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Os quatro homens que escreveram a história de Jesus. Este é o nono episódio da terceira temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.

Esta semana vamos falar sobre as quatro personagens que dão nome aos quatro evangelhos, os quatro textos que contam a história da vida de Jesus Cristo. Falamos de Mateus, Marcos, Lucas e João. São conhecidos como os quatro evangelistas e embora contem todos a mesma história, contam-na de maneiras diferentes nos quatro textos que abrem o Novo Testamento. Dois deles, Mateus e João, faziam parte do grupo dos apóstolos. Outros dois, Marcos e Lucas, eram cristãos de segunda geração, discípulos dos primeiros apóstolos. Mas nem sequer é certo que estes quatro homens tenham sido efetivamente os autores destes textos. Talvez sejam mais rigorosamente definidos como os inspiradores de cada evangelho, os homens por trás da tradição que se consolidou em cada um dos textos. Esta semana vamos conhecer cada um deles. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Antes de falarmos dos quatro evangelistas, o tema desta semana, vou lembrar, como sempre, que os nossos ouvintes têm a nossa caixa de e-mail ashistoriasdabíblia@observador.pt à disposição para nos enviarem perguntas, sugestões e comentários. Nós procuramos responder a uma pergunta dos nossos ouvintes todas as quintas-feiras. É um episódio especial que é exclusivamente em podcast, não passa aqui na Rádio Observador e, portanto, não se esqueça de seguir o programa nas plataformas habituais para não perder nenhum episódio sempre que eles saem, quer ao domingo, quer à quinta-feira. Ora bem, nesta terceira temporada nós temos 11 episódios dedicados a personagens emblemáticas da Bíblia e no último fim de semana de novembro vamos ter uma novidade: vamos começar uma temporada especial de Natal com quatro episódios especiais todas as semanas até chegarmos ao Natal para conhecermos os textos da Bíblia mais importantes sobre esta época do ano. Até lá, continuamos no ar todas as semanas, mas se tiver perguntas sobre o Natal, já sabe, pode começar a enviá-las para ashistoriasdabíblia@observador.pt. Agora vamos ao episódio de hoje, desta semana. Vamos falar sobre os tais quatro evangelistas de que falava na introdução: Mateus, Marcos, Lucas e João. E antes de olharmos ao pormenor para cada um deles, vamos tentar perceber um pouco melhor o que é isso de evangelhos e evangelistas. Na primeira temporada, nós já fizemos um episódio a tentar responder à pergunta: se a história é a mesma, por que há quatro versões? Portanto, não vamos tentar ir por aí. Na altura, nós falámos de alguns elementos básicos sobre este tema. Por exemplo, sabemos que há três evangelhos muito parecidos: Mateus, Marcos e Lucas, os chamados sinóticos. Depois temos o de João, que é bastante diferente dos outros. Sabemos também que Marcos terá sido o primeiro a ser escrito e terá inspirado parcialmente os outros. Mas Daniel, se calhar podemos começar por esta questão, que também é uma questão antiga. O facto de cada evangelho ter o nome de um destes homens não significa necessariamente que tenha sido essa pessoa a escrevê-lo, certo?

