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Bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Connosco hoje temos o Pedro Gomes Sánchez, é comentador político, foi até adjunto de um ministro no governo de Pedro Passos Coelho, o ministro Pedro Marques Soares. Foi também membro da Comissão de Honra da candidatura de António José Seguro e é naquilo que se designa na informal gíria da política, um passista. Aliás, o seu livro "Portugal na Paz dos Bloqueios" deu muito que falar precisamente pelo prefácio do Pedro Passos Coelho, que até foi uma espécie de pré-anúncio, depois de uma proto candidatura que depois na televisão foi formalizada. Antes de irmos ao Pedro Passos Coelho, temos tempo, não sei se ele tem, mas isso já vamos discutir. Cristiano Ronaldo abandonou esta quinta-feira a seleção nacional por entender que já não podia acrescentar muito mais serviço ao país. Luís Montenegro, que é seguidor, como sabemos, da mentalidade de Cristiano Ronaldo, devia fazer o mesmo ou é importante que o Luís trabalhe até 2029?
Antes de mais, muito obrigado pelo convite. É um gosto estar aqui. Dar uma nota sobre essa coisa do passista. Eu sou muito pouco gregário do ponto de vista político. Admito uma exceção, que é esta coisa do passista, por duas razões. A primeira, porque considero que Pedro Passos Coelho é, dos políticos conhecidos e disponíveis no panorama português, aquele que melhor pode dar uma resposta aos problemas que o país tem. A segunda é porque designar-me assim faz com que isso irrite muita gente, e isso dá-me um gozo especial. Sobre a seleção e a comparação de Cristiano Ronaldo com Luís Montenegro, eu quero sempre que a seleção ganhe, mas este diferendo entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo trouxe-me uma novidade, que é fazer com que eu torcesse tanto pela seleção nacional quanto torço por a única coisa a que se me pode aplicar o prefixo "ista", que é sportingista. Ou seja, quero que a seleção nacional pós Cristiano Ronaldo ganhe tanto quanto desejo que o Sporting ganhe. Eu percebo as declarações de Luís Montenegro in illo tempore sobre Cristiano Ronaldo. Cristiano Ronaldo é uma figura incontornável da história recente do país com feitos absolutamente admiráveis e Cristiano Ronaldo quis se comparar com ele. Não sei se a comparação é própria, porque eu não diria que Luís Montenegro está no fim da carreira, mas mantendo a metáfora futebolística, se calhar a comparação melhor seria com Rui Borges.
Já percebi que também está à espera do pós Montenegro, como está à espera de um bom pós Ronaldo na seleção. Já lá vamos de novo, mas o presidente da República convocou os partidos, marcou um Conselho de Estado e depois disso acabaram as cargas policiais, as tendas até tomaram conta das praças nas últimas duas noites e os partidos vão reunir em São Bento. Esta é uma vitória do Presidente da República sobre o governo e é também uma manifestação da autoridade do Presidente da República.
