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9:35 é hora de ao vivo nas manhãs 360 e hoje a nossa convidada é a encenadora Marta Dias. Olá, Marta, muito obrigada por estar conosco.

Olá, obrigada eu.

Tem uma nova peça chamada "Doença da Juventude". O espetáculo vai estar em cena até 29 de dezembro, no Teatro Aberto. O objetivo desta peça é fazer-nos pensar sobre a vida, os trajetos do ser humano. A história tem como ponto de partida a personagem Maria, que depois de terminar o curso de medicina se vê entrar na vida adulta e depois começa o quê? A vida a sério, Marta?

Pois, a proposta é precisamente fazer o público pensar sobre esse clichê do que é a vida a sério e quando ela começa. E nos pôr a pensar sobre não só o percurso da Maria. A Maria é a personagem que nós acompanhamos, é a que tem o arco mais interessante e mais complexo. Obrigada. No entanto, todas as personagens, na verdade, apresentam uma forma de pensar sobre a vida e, portanto, espelham várias possibilidades e acho que o espectador depois consegue rever-se em cada uma delas e às vezes em alturas diferentes. Mas a proposta, dizia eu, é de fato pensar sobre o que é esta transição da juventude ou da infância.

No fundo, que doença é esta, não é?

É passar da ingenuidade pra uma maturidade em que temos de assumir se queremos continuar a viver numa ilusão e acreditar que é tudo cor-de-rosa, que as pessoas são boazinhas e que é possível o bem vencer sempre, e adotarmos ou não uma atitude mais cínica perante a vida e percebermos que, de fato, existe aquilo que se chama de lei do mais forte, e se queremos compactuar com isso ou não.

Não quero antecipar o fim, mas a mensagem no final é mais positiva ou vamos sair com um amargo de boca?

Eu acho que é possível que cada espectador interprete o final de uma maneira diferente. Eu tentei fazer isso com os atores. A cena final é uma cena de aproximação em que uma personagem, de fato, sem querer estar a revelar o final, mas uma personagem aproxima-se da outra, que é o seu oposto, com um pedido. E depois fica no ar o que é que vai acontecer. Mas essa aproximação, era isso que eu pretendia que fosse a grande questão, que é esses dois opostos, essas duas formas de estar na vida. Será que uma ganha a outra? Será que elas podem viver em conjunto?

Marta, as pessoas mais velhas também se identificam com esta peça, apesar desta retratar dilemas que associamos, normalmente, a uma idade mais jovem.

Sim, eu creio que sim. Aliás, eu fiquei muito espantada com uma coisa pessoal, a reação dos meus pais. Esta é a minha sexta encenação e eu já passei por várias temáticas e peças, eu diria, mais fofinhas, com uma temática mais fácil e mais familiar. E eu estava muito apreensiva, curiosa pela reação deles. E foi a peça em que nós conversamos mais no final. E mesmo no dia a seguir, ficamos a conversar. A minha mãe muito chocada a dizer: "Que horror, mas pra que aquilo?"

Não havia necessidade.

A artista é uma boa artista.

Mas, por exemplo, meu pai ficou entusiasmadíssimo sobre todas estas questões da forma de vivermos, os dilemas, aquilo que nos torna as pessoas que nós somos no dia a dia, as pequenas decisões que vamos tomando.

Mas, Marta, esta peça também pisca o olho a um público mais jovem ou pela sua estrutura, por ser um texto, eventualmente, que faça mais pensar, é sobretudo a um público mais adulto e maduro?

Sim. Naturalmente, a peça é feita por personagens que são jovens, embora depois aquilo que possamos concluir da história seja uma reflexão mais madura. No entanto, naturalmente, a estética do espetáculo é bastante jovem. Acho que é bastante apelativa pra os jovens, mesmo o ritmo de representação, os figurinos, o cenário. Nós também temos coreografias na peça, portanto, todo o lado da estética do espetáculo acho que é muito apelativo pra os jovens, mas também não será estranho pra pessoas mais velhas.

É uma peça adaptada? Há um texto.

É uma peça muito adaptada.

É muito adaptada. É um texto já...

É de 1926. Tem quase 100 anos.

1926.

Então é uma adaptação forte, não é?

É, bastante. Sobretudo na linguagem, como é evidente. Portanto, jovens, vá, não são adolescentes, mas os 20 anos de hoje em dia têm uma linguagem muito diferente daquilo que seria há 100 anos. E também nas temáticas da peça, ou seja, nós estamos a falar de, eles são, na maioria, estudantes de medicina e a área da medicina, na peça surge, especificamente é referido a tuberculose como um assunto.

