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Este é o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o major-general Álvaro Moreira. Bom dia.
Bom dia. Muito bom dia a todos.
Durante o fim de semana passado, a França viveu intensos momentos de convulsão social que deixaram um rastro de destruição e de indignação. A poucos meses das presidenciais, estes acontecimentos não vão deixar de influenciar o seu desfecho. Os ecos destes acontecimentos foram capa de jornais, abertura de telejornais em todo o mundo, com os mais diversos comentários e análises. E Moscovo também olhou para esta França a arder de uma forma muito particular. General, que tipo de análise se faz em Moscovo de toda esta crise?
Paris e outras cidades francesas estiveram a arder no último fim de semana e podem voltar a arder amanhã. Se eu pudesse sintetizar o que se passou em França, eu diria que durante dois dias o que houve foi uma ausência do Estado. Isto é, o Estado demitiu-se das suas funções. A principal função de um Estado é fazer cumprir a lei e dar segurança aos seus cidadãos. Todas as outras funções do Estado são acessórias, podem ser feitas por outras entidades. A Segurança Social pode ser feita por outras entidades, a saúde pode ser prestada por outras entidades, a educação pode ser prestada por outras entidades. O Estado tem o monopólio da violência para assegurar a segurança dos cidadãos, dos seus pertences, dos seus haveres, dos seus negócios, da sua economia. É para isso que existe o Estado. Tudo o resto, podemos encontrar outras formas de providenciar esses serviços. Ora, o Estado esteve ausente em França.
Demitiu-se de funções.
Demitiu-se de funções. E eu vou voltar a este tema, porque este é um tema importante, mas ainda precisa de ser complementado com o que pode acontecer, eventualmente amanhã, no próximo programa. O próximo programa já tem título, chama-se "A Revolução em França" e vai ser um estudo que conta também com a minha experiência pessoal, que vivi em França durante algum tempo, sobre o que se passa em França e como explicar o que se passa em França. Para hoje vamos tratar o tema de Moscovo. Moscovo gosta de Paris a arder. E talvez ninguém mais do que Moscovo comentou com agrado, com entusiasmo, aquilo que se passou em França. E não escondeu a sua secreta esperança de que os outros países ocidentais venham também a ser afetados por estes atos da França a arder. Isto divide as sociedades europeias, altera as prioridades económicas e claro está, quer acabar com o apoio à Ucrânia. Fiz uma espécie de resumo daquilo que me pareceram as grandes opiniões, as grandes análises que foram feitas em Moscovo sobre o assunto. Kirill Dmitriev, o homem que está sempre presente junto a Witkoff e Jared Kushner, disse o seguinte: "O Ocidente". Ele não falou em Paris. "O Ocidente caiu pela sua inabilidade para discutir e corrigir os erros cometidos em matéria de..." E agora vamos ver os três temas que Moscovo sublinha. Migrações, energia e belicosidade, portanto, amor à guerra. Isto é, os três temas que interessam a Moscovo. A singularização destes assuntos polémicos tem muito a ver com aquilo que é o objetivo último de Moscovo, acabar com o apoio ocidental à Ucrânia. Na segunda-feira, Peskov disse o seguinte: "A Europa está a atravessar uma crise maior". E acrescentou, em jeito de provocação: "É difícil dizer se se trata de uma crise sistémica ou não sistémica, mas é claro que se trata de uma enorme crise. Vemos distúrbios que, de facto, se aproximam do caos." E acrescentou depois com ar de quem não tem nada a ver com isto: "Mas claro, isto são assuntos internos dos vários países." Isto é, são assuntos internos, mas merecem análises enormes por parte de Moscovo, que procura tocar naquilo que são as vulnerabilidades e os pontos onde os assuntos que na realidade dividem também os europeus. Talvez o mais oportunista dos comentários foi o feito por Maria Zakharova, a porta-voz do Kremlin. Diz o seguinte, é importante olhar para estes comentários: "Armas e bombas, em vez de artigos escolares e de livros de estudo, são as prioridades da liderança política francesa de hoje em dia." Armas e bombas, em vez de livros de estudo e manuais escolares.
Que imagem!