Onde é que se pode fazer política? Em que lugares é que se pode fazer política? Pode-se fazer política na rua e pode-se fazer política na tribuna. Eu acho que há um outro lugar onde se pode fazer política, que é na mesa das negociações. Quando a política é feita na rua e/ou na tribuna, eu acho que partidos reformistas, ainda por cima em circunstância minoritária no Parlamento, têm tudo a perder, porque a rua é muito vocal e a tribuna é muito vistosa. E de facto à dé, nesta circunstância, nós temos um sistema que ficou anômalo, dir-me-ão. Mas a fragmentação eleitoral um pouco por toda a Europa sempre foi assim e em todos os países é possível fazer coligações. Não dá-se o caso de nós estarmos habituados a um regime bipolar, não digo bipartidário, porque à direita o PSD sempre foi fazendo coligações com o CDS e à esquerda, inéditamente, a partir de 2011, o Partido Socialista passou a admitir apoio parlamentar dos partidos de extrema-esquerda. Dá-se o caso de termos hoje três polos, portanto temos um sistema tripolar, que tem esta circunstância diferente do resto da Europa, que são vasos comunicantes, mas quase exíguos. É possível estabelecer aqui um acordo ou outro, a propósito de uma legislação ou outra, mas não é possível com estes atores e no momento presente, admitir grandes ímpetos reformistas com a junção de dois destes três blocos. Ora, isto paralisa o país. O país tem um conjunto de bloqueios estruturais a que somou este bloqueio institucional. E agora respondo à pergunta. A voz do Presidente da República é a voz da razão e a voz da sensatez. É curioso porque o Presidente da República tem sido fustigado com críticas das tribos. À esquerda, porque não é vocal o suficiente quando lhe convém, e à direita, porque não adere às suas teses. Mas ainda bem. Eu apoiei António José Seguro, como sabem e como referiste, precisamente por isso, não por nenhuma filia ideológica com António José Seguro. Nunca votaria em António José Seguro pra primeiro-ministro. Votei em António José Seguro porque me parece que é um político das opções que estavam disponíveis, suficientemente equilibrado para garantir isto.
E neste caso teve uma vitória.
E neste caso teve uma vitória. Eu acho que foi uma vitória dele Aliás, nós ouvíamos na terça-feira o primeiro-ministro na declaração ao país e víamos a cara do primeiro-ministro e ouvíamos a voz de António José Seguro. Mas é uma vitória do país, do país sensato, do país que quer soluções, porque de facto, vocês vejam como este debate sobre a habitação foi evoluindo no espaço e no tema. Começou no Parlamento, a propósito das leis das rendas, e eu acho que desse ponto de vista, o governo tem capital político útil, onde podia ter vencido o debate, deslocou-se pra rua. Na rua, a questão da habitação foi abandonada pra se começar a debater o conflito de direitos, o direito à manifestação e à lei e à ordem. E no final da caminhada, onde estamos agora, mais ou menos, começou-se a discutir o fascismo de volta e a autoridade abusiva da polícia sobre os manifestantes. Eu acho que isto é um caminho pra indigência. O que é que na terça-feira, na verdade, na segunda, o Conselho de Estado e com o almoço que precedeu o Conselho de Estado entre o primeiro-ministro e o presidente da República, aconteceu de novo? Foi um recentrar no essencial. E portanto, muito bem. Os partidos têm posições diferentes, é normal que tenham. É normal que tenham posições muito diferentes, até ideologicamente muito marcadas. Isso é virtuoso na democracia que vive da dissensão, mas numa matéria cujos resultados só se conhecerão daqui a anos, e que, não obstante, é urgente. Deixem-me fazer aqui uma nota de rodapé sobre a questão da habitação. Desde 1991 até 2021, havia um movimento sociodemográfico que estava à vista de toda a gente. Nós passamos de três ponto qualquer coisa milhões de agregados familiares pra quatro ponto qualquer coisa milhões de agregados familiares até 2001. Por quê? Porque os agregados familiares na sua dimensão contraíram, por força de um conjunto de fatores bastamente estudados em sociologia e demografia, mas houve aqui uma contração dos agregados familiares. Em cima disto, depois de 2021, nós somamos a entrada de mais de 1 milhão de pessoas que vieram pra cá trabalhar. Alerta à esquerda, tão preocupada sempre com o humanismo e com a recepção. Humanismo e boa recepção faz-se garantindo boa resposta. Nada disso foi planeado, nada disso foi acautelado e a habitação também não. Portanto, em síntese, neste movimento sociodemográfico, que era visível pra toda a gente, e com este acréscimo populacional, nada foi feito em 2018. O primeiro-ministro de então, António Costa, disse que em 2024 a coisa estava resolvida. Não esteve. O governo de turno, hoje, choca de frente com esta urgência, que é de facto urgente, que é de facto atendível. É muito importante pra sociedade portuguesa, até porque a ausência de habitação atrasa a vida, constituição de família, projetos de vida, até uma autonomia psicológica e um amadurecimento dos jovens que permanecem em casa dos pais. Isto é bastante mais profundo do que uma crise de casa. Isto é uma crise de lugar e é uma crise nacional. Tendo hoje no colo esta questão pra resolver, nós vamos ter resultados daqui a algum tempo. Ora, voltando. Admitindo todas as divergências ideológicas, eu pergunto se não é possível um módico de consenso para dar resposta, um choque de oferta, por exemplo. Alguém destes três blocos discorda da necessidade de aumentarmos o número de habitação pública de 2%, que é um número dos mais baixos da Europa, se não o mais baixo da Europa, pra um número maior?
