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Há uma frase que o meu terapeuta me disse e que eu nunca me vou esquecer, que é: "A vontade de não querer estar é suficiente para ir embora." Se não te sentes completa nessa relação, o facto de tu não te sentires completa é suficiente, não é preciso a outra pessoa ter feito nada de mal. Quanto mais partilhas, mais as pessoas querem. Ou seja, abriste ali uma portinha para se poder falar sobre isso. Isto depois era um assunto que estava sempre presente, Mariana. Eu ia a um evento e era o assunto de conversa. Como é que vai ser o teu casamento? Se calhar ando mais irritada porque não durmo. Ou se calhar andas mais ansiosa porque este relacionamento não te está a acrescentar e tu já sabes disso e não sabes o que é que hás de fazer, porque estás noiva.
A terapia ajudou a tu chegares a essa conclusão? Que não te estava a acrescentar o suficiente para quereres ficar?
A minha vida antes estava planeada com: "Ok, daqui a um ano vais-te casar, depois mudar-nos, vamos ter uma casa nossa, depois possivelmente filhos" e do nada é como se passasse uma borracha nesse futuro que já estava super planeado. Por que nós enquanto seres humanos temos medo de partilhar o nosso momento mais vulnerável? Isto tem sido os meus dias, morar sozinha está a ser super complicado. Eu não sabia dormir sozinha, mas a pessoa que está ao nosso lado, quer seja uma amiga que viva conosco, um familiar ou um namorado, serve mais ou menos de escudo para aquilo que vai acontecendo na nossa vida. E quando tu és a parede da frente e lidas com tudo, é um embate gigante. Ultrapassar esta situação, eu senti-me literalmente: "Que venha o que vier."
Agora sou capaz de tudo.
Agora eu consigo fazer literalmente tudo.
Porque eu acho que há muita gente da nossa idade que acaba por se deixar estar, porque é tipo, agora já tenho esta idade.
Mas há muitas mulheres em geral que se deixam estar. Eu confesso que enquanto pessoa que já esteve dos dois lados da moeda, nós não damos valor suficiente às nossas amigas solteiras.
O que é que tu mais aprendeste nesta nova fase de descobrires a Vicky sozinha, solteira?
Eu tenho um journal de 147 páginas que relatam essa descoberta.
Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio. Hoje temos conosco a Vicky Campelo, uma amiga minha que vem nos contar uma história de como ela namorou durante oito anos, ficou noiva e cancelou o noivado. E no fundo é uma história de coragem, porque foi ela que tomou essa decisão, não aconteceu nada por aí além, mas simplesmente achou que o relacionamento já não estava a dar match com aquilo que ela imagina para o futuro dela. É preciso muita coragem para tomar esta decisão e hoje ela vem nos contar o processo de chegar a esta conclusão, de partilhar esta decisão e de como é que se reconstruiu depois disso e como está a navegar também agora esta nova fase, a viver sozinha pela primeira vez, a descobrir o mundo do dating pela primeira vez e a descobrir a nova Vicky. Portanto, está a ser todo um processo e ela vem nos contar um bocadinho de como é que está a ser, como é que está a lidar com isto, como é que a terapia a ajudou nisto também e que outras ferramentas a estão a ajudar neste processo. Acho que está uma conversa muito interessante e espero muito que vocês gostem.
Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?
Estavas a dizer que não quiseste ir à televisão, mas tu sentes-te confortável neste momento para falar abertamente sobre o tema?
Não, super. Eu acho que já passaram seis meses e eu acho que toda a minha parte de healing já ficou aqui num ponto e a partir de agora eu já estou mais a explorar a minha identidade fora do relacionamento. Sabes quando tu pões o dedo na ferida e às vezes é mega complicado falar dos assuntos? Eu já não me sinto assim.
Mas quando tu estás a viver aquilo, é mesmo difícil tu estares no digital, porque eu lembro-me que foi mais ou menos quando tu terminaste, que tu partilhaste que tinhas terminado. Não foi?
Isto é uma história um bocado tricky, porque uma relação nunca acaba no momento em que nós dizemos que ela acaba. A relação vai acabando. E eu acho que nós, enquanto mulheres, temos muito este mindset que é: nós vamos levando as coisas a saber que elas estão a chegar ao fim. Eu já suspeitava há algum tempo que aquilo já não estava a correr conforme eu queria. Nós acabamos no dia 27 de abril. Eu partilhei, se eu não me engano, um mês depois ou umas semanas depois, mas eu acho que na minha visão era mais difícil levar uma vida tão aberta, principalmente dentro das redes sociais.
Sentias que estavas a mentir.
E depois era um assunto que estava sempre presente, Mariana. Eu ia a um evento e era o assunto de conversa. Como é que vai ser o teu casamento? Como é que vai ser a decoração do teu casamento? Por exemplo, eu lembro-me que antes de eu partilhar, antes de eu lançar os vídeos, eu já tinha gravado e já tinha tido essa ideia, já sabia que queria ser transparente nas minhas redes sociais com as pessoas que me acompanham, que relativamente a relação tinha chegado ao fim. E eu fui a um evento de uma marca, não vale a pena estar a mencionar, mas houve duas pessoas, encarregues da marca, super amorosas, super queridas, já estive com essas pessoas imensas vezes, e nós estivemos literalmente a beber um café durante uma hora em que elas não tiveram a passar contactos de organização de lua de mel, despedida de solteiro, catering. E eu lembro-me que eu estava com a Bruna e eu só pensava naquele momento, como é que eu saio desta conversa?
Sentes que estás a mentir. Sentes que estás a encarar uma personagem, uma atriz.
Exato. Imagina, e tu conheces-me, eu sou uma pessoa mega bubbly, mega conversadora, mega extrovertida e naquele momento eu senti que as pessoas estavam a passar-me informações e eu só estava a acenar com a cabeça, eu estava em modo fight or flight.
Quero fugir, quero sair daqui, arranjem-me um braço para eu me afar.
Exato. E eu acho que foi o acumular dessas pequenas situações que me fizeram pensar assim: "Ok, a partir do momento em que isto esteja aberto para toda a gente, eu não vou ter que estar nestas situações." Eu acho que as pessoas também, porque isto ninguém faz de propósito. Supostamente, é um dos momentos mais felizes da vida de alguém, preparar um casamento, planear uma união que é tão importante entre duas pessoas que se amam e tudo mais. Mas naquele momento, aquilo não era o meu contexto. Eu estava literalmente a passar por uma separação e principalmente estava a lidar com aquele conceito de não vai ser agora que isto vai acontecer para mim, depois de tantos anos com aquela pessoa. Portanto, eu acho que foi mesmo aquilo que eu devia ter feito, os vídeos e tudo mais. E atenção, eu recebi várias críticas, mas na minha visão era mesmo o que eu deveria ter feito.
Mas achas que isso te ajudou a ti Ou achas que te prejudicou porque não puseste tantos os teus limites e as pessoas sentiam-se... Porque quanto mais partilhas, mais as pessoas querem. Abriste ali uma portinha para se poder falar sobre isso. Achas que isso te ajudou a receber feedback de outras raparigas que também provavelmente recebeste, que estivessem a passar pelo mesmo, te ajudou ou te constantemente lembrava: "Isto é o meu trabalho e mesmo assim o meu trabalho está a ser à volta da minha separação."
Isto é um bocado tricky, porque eu lembro-me que eu troquei de terapeuta e antes de eu planear partilhar isto, eu tive literalmente duas sessões com ele em que eu pensei: "Será que isto vai me prejudicar ou será que isto vai conseguir ajudar alguém?" Portanto, o meu objetivo de partilha foi não só abrir as portas para eu ficar livre daquela situação e para as pessoas também saberem qual é que era a situação atual, mas eu também pensei: quantas vezes é que nós não vemos amigas, familiares, figuras públicas, celebridades, muitas das vezes aparecem com o relacionamento e depois desaparecem durante seis meses e só voltam quando estão superbem. Mas imagina, qual é que foi o ponto de conexão? Como é que tu chegaste aqui? E por que as pessoas têm tanto medo de partilhar o seu momento mais vulnerável? Por que nós, enquanto seres humanos, temos medo de partilhar o nosso momento mais vulnerável? Aconteceu comigo também da última vez quando eu tive compulsão alimentar. Só quando eu já estava encaminhada dentro do tratamento é que eu tive coragem de abordar o tópico, por que não no momento em que eu estava a tentar perceber o que aquilo era.
