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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Estava me a lembrar de uma novela, creio que era do Hermano José, Que Mais Me Irá Acontecer. Não é?

Sim.

Isto para pensar em Luís Neves. De repente, tudo lhe acontece.

Tudo lhe acontece. Nas últimas semanas não há quase um dia em que livre de notícia.

Pelo menos uma coisa acontece.

Notícias novas sobre o Luís Neves.

Tem sido a grande animação. Já disse, pode-se chamar Silly Season.

Não há Silly Season. Ou então isto agora é a nova Silly Season. É com este tipo de notícias e de casos. E há certamente um antes e um depois para Luís Neves, depois de ter assumido o cargo de ministro, na vida dele. Durante oito anos, Luís Neves chefiou a Polícia Judiciária. Sempre foi muito elogiado, boa imagem pública, pode dizer-se que tinha boa imprensa e com bons resultados apresentados. Digamos que a forma como as pessoas olhavam para a PJ também era nesse sentido. Fez uma boa gestão na Polícia Judiciária, pelo menos não levantava dúvidas, tudo lhe corria bem e de repente foi convidado então para Ministro da Administração Interna e a partir daí tudo mudou radicalmente. Atos da sua vida patrimonial privada começaram a ser divulgados, questionados, criticados. Pode haver aqui conflitos de interesse, de facto, com as próprias obras feitas para a Polícia Judiciária. Há declarações de rendimentos de vários anos por apresentar do tempo ainda da Polícia Judiciária, claro. E agora há multas do Tribunal de Contas por ato de gestão na Judiciária e há uma inspeção anunciada ontem pelo Ministério da Justiça, precisamente à PJ, o Ministério da Justiça, a entidade que tutela a polícia criminal. Não sabemos se Luís Neves está ou não arrependido de ter aceito o convite para o governo, mas razões para isso não lhe faltam. De facto.

Bruno, foi fraquinha a festa?

Foi essa a opinião generalizada entre o público que assistiu à grande comemoração dos 60 anos da Ponte 25 de Abril. Estava prometido um grande espetáculo de luz e cor com 500 drones. Agora é tudo com drones. Mas a reação predominante no final foi um "meh" coletivo e talvez também alguns torcicolos, cansaços dos membros inferiores por quem esteve mais de hora e meia à espera e de olhos postos no céu noturno. Estava prometida uma viagem no tempo também para celebrar a grande obra de engenharia, onde muitos portugueses têm passado alguns dos melhores anos da sua vida. E afinal foram oito minutos de espetáculo correspondentes a oito imagens feitas pelos drones, sendo que três destas imagens eram os logotipos da Infraestruturas de Portugal, da Fertagus e da Lusoponte. Até o ministro Miguel Pinto Luz, que assistiu ao espetáculo, disse que faltou música. Felizmente, o eclipse solar é um fenômeno natural. Se fosse organizado por alguma empresa, já sabemos que seria uma desilusão garantida.

Já não basta faltar os outros. Paulo, quanto tempo demora a Autoridade Tributária a cobrar um imposto?

Ora bem, Maria João, vamos aqui ver se for a ti e a nós, no fundo, a generalidade dos contribuintes, a cobrança é na hora. E se nos atrasamos umas horinhas que seja a entregar os impostos para além do prazo, a multa é na certa, é isso mesmo. E depois há este caso dos impostos que decorrem da venda de seis barragens feita pela EDP, que se arrasta há seis anos, sem que a administração fiscal envie a nota de liquidação. Primeiro, estiveram muitos anos a tomar a decisão se haviam de cobrar imposto ou não. O caso já passou pela inspeção fiscal, pelo Ministério Público, obrigou a intervenções de vários gabinetes de vários governos, membros de gabinetes de vários governos, e a Autoridade Tributária ainda não enviou a liquidação. A notícia é do Observador de ontem. Estamos a dois meses de terminar o prazo em que o fisco pode cobrar estes 335 milhões de euros, que é aquilo que está em causa. Por regra, costuma ser assim: o fisco decide, em função da lei, os impostos a cobrar e os contribuintes, não concordando com a decisão, podem contestar nos tribunais, que passados muitos anos acabam por tomar uma decisão a favor de um lado ou do outro. Desta vez é a própria Autoridade Tributária que parece contaminada por esta extrema lentidão dos tribunais. Afinal, qual é a pressa?

Ora, essa frase aplica-se tão bem. É o fim dos tempos, Bruno?

Olha, Carla, com um eclipse solar aí à porta, tempestades devastadoras no inverno, incêndios incontroláveis no verão e agora também pragas bíblicas, ou quase, deve ser mesmo o fim dos tempos. Na Maia, os moradores desesperam com as pragas de pulgas e baratas. Dizem que a situação se repete todos os anos no verão, mas que este ano tem atingido proporções bíblicas. Os relatos são impressionantes. Há um artigo no Observador sobre o tema, baratas nas paredes dos edifícios, nas ruas, dentro de casa, na cozinha, nas casas de banho. Uma moradora contou mesmo ao Observador que já chegou a retirar as filhas de sete anos do quarto onde dormiam por estarem repletas de baratas. E como se isso não fosse suficientemente mau, este ano os moradores também foram brindados com uma infestação de pulgas, cuja ameaça terá entretanto sido neutralizada, provavelmente com o auxílio de drones de última geração. Isto tem muito a ver com a forma como crescem as cidades para a periferia, e periferia rural, o que faz com que sejam mais suscetíveis a este tipo de pragas. A Câmara da Maia diz que tem tentado resolver o problema das baratas com pulverização dos esgotos, mas aparentemente não tem chegado para resolver o problema. Há empresas de desinfestação que dizem que o investimento não tem sido suficiente para resolver o problema. Feitas as contas, isto pode ser mesmo um prenúncio do fim dos tempos.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.