A questão é que esse caminho da habitação pública demora a ter resposta, pela crise na construção. Pode haver consensos para essas respostas mais emergentes, por exemplo, porque essa não é a via mais urgente, a via mais urgente é a que produz resultados imediatos. É possível haver consenso? Há contexto, há ambiente político pra isso?
Ambiente político não há. O ambiente está altamente crispado, porque de facto, por ganhos. Esta coisa das eleições, ainda por cima de eleições num tempo, para usar a expressão do ex-presidente da República, de microciclos, permeia a irresponsabilidade, porque permeia a demagogia, permeia a simplificação de respostas que são necessariamente complexas. Eu não vejo nenhuma bala de prata pra resolver o problema da habitação. Vejo um somatório. É por isso que eu dizia que o governo tem, de alguma maneira, capital em seu favor, por força de algumas coisas que foi fazendo. Primeiro, do lado da oferta, é preciso aumentar a habitação pública. Demora tempo, é verdade. É preciso disponibilizar terrenos para que sejam urbanizáveis, libertação de solo. Depois, é preciso que esses terrenos sejam disponibilizados não só pra habitação pública, mas também pra habitação privada, mas também pra cooperativas. Mas demora tempo É preciso que a construção se torne mais barata para ser útil à população que temos. Isto implica que haja uma redução de licenciamentos. O governo também está a trabalhar nessa matéria. Uma simplificação burocrática, porque não é só o custo da construção, é o tempo. Um investidor avalia em quanto tempo é que vai estar disponível o terreno para a construção e depois somar o tempo da construção, e só depois é que pode tratar do break-even do investimento. Também demora tempo. Casas no mercado de arrendamento: é preciso dar segurança, a menos que das assembleias populares surjam uma coisa bastante radical de expropriação da propriedade privada, que é uma coisa que me terá na linha da frente a combater.
António José Seguro cometeu um erro a ir conversar com os manifestantes?
Eu não faria isso se fosse presidente da República, mas o país está protegido dessa eventualidade. Eu acho que o presidente da República, Mário Soares, partia para o povo para conversar com o povo. E desse ponto de vista, eu não tenho nada a obstar. As coisas apresentadas desta maneira conferem uma legitimidade que eu manifestamente acho que não tem. Eu sou do tipo de pessoas que têm saudades do tempo em que as manifestações eram controladas pelo Partido Comunista Português, com ordem, com caderno de encargos, com uma lista de reivindicações que podiam ser atendidas. Hoje, eu não sei, a partir dos porta-vozes destas manifestações, quais é que são as pretensões.
E tem-se mantido um pouquinho à margem, o PCP. Foi aliás o único partido que não esteve no cordão humano.
Pois tem. Mostra a sensatez do Partido Comunista, também mostra a perda de força, mas é uma lástima para o país. Mas dizia, que pretensões dos porta-vozes que eu fui ouvindo é que devemos satisfazer a destruição da ordem liberal, o combate ao capitalismo, o apelo à revolução, a intifada? Nada disto é atendível. Não há ali interlocutores suficientemente sérios para que se possa dar uma resposta capaz.
Deixe-me voltar só aqui à questão da declaração ao país, aliás, Luís Montenegro, saiu fragilizado por ter de vir a reboque do Presidente da República cumprir essas exigências de diálogo?