Porque é preciso coragem.
Exatamente.
Não é fácil. Fazendo o paralelismo também, por exemplo, para mudança, perda de peso e tudo mais. Eu sinto também que existe muito isso, que é a transformação. De tu estares num período mais embaixo e tu só apareces passado não sei quantos meses quando já estás glowing.
Quando já estás, exatamente.
E depois é tipo: "Isto aconteceu, este foi o processo e foi assim que eu fiz."
Exato.
Mas eu acho que, no meu caso, eu, por exemplo, o ano passado estava mais embaixo e eu quis partilhar também essa minha fase, para me sentir acompanhada. E para mim fez-me bem, porque era como se eu tivesse também amigas virtuais a fazer o percurso comigo.
Exatamente. E parece que vais recebendo um feedback e as pessoas meio que vão ali, parece uma corrente que se vai criando. Sabes aquela brincadeira que nós fazíamos quando éramos crianças, que é tipo ninguém larga a mão de ninguém? Era um bocado isso, porque eu recebi tanto feedback de pessoas que se calhar tinham acabado namoros ou se calhar estavam em situações muito parecidas. Portanto, mesmo o feedback que eu recebia das pessoas, porque eu estava naquele momento a aprender a lidar, literalmente, quando eu partilhi aqueles vídeos, não foi no sentido de propriedade, do gênero, façam isto. Foi literalmente, olhem, isto tem sido os meus dias, morar sozinha está a ser supercomplicado, eu não sabia dormir sozinha, eu sempre tive medo do escuro.
Tu tiveste quantos anos com...?
Nove, nove e meio, quase. Portanto, imagina, nós éramos miúdos quando começamos a namorar. E acima de tudo, foi a primeira vez que eu saí de casa, mas eu nunca morei sozinha. Sempre morei com ele. Portanto, foi quase como se fosse uma margem de passar para uma vida adulta sozinha. Porque eu acho que é muito fácil nós pensarmos: "Ah, ok, eu agora tenho esta pessoa e, portanto, estou a iniciar a minha vida adulta e tudo mais." Mas a pessoa que está ao nosso lado, quer seja uma amiga que viva conosco, ou um familiar, ou um namorado, servem mais ou menos de escudo para aquilo que vai acontecendo na nossa vida. E quando tu és a parede da frente e lidas com tudo, é um embate gigante, porque passas de ter ajuda para tudo em casa, passas de ter apoio emocional, passas de ter companhia, chegas a uma casa vazia.
Não é como acabar um relacionamento quando tens 20 anos. Que estás em casa dos teus pais e pouco muda na tua rotina.
Exato. Eu acho que é doloroso na mesma, e acho que temos de ter aquela atenção para as pessoas que também não é por não viverem juntas, também não passam por um processo muito complicado. Eu acho que também deve ser difícil, eu também já acabei quando era adolescente e eu sei que é muito complicado, mas eu acho que quando nós vivemos com uma pessoa e existem animais à mistura, e mobílias, e anos, e contas poupanças, e tudo e mais alguma coisa, é quase como se fosse um divórcio. Portanto, eu estava ali no meu ápice, de 26 anos, e a sentir-me ali à beira de um divórcio. Entre aspas, nunca casei, mas foi muito isso o sentimento.
Mas o que é que te custou mais? Foi o perder esta imagem de vida junta que vocês já tinham criado? Ou seja, o que te assustava mais? Era eu agora tenho esta idade e vou ficar solteira e já tinha pensado que ia casar e ter filhos com esta pessoa? Assustava-te aquela sensação de que nunca mais vai encontrar alguém?
Eu acho que isso passou muito pela cabeça, até mesmo porque eu recebi muito feedback do gênero, mas de certeza que não podias tentar mais, tu já tens alguma idade.
Porque eu acho que há muita gente da nossa idade que acaba por se deixar estar, porque é tipo, agora já tem esta idade e agora já...
Mas há muitas mulheres em geral que se deixam estar, entendes? E eu acho que eu tive sempre o exemplo da minha mãe, que é uma mulher superforte e a minha mãe e meu pai já estavam casados há 25 anos e houve um dia em que, ou seja, claramente não foi de um dia para o outro, mas ela percebeu que relativamente aquele relacionamento já não estava a acrescentar da forma como ela gostaria e ela queria, no fundo, e sentia que ela merecia também encontrar um caminho que a fizesse feliz todos os dias. E eu acho que isso é superválido. E ela basicamente acabou, não foi assim tão bem recebido pela família, amigos e pessoas próximas, porque relativamente não era um casamento conturbado, era um relacionamento mais ou menos estável. Mas eu acho que há uma frase que o meu terapeuta me disse e que eu nunca me vou esquecer, que é: "A vontade de não querer estar é suficiente para ir embora." E eu acho que isto às vezes é muito válido, porque às vezes nós estamos a pôr contrapesos nas nossas relações. "Ah, mas ele nunca me traiu, mas ele nunca gritou comigo, ou nunca me bateu, ou nunca houve qualquer tipo de violência, ou nunca houve uma mentira." Ok, mas imagina, sentes-te completa nessa relação? É porque o facto de tu não te sentires completa é suficiente, não é preciso a outra pessoa ter feito nada de mal.
A terapia ajudou tu chegares a essa conclusão? Que não te estava a acrescentar o suficiente para quereres ficar?
Sim, eu acho que Há aqui uma narrativa muito engraçada. Basicamente, eu troquei de terapeuta em janeiro. Os meus pais mudaram-se para o Alentejo e eu comecei a entrar numa ansiedade gigante durante o mês de janeiro. Foi literalmente um dos meus piores meses e eu não estava a perceber o porquê, porque a minha mãe sempre viveu na margem sul, eu ia lá muitas vezes, ela estava relativamente perto e do nada eu senti que eu ia ficar sem aquela base. E é assim, não é que o Alentejo esteja do outro lado do mundo, mas também não é como se eu pudesse ir lá jantar, etc. E então eu troquei de terapeuta nessa altura, foi um terapeuta que a minha manager me indicou, e eu acho que assim que eu cheguei à primeira consulta, ele identificou logo que estava ali alguma coisa esquisita, porque eu estive a primeira parte da consulta toda a falar sobre a minha vida familiar e nos últimos cinco minutos ele perguntou-me: "Há alguma coisa que me queiras contar mais?" E eu: "Ah, ok, eu esqueci-me de dizer, eu estou agora noiva." Isto também é um tema importante, mas na minha cabeça foi tão fluído que não me pareceu que havia nada de mal, mas ele detetou que havia ali relativamente: "Ok, por que isto não foi logo um tópico que surgiu no início?"
Por que só te lembraste no final?
Exatamente. Portanto, sim, definitivamente, eu acho que a terapia ajudou-me a perceber o que aquela fase mais ansiosa da minha vida estava a representar. E muitas vezes, eu acho que o que acontece é que nós não queremos observar alguns pontos. Existem pontos da nossa vida que nós, quase como se fosse um autossabotage, não queremos analisar.
O teu gut feeling está a dizer alguma coisa, mas tu estás a: "Eu não estou a receber nada."
Exatamente. Às vezes pode ser um relacionamento conturbado com um familiar, ou com uma mãe ou com um pai, nós sabemos que aquilo é uma coisa que vai mudar a tua vida toda. Portanto, nós preferimos procurar problemas dentro da nossa rotina, alimentação, exercício, falta de sono, se calhar ando mais irritada porque não durmo. Ou se calhar andas mais ansiosa porque este relacionamento não te está a acrescentar e tu já sabes disso e não sabes o que é que hás de fazer, porque estás noiva.
O estar noiva pesa muito? Pesou muito na tua decisão?
Eu acho que sim. E atenção, eu acho que eu até partilhei um vídeo.
Quando é que tu foste pedida em noivado?
Foi em março de 2024. Foi em Paris.
Um ano antes.
Exato, tinha feito quase um ano. Foi quando nós fomos viajar com o Tiago, com uns amigos, era o aniversário do Tiago e basicamente o meu ex organizou tudo e fez-me o pedido em Paris. Já tínhamos falado sobre ficar noivos antes, mas eu acho que hoje em dia, do ponto onde eu vejo, eu acho que o noivado foi meio que um penso rápido. Eu já tinha falado sobre isso antes, mas eu acho que era eu à procura de ver se a nossa relação conseguia evoluir até ao ponto em que eu gostava que ela tivesse.