Exatamente. Os textos em si, aliás, até são anónimos. Não está o nome do autor nos textos. É depois, no século II, que são atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João. Como dizias, dois desses fazem parte do grupo dos 12, Mateus e João. Portanto, poder-se-ia pensar: bem, então estes são os mais antigos, escritos por testemunhas oculares do ministério de Jesus, e os outros serão uma coisa posterior. Não é esse o consenso de hoje. Também ao longo da história a opinião foi mudando um bocadinho. Aliás, a própria ordem em que estão os textos, Mateus, Marcos, Lucas e João, vou considerar na tradição da Igreja que Mateus fosse o mais antigo, também precisamente por ser um testemunho ocular. Hoje dizemos que com grande probabilidade nenhum destes textos é escrito durante o tempo da vida de Jesus e que nenhum destes autores terá sido propriamente autor, tal como nós consideramos um autor no sentido moderno, alguém que se senta a escrever, escreve uma obra. São, de certa forma, inspiradores de uma tradição, fundadores de comunidades que com o passar do tempo vão produzindo o texto, que não é, portanto, fruto da pena de um escritor, escrito ali no espaço de semanas ou de meses, mas que é uma composição de materiais orais e, portanto, há uma fase de tradição oral em vida dos apóstolos, diríamos, e depois da morte dos apóstolos, terá sido necessário convocar por escrito, organizar melhor as ideias, melhor as tradições sobre a vida de Jesus. E aí chegamos a estes quatro textos. Ainda assim, Marcos será o mais antigo, como dizias.

João, como falávamos, os evangelistas não são todos iguais. Temos aqui dois nomes que reconhecemos da lista dos 12 apóstolos. Estivemos a falar sobre eles a semana passada. São Mateus e João. Depois temos estes outros dois que não Parece que não reconhecemos assim tão bem, são Lucas e Marcos. Lucas seria um médico amigo de Paulo, Marcos seria um seguidor de Pedro. Estamos a falar da segunda geração de cristãos, portanto discípulos destes primeiros discípulos. Dois dos autores, ou melhor, dois dos evangelistas, dois destes inspiradores dessas tradições, foram testemunhas oculares de Jesus, enquanto os outros dois terão sido apenas testemunhas indiretas. Aliás, até há aquela ideia de que Lucas andou a investigar. Qual era a importância de atribuir um relato a uma testemunha ocular para credibilizar estes textos, logo no início da era cristã?

Embora os paradigmas de autoria e de redação sejam totalmente diferentes do nosso, acho que a resposta à tua pergunta, ou seja, qual é a credibilidade de atribuir um texto a uma testemunha ocular, é a mesma resposta que hoje daríamos. Ou seja, quem esteve a assistir a um acidente, provavelmente tem preconceitos sobre o acidente, é verdade, e pode ter uma visão um bocadinho distorcida do acidente, mas viu o acidente, ao passo que nós não vimos. Aliás, estamos numa rádio, num jornal, é para isso que servem os jornalistas e as testemunhas também oculares que eles entrevistam, as fontes, etc. Ainda assim, acho que há aqui uma ideia interessante ligada à literatura oral. Às vezes comentamos que o Novo Testamento parece ser mais fácil de ler e mais fácil de estudar. Isso às vezes é atribuído à ideia de que Jesus é uma pessoa próxima. O Novo Testamento é muito mais lido na missa, nas liturgias do que propriamente o Antigo. O Antigo Testamento tem textos mais difíceis, mas não deixa de ser curioso que um dado que mostra bem esta literatura oral, que é mais apressada, é o fato de as personagens no Novo Testamento parecerem ter menos relevo. Ou seja, no Antigo Testamento, as histórias são muito mais complexas, há muito mais reviravoltas.

São mais longas também.

São mais longas, até mesmo a nível de comprimento. Falámos até, aliás, de Lázaro, Maria e Marta, que a ressurreição de Lázaro leva 50 versículos do evangelho de São João, do capítulo 11.

É invulgarmente longo para uma história do Evangelho.