Eu acho que o governo se fragilizou antes disso. Qual é a posição do governo? Pergunto-vos, que são jornalistas informados e que estão diariamente de volta destes temas, qual é que é a posição do governo nesta matéria? É a posição de Miguel Pinto Luz e da Patrícia Costa, secretária de Estado, empenhados em encontrar soluções, em apresentar trabalho feito, disponíveis para conversar, para ouvir os anseios da população? Ou é a posição de Luís Neves, um ministro sem nenhuma autoridade política, enredado num sem número de casos de incumprimento da lei, que sendo ministro das polícias, para simplificar aqui a conversa, vem dizer que acabaram as acampadas para no minuto seguinte, não é no dia seguinte, ser desafiado pelos manifestantes com mais uma acampada? Ou é a posição de Luís Montenegro, de quem nós não soubemos nada durante tanto tempo, que convocou um Conselho de Ministros a meio de uma crise para faltar e se filmar numa visita a uma escola lá ao pé de casa para fazer vídeos pro Instagram e pro TikTok? Nós não sabemos muito bem qual é a posição do governo. Portanto, em resposta a essa pergunta, se se fragilizou, fragilizou-se, mas fragilizou-se antes.
Se já se tinha autofragilizado.
Sim, eu acho que aquela comunicação foi o momento menos mau, ou melhor, enfim, deixo à disposição a escolha destes dias de debate sobre a habitação, porque recentrou o debate nos temas importantes e no lugar próprio, que é a mesa negocial. Só uma nota e acabo já. O Presidente da República tem duas preocupações. O Presidente da República tem sido muito injustamente atacado. Num tempo em que toda a gente grita, falar mais baixo é visto como fraqueza. Pois eu não acho. Eu acho que ele está do lado da razão. António José Seguro tem duas preocupações. É esta dos consensos. Vejam bem que agora até se critica isto dizendo que é uma coisa de Miss Mundo, quando é da mais elementar sensatez política tentar encontrar pontos de convergência. E tem uma outra preocupação. Esta primeira, vamos falar de soluções. E tem uma segunda preocupação, que é a sustentabilidade das escolhas políticas, sob pena de, na legislatura seguinte, se o poder for de cor diferente, reverter. Isto não é reforma, não há capacidade de avaliação, não há sequer capacidade de obter resultados daquilo que foi feito. Estas duas preocupações são as preocupações do Presidente da República e eu acho que são boas.
Deixe-me perguntar-lhe porque falou aí de Luís Neves. Uma remodelação governamental é essencial para que o governo consiga chegar ao fim?
Eu não sei. Obviamente, eu acho que Luís Neves não está capaz de continuar a exercer funções de autoridade, ainda para mais numa pasta de soberania, ainda para mais numa pasta tão convocada à exigência do cumprimento da lei Não está. E eu não estou a dizer que Luís Neves é culpado das acusações que lhe fazem. Dizer, de resto, que ele próprio assumiu, na conferência de imprensa que deu aqui há tempos, há uns meses, o incumprimento de um sem número de regras, algumas bastante críticas. E não estou a falar do tanque e do licenciamento do tanque. Estou, por exemplo, a falar da declaração patrimonial. Alguém que dirige nacionalmente a Polícia Judiciária e que faz apreensão de bens, de dinheiro, de droga, de tanta coisa, que não apresenta declarações patrimoniais ab initio para poder ser avaliado à saída, é alguém que está a fazer um incumprimento grave do ponto de vista da transparência. Portanto, obviamente que me parece que Luís Neves devia sair, já devia ter saído, não devia sequer ter sido nomeado.
E seria suficiente para garantir que o Governo chegava a algum ponto?