Como muita gente tem filhos para tentar resolver relações.
Exato. E eu acho que muitas das vezes nem precisam de ser problemas profundos, é exatamente isto. Nós enquanto pessoas que iniciam uma relação, temos uma expectativa e conforme a relação vai crescendo e os anos vão passando, nós precisamos que aquelas expectativas também vão subindo, porque nós vamos mudando enquanto pessoas. E depois de nove anos, eu acho que eu tinha expectativas completamente diferentes para a nossa relação. E nós começamos a ter vidas meio que separadas, visões completamente dispersas. E eu acho que se nós ficássemos juntos, ia ser sempre aquele vai e vem de um a tentar mudar a visão do outro. Isso nem ia deixar ele feliz, nem me ia deixar a mim feliz. Portanto, olhando hoje em dia, eu acho que foi a melhor decisão.
Eu acho que é muito difícil manter estas relações que começam tão novos, porque tu cresces e podes crescer para sítios diferentes, e depois por muito que tu tentes, parece que estás sempre a lutar contra o vento.
Sim, e eu acho que, por exemplo, nós quando iniciamos uma relação, trazemos sempre alguma bagagem, quer seja da vida, quer seja de relações anteriores. E eu acho que meu ex-namorado anterior não era uma pessoa extremamente fiel, não era uma pessoa extremamente certinha. Portanto, naquele momento, uma prioridade minha era encontrar uma pessoa que fosse extremamente de confiança, que fosse uma pessoa sincera, que fosse uma pessoa amiga. E na realidade, o meu ex sempre foi isso. Nunca tivemos qualquer problema relativamente a isso. Mas depois é isso, ou seja, deixa de ser suficiente aquilo que tu tinhas antes como prioridade. Existem coisas que depois vão aparecendo e tu começas a pôr outros fatores, também que vão fazendo falta para a relação. Quando tens um anel no dedo e pensas: "Ok, vou casar", depois começas a ponderar: "Ok, esta é a pessoa com quem eu vou ter filhos. Será que as nossas crenças estão alinhadas e valores para nós depois educarmos uma criança? Será que depois isto vai dar certo nesse aspecto?" Portanto, eu acho que começou a ficar mais real para mim aí.
Mas tu só começaste a fazer essas questões, porque também começaste cedo, se calhar quando tinhas 20 anos, não pensavas nisso.
Não.
Mas agora, hoje em dia, foi só quando foste pedida em noivado que começaste a pensar nessas coisas? Eu pergunto isto porque imagina, eu estou solteira há muitos anos e estando no processo de encontrar uma pessoa, com 27 anos, para mim, eu já entro nesse mindset de eu só me comprometo com alguém se eu vir a possibilidade de ter filhos com essa pessoa.
Imagina, eu sempre me vi. Como é óbvio que quando comecei com ele, eu tinha 18 anos, não era propriamente um pensamento na minha cabeça, mas à medida que nós fomos crescendo, eu via muitas coisas positivas que nós podíamos adicionar se nós tivéssemos realmente uma família e casa e tudo mais. Mas depois existiam muitos outros fatores que puxavam a balança para baixo. E quando eu digo isto, a pessoa às vezes até te pode entregar um prato gigante de fruta e estar tudo ali super bem servido e super bonito. Mas depois, se calhar, aquilo que está por baixo da bandeja faz um contrapeso naquilo que é a apresentação geral. Entendes? E eu acho que se calhar havia ali muitas formas de comunicação que nós não estávamos ainda no ponto em que tínhamos de estar. E isso era uma coisa que me assustava muito, principalmente porque um dos meus maiores medos era chegar depois de 25 anos de casados e pensar em divórcio. É claro que é uma coisa boa, foi uma coisa que ajudou muito a minha mãe, mas foi uma coisa que a mim me traumatizou muito quando eu era mais nova. Experienciar o divórcio dos meus pais foi Possivelmente uma das coisas mais difíceis. Eu queria ter a absoluta certeza que eu ia criar família com alguém, que depois nós íamos conseguir resolver os nossos problemas e chegar a um ponto em que não seria necessário irmos para esse meio de separação.
Quando começaste a entrar nesse loop de pensamento de se calhar não é isto para mim, como é que foi tomar essa decisão? Falaste com muita gente ou guardaste tudo para ti?
Tudo para mim.
Foi em terapia? Como é que foi?
Tudo para mim. Hoje em dia consigo ver claramente que compulsão alimentar.
Pois.
Sabes quando tens uma garrafa e vais enchendo, e aquilo não há sítio por onde escoar? Eu acho que na terapia foi a primeira vez que eu disse em voz alta e custou-me imenso. Mas depois disso falei com a minha mãe, falei com a minha família também. Mas ele já estava tão envolvido na minha família, como é óbvio, já tínhamos tido algumas situações antes, alguns problemas, normal, que às vezes nós partilhamos com a família: "Olha, isso se calhar não está a correr tão bem, estamos a ter de ajustar isto." Mas eu acho que naquele momento, principalmente a minha mãe soube, tanto que ela disse: "Organiza a tua agenda e vem passar uns dias cá a casa para pensares realmente nisto." E foi quando eu disse que eu precisava de um tempo e fui. E depois quando voltei, foi quando nós acabamos.
E tiveste sempre apoio da tua família?
Sim.
Amigos.
Eu não consigo imaginar pessoas que passam por isso sozinhas, porque não só foi o digital e eu nunca vou conseguir agradecer à minha audiência por tudo aquilo. Foi literalmente um colo, o que eu senti. Também a minha família e os meus amigos, porque vamos pôr em perspetiva que eu acabei o meu noivado em abril e em março eu rasguei o gémeo. Eu fiquei de muletas sozinha, a andar sozinha. Sabes aquele ditado que é tudo o que pode acontecer, vai acontecer.
É o universo a pôr-te à prova.
Coração. Sim, mas imagina.
Já chega de provas.
Chegou uma altura que eu pensei assim: "Eu já estou na beira, não me empurrem mais. Tudo o que eu podia dar, eu já dei neste início de ano." Foi literalmente um loop que aconteceu naquela altura, mas deu-me também a oportunidade de eu passar por algumas situações sem aquela barreira que eu mencionei no início. Eu sinto que antes, quando eu estava com o meu ex-namorado, era muito ele que amparava ali os golpes e eu de uma forma estava mais resguardada. E sempre foi uma coisa que a minha família me tentou alertar, do gênero, a vida também tem estes desafios e tu de vez em quando também vais ter de ir cabeça à frente. E eu acho que ainda não tinha passado por uma situação assim completamente sozinha. E esta foi a primeira vez. E eu acho que isto dá-nos uma confiança enquanto mulheres. Ultrapassar esta situação, eu senti-me literalmente que venha o que vier.
Agora sou capaz de tudo.
Agora eu consigo fazer literalmente tudo.
Tu achas que precisavas de passar por isto? Se precisavas ter tido esta relação e terminar? Para saíres mais forte e uma nova Vicky?
Eu acho que sim. Eu acho que nada na nossa vida é por acaso, literalmente. Eu acho que tudo acontece para nos levar até um ponto e foi essencial, porque eu aprendi muito. Eu não me arrependo de nada. Eu acho que nunca vou ser aquela pessoa que vai sair de uma amizade ou de um relacionamento ou de uma interação e pensar: "Uau, aquilo foi horrível." Mesmo sendo horrível ou menos agradável, que não foi o caso da minha relação, estou a mencionar em geral. Eu acho que acrescenta-nos sempre alguma coisa. E eu acho que se eu não tivesse sido forçada, ou seja, se isso não tivesse acontecido, eu acho que eu ainda ia estar na minha bolha de conforto e na minha bolha de ok, eu aqui estou bem, eu aqui estou protegida, estou confortável. E nós no conforto não conseguimos evoluir, não existe evolução no conforto. Nós temos que pôr o pé fora do tapete para conseguir sentir o que está para além disso. E eu acho que foi literalmente o empurrão que eu precisava.