Que imagem! A França, por causa da sua belicosidade contra a Federação Russa, está a trocar as prioridades, quando as suas prioridades deviam ser os livros de estudos e os artigos escolares. E diz ainda: "E isto enquanto milhares de milhões de euros estão a ser canalizados para apoiar o regime neonazi de Kiev". Estas podiam ser textualmente as palavras ditas por Marine Le Pen, que tem exatamente dito que vai interromper a ajuda económica à Ucrânia. Portanto, é aqui que todas as declarações de Moscovo vêm desaguar. Os problemas da Europa para Moscovo são uma alegria imensa. Mostram uma desunião grande dentro das sociedades europeias muito polarizadas e ela acha que a exploração destas vulnerabilidades terá como consequência a diminuição do apoio europeu à Ucrânia e, portanto, Moscovo gosta de ver Paris arder.
Depois de um início de semana bastante conturbado, com acusações mútuas entre Washington e Kiev, Steve Witkoff reuniu-se em Oslo, na terça-feira, com Zelensky e visitou Putin em São Petersburgo, na quarta-feira. General Álvaro Mano, o que é que fica destas visitas, desta vez sozinho do enviado especial da Casa Branca?
Nos últimos 15 dias houve uma enorme aceleração de vários processos. Do processo político, do processo militar e do processo diplomático relativo à guerra na Ucrânia. Estamos recordados do polémico acordo diesel entre Trump e Putin. Parece que terá saído hoje o primeiro carregamento de diesel para os Estados Unidos. Provavelmente demora três semanas, é capaz de não chegar a tempo das eleições. Mas sairá provavelmente hoje. Depois tivemos uma degradação muito vocal das relações pessoais entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky. Tivemos a invenção do cessar-fogo energético e depois tivemos todos aqueles episódios que não sabemos se estão verdadeiramente ultrapassados, das falhas do Star Shield e do não aviso do lançamento dos mísseis balísticos. E depois, Zelensky, que tinha esperado calmamente que alguém fizesse avançar um pouco mais esta ideia, este conceito da trégua energética, decidiu passar outra vez ao ataque. E desta vez, lançou um ataque de enormes proporções a São Petersburgo, visando três ou quatro aspetos que são importantes e que são diversos. Um deles foi os centros de dados. Os centros de dados são hoje em dia um alvo relativamente fácil para destruir, porque afetam diretamente aquilo que são o comércio, as comunicações das pessoas, o acesso à internet, os blogs.
Tem impacto no dia a dia.
O dia a dia das pessoas. E, portanto, o ataque à VContact, que era a detentora deste centro de dados, poderá ter afetado qualquer coisa como 20 mil servidores. Depois, duas pontes, uma espécie de uma resposta ao ataque da Federação Russa às pontes de Kyiv. Desta vez foram duas pontes em São Petersburgo. E depois, uma das mais importantes infraestruturas do Báltico para a exportação de combustíveis, que é o terminal petrolífero de São Petersburgo. E foram lançados mais de mil drones num único ataque. Portanto, isto foi uma espécie de uma resposta política também a Donald Trump a dizer: a Ucrânia está viva, continua na disposição de se defender e de utilizar todos os meios que tenha ao seu alcance e também sobre Putin a dizer: a guerra não pode ser escondida do povo russo. Aliás, circularam vários vídeos na internet, alguns dos quais muito interessantes. Talvez o mais interessante foi o de uma cidadã de São Petersburgo, que pôs um vídeo na sua rede social dizendo o seguinte: mas isto é uma operação militar especial. As operações militares especiais deviam estar localizadas no espaço e no tempo, deviam estar confinadas. Então os bombardeamentos agora a São Petersburgo não merecem uma explicação por parte das autoridades russas. Isto é, estes bombardeamentos têm exatamente este efeito, é de levar a dúvida junto aos cidadãos russos, se a operação militar especial, na verdade, não é uma guerra que está aqui encoberta e sobre a qual existem consequências também sobre os cidadãos russos. Entretanto, houve também alguns desenvolvimentos mais positivos. É verdade que Trump e Zelensky continuam zangados Continuam irritados um com o outro. Mas houve alguns avanços. O Star Shield, Starlink, umas vezes funciona, outras vezes não funciona, mas parece que já voltou a funcionar um pouco melhor. Os avisos do lançamento dos mísseis balísticos parece que agora chegam com maior antecedência do que durante aquela semana crítica e, sobretudo, a diplomacia continua a fazer o seu caminho. Isto é, não obstante a zanga pessoal entre os dois líderes, a diplomacia parece continuar a fazer o seu caminho. E tivemos duas reuniões importantes. Foi o Witkoff, Jared Kushner, em princípio estaria doente e terá eventualmente até participado à distância, mas pessoalmente o Witkoff esteve reunido com Zelensky em Oslo, na terça-feira, com uma presença europeia.