Não acho que seja, porque os riscos sobre todos os governos, não é só sobre este, são muito grandes. Este governo, estando em minoria... Vejam, nós em 2023 estávamos com uma maioria absoluta de um partido que quis ser, in illo tempore, o partido do single party system. Um partido inamovível do poder. E com maioria absoluta caiu. Tinham caído no espaço de um ano 12 ministros e depois a história do parágrafo e o aparecimento. Nota cronológica importante: António Costa demitiu-se antes do aparecimento dos €70.000 no gabinete do Escária. Mas enfim, uma salgalhada que resultou na queda de um governo de maioria absoluta. Para responder, há imensos riscos, contestação na rua e os taticismos dos seus oponentes, que podem em algum momento convergir na ilusão de que vão tirar vantagem se convocarem eleições, algum caso judicial que nos tem assaltado a toda hora nos últimos anos, que torne insustentável a permanência do governo em funções. Enfim, não faço prognósticos.
Mas vamos a esses cálculos futuros, e agora apelando à sua costela passista. Pedro Passos Coelho foi muito claro: se Montenegro falhar, avança. Perguntava-lhe por que é que o regresso de Pedro Passos Coelho é o melhor para o país e se com o cenário que tem hoje, acha mesmo que Passos Coelho será o próximo líder do PSD.
Não acho nada isso. Eu não sou militante de nenhum partido. Reconheço, obviamente, porque sou um democrata, a importância dos partidos na vida da democracia. Lastimo como cidadão que a democracia portuguesa se tenha transformado numa partidocracia há algum tempo, com lógicas de recrutamento muito peculiares e muito pouco convergentes com o interesse público. E portanto, de alguma maneira, nessa dimensão mais sombria dos partidos, tenho por isso um profundo desprezo. Portanto, não sei muito bem quais é que são as possibilidades de ele voltar à liderança do PSD.
Mas para chegar a São Bento terá que passar primeiro pela São Caetano à Lapa.
Seguramente, e ele fará se entender quando as circunstâncias o obrigarem, depois daquilo que ele também disse, as cogitações que entender e o caminho que for necessário. A pergunta, Miguel, era?
Por que é que o regresso de Passos Coelho é mesmo o melhor para o país?
Pedro Passos Coelho tem um capital político quase único. Governou o país no período mais difícil desde o PREC. Normalmente, de repente, passa o tempo e começamos a tratar o passado como passado e obliterando as circunstâncias de cada momento do passado. 2011, 2015 foi o momento, foi o tempo mais difícil de governar o país desde o PREC, e incluo nisto os tempos das intervenções do FMI nos governos de Mário Soares.
Mas ia perguntar isso do programa de ajuda externa.
Pois não. Só que nós estávamos à beira da bancarrota, estávamos sob um protetorado férreo. Eu na altura, como o Rui Pedro anunciou, fiz parte como adjunto do ministro da Segurança Social, estive em várias reuniões da troica e aquilo era terrível, porque de facto nós perdemos soberania durante esse tempo. E perdemo-la de uma forma muito ativa. Nós tínhamos que estar com equipas que se iam renovando a cada nova reunião a explicar, como um aluno mal-comportado, o que é que tínhamos feito para reverter a situação. Depois houve um conjunto de medidas que se tentaram e que foram chumbadas pelo Tribunal Constitucional, que levaram a outras medidas que aumentaram a contestação social. Enfim, foi um período terrível, bem-sucedido. Não só nos livrámos no tempo certo deste jugo externo, como o desemprego, que era crítico, começou a descer e a economia começou a crescer. Só uma coisa que eu acho que é importante, porque agora também se fala tanto de Mário Centeno. Nós, Portugal, entre 2011 e 2015 trouxemos um déficit de 11% para 3%. Os governos que vieram a seguir trouxeram o déficit de três para zero, ou com um pequeno superávit. E o ministro responsável por esta baixa de três para zero, que o fez à custa de cativações que depauperaram os serviços públicos, foi designado, não em Portugal, como o Cristiano Ronaldo das finanças.
Já percebo porque é que não simpatiza muito com o Cristiano Ronaldo. A culpa é do Mário Centeno. Deixe-me só porque o tempo também se vai esgotando. Passos Coelho, há muito aquela ideia de que consegue secar ou meter no bolso André Ventura. Acredita que isso é possível? E André Ventura não provou já que uma maioria à direita com o Chega é impossível de ter sustentabilidade?