Eu acho que isso é o que acontece muitas vezes naquilo que estávamos a falar, de muitas vezes as pessoas deixarem-se estar, é porque estão confortáveis. Depois a pessoa já faz parte da tua rotina, já conhece a família, já está tanta coisa envolvida que tu pensas: "Isto vai ser muito mais complicado eu sair daqui do que só me deixar estar."
Exatamente. E às vezes tu nem sabes por onde é que vais começar. E depois não é só a pessoa e tu, existe toda uma família. Eu acho que uma das partes que me custou mais foi a família, a parte da família, principalmente a sobrinha dele, que eu conheci quando era mega pequena. Hoje em dia, como é óbvio, está tudo bem, mas já não ter aquela proximidade com pessoas que nós antes éramos família, não é, Mariana?
É muito estranho. Eu acabei um relacionamento quando eu tinha 20 anos e claro que é totalmente diferente, mas eu lembro-me da sensação que eu tinha, que era como é que é possível uma pessoa que foi tão importante para mim nos últimos cinco anos, agora desaparecer da minha vida? É uma sensação mesmo estranha. E ele e as pessoas à volta dele.
Exatamente. É porque é tudo, é o grupo de amigos, e nós também tínhamos um grupo de amigos em comum, acaba por ser sempre tricky. É muito tricky.
E depois quando terminas o noivado, ficas a viver sozinha.
Sim, fiquei a viver sozinha.
E o que foi mais desafiante nisso?
Tudo. Absolutamente tudo. Eu acho que a primeira semana foi chorar pela casa toda, faz super bem, mega recomendo, foi altamente terapêutico. Experimentem. E depois vem o deep cleaning, que é ok, agora tu queres que aquela casa pareça outra casa, apesar de que não é assim num estalar de dedos.
Também não é complicado ficar na mesma casa? Em que tens imensas memórias.
Eu por acaso achei que fosse ser muito complicado, mas eu sempre me senti muito à vontade nesta casa, sempre me pareceu muito a minha casa. E depois, por exemplo, eu fiquei com a gata, era o que fazia mais sentido. O maior choque era o silêncio. O maior choque era literalmente o silêncio. Tu entrares para uma casa vazia E cozinhar também. Eu acho que até hoje, já se passaram seis meses, cozinhar para mim é traumático. Não é traumático, mas por exemplo, eu não sei fazer uma dose de arroz para uma pessoa. Eu antes cozinhava para duas mais almoço do dia seguinte.
Mas é isso o desconforto, Vicky, tens agora a aprender.
Pronto, agora eu aprendi a comer ovo cozido.
O que tu mais aprendeste nesta nova fase de descobrires a Vicky sozinha, solteira?
Eu tenho um journal de 147 páginas que relatam essa descoberta, mas eu acho que foi um mix de tudo. Atenção, eu nunca me senti presa neste relacionamento, mas quando nós estamos com alguém, como é óbvio, nós vamos tentar adaptar a nossa rotina para encaixar com outra pessoa. E como nós tínhamos horários muito diferentes, quando ele tinha tempo livre, eu tentava tar com o mesmo tempo para tar com ele, e isso acabava por me tirar tempo de certas outras coisas. Por exemplo, tempo com amigos. É inevitável, por mais que tu tentes passar tempo com os teus amigos, não vai ser aquele tempo de quando tu estás solteira. Ou então, por exemplo, convívios, é sempre vista em casal, a não ser que seja um one to one. Ou seja, eu acho que mudou muita coisa, mas principalmente a forma como eu me encaixo dentro das minhas relações e dentro da minha vida, principalmente dentro das redes sociais.
Tu agarraste muito em trabalho?
Sim.
Foi um escape? É isso, é por isso que eu estou a perguntar. Foi um escape?
Eu acho que eu não me permiti deixar essa fase do escape porque eu estava a fazer terapia e o meu terapeuta tentava puxar muito para aquela parte do: "Sente absolutamente tudo o que tens de sentir agora, porque senão isso vai te assombrar mais tarde". Portanto, eu acho que eu nunca cheguei a ter um escape, mas eu acho que eu comecei a desviar todas aquelas energias, porque eu antes dedicava tanto tempo a outra pessoa e agora este tempo estava livre. O que eu vou fazer com este tempo? E eu sempre fui aquela pessoa que sempre me pôs muito em primeiro lugar. Eu pensei, pronto, agora vou dedicar este tempo todo para mim. Se eu antes já conseguia fazer isto de uma forma tão natural e de uma forma que eu sempre amei, com metade do tempo, imagina agora com o tempo todo. Portanto, o meu foco foi trabalho, foi amigos, foi também começar a mudar um bocadinho a visão que eu tinha da vida, dos meus planeamentos. Porque a minha vida antes estava planeada com: "Ok, daqui a um ano vais te casar, depois vamos mudar-nos, vamos ter uma casa nossa, depois possivelmente filhos", e do nada, é como se passasse uma borracha nesse futuro que já estava super planeado. Isso abre uma carteira de possibilidades que é: "Ok, sempre quis ir viajar sozinha", mas nunca foi uma coisa que nós partilhamos em comum e também era um bocadinho bias deixar aqui a pessoa três meses porque eu ia viajar sozinha. Agora já não tenho isso, agora se eu quiser é só fazer as minhas malas e ir. Ou seja, é quase como se fosse um Canva, um caminho aberto. E eu acho que isso trouxe muito excitement pela vida também.
E nunca te passou pela cabeça do gênero: "Agora tenho de encontrar outra pessoa rápido para preencher, para conseguir manter o plano que eu tinha definido"?
Não. E eu fico mega grata por isso. Eu acho que foi uma junção da terapia e uma junção das pessoas que também fazem parte da minha vida. Eu sempre tive este mindset que é: nós não devemos procurar um complemento. Ou seja, só procuras uma pessoa quando tu fores inteira. Enquanto tu fores metade, tu tens de completar a tua metade. E eu acho que isso fazia muito sentido para mim desde o início. Como é óbvio, é normal nós irmos conversando com pessoas, irmos conhecendo pessoas, o que também foi uma situação super nova para mim.
Pois, ia perguntar isso, como é que é? Quando é que tu começaste a namorar? Tinhas para aí 18 anos?
18. Para aí 18, 17.
Pois, imagina, o mundo do dating hoje em dia.
Não, imagina, eu, Mariana.
Nós encontramos-nos no Algarve. Eu: "Vicky, como é que é o mundo do dating agora?" E ela: "Ensina-me, que eu não estou a perceber."
Não estou a entender nada, completamente confusa. Aliás, agora vou ter uma série nova no meu TikTok, que vai ser literalmente um single girl boot camp, que é falar sobre essas experiências.
Amo. Eu vi que tu partilhaste uma lata de Coca-Cola com o nome, não foi? E as pessoas estavam living for that.
Ficaram, exato. Foi plena brincadeira. Nós estávamos num restaurante um dia, eu e as minhas amigas, e nós ficámos: "Olha, as latas agora têm nomes, vamos ver o próximo nome que calhar, todas solteiras, vai ser o nome do nosso próximo namorado". E a lata que me calhou, na realidade, foi o nome do meu ex-namorado, portanto foi uma situação um bocado engraçada. Foi partilhada mesmo por aquela parte mais do gozo. Mas eu confesso que enquanto pessoa que já esteve dos dois lados da moeda, nós não damos valor suficiente às nossas amigas solteiras e às situações que elas passam. Nós, que namoramos, não valorizamos as nossas amigas solteiras como nós deveríamos.
Pelo que elas passam, mesmo, é verdade.
Mariana, eu tinha cafés com as minhas amigas onde elas contavam os episódios e diziam: "Está mesmo complicado, é mesmo difícil." E eu só pensava para mim, não quero estar a desvalorizar o que ela me está a dizer, mas ela se calhar tem um gosto, se calhar ela vai sempre para o mesmo tipo de homem, é impossível isto estar assim tão mau.
Ela é que está a escolher mal.
Corta para não estou a dizer que... Eu acho que hoje em dia existe uma grande falta de interesse das pessoas em comprometer, é isso mesmo, entendes?
É tudo muito fast-paced.
