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Olá, bem-vindos à ViciSuave. As tendas ocuparam as praças, acabaram até ver as cargas policiais e os partidos sentaram-se à mesa para tentar resolver o problema da habitação. É caso para dizer que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe. Depois do coro de críticas, que foi mesmo literal nas Caldas da Rainha, o coro, o presidente teve finalmente uma vitória pública. É agora o comandante supremo das tendas armadas.
Falei hoje com os líderes dos dois maiores partidos da oposição.
O Chega aceita, por isso, o desafio. Reconheceu que a crise que estamos a viver não pode ter uma solução policial.
Ontem foi uma grande terça-feira, também em Portugal.
Eu não sou comentador, nem político. Não levem a mal, muitas vezes a agenda noticiosa do dia não é a agenda da governação.
Há medidas que vamos ter que tomar já.
E é muito mais injusta a crítica de que o primeiro-ministro não fala sobre os assuntos que interessam à gente. Eu tenho o direito de governar e tenho o dever de governar.
Eu sou o Rui Pedro Antunes, sou editor de política do Observador. Tenho o direito de dizer parvoíces e tenho o dever de não dizer assim tantas. Comigo tenho o coordenador de política da Rádio Observador, o Miguel Viterbo e as jornalistas da seção de política, Mariana Lima Cunha e Rita Tavares. Vai começar a ViciSuave. Muito bem, estava agora a lembrar de uma coisa que nunca me tinha ocorrido, que era a Real Tenda. Quando a seguir ao terremoto de 1755, o rei não queria ficar debaixo de teto, então montou a Real Tenda. Lembro-me dessa parte da nossa história em que o rei ficava numa tenda, por exemplo.
Para dizer que isto não é um podcast sério.
Exato.
Para mais detalhes...
Falta aqui o Rui Ramos.
Exato. Para separar a sala.
Então bom.
Não temos para o resto da história, se quiserem ouvir mais.
A modo de inteligência artificial, ande lá encontrar qualquer coisa no Google sobre isso. A Tenda Real, como é que se chamava? Mariana, queres começar, então, uma sopa instantânea?
Posso começar, sim, senhor. Nós já temos vindo a falar da habitação e das acampadas e esta semana tivemos várias novidades. No sentido em que tivemos primeiro o Conselho de Estado e um almoço de Luís Montenegro com António José Seguro. Na verdade, acho que tivemos muito António José Seguro, não o tendo visto muito, porque tivemos a intervenção e influência do presidente da República a dar os seus efeitos. E depois tivemos Luís Montenegro, que podemos dar-lhe já o cognome de o matador das declarações ao país das 08h08, porque já pouca gente...
Só faz por dois motivos.
Por tudo e por nada. Já se liga muito menos a esse momento solene. Mas eu acho que, de facto, Luís Montenegro veio fazer o que já podia ter feito há muito tempo. Podia ter começado por aqui. Em vez de ter começado a abordagem a estas questões da habitação e aos protestos na rua, como se estivesse a ver hooligans na rua, como se estivesse a se ver cenários de vandalismo, acho que houve ali um desfasamento entre a realidade e o que as imagens mostram e o que o primeiro-ministro estava a dizer. E com isto não quero dizer que obviamente não haja sempre algumas pessoas no meio das manifestações que possam trazer alguma desordem, que haja alguma coisa atirada aos polícias, não estou a desvalorizar essa parte. Estou a dizer que Luís Montenegro e Luís Neves começaram por agir como se estivéssemos aqui perante uma ameaça à ordem pública de monta, que justificava que o governo fizesse aqui um posicionamento governo contra manifestantes e que a opinião pública se solidarizaria com o governo. E nós até temos sondagens que mostram que as pessoas não gostam das acampadas. A questão é que também não gostam de violência e a violência que têm visto não costuma, pelo menos, partir dos manifestantes. E portanto, eu acho que Luís Montenegro até podia ter começado por aqui, pelo lado das soluções, ou seja, por falar do que é que se pode fazer, por ser claro até em relação ao que já fez. Ele até tinha alguns ângulos políticos para proveito dele, em que podia ter culpado o PS pelo que o governo anterior fez ou não fez na habitação e podia ter puxado pelas medidas que ele já tomou. E ele optou por ir pra guerra, só que foi sozinho. Não havia guerra nas ruas. E portanto, agora tem aqui um recuo que era desnecessário, porque podia ter começado por ser o adulto na sala mais cedo. E enfim, acho que tem obviamente vantagens. Tem a vantagem de responsabilizar a habitação, porque se estas reuniões não derem em nada, será mais fácil poder dizer que está aqui com colete de forças. Exatamente, vai responsabilizar os três, a culpa passa a ser de todos. Primeiro passa a ser de todos se chegar a alguma solução, estão todos comprometidos com ela. E passa a ser da oposição, se a oposição não quiser chegar a alguma conclusão. Aliás, eu acho que André Ventura aparentemente está cheio de medo disto, porque para dizer que tem os três de assinar é porque está cheio de medo de ficar de fora caso as coisas corram bem.