No Antigo Testamento, muitas vezes, Noé, andamos ali com Noé a enradilhar e aquilo parece que nunca mais acaba de chover e chove e não chove e volta a chover. E acho que isso é um destaque da literatura oral que é passada para a escrita de maneira muito mais rápida. Sobre a questão de Lucas e dos Atos, que referiste, realmente existe uma aceitação de que existe uma autoria comum e a posição majoritária tem até algumas boas razões, porque, por exemplo, os prólogos de ambos dirigem-se a um tal Teófilo, os Atos recordam frequentemente um primeiro relato. Existem algumas continuidades fortes de linguagem, temas e composições, de tal maneira que até é pressuposto que são dois volumes da mesma obra. Por exemplo, no Evangelho de Lucas, a narrativa encaminha Jesus para Jerusalém. Nos Atos, a narrativa é encaminhada de Jerusalém para Roma, portanto, para outra cidade. E o Espírito, que em Lucas leva Jesus a rezar frequentemente, aliás, Lucas é conhecido muitas vezes como o Evangelho da Oração, porque Jesus está sempre a rezar. Depois é também um grande protagonista nos Atos, quando as decisões são tomadas e é dito: "O Espírito Santo e nós tomámos esta decisão". Um exemplo claro é a morte de Estevão. A morte de Estevão nos Atos, em Atos 7, é de certa maneira decalcada da morte de Jesus no Evangelho de Lucas. As coisas que ele diz, alguns verbos até do envolvimento espacial, parece que haver ali uma espécie de colagem entre uma coisa e outra.

E, portanto, também o mesmo estilo literário.

Sim, literário, vocabulário. Isso é muito importante nos evangelhos, ou seja, nós conseguimos perceber até das próprias pessoas que escrevem, a partir do vocabulário, da gramática, se são pessoas mais eruditas, se não são, se é mais apressado, se não é, se é mais trabalhado, se não, isso é possível fazer.

Muito bem. Se calhar vamos então olhar para os quatro evangelhos e vamos seguir a ordem pela qual eles aparecem na Bíblia. É uma possibilidade entre tantas outras, mas vamos por aí. O primeiro evangelho, como dizia o Daniel, é o de Mateus. Esta personagem, já vimos quando falámos sobre os 12 discípulos, era este cobrador de impostos, um funcionário público que trabalhava para as finanças do Império Romano. Suponho que não fosse muito bem visto ali na região, porque no fundo trabalhava para a grande potência ocupante. Também mencionámos na semana passada que ele surge referido por dois nomes, às vezes Mateus, outras vezes Levi. Aliás, podemos até especular se estamos a falar ou não da mesma pessoa. Mas qual é a história deste evangelho? Penso que a tradição diz qualquer coisa como que este Mateus teria recolhido alguns ditos, algumas frases de Jesus, ainda talvez na língua aramaica, e que depois que essa coleção de pequenas frases poderia estar na origem, depois na redação deste evangelho. Mas como é que chegamos a este texto?

Sim, um certo Papias, no século II, deixa essa informação de uma primeira versão

Em língua aramaica ou possivelmente hebraica, enfim, não se sabe exatamente bem. A realidade é que o texto que temos é em língua grega. Aliás, todos os evangelhos são escritos em grego, os manuscritos mais antigos que temos são em grego, não temos outras versões que não escritas em grego, que era, como já referimos noutras alturas, o inglês da época, era a língua da cultura, a língua do comércio e a língua fundamental para conseguir comunicar na zona do Mediterrâneo. Mateus, que é considerado, até por estar em primeiro lugar, como dizias, Santo Agostinho e outros padres da Igreja consideram-no o mais antigo, mas a investigação moderna vai colocar Marcos como o texto mais original. Aliás, quer Mateus, quer Lucas terão sido escritos tendo Marcos por base. Por isso é que também se chamam estes três evangelhos sinóticos, ou seja, se os colocarmos numa sinopse, se os colocarmos em colunas paralelas, vamos ver que, grosso modo, havendo aqui um episódio ou outro mais particular de um ou outro evangelista, contam todos a mesma história. Ou seja, Jesus que inicia o seu ministério na Galileia e que termina crucificado e ressuscitado em Jerusalém. São João já tem uma cronologia e uma espacialização diferente, portanto, estes três são os mais parecidos. Mateus segue Marcos, tem essa base do Evangelho de Marcos e tem material próprio inserido redacionalmente nessa obra e percebe-se que terá sido provavelmente escrito, o sítio mais comumente referido é Antioquia da Síria, um lugar importante no judaísmo do primeiro século. Terá sido escrito com grande probabilidade depois do ano 70. O ano 70 é um ano importante de demarcação, que é o ano em que os romanos destroem o Templo de Jerusalém, conquistam a cidade e destroem o templo. Marcos é possível que seja um pouquinho anterior ou próximo dessa data, Mateus e Lucas um bocadinho posteriores, mas o texto mostra-nos que a comunidade, os leitores, os destinatários desse evangelho, são cristãos vindos do judaísmo. No Evangelho segundo São Mateus, vemos várias vezes referidas profecias, um bocadinho até este refrão: "Isto foi para se cumprir o que estava escrito pelo profeta X ou Y". E, portanto, esta constante referência, este património cultural e de fé desta gente vinda do judaísmo que aderiu a Jesus Cristo e que, portanto, vê confirmada a pessoa de Jesus, vê nele confirmadas as profecias.

