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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Bruno, até o presidente gosta das agências de rating.

Carla, neste momento, o António José Seguro deve gostar mais das agências de rating do que de moções de censura, mas preferiu não comentar a moção de censura do Chega antes de esta ser discutida, embora o resultado fosse já conhecido de antemão. António José Seguro preferiu comentar, não comentando diretamente. Numa nota emitida pela Presidência da República no fim de semana, congratulou-se pela decisão da Agência Fitch de elevar a notação financeira da República Portuguesa de A para A+, com perspectiva estável, e acrescentou que se trata de uma excelente notícia para o país. Ora, não há como não ver nesta nota sibilina uma palmadinha nas costas do governo, uma palmada na mão de um menino traquina da oposição. Que tenha usado a decisão de uma agência de rating é apenas uma pequena curiosidade, mas que diz quase tudo o que o presidente queria dizer em vésperas de uma moção de censura que não lhe deve ter agradado muito. Agora, veremos se comenta mesmo.

E Paulo Montenegro afundou a moção de censura com dois tiros no porta-aviões?

É verdade, dois tiros logo assim no início do debate parlamentar. Vocês jogavam batalha naval?

Sim, claro.

Acertar no porta-aviões era assim o máximo.

Era espetacular.

Mas o mais fácil, porque era aquele que tinha os naviozinhos. Pronto, ok. Mas de qualquer maneira é sempre simbólico acertar no porta-aviões. E um dos tiros chama-se bónus para os pensionistas e o outro chama-se redução do IRS. Foram dois anúncios de medidas do primeiro-ministro que pretendeu logo criar mais um foco no debate com mais dinheiro no bolso das pessoas, isto por oposição aos guiões políticos a que Montenegro se foi referindo, que têm a ver, obviamente, com a apresentação da moção de censura. São medidas, estas, já habituais nesta altura do ano, em função da evolução orçamental. E nestas matérias, os governos têm sempre uma grande vantagem face à oposição: é que podem de facto anunciar e concretizar estas medidas, que chegam diretamente às pessoas, neste caso, ao bolso das pessoas. Podemos considerar que são imprudentes, que são eleitoralistas, mas têm certamente impacto junto à opinião pública.

Pois têm. Paulo, mas com isto tudo quer dizer que o caso Luís Neves está encerrado?

Politicamente, o caso perde muito fôlego desde ontem. Andávamos há muitos dias a falar da moção de censura, que está resolvida agora, e da ida do ministro ao Parlamento. O Chega vai certamente continuar a falar do assunto, mas parece não ter mais armas parlamentares para usar. Obviamente, vamos ter ainda a comissão parlamentar de inquérito, em que o Chega vai insistir. E temos, sobretudo, noutro campo, no campo judicial, se quisermos, as investigações que estão em curso. O Ministério Público tem cinco processos abertos. Há a auditoria também do Ministério da Justiça. Passaremos à fase de avaliar a relevância judicial, jurídica e eventualmente até criminal dos esquecimentos e das informalidades de Luís Neves ou então da própria Polícia Judiciária enquanto ele era diretor nacional. Portanto, ainda falta muito para este assunto estar definitivamente morto ou enterrado.

Mudemos de tema, então. Bruno, o Festival da Comédia à lá carte.

Vamos rir.

Vamos rir. Vai ser unipessoal?

É uma das possibilidades em cima da mesa, após as múltiplas desistências de artistas em protesto contra a participação de Jerry Seinfeld no Festival de Humor, que tem este ano a primeira edição. A organização ponderou deixar cair os restantes eventos e manter apenas a atuação do humorista norte-americano. Vamos ser sinceros, um festival com uma atuação de Jerry Seinfeld seria sempre um festival de Seinfeld, a não ser que os outros convidados fossem, sei lá, Dave Chappelle ou Louis C.K. Não sendo o cabeça de cartaz, era praticamente o cartaz inteiro. Apesar disso, ainda há a possibilidade de substituir os artistas que desistiram por outros que, em solidariedade com o César Mourão, que é um dos organizadores do festival, se disponibilizaram para participar. É um gesto bonito, mas o que deve interessar aos espetadores é se Seinfeld vem ou não a Lisboa.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.