Eu não gosto especialmente dessa coisa do meter no bolso, porque acho de alguma maneira desrespeitosa para os atores políticos, mas percebo o ponto. E completando a resposta, Pedro Passos Coelho tem capital político, tem capital moral. Ninguém tem dúvidas sobre a sua idoneidade e tem autoridade política, que é uma coisa que eu acho que também vai faltando. Sobre o Chega, apetece-me citar o Bernard Shaw, aquela célebre frase, que depois é apocrifamente atribuída a um conjunto de outras pessoas, que é basicamente: "Tu vês coisas que existem e perguntas por quê? Eu sonho com coisas que não existem e pergunto por que não?" Os argumentos das pessoas que acham que não se pode tentar um acordo de governo à direita, e faço uma nota que não é irrelevante, o que Pedro Passos Coelho disse foi, e cito mais ou menos, que se devia ter tentado um acordo com o CDS, a Iniciativa Liberal e o Chega, que não seria coisa fácil, que não seria garantido que fosse bem-sucedido, mas que esse esforço devia ter feito. Foi isso que Pedro Passos Coelho disse. Porque isso é diferente de dizer: "Eu quero fazer uma coligação com o Chega."
Mas com esse tipo de discurso não corre o risco de estar a afastar também o centro moderado que não quer tanto essas conversas com o Chega?
Eu sou sensível ao argumento de que Luís Montenegro poderia não ter vencido as eleições em 2024 se não tivesse o Não é Não. Eu sou sensível a esse argumento. Admito que eleitoralmente isso faça sentido. A interpretação que eu fiz das eleições de 2024 e 2025 foi que houve uma imensa maioria que disse não ao Partido Socialista. Eu sei que depois, agora nas eleições presidenciais, um bocadinho wishful thinking das pessoas que hoje andam a defender o bloco central, que houve aqui um conjunto de portugueses que votaram contra André Ventura. Eu acho essa interpretação bastante errada e muito perigosa. Em 2017, Marine Le Pen, na segunda volta contra Macron, teve 33%. Cinco anos depois, teve 40 e qualquer coisa por cento. Os moderados, ponho aspas nos moderados, acharam que tinha sido uma vitória da moderação. Eu acho que Le Pen e em Portugal, Ventura, nas últimas eleições, teve 33%.
E vai crescendo.
E vai crescendo. O partido dele tem sete anos. Há sete anos teve 1,6. Nas últimas eleições presidenciais, ele sozinho teve 33. Eu desconfio que Le Pen e Ventura discordam dessa tese da virtude do centro moderado. O que eu defendo e o que Pedro Passos Coelho defende? Eu não sou porta-voz de Passos Coelho, mas sou muito atento às coisas que ele diz e que ele escreve, é que as soluções políticas se encontrem em torno de soluções governativas, de propostas concretas. Seguramente há coisas inomináveis que o Chega defende, que ficam de fora. Na geringonça, a saída da NATO, do euro e da União Europeia, que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista defendem, ficaram de fora. Portanto, que o inominável fique de fora e que, no essencial, se consiga estabelecer um acordo de governo. É isso que defende. Eu acho que isso não foi testado. E os argumentos de que o André Ventura porta-se como não sei o quê, é qualquer coisa que só se pode avaliar forçando a ir à mesa da negociação. Com uma outra coisa. Forçar isso tem a virtude de o obrigar a expor e de o responsabilizar. E como vivemos numa democracia, e ainda bem, nas eleições a seguir, os eleitores saberão a quem atribuir a responsabilidade. Deste ponto de vista, da gestão de uma coisa tão complexa como esta, eu acho que Pedro Passos Coelho é quem tem mais autoridade política para o fazer.
Um regresso de Pedro Passos Coelho não pode também voltar a trazer um certo fantasma da troika, que Montenegro se esforçou por enterrar, e assim assustar alguns eleitores que ainda têm essa memória bem fresca?