O Evangelho de Mateus é também um dos textos mais definidores da ideia que temos da vida de Jesus. Temos uma série de momentos que só aparecem ali. Lembro-me dos Reis Magos, o massacre dos inocentes, também o mítico momento de Pilatos a lavar as mãos ou até o suicídio de Judas. Há também muitas parábolas que só aparecem nesse texto. João, numa linha, o texto sendo o mais longo, o texto de Mateus, podemos dizer também que é o mais importante?

Mesmo o mais longo, é preciso ter aqui algum balanço e equilíbrio, porque Mateus realmente tem mais capítulos, mas Lucas é mais longo em extensão.

Em caracteres.

Exato. A divisão em capítulos é muito posterior à composição dos evangelhos e, portanto, ter 28 capítulos em vez de 24, como em Lucas, não permite comparar o tamanho das obras. Quanto ao mais importante, depende muito do critério. Mateus tem uma questão muito importante, que é a posição de entrada do Novo Testamento e por isso, quando vamos começar a ler um livro, começamos pelo início e Mateus está ali. E também esforça-se por fazer uma transição do Antigo para o Novo, com aquela genealogia de Jesus, portanto, fazendo aqui uma ligação de Abraão, David até Jesus. Depois, este evangelho é muito importante porque oferece uma versão muito extensa do ensinamento de Jesus e é o único dos quatro evangelhos que se fala de ecclesia, portanto, a ideia de igreja e assembleia.

Muito bem, nós já vamos voltar para a segunda parte das histórias da Bíblia. Vamos conhecer os outros três evangelistas, Marcos, Lucas e João. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre os quatro evangelistas, os quatro homens que contaram a história de Jesus. Na primeira parte, já conversamos sobre o primeiro evangelho, o de Mateus. Fomos a fundo neste primeiro texto. Daniel, depois surge aqui o evangelho de Marcos. Também é conhecido como o mais curto, lê-se muito rapidamente. Também, possivelmente, como já mencionaste, o primeiro de todos a ser escrito. Embora, curiosamente, não tenha sido escrito por este Marcos, não era uma testemunha ocular dos feitos de Jesus. O que sabemos sobre quem era este homem, este Marcos?