Sim, e existe uma beleza nessa leveza. Eu não estou a dizer que não. Eu também não acredito naquela coisa do vou beber café com uma pessoa e depois vamos casar. Não, eu acho que é importante nós também irmos trocando impressões e como eu costumo dizer, fazendo estudo de mercado, vendo realmente o que nós gostamos nas pessoas, o que nós não gostamos, porque eu acho que é essencial. Pronto, é o mundo do dating. Mas eu acho que às vezes nós parece que vamos a um date, ou seja, são 10 dates, mas é a mesma pessoa em vários corpos diferentes, porque parece que é o que a sociedade hoje tem para nos apresentar um bocadinho.
Achas?
É o que eu sinto um bocado.
Mas achas que és tu atrás sempre de um padrão ou achas que não?
Atenção, ainda não tive 10 dates, isto é só um exemplo.
Sim, falamos também das tuas amigas e daquilo que contam.
Sim, mas eu sinto que, para além do padrão, é também-
Mas por que achas que isso acontece? Por sermos geração digital e dating apps e muita oferta?
Eu acho que sim. E eu acho que nós temos aquela mentalidade do "tu é que perdeste", ou do gênero, isto se calhar nem é assim tão relevante. Ou seja, nós já vamos nos encontrar com uma pessoa, ou é com aquela faceta mais superficial, que nós sabemos para o que é o date, ou então são pessoas que não querem realmente aprofundar com nada. É uma coisa muito superficial.
Se calhar já vais para um date muito numa de campo de batalha, lutar um contra o outro.
Sim.
Ver quem ganha.
E já sabes que às vezes vais para lá a saber que vais voltar... Imagina, eu não estou a dizer que isto sejam todos os casos, e eu tenho vários casos, por exemplo, a Emily Sanches conheceu o noivo dela no Tinder, e é incrível, ela já partilhou essa história.
Esses são casos raros.
Sim.
Existem, tenho uma amiga que casou também com um...
Qual foi a app? Estou a brincar.
Foi o Hinge.
Pronto, já instalei.
O Hinge é a app que é para ser apagada, que é a mais relacionamentos.
Ok.
Supostamente. No entanto, está toda a gente em todo lado.
É o que eu sinto. Uma das minhas melhores amigas, que é a Marta, disse: "Olha, tens de voltar ao cavalo", ou seja, no sentido de vai explorar o que é que anda por aí e instala uma aplicação. Desculpem.
Faz mal.
Instala uma aplicação nem que seja para tu observares o que está a acontecer. E eu pensei: "Bolas, eu nunca tive uma aplicação em toda a minha vida. Em 27 anos eu nunca tive uma aplicação. Portanto, como é que isto vai correr?" E depois eu acho que adiciona o peso, que eu sei que não deveria adicionar, mas das redes sociais e de nós trabalharmos. Nós tivemos esta conversa.
Tivemos. O que tu achas sobre isso? Achas que é um turn off?
Sim, imagina, eu acho que existe, não vou dizer um preconceito, mas eu acho que existe toda uma situação de, se calhar não é uma pessoa tão séria porque trabalha com redes sociais.
Ok. Achas que é preconceito pôr-te na caixinha de influencer?
Influencer fútil. Sim.
Nem dá a hipótese para conhecer.
E depois questionarem muito como é que isto funciona.
Pode também ser o medo de aparecer.
Ou então de ser exposto, de uma certa forma. Por exemplo, eu acho que nós, enquanto pessoas que trabalham no meio, nós também temos aquela consciência e aquela responsabilidade de não citar nomes ou nós tentamos salvaguardar as pessoas que fazem parte da nossa vida, quer seja a nossa família. Existem várias pessoas que não optaram por este caminho de ter a vida tão pública e tão exposta.
E é a escolha delas. A minha família não aparece praticamente nunca.
Exatamente. Eu acho que partilhei a minha família uma vez numas férias e foi, sei lá, porque Deus deu à minha mãe aquela iluminação e ela "não, podes publicar", e eu "ok, então bora lá". Mas eu acho que se eu tenho este respeito com pessoas que eu conheço, principalmente com desconhecidos, eu acho que as histórias a partir do momento em que aconteceram na minha vida são minhas e isso ninguém me tira e eu posso partilhar histórias sem citar nomes e momentos, mas eu acho que muitas das pessoas já vêm com esse receio e eu acho que por acaso é muito engraçado.
Mas tu, estando em dating apps, quando falas com a pessoa, tu-
Eu já não estou em dating apps.
Pronto, mas quando estiveste, dizias que-
Foi uma semana.
Mas dizias que trabalhavas com digital?
Não.
Sabe o que é que me diziam na altura? Diziam: "Ma, devias ter um Insta de pessoa normal, sem ser o teu Insta".
Que loucura!
Ya. Imagina.
Como é que recebias essa informação? Eu acho que existem essas certas entradas que depois nos fazem questionar um bocadinho. Não deviam, mas eu acho que a partir do momento em que eu entrei um bocadinho nesta fase de vida solteira e a partir do momento em que eu senti resistência do outro lado, sempre que eu partilhava que trabalhava com redes sociais, eu comecei a ponderar assim: "Será que isto não é assim tão regular? Será que eu vivo numa caixinha?" Porque todos os meus amigos trabalham dentro do meio. É claro que eu tenho amigos que trabalham também noutras áreas, mas grande parte dos meus amigos com quem eu passo a maior parte do tempo. Portanto, eu pensei: "Será que isto é a minha caixinha e eu já estou a normalizar tanto isto e isto, na realidade, se calhar..."
É um bocadinho. Porque saindo da bolha, percebemos que quem está de fora não percebe bem.
Exato.
E está tudo bem. Também cabe-nos a nós explicar e educar as pessoas à nossa volta.
Mas o problema é quando as pessoas não percebem, mas já trazem julgamentos.
Sim, isso aí é o problema, mas também se já traz julgamento, também não vai ser a pessoa que tu vais querer que entre na tua vida.
Exato.
Portanto, acaba por filtrar logo, eu acho.
Não, eu acho que sim.
Digo-te eu ao longo de vários anos que já passei por isto.
Eu acho que se calhar, se voltar algum dia a dating app, já vou pôr assim, a primeira foto vai ser: "Só trabalho com o digital." Já vem com esta carga, portanto, só entra pelos teus próprios pés.
Mas nunca tiveste ou sentiste que ficava iludido? "Oh meu Deus, é uma influencer." No sentido positivo?
Eu acho que existem duas vertentes.
Pois, eu também acho.
E eu acho que nenhuma delas é assim tão positiva.
Nenhuma é boa.
Nenhuma delas é positiva.
Para nós, nenhuma é boa.
Por exemplo, eu tive uma conversa, que foi mesmo só uma conversa, mas foi muito engraçada porque chegou à altura em que o rapaz estava a dar duas ideias para irmos fazer qualquer coisa, para nos vermos pessoalmente e tudo mais. E ele: "Tu não queres marcar uma parceria de um jantar?"
Não.
Caiu-me tudo. Eu sou muito aquela pessoa que acha que existem formas das coisas serem feitas e eu tenho muitas expectativas quando vou conhecer alguém E quando vão a um date. Eu sou muito aquela pessoa que ainda acha que o homem tem que mostrar aquele primeiro empenho. Eu acho que é claro, nós enquanto mulher vamos retribuir aquela atenção e aquele cuidado, etc., mas eu acho que o homem no início, na minha visão, e isto é muito particular e muito pessoal, tem que mostrar aquele primeiro empenho. E eu acho que a primeira abordagem de tu teres uma-
Isso foi ela pedir pra tu pagares, no fundo.
Certo. E pra eu tratar, do gênero, marca aí um restaurante em parceria.
Escolhe tu, paga tu, com o teu trabalho.
Só faltava o rapaz me dizer assim: "E apanha-me em minha casa, toma a minha morada e aparece com umas flores bem bonitas, sua louca." E eu só pensei assim, o quê?
Ai, socorro!
Você não foi? Louca? Louca, louca. Não. Eu disse olha, passado dois dias, disse que a conversa não estava a fluir assim tão bem e que na realidade acho que já não tinha interesse.
Mas deixa-te desanimada este processo?