Pode, e eu estou convencido que Pedro Passos Coelho sabe disso. Pedro Passos Coelho é uma pessoa muito consciente, muito informada, muito atualizada e muito consciente do país. Pode. E há uma coisa que me irrita sobejamente e vocês também, porque aqui num episódio, que é atrasado, como se costuma dizer, punham a música do José Cid, que eu gosto muito, o El-Rei D. Sebastião, para falar do Passos Coelho. Não acho nada que Pedro Passos Coelho seja o D. Sebastião. D. Sebastião destruiu o país numa guerra quimérica e o país perdeu a independência. Pedro Passos Coelho recuperou a independência, pegando naquilo que estava a dizer há pouco sobre a perda de soberania durante os anos da troika. Dá-se o caso de Pedro Passos Coelho, aqui no Observador, numa entrevista que deu à Maria João Avilez, num podcast, eu estive lá, encerrou o capítulo, tinha escrito um prefácio ao livro do Luís Almeida Sampaio, encerrou o capítulo do passado e daí em diante, Pedro Passos Coelho está sempre a falar do presente e do futuro. Eu não sou passista, pegando na primeira resposta que vos dei Porque tenho saudades do passado. Eu sou passista porque olhando para os atores disponíveis, tenho ambição de futuro e eu acho que Pedro Passos Coelho também. Portanto, sim, esse risco existe. Mas é um risco que se pode correr ou não, o país decidirá. Aliás, uma das coisas que estamos sempre a dizer: "Pobre Brasil que está entre Lula e Bolsonaro, pobre Estados Unidos que estão entre Trump e Kamala Harris, pobre França que está entre Mélenchon e Le Pen." Mas os países, os povos também têm a responsabilidade dos atos políticos.
Nesses casos, no Brasil votava em quem, rapidamente? Já vamos ao carnapes.
Votaria no Renan Santos.
E no caso de França, por exemplo?
Le Pen. No cenário Mélenchon ou Le Pen, Le Pen.
E no caso de Kamala e Trump? Eu sei que já lá vai.
Já lá vai.
Está quase a sair o estudo coordenado por Pedro Passos Coelho. Quais acham que vão ser as reformas prioritárias que vão estar no estudo, até tendo em conta o prefácio e mesmo o seu livro "Portugal na Paz dos Bloqueios"? E a habitação vai ter um papel central? Vai ser uma área em que se vai dar uma especial atenção, tendo em conta também o estado da situação?
Eu não conheço o estudo. Enfim, algum esclarecimento que eu acho que é importante, uma comunicação social vai dando nota disso. O estudo foi obnubilado pela presença de Pedro Passos Coelho. É verdade, o estudo foi encomendado pela Associação Comercial do Porto, é coordenado pelo Pedro Passos Coelho e pelo Sérgio Sousa Pinto, mas de facto o estudo está a ser feito sob a liderança de Óscar Afonso, que é o déo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Eu tenho ideia que o estudo se conhecerá lá pra janeiro. Acho eu. É um palpite. Esperou-se que pudesse aparecer em novembro, depois se calhar em dezembro. Eu diria lá pra janeiro. Eu não conheço o estudo. A habitação é claramente um problema. Dar nota que Pedro Passos Coelho, no prefácio que escreveu ao meu livro, considera a habitação uma questão muito crítica, mas não a trata como uma questão setorial. E bem, acho eu. Porque a questão da habitação, como eu dizia há pouco, é uma crise de lugares. Eu posso viver a 30 quilômetros do meu local de trabalho e demorar uma hora e meia pra lá chegar ou a 80 quilômetros e demorar 30 minutos. Há uma interligação com as redes viárias que é importante considerar.
Com os transportes, tudo mais.
Perdão?
Com os transportes.