Como dizíamos há pouco, durante muito tempo considerava-se que Mateus era O original e que Marcos era uma espécie de resumo do Evangelho de Mateus. Hoje, já há muito tempo, mas a investigação moderna é mais da opinião, por vários motivos, que agora também não temos tempo pra explorar, mas que este é o texto mais original, este é o texto mais simples e que depois foi aumentado por essas duas comunidades, essas duas tradições que deram origem a Mateus e a Lucas. Marcos é um tal de João Marcos, que nos aparece no Novo Testamento como discípulo de Paulo, com quem a dada altura se compatibiliza. Este João Marcos está ligado a Roma e portanto Roma é tradicionalmente, até por informações que temos do século II, o lugar de escrita deste evangelho, ligado a Pedro. Ou seja, João Marcos terá sido uma espécie de amigo, secretário, assistente de Pedro e a partir daí terá composto o seu evangelho. Esta é também a hipótese tradicional. Ao contrário de Mateus, não é escrito para judeus, ou seja, para cristãos vindos do judaísmo, mas provavelmente para cristãos vindos do paganismo ou uma comunidade um bocadinho diferente, como seria a de Roma, os cristãos em Roma, como sabemos das cartas de Paulo. Já havia comunidades cristãs em Roma, gente proveniente do judaísmo, mas certamente também gentios, ou seja, não judeus. É aí nesse meio que percebemos este texto, que é, no dizer de algum autor, um manual de fazer discípulos. A importância do discipulado, a importância do perguntar-se acerca de Jesus, quem é este Jesus que surpreende, que toca esta gente, que se torna uma interrogação e uma causa de admiração. O evangelho de Marcos é muito focado na importância do discipulado. E sendo o mais curto, dá-nos a impressão de que o ministério público de Jesus, que nós estamos habituados a dizer que durou três anos, porque juntamos duas informações distintas: Lucas diz-nos que Jesus tinha cerca de 30 anos quando foi batizado e portanto começou aí o seu ministério. Depois é só São João que nos vai falar de várias Páscoas, de três Páscoas em Jerusalém, daí os três anos.

Daí chegamos à famosa idade de Jesus, de 33.

Exatamente, 33. Se vermos São Marcos, parece-nos que aquilo durou uma semana, parece-nos que foi bastante rápido, porque há uma velocidade, há um ritmo e uma simplicidade no Evangelho de São Marcos que dá velocidade a tudo isto e torna-se tudo muito rápido e muito imediato.

É um pouco aquilo que o João dizia há pouco. Realmente, os textos do Novo Testamento e sobretudo os textos dos Evangelhos, são muito mais curtos que os textos do Antigo Testamento e, portanto, parece que, até do ponto de vista literário, a maioria das personagens nunca chegam a ter grande densidade, nunca chegam a desenvolver-se muito, não chegamos a acompanhar, não chegamos a relacionar-nos muito com as personagens.

Também depende do texto do Antigo Testamento com o qual comparamos.

Pois, claro.

Porque também é um mundo, é uma biblioteca e tem vários tipos de textos.

Se compararmos com o Gênesis, o Gênesis se calhar está mais próximo. Claro que anacronicamente uma coisa tipo, sei lá, o Éden, o Paraíso, no sentido de uma estrutura narrativa, passa por várias gerações, personagens muito complexas, do que propriamente um evangelho.

Uma personagem entra num parágrafo e desaparece nesse parágrafo.

Nunca mais sabemos. João, depois de Marcos, temos então o terceiro evangelho, o evangelho de Lucas. Sobre ele temos bastante mais informação. Seria um médico, um amigo e seguidor de Paulo. Lá está, um cristão desta segunda geração, a quem o cristianismo já foi transmitido pelos primeiros discípulos. Ele terá andado com Paulo nas viagens. Aliás, há aquela questão de a dada altura nos Atos dos Apóstolos, ele começa a falar na primeira pessoa. O evangelho de Lucas é também um dos mais interessantes do ponto de vista literário, ou seja, conseguimos perceber que estamos a falar de um autor que seria culto, que dominava bem a língua e a cultura. Conta-nos um bocadinho o que é que sabemos. Já disseste umas outras coisas.

Na verdade, eu vou repetir tudo o que tu disseste na pergunta, se calhar de maneira menos sábia. Sabemos mais acerca do autor, que se revela na obra do que propriamente da biografia da pessoa, no sentido moderno e contemporâneo. O Lucas histórico, a primeira referência que temos ou dado mais firme, é a referência na carta a Filémon, onde Paulo o inclui como um dos seus colaboradores. Aliás, essa autoria da carta a Filémon é amplamente reconhecida, faz parte, não sei se se lembram daquela mnemônica, o RoCoCoGTFiFi, pra saber as cartas autorais de Paulo.