Eu acho que o processo não nos deixa desanimadas porque acaba por ser um up and down. E eu sinto que isso acaba por nos manter ali um bocadinho no loop, porque é aquela coisa de a vida acontece de várias formas diferentes. E, por exemplo, eu aproveitei este verão como nunca aproveitei na minha vida, de todas as formas possíveis. Viajei imenso, passei imenso tempo fora de casa, fui a imensas festas, o que eu já não fazia há imenso tempo. Eu era a pessoa que dizia: "Por favor, nunca me convide para sair à noite, porque eu odeio." E eu agora comecei a aproveitar muito mais a companhia das minhas amigas e o fato de nós irmos dançar todas juntas, sei lá, como no dia em que te encontrei. Percebes? Estava com um grupo de amigas, estava super divertida e acabei por encontrar uma felicidade diferente em também partilhar esses momentos com as minhas amigas. E enquanto a vida está a acontecer nesse sentido, existem também pessoas que tu vais conhecendo. Portanto, acabava por ser muito um loop engraçado, que era, por exemplo, esse rapaz que queria que eu marcasse o restaurante. Por exemplo, aconteceu num sábado, eu dizer que já não estava interessada, mas se calhar numa quarta-feira vou jantar e se calhar, sei lá, conheço através de uma amiga, uma pessoa que até tenho uma conversa interessante, mas depois se calhar no final daquela conversa a pessoa diz: "Ah, pois, agora vou falar com a minha namorada" e eu fico: "Ah, não, isto fez a minha cabeça, isto afinal não foi uma conversa interessante." Portanto, acaba sempre por ser um bocado aquele loop de-
Sim, estás a descobrir a Vicky solteira, não é?
Sim, exatamente.
Quem é que eu sou, o que é que eu quero, o que eu estou à procura.
Exato.
Tu sais do relacionamento assim já com ideias mais claras da pessoa que tu queres pra ti ou achas que ainda menos, porque estás só a lançar aos leões?
Eu saio com ideias claras da pessoa que eu não quero pra mim. Eu acho que é muito mais isto. Eu acho que nós saímos de certas situações a saber exatamente aquilo que nós não vamos ter na próxima pessoa. É claro que nós temos expectativas do que a pessoa pode trazer, não é? Relativamente marcar um jantar e não pedir pra eu marcar parceria, de preferência. Certo? Mas existem definitivamente fatores que eu olho e penso, ok, possivelmente uma pessoa assim já não faria parte da minha vida. E eu sinto que quando tu vens de um relacionamento tão longo e que acabou por fazer parte da minha vida durante tanto tempo, eu também não sou um flerte fácil, porque eu já venho com muitas exigências incutidas, eu acho. Já venho com muitas expectativas e com muitos não negotiables. Portanto, imagina, pra mim é fácil eu identificar, depois de uma conversa, sei lá, se calar a pessoa não está ali no sentido de vida que eu quero, ou se calar a pessoa não tem abertura pra aceitar a minha realidade e se calar faz logo uma crítica que se calar, na minha visão, não foi assim tão construtiva.
Mas olha que depois já estás a ser aquilo que estávamos a falar antes, que também estavas a comparar com as tuas amigas, que muitas vezes a nossa geração também acaba por ser, se calhar, muito picuinhas numa primeira instância, que é tipo, vais a um primeiro date e já estás a pôr mil exigências, mas e a cortar situações que se calar até poderiam dar.
Claro. Mas eu acho que, por exemplo, eu acho que isso acontece antes do date. Por exemplo, o dates pra mim, na minha visão, hoje em dia eu acho que é só quando tu já tens 100% de certeza que vais gostar de estar com a pessoa. E agora a Mariana olha pra mim do gênero, como é que tu sabes isso? Se calhar de uma conversa que possa ter desenvolvido antes disso, ou por mensagem, ou por chamada, eu sou a pessoa de chamadas. Eu adoro que me liguem.
Ah, eu não faço chamada.
A sério?
Sim.
Eu adoro que me liguem.
Antes de ir a um date?
Tudo certo. Imagina, podem me ligar e podemos conversar durante 10 minutos.
Fazer a filtragem, depois eu decido se vais perder tempo.
Exatamente. Porque eu acho que, na realidade, tempo é um investimento. Imagina que tu marcas, vamos aqui supor, sei lá, aquelas coisas tipo speed dating, já ouviste falar? Aquilo é muito prático, porque tu relativamente conheces várias pessoas naquele espaço de tempo, mas imagina que tu distribuis dates ao longo da tua semana. E depois na quinta-feira vais beber um café, na sexta-feira podes ir, sei lá, dar uma corrida e a pessoa por acaso até está lá a correr também e depois vão beber um café. Mas estás a perceber quanto tempo é que tu estás a, não é desperdiçar, mas investir, se calar naquelas pessoas que tu nem filtraste antes. Pra mim, eu acho que isso conta muito.
Mas eu tenho dificuldade em falar por mensagens, por exemplo, e acho que não dá bem pra ler a pessoa ou as intenções da pessoa através por mensagens.
Por isso é que eu amo a chamada, o tom de voz, se a pessoa é brincalhona ou não. Se a pessoa não me fizer rir na chamada, eu já não vou ao date. Desculpa, não vou ao date pra ficar séria. Eu acho que existem aqui algumas qualidades que eu procuro muito e, por exemplo, a pessoa ser divertida. Eu acho que nós, seres humanos, temos sempre aquelas coisas que nós gostávamos que a pessoa trouxesse, em contrapartida. Eu acho que a pessoa ser divertida é um must. Imagina ires a um date e ficares o date todo...
Apanhar uma seca, no fundo. Já te aconteceu ter um date em que estavas tipo, tira ele daqui?
Neste tempo todo eu tive um date que foi planeado eu ir, porque os outros todos não passaram do trial.
Jura?
A Mariana do gênero.
Da chamada?
Também não houve assim tantas chamadas. Mas eu sou mais de conhecer as pessoas pessoalmente, na realidade. Imagina, amigos de amigas ou assim, e eu ali já vou filtrando, mas eu fui a um date que foi através da tal aplicação, e quando eu te digo que a pessoa chorou no meio do date durante quase uma hora e eu não sabia como sair dali.
Que é falar de uma ex-namorada ou assim?
Não, a falar sobre uma situação de família, mas Mariana Eu não conseguia descrever uma situação mais awkward. Nós estávamos numa esplanada. Eu fui à casa de banho, houve duas meninas que vieram falar comigo porque me reconheceram do digital e lá estava eu num date. E depois quando eu volto para a mesa, lá estava o rapaz a partilhar e tudo mais, e até foi uma conversa interessante até ao ponto em que ele começou a chorar. E eu não estou a criticar a pessoa, eu acho que relativamente aquilo deve ser um assunto muito difícil e que relativamente despertou ali algumas emoções, mas imagina tu teres essas emoções tão fortes no momento em que supostamente deves trazer ali uma leveza. O primeiro date deve ser uma coisa divertida, uma coisa leve.
De repente estás a ser a terapeuta dele.
Eu não sei o que descrever.
I didn't sign up for this.
As minhas amigas disseram assim: "Tu cobraste a terapia, certo?" E eu: "Não." E depois o que eu achei mais engraçado foi que no final, ele disse-me alguma coisa do gênero: "Espero que depois não pares de me responder, porque isto foi um pouco intenso."
Coitadinho!
Eu sei.
E tu deste-lhe um abracinho e disseste: "Adeus. Que te corra bem a vida." Coitadinho.
Tipo there, there. Imagina, existem certas batalhas que não são minhas, Mariana. Eu também já vou fazer terapia, não posso fazer terapia por toda a gente. Eu acho que isso é uma coisa muito importante que nós mulheres às vezes temos que entender. Nós primeiro trabalhamos em nós.
Aquela vontade de ser mãe dos outros.
Sim, e aquele conceito do "I can fix him." Não. Eu estou a cuidar de mim e ele que vá dar um fix nele e depois talvez a vida vá fluir de outra forma. Mas pronto, foi uma situação meio engraçada e meio quero fugir ao mesmo tempo.
Mas tu sentes que já estás num ponto em que se aparece essa pessoa certa, tu te meterias noutra?
Ainda ontem estive a falar sobre isso com a minha mãe. É isto, eu não sou uma pessoa que gosta de definir timings. Eu acho que no início eu ficava muito pensativa do gênero: "Agora saí de um relacionamento tão longo, se calhar vou ter de ficar solteira durante um ano, dois anos." Mas eu depois fiquei a pensar: "Mas isso é por mim ou pela visão que as outras pessoas podem ter?" Porque se for pela visão que as outras pessoas podem ter, por que isso afeta tanto as minhas escolhas? E portanto, eu acho que se aparecesse a pessoa certa, eu ia saber. Se houvesse o clique, eu acho que não era uma coisa que eu ia combater e que eu acho que eu ia estar disposta a deixar alguém entrar na minha vida.