Verdade, sim.
E depois, na quarta-feira, houve a reunião com Vladimir Putin em São Petersburgo. Ora, há aqui aspectos substantivos e outros de natureza formal que foram debatidos nestes encontros e que é importante sublinhar. Um: Zelensky parece admitir um cessar-fogo nas atuais posições. Parece ser esta a posição de princípio de Zelensky. Cessar-fogo imediato nas atuais posições, a Ucrânia não procurará reaver os territórios que estão ocupados pela força. Não significa que do ponto de vista diplomático, das negociações, etc, esses territórios não tenham que ser alvo desse processo de negociação. Mas o cessar-fogo garantiria que a Ucrânia não iria procurar pela força recuperar esses territórios. Isto é uma posição de princípio que parece bastante razoável. Segundo, estaria disponível para aceitar um cessar-fogo energético, desde que ele fosse correspondido também pela Federação Russa e que os Estados Unidos providenciassem a Ucrânia com os sistemas Patriot, que, aliás, já estão pagos, não estão é entregues. Os europeus já os pagaram, simplesmente os Estados Unidos não os entregaram. Terceiro aspecto, os Estados Unidos estão empenhados e têm esperança em retomar o formato das negociações trilaterais, que foram interrompidas, mas os Estados Unidos acreditam que essa é a via que temos pela frente. É conseguir juntar na mesma mesa delegações ucranianas, delegações russas e a mediação americana. Depois, quarto aspecto, a Ucrânia considera que qualquer acordo tem que ter garantias de segurança, isto é, que aquilo que ela está disposta a ceder é compensado pelo Ocidente com garantias de segurança que impeçam a Federação Russa de, partindo de posições que pode ter ganho durante o cessar-fogo, agora utilize essa nova plataforma territorial para mais incursões no interior da Ucrânia. Portanto, garantias de segurança é uma coisa que a Ucrânia está sempre a falar. E Moskov também aproveitou a deixa e disse: "Mas a Federação Russa também precisa de garantias de segurança". Quer dizer, o agressor também precisa de garantias de segurança. E isto vai nos conduzir a onde? Vai nos conduzir a uma parte que vai ser muito desagradável para a Europa. A Europa tem estado sentada confortavelmente a dizer: "Nós apoiamos aquilo que a Ucrânia disser". Isto é válido enquanto estivermos só a falar da Ucrânia. Isto já não é válido quando Moskov começa a chamar para cima da mesa as garantias de segurança à Rússia, porque isto tem a ver com a arquitetura de segurança e defesa da Europa. E, portanto, já estamos a ver que os europeus não vão poder continuar sentados à mesa caladinhos. Têm que ter uma posição comum sobre o que é que estão dispostos a aceitar. Estão dispostos a retirar a NATO dos seus territórios europeus, a fazer recuar o dispositivo militar para dar segurança à Federação Russa. Isto é, a Federação Russa vai utilizar este processo negocial para duas coisas. Primeiro, manter Donald Trump interessado na perspectiva dos futuros negócios, fazer negócios com a Federação Russa. E segundo, procurar obter aqui uma reversão daquilo que foi o final da Guerra Fria e daquilo que foi o descalabro de todos aqueles países que estavam na órbita da União Soviética terem decidido passar para o lado da NATO. A Federação Russa não perdeu a esperança de que este processo negocial sobre a Ucrânia se encaminhe para uma coisa muito mais larga, que é um projeto de segurança europeia, em que os europeus vão ser obrigados, de acordo com aquilo que a Rússia pretende, a abdicar de uma presença de um dispositivo NATO avançado nos respectivos países. E, portanto, nós temos aqui matéria, como aliás Putin disse no dia seguinte à sua reunião com o Witkoff, de que a Rússia não está interessada em cessar-fogo nenhum. A Rússia está interessada num grande tratado de segurança da arquitetura de segurança europeia. E, portanto, isto é uma coisa que do meu ponto de vista pode demorar anos a resolver E que vai obrigar a Europa a sair da posição confortável, porque isto agora vai começar a mexer com o dispositivo militar europeu.
General, esta manhã falamos do míssil Kinzhal. É um míssil hipersónico russo que entrou em serviço há nove anos, em dezembro de 2017. Foi apresentado por Vladimir Putin como uma das armas estratégicas russas mais importantes e foi agora desmontado peça a peça pela Ucrânia. E afinal, os componentes são quase todos ocidentais.