Isso deve ser uma piada de seminário.

Não.

Muito interna.

Não. Para tu saberes as cartas de Paulo, RoCoCoGTFiFi, Ro, Romanos; CoCo é a parte Coríntios 1, Coríntios 2; Ga, Gálatas; FiFi, Filêmon, Filipenses; e depois o Ti, que aparece aqui, GTFiFi, é a primeira a Tessalonicenses. Pronto, têm aí, podem repetir no carro, em casa, em todo lado, RoCoCoGTFiFi.

Esqueceste os Efésios.

Efésios. Mas isso é posterior. Sabem que as mnemônicas foram criadas não em seu tempo.

Gal, Éfesi.

RoCoCoGTFiFi.

Depois deste momento.

Um minuto de silêncio.

Depois deste momento seminarístico.

Sim, depois deste momento seminarístico, um minuto de silêncio

Colossenses fala de Paulo como na carta aos Colossenses de Lucas, melhor dizendo, como ao médico amado, e depois a segunda carta a Timóteo apresenta-o como aquele que permanece com Paulo. São testemunhos importantes. Às vezes, a autoria destas cartas é mais ou menos discutida. E é verdade, como tu disseste, que nos Atos dos Apóstolos, a certa altura, este putativo autor dos Atos, Lucas, em vez de falar de "eles foram viajar", o Paulo começa a falar do nós, particularmente no capítulo 16 e 21. Mas há várias outras hipóteses. Pode haver aqui a incorporação de uma fonte de viagem escrita por um participante, que não Lucas, o que é possível, ou até o emprego literário da primeira pessoa, como por exemplo, acontece com uma espécie de plural majestático ou deliberativo no livro do Gênesis em relação a Deus. Há pessoas que confundem aquilo com uma espécie de apelo ao politeísmo. Ainda assim, o relato literário permite-nos perceber aquilo que tu já disseste, ou seja, o autor domina vários registros de grego. O prólogo do Evangelho de Lucas e também os Atos têm uma apresentação literal muito formal. As narrativas de infância adotam uma linguagem próxima de escrituras judaicas na tradução grega. E realmente este autor parece ser muito cuidado, ele conhece a cultura grega muito bem, o conhecimento das escrituras judaicas é muito grande por parte deste autor, pelo menos pelo que o texto evidencia. A questão de ser médico é algo que pode ser deduzido, mas também não pode ser concluído só porque existe uma espécie de obsessão deste autor por curas e um vocabulário clínico. Um grande biblista do século XX, o Raymond Brown, teceu uma crítica às pessoas que falavam precisamente desta associação, dizendo que é possível encontrar autores instruídos daquele tempo, não médicos, estou a falar, por exemplo, de Hipócrates, que usavam o mesmo estilo de vocabulário. Portanto, dizer que era um médico, que depois até era um médico pintor, um artista, é um bocadinho grosseiro com aquilo que temos.

Da literatura, lembrava-me agora daquele livro, "O Reino", do Emmanuel Carrère, que procura reconstituir basicamente a vida do Lucas e conta a história do Lucas a viajar com o Paulo por esse Mediterrâneo afora, de forma romanceada, muito interessante.

Cada qual tem o Ulisses que merece.

Exatamente. Por fim, surge o quarto evangelho, o Evangelho de João. Novamente, tal como Mateus, falamos de um dos discípulos. Apesar de ter sido o último evangelho a ser escrito, João seria então este discípulo amado, o homem que ficou aos pés da cruz até o fim, que depois cuidou da mãe de Jesus. O evangelho dele é bastante diferente dos outros três, pelas razões que o Daniel já disse no início. Ele está organizado de outra forma, em torno de um conjunto de quatro viagens de Jesus a Jerusalém para ir celebrar as festas judaicas. Daniel, fala-nos um bocadinho sobre este quarto evangelista. Já falámos sobre o discípulo Jesus, mas como é que surge este texto, este Evangelho de João?