Sim, como um dos grandes desafios da medicina na época.

Exatamente. E também, simbolicamente, a destruição do corpo, o autoconsumo do organismo. E eu ainda ponderei o câncer, só que percebi muito mais interessante falar sobre a genética e a edição do genoma e corrigir defeitos Essa temática parece-me muito mais estimulante.

E mais actual.

E muito mais actual, e porque também apresenta muitos dilemas. É uma área que filosoficamente necessita de muito debate na sociedade, e que está a avançar muito rapidamente, assim como outras áreas tecnológicas ligadas à medicina.

E essa adaptação também é geográfica de alguma maneira ou não? Claramente em termos de linha do tempo, há uma actualização. Aquilo é Portugal também?

Fatalmente é, porque os espectadores são portugueses e os actores também. Nós imbuímos, obviamente, o espectáculo de referências nossas. No entanto, eu não procurei fazer isso no texto. Procurei abstrair o mais possível da geografia. E mesmo temporalmente, a peça não é exactamente agora, é um bocadinho a atirar para o futuro.

É contemporânea.

É contemporânea um bocadinho estranha. Aliás, por graça, o Ferdinand Bruckner situava a ação da peça, embora ela tenha escrito em 26.

Que é o autor alemão.

Ele é austríaco, nasceu na Áustria, mas ele de facto passou a maior parte da vida em Berlim. Aqueles autores.

E tinha um pseudónimo, não era?

Aliás, pseudónimo. Ferdinand Bruckner era o nome verdadeiro dele era Theodor Hager. E ele situa a ação da peça em 23. E eu pensei: "Pronto, então nós estamos a falar de 2023, que é no futuro, mas é já amanhã".

É ali ao lado. E os actores, vamos falar. São actores jovens, já foi dito. Como é que foi trabalhar com eles? Qual é que foi o processo de escolha dos papéis?

Na verdade, o elenco é jovem e menos jovem. Se estivesse aqui o Victor de Andrade, começava a dizer: "Sou tão velho".

Atenção, a Marta é o menos jovem. Agora vai ter 30.

Como mais velho, ele ficava assim: "Mas Marta, não achas que eu vou ficar aqui um bocado a parecer o pai do Andrade?" E eu dizia: "Não". Também está escrito no original, os homens são ligeiramente mais velhos que as raparigas, as personagens femininas. Na verdade, foi também um encontro muito feliz. Não há uma grande diferença de idades e, na realidade, a pessoa acaba por hoje em dia, e tendo a mesma profissão, acaba por ter referências que se entrecruzam. Não são pessoas absolutamente estranhas e alheias umas às outras. Mas foi muito rico o processo de trabalho, o processo criativo, porque nós passámos grande parte dos ensaios, não grande parte, não foi tudo, mas havia muitas discussões e muitos debates que surgiam da peça, porque a peça não é só genética, há temas um bocado mais complicados, para além das traições amorosas, que dá sempre a parte de telenovela.

E há também a referência a um mundo descartável, repleto de estímulos consumistas. Há aqui também uma crítica social?

Há, sim. E isso é muito visível também na estética, e na parte das relações amorosas e da aproximação e distanciação das personagens, como as personagens se manipulam e usam. E também, depois, a outra dimensão, que era isso que eu ia dizer, as pessoas que não conseguem lidar com isso, e portanto falamos de suicídio, de depressão, a pessoa que tem dificuldade em sobreviver, em ter armas, instrumentos que a ajudem a viver as fases mais duras ou aquilo que custa mais.

Marta, estamos mesmo a terminar. A Marta, desde que se licenciou em Artes do Espectáculo, trabalha no Teatro Aberto há mais de 10 anos. Foram mais de 20 as peças em que esteve envolvida. Numa delas, "Amor e Informação", também participou como atriz. Consegue escolher entre a representação e a encenação?

É muito fácil.

Parece-me uma resposta muito rápida.

Sim, de estar fora é muito fácil, mas de estar por dentro também dá muito prazer. Mas foi uma experiência de imenso valor, porque me fez apreciar, de facto, o trabalho dos atores de outra forma, as dificuldades e as coisas boas também.

A encenadora Marta Dias no ao vivo das manhãs 360. A peça "Doença da Juventude" está em cena no Teatro Aberto. Pode assistir de quarta a sábado, à noite e aos domingos, à tarde. Muito obrigada por ter vindo à Rádio Observador.

Muito obrigada eu.