Nas últimas semanas, temos assistido a uma justa e positiva atenção mediática à campanha nacional de imunização contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) dirigida às crianças. Trata-se de uma decisão relevante de saúde pública que merece ser reconhecida. O VSR é uma ameaça séria para os bebés e a proteção desta população representa um avanço importante. Mas a realidade do VSR não termina na infância.
Aliás, há uma pergunta que importa fazer: se o Estado reconhece o impacto desta infeção nas crianças ao ponto de implementar uma estratégia pública de proteção, porque continua a ignorar o seu impacto nos adultos mais velhos e nas pessoas com doenças crónicas?
A evidência científica é hoje inequívoca. O VSR é uma das principais causas de infeção respiratória grave em pessoas idosas e vulneráveis. Em muitos casos, conduz a hospitalizações prolongadas, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias pré-existentes, perda de autonomia e, infelizmente, mortalidade significativa.
Em Portugal, os resultados do estudo ROSA, o primeiro estudo nacional a avaliar o impacto do VSR em adultos hospitalizados, vieram confirmar aquilo que muitos especialistas já suspeitavam: o VSR não é apenas uma doença pediátrica. O estudo demonstrou uma mortalidade hospitalar de 20% nos doentes com VSR, superior aos 13% observados nos doentes com influenza, além de custos médios de internamento substancialmente superiores (€4.757 versus €3.537 por episódio). Os doentes com VSR apresentaram também maior necessidade de recursos hospitalares, mais complicações clínicas e maior gravidade global. Estes números deveriam merecer uma reflexão séria por parte dos decisores políticos. Porque existe hoje uma contradição difícil de explicar aos cidadãos. Uma criança considerada em risco beneficia de proteção financiada pelo Estado. Já uma pessoa de 70, 75 ou 80 anos, ou um doente crónico cuja condição o torna particularmente vulnerável às complicações do VSR, continua a depender quase exclusivamente da sua capacidade financeira para aceder à prevenção. Estamos, na prática, perante uma inequidade no acesso à proteção. E esta inequidade torna-se ainda mais difícil de compreender quando sabemos que Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa.
Todos os anos discutimos a pressão sobre as urgências, a saturação hospitalar durante o inverno, a escassez de camas e de profissionais. No entanto, continuamos a subvalorizar uma das infeções respiratórias que mais contribui para este problema.
Quando falamos de envelhecimento saudável, não podemos limitar-nos a tratar a doença. Temos de prevenir a doença. Quando falamos de sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, não podemos ignorar intervenções capazes de evitar internamentos, complicações e perda de qualidade de vida. E quando falamos de equidade, não podemos aceitar que a proteção contra uma infeção potencialmente grave dependa do código postal ou da carteira de cada pessoa.
Naturalmente, nenhum sistema de saúde dispõe de recursos ilimitados. As decisões de financiamento exigem rigor, avaliação económica e prioridade clínica. Mas é precisamente por isso que o debate deve acontecer com base na evidência disponível e não na perceção desatualizada de que o VSR é apenas um problema pediátrico. Não é. É um problema crescente numa população cada vez mais envelhecida. É um problema para os doentes cardíacos, para os doentes respiratórios, para os imunocomprometidos. É um problema para as famílias. E é um problema para o SNS.
À medida que nos aproximamos de mais uma época de infeções respiratórias, importa lançar duas mensagens. A primeira dirige-se aos cidadãos mais velhos e às pessoas com fatores de risco: informem-se, conversem com os profissionais de saúde que os acompanham e conheçam as opções de prevenção atualmente disponíveis. A proteção individual pode fazer a diferença entre uma infeção ligeira e um internamento com consequências duradouras. A segunda dirige-se aos decisores políticos: Portugal não pode continuar a ter uma estratégia incompleta de prevenção do VSR. A proteção das crianças foi um passo importante, mas não pode ser o último.
Se aceitámos, e bem, que os mais novos merecem uma resposta pública perante esta ameaça, também devemos reconhecer que os mais velhos não podem continuar esquecidos.
A proteção contra o VSR não deve ser um privilégio. Deve ser uma política de saúde pública baseada na evidência, na equidade e no valor que atribuímos a todas as fases da vida.