aconteceu. De uma coisa a ministra pode estar certa: ao contrário do que acontece nos filmes, esta sequela, a existir, dificilmente será pior para o governo do que o original.

E vai ter novos atores?

Será. Eu acho que vamos ter ainda, ao contrário do que se poderia ter esperado. Pelo menos a protagonista, acho que vai continuar.

Eu acho que deviam apostar nos duplos. Eu estou aqui a olhar para o mapa e estou um bocadinho perdida. Porto e Gaia vão passar a estar unidas por cacilheiros?

Não são cacilheiros, são ou porteiros ou gaiatos, não sei. Podemos escolher um dos nomes, dependendo do trajeto que se faz, mas daqui a uma semana, os habitantes das duas cidades vão passar a ter mais uma alternativa para circular, para ir de uma margem para a outra. São duas travessias fluviais, uma entre o Cais do Ouro e a Furada, a outra entre a Ribeira do Porto e o Cais de Gaia. Vão funcionar todos os dias e com horários até bastante simpáticos, incluindo aos fins de semana. E estas travessias estão integradas no sistema Andante, embora também vá ser possível comprar bilhetes a bordo. E quanto mais alternativas nos transportes públicos, melhor para todos, vivam no Porto ou em Gaia.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.