E tu estás bem neste momento, mas tu pensas muito nos timings de vida, de casar, ter filhos?
Eu acho que eu tenho a sorte de ser a mais nova do meu grupo de amigos. Portanto, eu acho que a pressão antes de vir para mim, isto de uma forma muito brincalhona, ainda está caída em cima dos meus amigos que estão a ir morar juntos, que ainda estão a namorar e eu bem, vocês tenham filhos, vocês tenham as coisas. Mas acho que na realidade é uma pressão que eu tento não pôr, principalmente porque quando nós paramos para pensar, quem é que inventou estes timings na realidade? Eu sei que nós temos todo um relógio biológico e está tudo certo. Nós temos que respeitar a mãe natureza.
Os timings são bem mais cedo que o nosso relógio biológico, não é?
Exatamente, mas hoje em dia eu acho que também existe toda aquela pressão do tu abres uma rede social e está toda a gente a ficar noiva, está toda a gente a comprar casa, está toda a gente a ir morar junto.
Até bebés.
Sim, tantos bebés. Eu tenho agora um sobrinho com três meses, tantos bebés à minha volta. Mas depois é isso, é tu saberes que tu estás exatamente onde tu devias estar. É o que eu costumo dizer, eu não me vou preocupar e não vou tirar horas do presente a pensar no futuro que eu não sei qual vai ser. Eu sei que eu quero ser mãe, eu continuo a manter a minha ideia de ter gémeos.
A sério?
Eu até fiz um vídeo sobre isso, que é tudo aquilo que eu já desejava ter no meu relacionamento anterior eram desejos que vinham do meu deep core. Portanto, eu não vou abdicar deles só porque não foi com aquela pessoa. Eu vou continuar a trazer estes desejos comigo e um dia eu vou encontrar alguém com quem eu vou conseguir tornar isto realidade.
Tu queres ter gémeos?
Quero, era o meu sonho.
Tens gémeos na família?
Tenho. Portanto, era o meu sonho.
Que giro.
Pronto, era daquelas coisas que eu gostava mesmo. Se calhar por um lugar de medo, porque eu acho que eu vou ser um bocadinho aquela pessoa que vai ficar com medo de ter o segundo, depois de ter o primeiro. Toda a gente diz que é muito tranquilo.
Faz logo os dois e já fica.
Exatamente. Se eu estou a ser ingênua ao dizer isto, possivelmente, e as mães agora de gémeos...
Se calhar vais sofrer muito mais por ser gémeos e depois a educar duas crianças ao mesmo tempo.
Não, e a chorarem ao mesmo tempo, e é toda a pressão. Eu acho que tens que ter uma rede de apoio muito boa para isso acontecer. Mas no meu universo de Lulu, as condições iam se reunir e eu ia conseguir fazer isso. Mas pronto, é um peso que eu tento não adicionar, mas é uma coisa que eu noto muito que nós mulheres pomos muito esse peso. Por exemplo, eu questiono-me: será que os homens também se sentam à mesa e conversam uns com os outros do gênero: "Já está a passar a idade de eu ter filhos", ou se calhar já devia...
Olha, eu tive aqui o Ricardo Campanhas e falamos muito disso, de porque uma mulher tem um namorado e porque um homem tem uma namorada. E da minha visão, nós procuramos um pai de família para construir a nossa família, no fundo. E ele diz-me que acha que os homens, pelo menos na idade em que ele está, 30 e poucos, procuram uma namorada pelo statement de ter uma namorada.
Eu acho que às vezes acaba por ser uma situação de ego.
E de apoio também.
Exatamente. Apoio de início de vida.
Até porque os homens são muito desligados. Eles têm muitos amigos, mas são muito desligados, não são intensos. Sinto isto. E encontram na mulher um bocadinho esse conforto e essa abertura.
Tanto que quando um homem está apaixonado, eu, por exemplo, consigo observar muito essas coisas, nós conseguimos sentir que o homem tem um toque da mulher. Nós conseguimos sentir que o homem explora mais ou abre mais o seu lado feminino. Sim, o seu lado sentimental, o seu lado de abordar certos tópicos numa mesa Que não abordaria se não tivesse ali aquele toque da mulher.
Mas se calhar nós até mulheres somos mais intensas no mundo do dating, se calhar, porque já vamos com essa expectativa de que temos de encontrar um marido e uma pessoa super alinhada para ser o pai dos nossos filhos.
Por isso é que eu acho que esta leveza, por exemplo, que eu estou a trazer do vamos só conhecer a pessoa. Imagina, se não fizeste sentido neste date, não vou. Imagina, ves-te como o pacote total. Não estás à procura de nada que te complete. Não estás à procura de nada que te vá acrescentar ao teu futuro, porque o teu futuro estás a construí-lo assim dia após dia, tu sozinha. Acho que isso tira um bocado esse peso, mas é claro que não é fácil. Isto sou eu, seis meses. Mas, por exemplo, eu tenho amigas minhas que estão solteiras há quatro anos e que eu acho que, por exemplo, à medida que o tempo vai passando e que as pessoas à tua volta vão começando a namorar.
A pressão ainda é maior.
Sim.
Porque começas a questionar se sequer se vai aparecer a pessoa. Nem é o medo de não ter uma pessoa agora, é o medo de nunca aparecer.
Será que isto não está nas cartas para mim?
E sou eu que estou errada? O que é que eu estou a fazer de errado?
Exato.
Acho que é muito este o pensamento. E achas que o facto de sermos mulheres independentes, que construímos o nosso futuro, que construímos o nosso trabalho, que afasta?
Também. E principalmente mulheres com opiniões fortes.
É isso, a tua postura, por exemplo, neste momento, de "eu estou bem". Ou me acrescentas ou então...
Exatamente. E está tudo bem, sem ser de uma forma defensiva ou ofensiva.
E isso não achas que assusta? Porque também o homem é o cuidador, quer uma menina, uma florzinha para cuidar.
Eu acho que sim. E eu acho que também, principalmente quando a mulher está muito segura, está muito certa daquilo que ela quer para o futuro, eu acho que o homem perde aquele ponto do "ok, o que é que eu posso adicionar à vida dela? Porque eu acabei de conhecer esta pessoa e esta pessoa não me parece uma metade, ela não precisa de um complemento, ela já é uma pessoa inteira."
Não precisa de ser salva do castelo.
Exatamente. Portanto, eu acho que isso depois também ajuda a afastar, na minha perspectiva. Eu acho que a pessoa certa e a pessoa que também trabalhou nela própria vai perceber que isso é uma qualidade, não é um defeito. Percebes? Mas o homem comum que procura aquela mulher que ele consiga acrescentar e ensinar, vai sentir que é um ponto negativo.
Mas eu acho que da minha perspectiva também enquanto mulher nessa posição, eu acho que eu entrando para uma situação também tenho de me permitir que a outra pessoa entre. E acho que, estando muitos anos solteira, estando nessa posição independente, confiante, também tens de deixar entrar e deixar que te ajudem, e deixar que te salvem. Não é que te salvem, mas que te acrescentem. É a dificuldade. Tu estás há seis meses, para quem está há muitos anos, a dificuldade de deixar essa pessoa entrar, de deixar a pessoa fazer parte e ajudar.
Não, imagina, eu consigo ver isso acontecer, principalmente quando nós começamos a ser cada vez mais autossuficientes. Por exemplo, se calhar, quando eu tinha acabado o meu relacionamento, eu ligava muito mais vezes à minha mãe por causa de apoio emocional, situações de casa, que antes nós tratávamos em conjunto e que agora eu nem sempre tinha os meios para fazer tudo sozinha. Vários assuntos. Hoje em dia, se calhar, já são coisas que para mim são muito mais automáticas e nós vamos criando aquela independência de gerir uma casa, de gerir a nossa vida, os nossos horários, as nossas contas, o nosso dinheiro, a nossa independência.
Não precisas de um homem, não precisas de ninguém.
Exatamente.
Não precisas de ninguém para nada. As pessoas acrescentam. Tu falas com a tua mãe e queres estar próxima da tua mãe.
Sim.