Este evangelho menciona-nos por várias vezes este tal discípulo amado, que ainda assim não é concretizada esta identidade. Já falámos sobre Lázaro. Também o evangelista diz-nos que Lázaro era alguém que era amado por Jesus. Há até autores que vão dizer: "Não, se calhar é Lázaro, o discípulo amado". A tradição depois acaba por concretizar na figura de João. É um texto também que muito dificilmente podemos fazer remontar ao João membro dos 12, este João histórico, não só porque tem, por exemplo, dois finais. Se estivermos a ler o evangelho, parece-nos que no capítulo 20 está a concluir e depois ainda há um capítulo 21, com outra conclusão. Tem estas marcas, estas rugosidades, estas asperezas que nos levam a perceber que é um texto, também ele, compósito. É um texto mais tardio, com grande probabilidade que os outros, dos finais do século I. É muito diferente dos outros, porque enquanto todos os outros evangelhos, Mateus, Marcos e Lucas, começam com Jesus a iniciar o seu ministério na Galileia até Jerusalém, portanto, uma subida de norte para sul, mas é uma subida, porque para Jerusalém sobe-se. Jerusalém está nas alturas, nas montanhas. João não. Coloca Jesus por várias vezes em Jerusalém, pelo menos três vezes na Páscoa, daí os tais três anos, como referíamos. E não só isso, mas descreve Jesus de outra forma. Há uma chamada cristologia alta. Ou seja, há uma grande ênfase no aspeto divino de Jesus. Aliás, o texto começa com este famoso prólogo: "No princípio era o verbo e o verbo era Deus".

Que às vezes as pessoas pensam que se referiam ao Gênesis.

Sim, é também uma releitura do Gênesis. Há uma imitação do Gênesis com este "no princípio". O livro do Gênesis, na tradição grega, começa no princípio, o "en arche", e é assim que começa o Evangelho de São João. Mostrando-nos que este Jesus é o Logos, uma palavra não diria intraduzível, mas de difícil tradução, a palavra ou o verbo, mas também pode querer dizer discurso, lógica, raciocínio. Portanto, este Logos grego encarna. João 1:14: "E o verbo fez-se carne

E habitou entre nós. Portanto, Jesus não é apenas um homem nos outros evangelhos, mas em São João isso é logo sublinhado que é este verbo, este logos de Deus feito carne. Isso é não só no prólogo, mas a forma como Jesus parece mais pairar sobre os acontecimentos. Não há milagres, há sinais que Jesus faz. A narrativa não é tão cheia de episódios como os outros evangelhos, mas é composta, sobretudo, de grandes discursos de Jesus e, portanto, literariamente é bastante diferente.

Sabemos também que é o autor associado ao Apocalipse e a três cartas que surgem no Novo Testamento. Também temos esse aspecto de ter sido um discípulo que acompanhou Jesus desde o início ao fim. Isso dar-lhe-ia mais credibilidade, de certa maneira?

Daria se considerássemos uma perspectiva mais ingênua, que isto foi escrito no local por alguém que viu Jesus a fazer determinado acontecimento e na semana a seguir está a escrever. E não é de todo esse o processo de composição. Com grande probabilidade, é o mesmo autor destas cartas de São João, apesar de alguma semelhança em alguns temas, esta questão do logos, que eu dizia, o cordeiro, Deus, a vitória sobre o mundo, que são temas em comum do evangelho de São João com o Apocalipse, com grande probabilidade. Enfim, quase todos os autores dizem que não se trata do mesmo autor. Até porque no livro do Apocalipse este João apresenta-se como João e não como discípulo amado e apresenta-se de outra forma nesta ilha de Patmos. Embora, de certa forma, possamos reconhecer aqui uma espécie de escola joanina. Isto também é muito bíblico, porque esta questão da autoria também no Antigo Testamento, sabemos que o livro que hoje denominamos como livro de Isaías, tem marcas também que nos permitem concluir que atravessou gerações e, portanto, uma parte desse livro é um Isaías histórico, mas depois o resto do livro é uma espécie de escola isaiana. Aqui também nos evangelhos, sobretudo em São João, podemos dizer algo de semelhante.

