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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Está no ar o Ainda Bem que Faz Essa Pergunta.

E ontem não pensei noutra coisa, Paulo. Até onde é que pode ir o desleixo do Parlamento?

São sempre coisas boas essas para pensar no dia de Natal.

O dia de Natal é um bom dia para refletirmos sobre isto.

É outro dia de reflexão.

Exatamente. Mas esse desleixo, de facto, pode ir até muito longe. E lá está, olha, agora meteu-se o Natal, depois o Ano Novo, depois chegam as eleições presidenciais.

E não dá jeito nenhum fazer algumas coisas.

Resolver algumas coisas. E os deputados, obviamente, no meio destas coisas todas, têm mais que fazer do que, por exemplo, escolher membros para o Conselho de Estado. E Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República, criticou e bem o Parlamento, porque seis meses depois do início desta legislatura, o Parlamento ainda não encontrou um tempinho ou uns minutos, uma tarde, se quiserem, para completar o elenco de Conselho de Estado. Há cinco membros que devem ser eleitos pela Assembleia da República. Por exemplo, Pedro Nuno Santos ainda é membro do Conselho de Estado, estava lá por intendência como líder do PS. Já não é Francisco Pinto Balsemão, que morreu entretanto, também obviamente terá que ser substituído. No fundo, estes seis meses são obviamente desleixo a mais. Isto reservá-la já para a falta de respeito pelas instituições. E isto são maus exemplos e quando chegam de cima, são piores ainda. Não se pode esperar que o país depois seja mais exigente e mais diligente.

E mais diligente. E Bruno, de barreirense para barreirense, teremos sempre a ginjinha no Barreiro, não é?

Foi de propósito. Mas sem Marcelo, é capaz de não ser a mesma coisa. Não sabemos se o próximo presidente vai dar continuidade a esta tradição da ginjinha na margem sul. A verdade é que esta última ginjinha de Marcelo, enquanto presidente da República, teve um sabor mais ou menos amargo. O presidente estava com receio da gripe, por ter sido operado há pouco tempo. Preferiu evitar um banho de multidão, como aconteceu nos últimos anos, e acaba por ser um símbolo quase involuntário desta fase final da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. Começou com multidões muito acarinhada, acaba mais ou menos assim meio clandestino, para não se constipar. O que nos deveria até fazer refletir seriamente sobre o modelo de dois mandatos do Presidente da República, perguntar se não seria preferível um único mandato mais longo. A discussão já existiu. Há quem ache que seria melhor e talvez a ginjinha não amargasse tanto no final.

Vocês barreirenses já conheciam a ginjinha antes do presidente ir lá?

Eu confesso que não.

Eu também não.

Pronto, era uma dúvida que eu tinha.

Mas vou sempre.

Aí está, fica o legado de Marcelo Rebelo de Sousa.

Bom, por outras razões. Paulo, qual é a prioridade de muitas pessoas neste dia 26 de dezembro?

Bom, além de irem à ginjinha do Barreiro. A prioridade é ir trocar as prendas de Natal que receberam, algumas delas.

Olha, já estou a receber e-mails com saldos.

Ora bem, nem mais. É isso mesmo. Desde ontem que já começam a cair os e-mails com saldos. E as pessoas vão trocar ou porque não gostaram, ou porque já têm, ou porque não precisam mesmo daquele par de meias extra oferecidos por aquela tia ou tio que não tem grande imaginação. Bom, e assim as pessoas também aproveitam os saldos, que começam hoje em muitas lojas. Fomos ver os cartazes com anúncios de grandes percentagens de queda de preço. Enfim, é aquele lado mais consumista da quadra natalícia que acaba por entusiasmar muita gente, mais do que os valores que o Natal devia apregoar.

Pois é, é verdade. E seja em que época for. A verdade é que os portugueses continuam a morrer nas estradas.

Sim, e nesta altura a atenção sobre aquilo que se passa nas estradas é diferente e também o impacto das tragédias é maior. Só entre 18 e 24 de dezembro, durante a primeira fase desta operação Natal e Ano Novo, morreram 12 pessoas nas estradas, mais de 400 foram detidas por condução sob efeito do álcool e não há campanhas, não há alertas que levem à redução de números que nos últimos anos estagnaram. O panorama é agora muito diferente do que foi nos anos 80 e 90. Eu lembro-me daqui a uns tempos estar a fazer uma pesquisa para um outro assunto e encontrar em jornais de 2000, do ano 2000, portanto não foi assim há tanto tempo, verdadeiros massacres, tragédias enormes e números que eram muito mais elevados do que são agora. Houve melhorias assinaláveis, mas olhando para estes números atuais, à volta de 500, 600 mortes por ano, parece que o progresso se deveu mais à melhoria das condições das estradas e até do parque automóvel do que à consciência e civismo de quem anda na estrada. Já não será a guerra civil de que se falava nessa altura, mas a verdade é que não anda muito longe.

Foi o Ainda Bem Que Faz Essa Pergunta com o Bruno Vieira Amaral e com o Paulo Ferreira.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.