Porque gostas muito dela e do apoio dela, mas tu não precisas. Tu estás num ponto em que já não precisas de ninguém. Isto depois é difícil para os dois lados, eu acho.
Tu achas que depois começamos a criar uma resistência?
Eu criei, tenho a certeza. E é difícil depois de desligar esse switch. É isso, eu estou habituada, eu quero ir viajar amanhã e eu vou. Eu quero ir fazer o que me apetece. E nem sequer ter ninguém a pensar na minha cabeça que vem questionar aquilo que eu estou a fazer. E passar a ter de o fazer é difícil.
É, e principalmente quando nós estamos tão habituadas, por exemplo, a lidar com o nosso lado emocional. Quando nós temos um relacionamento, nós temos que ler o emocional da outra pessoa. Existe muita partilha com o ter alguém conosco. E eu acho que quando nós entramos numa relação ou quando nós paramos para pensar: "Será que eu quero que esta pessoa esteja numa relação comigo?" Nós temos que pôr tudo isso numa balança, porque às vezes eu acho que nós entramos muito naquela parte da relação logo de início, que é tudo tão bom, é tudo tão bonito, mas eu acho que também quando nós fazemos esta transição de vida de solteira para vida com outra pessoa, eu acho que também é importante pôr isso tudo na balança. Porque nem sempre, se calhar, nós estamos numa posição da nossa vida em que nós queremos abdicar de tudo aquilo que nós já estamos a construir há alguns meses para nós. Entendes? Por isso é que eu digo, se a pessoa certa chegasse, eu ia estar aberta a receber, mas a pessoa certa tinha de vir com uma paz enorme, porque neste momento é o que eu prezo mais. O que eu construí acima de tudo na minha vida neste momento é a tranquilidade, a paz, o não ter de justificar nada a ninguém, o eu poder tomar as minhas decisões sem ter de consultar ninguém. Eu acho que isso é o principal.
E estás a fazer um ótimo trabalho, estás mesmo na tua glowy era. Estás mesmo. Olha, e neste processo houve alguma coisa, para além da terapia, de apoio de família, amigos, que tenha ajudado, recursos, livros que tenhas lido, alguma coisa, podcasts que tenhas ouvido, que fez diferença? Porque isso tem aquela fase que, pelo menos eu, quando estou a passar por alguma fase, vou para o TikTok ver bué vídeos e histórias.
Não, total. Eu guardava imensos vídeos. Até há uma rapariga, agora esqueci-me do nome dela, mas eu depois posso deixar aqui em algum lado nos comentários, que ela também fez uma partilha de quando ela também tinha acabado com o namorado dela Mas foi uma situação completamente diferente, ela foi traída, portanto foi todo um recurso diferente. Mas bateu umas semanas depois de mim e eu só pensei assim: "bem, imagina, isto agora vai meio que me dar uma mãozinha por este processo."
Sentes-te acompanhada.
A nível de podcast, eu também ouvia muito Jay Shetty, acho que é assim.
Sim, ele tem também um livro, "8 Rules of Love", também é muito bom.
E ele fez um episódio com Mel Robbins. Eu não consigo dizer a quantidade de vezes que eu dei replay naquele podcast, que é "The Power of Detachment". Life changing, quando tu mudas o foco e consegues realmente focar-te naquilo que importa naquele momento. E a nível de livros, isto vai ser um título um bocadinho ridículo, mas também fez toda a diferença para eu também me entender mais enquanto mulher, apesar do título parecer que é muito focado em homens, que é "Why Men Love Bitches". Para quem nunca leu, pode parecer um título muito fútil, mas eu acho que nos dá um understanding muito melhor sobre nós enquanto mulheres e não da visão masculina.
Mas é de que forma é que tu deves agir?
Ou de que forma é que nós somos visualizadas quando temos certas atitudes, ou por que nós temos tantas expectativas relativamente ao homem e qual é que é a visão dele sobre isso e como é que nós nos tentamos encaixar em certos relacionamentos ou em certas interações. Eu achei superinteressante para a fase de vida onde eu estava.
Engraçado.
Por acaso foi um dos livros que eu gostei mais de ler.
Mas como é que chegaste a ter esse livro? Recomendaram-te?
TikTok. Foi do gênero "three books I read after my heartbreak", do gênero. Give me the list.
Bora recomendar todos.
Exato.
Qual foi a maior surpresa positiva que tu tiveste nesta tua nova fase de vida?
Eu acho que voltar a sentir, parece mega clichê, mas voltar àquilo que tu já não sentias há muito tempo, uma leveza gigante, um alívio. Até me senti culpada no início quando me apercebi disso, mas foi um alívio instantâneo.
Um peso que sai dos ombros.
Sim.
Também se era uma coisa que já estavas a adiar na tua cabeça há muito tempo.
Sim, e eu acho que isso pode acontecer com tudo. Às vezes estamos num trabalho que já não nos acrescenta tanto. E quando nós nos vemos fora de uma situação que se calhar nos estava a pôr embaixo de tanto estresse, é como se fosse um renascer. Portanto, para mim, e eu sou uma pessoa que tento fazer essa revisão todos os dias, ver dia após dia o quão feliz e o quão leve eu estava, eu acho que foi das melhores coisas.
Que bom. A última pergunta, que estamos mesmo a chegar ao fim. Como é que tu vês o amor hoje em dia?
Eu acho que eu vou sempre ser uma lover girl, sempre. Portanto, o amor para mim ainda é um grande fator dentro daquilo que eu espero do meu futuro. E eu acho que acaba por ser algo que, por mais difícil que às vezes esteja encontrar, é uma coisa que quando nós estamos dentro de um relacionamento e sentimos amor por outra pessoa e nos sentimos amadas, é das melhores coisas da vida. Eu acho que tudo o que aconteceu na minha vida não mudou nada, nem um ounce da minha perspectiva, de que eu acho que, no fundo, e é apenas a minha visão, nós também nascemos para partilhar e para dar amor. Portanto, vai ser sempre um objetivo muito grande.
Achas que é o principal objetivo da vida, a conexão com outra pessoa?
Eu acho que sim, quer seja em relações de amizade ou familiares. Eu acho que nós amarmos outra pessoa e nos sentirmos amadas, acaba por ser aquele complemento e acaba por ser aquele quentinho no corpo e para mim nunca vai ser uma coisa negativa. Eu até posso estar aqui sentada daqui a quatro anos, sem casar outra vez, que eu vou continuar com a mesma ideia, que o amor continua a ser sempre daquelas coisas que não deve ser destruído só porque aconteceu uma situação negativa. Continua a ser uma visão de algo que eu quero para mim.
E é incrível que passados seis meses, só seis meses, consegues ter essa postura.
Terapia ajudou muito. Eu acho que eu vou dar um preach em terapia para sempre. Eu acho que é uma coisa que nós devemos fazer, não importa a posição da nossa vida, mas principalmente se nós estamos a passar por um período em que nós não conseguimos entender qual é o nosso próximo passo e os nossos pensamentos e o que é que vem a seguir, eu acho que ajuda muito a nós nos conseguirmos centrar, parece que voltamos a nós próprias.
Sim, acho que o ponto principal é que tu gostares de ti e acho que imagina, se tu acabasses a situação que acabaste e não gostando de ti, estando numa fase pior e não tendo amor próprio e esse trabalho feito em ti, tinha sido muito mais complicado e tu em vez de seis meses ou dois meses ou três meses, demoravas anos até conseguir chegar a esse ponto. A perceber que efetivamente eu tenho de pôr os meus limites e deixar outra pessoa entrar só quando fizer mesmo muito sentido para mim.
Exato.
E nota-se mesmo que tu estás mesmo leve e bem com isso.
E o sentir em paz comigo própria. Eu acho que saber que tomaste a melhor decisão para ti e não importa a destruição que isso deixou no caminho e o que é que possa ter causado, tu no fundo priorizaste a ti própria e eu acho que esse self love e este standard de "ok, vou me pôr em primeiro lugar, porque eu mereço isso", é das melhores coisas que nós podemos fazer.
Pareces-me muito corajosa, mesmo. Fico muito feliz por ti e muito agradecida por vires aqui contar a tua história.
Obrigada pelo convite. Já estava ansiosa, eu assisto todos os episódios, estava mega ansiosa.
Obrigada.
Beijinho.
Beijinho. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?