Com os transportes. E depois, eu defendo no meu livro a construção em altura, mas sou muito contra duas coisas. Primeiro, que a habitação pública seja designada por habitação social. É um estigma de que não precisamos, de que as pessoas não precisam e que estraga mais do que ajuda. A segunda coisa que eu derrogo é a ideia de guetos habitacionais, torres imensas sem vida. Eu sou um conservador, eu quero bairro e eu não acho que a construção em altura inviabilize a possibilidade de ter bairro com infraestruturas capazes. Isto é planeamento. Portanto, isto é muito mais do que uma questão setorial. De qualquer das formas, se me pergunta: acha que vai haver um capítulo? Seguramente, eu acho que o estudo contemplará isso.
No seu livro fala do caso de Oakland relativamente às limitações, depois também vai a Viena no caso da habitação pública, que também já falámos aqui, não vale a pena voltar lá. E depois também fala do caso de Cingapura, precisamente por essa parte, quer os apoios públicos, quer o parque habitacional público que tem na resolução dos problemas. Vamos avançar pro carnapes, estamos com muito pouco tempo. Tem que escolher uma de duas opções. Vamos ver como é que safa ou se fica com fome. Com quem é que preferia partilhar um camarote pra ver o Sporting no Estádio de Alvalade? José Luís Carneiro ou André Ventura?
O José Luís Carneiro é benfiquista?
Acho que é do Porto, mas não tenho a certeza.
Bem.
Eu não sei.
É do Porto. Com qualquer, porquanto o Sporting vencesse pra eu poder dizer: "Incha!"
Com quem partilharia um charuto? Hugo Soares ou Sebastião Bugalho?
Sebastião Bugalho.
Com quem é que bebia um bom uísque? António José Seguro ou João Cotrim Figueiredo?
Boas companhias, gosto muito dos dois.
No fim caso só tinha um copo de uísque pra dar.
Com quem não começasse a torcer o nariz à questão do álcool, do consumo. Eu diria que João Cotrim Figueiredo.
Com gelo ou sem gelo?
Sem gelo.
Com quem soubesse desfrutar melhor a vida. Por fim, com quem é que preferia acampar? Luís Neves ou Renata Câmara?
Preferia não acampar. A melhor tenda de campismo é um quarto no Ritz.
Muito bem, vamos avançar então para a sobremesa. Só não escolheu um colega de campismo. O que nos trouxe e o porquê da escolha dessa música?
Bem, eu trouxe o Desalinhado do Estara Perdida por duas razões. Eu costumo dizer, em jeito de brincadeira, que sou um anarcoconservador, porque gosto demasiado de ordem espontânea e não gosto nada de autoridade imposta. Eu acho que o conservadorismo é o novo punk. Enfim, a frase não é minha, vai-se dizendo isso um bocadinho por aí, mas desafiar a ordem Muito característica dos punks, é também uma característica dos novos conservadores. E depois a segunda razão é porque o movimento punk teve aqui uma figura incontornável, que foi o João Ribas, no bairro de Alvalade. Os História Perdida foram fundados aqui e eu gosto especialmente desta música, "Desalinhado", porque também me descreve um bocadinho esta coisa de seguir caminho convicto do que defendo, independentemente das companhias que trago comigo.
Muito bem. Não sei se será um anarquista.
Não.
É anarquista. Terminamos assim a Vichy Soares, que regressa, como sempre, na próxima semana. Muito obrigado, Pedro.
Por isso agora eu vou, eu sou capaz, de viver, nunca voltar atrás. Agora eu vou, desalinhado, tanto querer, é complicado. Eu sou assim, quem aceitar, estendo-lhe a mão para ajudar. Eu sou assim, um pouco normal, venda-me os olhos, é o golpe final. Por isso agora eu sou. Por isso agora eu vou, eu sou capaz, de viver, nunca voltar atrás. Agora eu vou, desalinhado, tanto querer, é complicado. Agora eu vou, eu sou capaz, de viver, nunca voltar atrás. Agora eu vou, desalinhado, tanto querer, é complicado. Eu sou assim, quem aceitar, estendo-lhe a mão para ajudar. Eu sou assim, um pouco normal, venda-me os olhos, é o golpe final. Por isso agora eu sou.