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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.
Bruno, então não é que a UGT andou a esconder o jogo?
É, esconder o jogo, a ganhar tempo. Não sei se é ganhar, se é a queimar tempo, como se faz no futebol. Ao longo das negociações longas, a UGT já disse coisas diferentes em momentos diferentes. Dava conta de alguns avanços nas negociações, ora dizia que ainda se estava longe de um acordo. E isto também não ajudou propriamente a perceber em que ponto estava este jogo ao longo das negociações da reforma laboral. Houve até momentos em que parecia que o acordo estava próximo, de repente tudo mudava. Agora, há a suspeita de que Mário Mourão, o líder da UGT, não terá disponibilizado toda a informação a todos os representantes da UGT numa estratégia que visaria o benefício da ala mais ligada ao Partido Socialista e que não pretenderá um acordo com os parceiros sociais. Mas confirma-se que informação é poder, mesmo quando as negociações entre os parceiros sociais mais parecem uma partida de pôquer, tudo a esconder, a tentar ler. Isto é muito complicado.
Muito bluff. Bruno, continuamos no 25 de novembro?
Às vezes parece que sim. Vinte e cinco de novembro, sempre. Parece aquele sketch do Herman José com o 25 de Abril sempre, não sai deste dia. E porque não saímos daqui, o PCP votou contra uma saudação ao 25 de Abril na Câmara de Lisboa, não por causa, claro, do 25 de Abril, mas por causa de uma referência ao 25 de Novembro incluída no texto. A proposta dos vereadores da coligação de Carlos Moedas dizia que o 25 de Abril foi o início de uma complexa transição para a democracia, que só começaria verdadeiramente a consolidar-se a 25 de novembro de 1975. O que eles foram escrever? Para o PCP, claro, estamos perante mais uma deturpação da realidade e uma reescrita da história. Mas a história está escrita, em um certo sentido. O que mudam são as interpretações. O PCP tem todo o direito a gritar que todos os outros estão a marchar no sentido errado, mas desta vez os outros são mesmo todos os outros, porque até os outros partidos à esquerda aprovaram a proposta. Quer dizer, não foram bem todos. Houve aqui um vereador que aprovou a proposta, mas com reservas. Foi Bruno Mascarenhas, do Chega. Isso se calhar explica muita coisa.
Voltou, voltou. Pedro Nuno está de volta.
He's back. Ele está de volta. Um regresso ao mesmo tempo discreto e estridente.
Foi discreto? Vais ter que explicar isto bem, Bruno.
O regresso ao Parlamento foi o movimento inverso a uma saída à francesa. Saída à francesa, ninguém dá por nada, de fininho, exatamente. Ele para o Parlamento regressou quase sem se dar por isso. Mas depois veio a estridência. Não demorou muito até Pedro Nuno Santos fazer ouvir a sua voz tonitruante. E aqui a surpresa foi mais o alvo das suas palavras. O antigo secretário-geral do Partido Socialista disse que tem muito mais respeito por José Luís Carneiro do que pelos taticistas que estão à espera de tempos mais favoráveis para avançarem para a liderança. Bom, isto não significa que ele tenha muito respeito por Carneiro, mas ainda terá menos por Duarte Cordeiro. Pelo menos foram assim entendidas as declarações de Pedro Nuno Santos, tendo como alvo Duarte Cordeiro, supostamente aqui também da ala Pedro Nunista, e que terá sido vítima do ímpeto de Pedro Nuno. Só que os estilhaços desta crítica também atingem outras figuras como Fernando Medina ou Mariana Vieira da Silva. Pedro Nuno Santos disse que precisamos de gente com coragem e olhando para as declarações dele, bem, coragem não lhe faltou.
Pois não. E vai durar, vai continuar. E Ventura já fala francês, Bruno?
Ele não precisa.
E toca piano. Não precisa?
Ele não precisa. Ontem, pelo menos, não precisou. André Ventura encontrou-se no Porto com Jordan Bardella, líder do partido francês, do Rassemblement National, num evento que juntou discursos que se alinharam em temas como a imigração, Europa e fronteiras. E, na verdade, falaram na mesma língua política. Houve críticas a Pedro Sanchez, como não, avisos sobre políticas migratórias e uma ideia comum de que a Europa do Sul está sob pressão e aqui com Espanha no centro de conversa. Não sei se houve tradução simultânea, mas também, pelos vistos, não era necessário, porque eles entendem-se na linguagem política.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
A pergunta parte de um princípio errado.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.