Isto é fantástico.
Que cortina de fumo é esta? E claro, o que dizer da eficácia das sanções ocidentais à Rússia?
Exatamente. Isto é fantástico. O Kinzhal é um míssil balístico. O que o distingue dos outros mísseis balísticos utilizados pela Federação Russa é que este é lançado a partir de uma plataforma aérea. Na verdade, é o MiG-31K, o avião que transporta o Kinzhal. O Kinzhal tem um alcance muito significativo, entre 2000 a 3000 km. Pode ser lançado, portanto, muito na retaguarda, pode levar munições de natureza convencional ou transportar até uma carga nuclear. Portanto, é uma arma estratégica que a Federação Russa apresenta como o topo daquilo que são as suas novas capacidades estratégicas. Só que a Ucrânia pôs-se a desmontar o Kinzhal. E agora vem os resultados de desmontar o Kinzhal peça a peça. Foram identificados 197 componentes no Kinzhal. O Kinzhal é composto por 197 componentes. Dos 197, um desconhece-se quem fabricou. Ficam 196. Portanto, há 196 componentes do Kinzhal que estão identificados em termos da sua origem. Ora, este produto russo, quantas peças tem da Rússia? Quantos componentes tem da Rússia? Um. Tem um componente russo. E da China? Da China deve ter muitos. Tem um componente fabricado na China. E de outros países aliados da Rússia? Tem um. Foi a Bielorrússia que o fez. Portanto, tem três. Dos 196, três são: um chinês, um russo e um bielorrusso. E os outros 193? São todos ocidentais. Com particular destaque dos Estados Unidos, que produz a grande maioria disto. Por que isso acontece muito rapidamente? Porque grande parte destes componentes são os mesmos que encontramos numa máquina de lavar louça, só que estão montados de forma diferente para o transformar num míssil. Isto é, a Federação Russa, como não tem sanções para importar peças para máquinas de lavar roupa, consegue fabricar um míssil com base nesta sua rede de contactos mundial de empresas, muitas delas fictícias, fantasmas, que têm por objetivo fabricar máquinas de lavar roupa, mas que depois entregam os componentes para poder ser fabricado o Kinzhal. Mas 196, 193 serem do Ocidente, é verdadeiramente uma cortina de fumo imensa.
Hoje trazemos para o nosso Ponto de Mira os países do norte da Europa, países que se preparam para a guerra. Que preparação é esta, general Álvaro Moreira?
Existem na Europa muitíssimas formas como devemos lidar com a Rússia. Há quem defenda que isto tem que ser pelo endurecimento de sanções, há quem defenda o diálogo com Moscovo e há quem faça abertamente o jogo de Moscovo e procure acabar com a Europa, a sua cultura e as suas instituições. Ora, no norte da Europa, ninguém se deixa enganar com os sorrisos de Putin, nem com a mediação americana. O norte da Europa prepara as suas populações para a guerra. Prepara as suas populações para a guerra. E há cinco ou seis áreas que estão a ser ativadas. Primeira área: distribuição de folhetos a cada casa sobre como armazenar água, comida com durabilidade, dinheiro vivo, comprimidos de potássio iodo para proteger a tireoide durante um ataque nuclear e tudo o que é necessário para sobreviver dentro de casa durante uma semana. Isto é distribuído em todas as casas no norte da Europa. Segundo: serviço militar obrigatório para poder gerar as reservas que estejam treinadas em caso de necessidade. Serviço militar obrigatório que passou a ser obrigatório para homens e para mulheres. Educação dos jovens para a resiliência, a desinformação e a gestão de crises, com cursos específicos para os jovens. Incorporação dos serviços de proteção civil nos exercícios militares, que é uma coisa a que nós não estamos habituados. O serviço de proteção civil tem que fazer parte dos exercícios de natureza militar, porque os dois vão atuar em caso de uma enorme crise ou guerra, têm que atuar, coordenar em conjunto. E depois, começou a preparação de abrigos para acolher a população em caso de um ataque iminente. A Finlândia está a melhorar e a testar todos os seus abrigos com explosões controladas e eu diria, para terminar, a vida é bela nos países do sul, porque ninguém se preocupa em estar preparado para o que pode estar para vir.
Ao contrário do que dizia há pouco, no norte da Europa, não estão sentadinhos à espera.
Não estão sentadinhos à espera.
General Álvaro Moreira, obrigada. Até para a semana. Para a semana vamos à França.
Para a semana, a revolução em França.