Porque a lógica do autor não é a mesma de hoje em dia, em que um autor escreve um texto, fixa-o e depois fica protegido por direitos de autor.

O evangelho de São João tem João, este João histórico, este João evangelista, este João apóstolo como iniciador, poderá ter escrito algumas coisas, mas depois é a comunidade que vai elaborando um texto até chegar à sua forma final.

Os textos dos evangelhos ocupam um lugar central para os cristãos. Basta pensar no caso português mais evidente: as missas católicas. A leitura do Evangelho é sempre proclamada com grande solenidade, é exclusivamente pelo clero, com toda a gente de pé. De certa maneira, de uma perspectiva cristã, o Evangelho é o apogeu de toda a Bíblia, João.

Diria que os evangelhos têm uma primazia. A palavra apogeu precisa, se calhar, de alguns critérios, porque primazia teológica, centralidade litúrgica e superioridade literária são juízos diferentes. E às vezes esta ideia de apogeu pode passar também a mensagem de que há um desprestígio das escrituras de Israel. Sei alguns pontos sobre isto. Primeiro, algumas cartas autênticas de Paulo, e falámos neste episódio já do Rococó GTFifi, a primeira a Tessalonicenses, são anteriores aos evangelhos e, portanto, o anúncio cristão precedeu estes quatro relatos canônicos e poderia, nesse sentido, entender-se que o Novo Testamento vai evoluindo. Claro que quem está a escrever a carta a Tessalonicenses não sabe que está a escrever aquilo que nós hoje chamamos de Novo Testamento, mas que à medida que esta tradição de redação da história de Jesus e do anúncio cristão, da sua morte e ressurreição avança, os evangelhos são uma espécie de apogeu. Isso poderia ser nesse sentido, mas também não é seguro, porque pode haver textos, e há seguramente textos posteriores. Depois, de facto, os evangelhos permitem uma certa conservação de relatos numa seleção de acontecimentos, mas também com uma cronologia e uma formulação de discursos que em muitas coisas é parecida, mas também há discrepâncias, muito embora tenha havido tentativas de harmonizar. Por exemplo, Taciano, logo no século I, II, tentou criar uma espécie de evangelho supraevangelho.

Uma harmonização.

Uma espécie de harmonização. Mas de facto, estes evangelhos têm uma primazia, porque são talvez da figura mais importante.

Mas agora, desculpa, o cristianismo sempre aceitou esta existência de quatro versões, por vezes inconsistentes, podemos dizer, contraditórias.

Sim, eu acho que isso é essencial. Ou seja, nada na nossa vida se diz de uma só perspectiva. E Jesus também não. E há que aceitar isso de bom grado. Ou seja, não há mal nenhum que existam várias perspectivas, às vezes contraditórias entre si, porque todos nós também somos isso. Jesus poderia não ser contraditório, mas a nossa relação com Jesus também é ela própria contraditória. E acho que isso nos evangelhos, na forma como eles estão tecidos, parece-me também importante preservar.

Muito bem, fica por aqui o nono episódio desta terceira temporada de "As Histórias da Bíblia". No próximo episódio vamos conhecer mais a fundo o discípulo Tiago, responsável pela comunidade cristã em Jerusalém, fundamental para compreender o início do cristianismo. Já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Podem também deixar um comentário no YouTube ou na plataforma que usa para nos ouvir todas as semanas. Nós procuramos responder às perguntas dos nossos ouvintes nos episódios especiais de quinta-feira. São episódios exclusivos em podcast. Voltamos no próximo domingo. Até para a semana. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.