Era precisamente o que eu ia referir, Mariana.
Miguel, nós entramos numa sinetia que é até pior do que ficar dentro.
Ou de ficar dentro sozinho. Pois, eu acho que o medo, exato, ele está muito interessado em ter os El-Escardel na fotografia, como nunca antes esteve.
Porque senão...
A referência é sem ele.
Exato. Aquele efeito orçamento de Estado em que o PS e o PSD ficam juntos e o centrão chega às soluções, às soluções não, no caso de André Ventura, continua a meter o país no pântano e André Ventura é que está de fora a salvá-lo, pode cair por terra. E, portanto, acho que Luís Montenegro é inteligente nisso, sem querer sentá-los à mesa e tentar que se comprometam. Não sei, obviamente, o que é que vai sair disto, mas pelo menos fica com argumento político para futuro. Se podia ter antecipado esse argumento político quase num mês, podia
Só mais uma dúvida, Mariana. Ele estará sozinho no sentido em que, por exemplo, o ministro da Administração Interna faz aquele comunicado a dizer que a única tenda permitida, é uma situação muito específica, é da Renata Câmara. Depois, há também uma leitura que se pode fazer-
Eu só gostava de saber uma coisa, deixa-me só interromper para dizer isto. Se o resultado tivesse sido o contrário, ou seja, imaginando que a decisão era negativa, se o governo teria vindo dizer: "Bem, mas só a Renata é que não pode acampar." É que a lógica aplicada ao contrário é um bocadinho bizarra.
E depois a ideia também do aviso, que é óbvio, se está na lei, que os imigrantes que se comportem mal nas manifestações, que podem perder a autorização de residência, também parece um bocadinho ameaçador. Isso vai um bocadinho em contraciclo com o que o primeiro-ministro disse na intervenção, que do espírito que tem sido do governo, até que permitiu, porque nas últimas duas noites houve tendas no Rossio, houve tendas na Praça Dom João I e, portanto, já não houve ordem. Afinal, era uma orientação política, porque a PSP deixou de agir. Continua a existir quem, dentro do governo, achasse que isto devia ser de outra maneira, isto foi António José Seguro que forçou que fosse assim?
Eu acho que há, de facto, não só visões diferentes, como a posição errática do governo não tem ajudado. Ou seja, não tem ajudado a que haja uma perceção de um governo unido. Aliás, tu quando tens o ministro da Administração Interna a anunciar que acabaram as acampadas, claramente de forma precoce, porque não só eles continuaram, como as cenas de carga policial aumentaram, logo à partida, se o ministro não tivesse ficado desautorizado por isto, ficava agora, depois com a decisão do tribunal e com a correção de rota que eu acho que Luís Montenegro tem vindo a fazer. Ou seja, acho que o próprio Luís Montenegro já teve várias posições sobre isto e está a corrigi-la. E aí é muito difícil não pensar, não é que eu tenha uma informação sobre isto, mas que seja uma influência do presidente da República, porque de facto o presidente da República faz a sua magistratura de influência, de facto, de forma muito mais silenciosa e com menos idas ao gelado e ao Multibanco do que Marcelo Rebelo de Sousa. Mas pelo menos nisto, aparentemente, está a ter algum resultado. Se calhar não está a ter o resultado que toda a gente, que muita gente, gostaria que tivesse. É possível fazer o contrafactual, porque Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou ontem logo para elogiar os jovens e a intervenção cívica que têm, etc. Portanto, percebeu-se logo para que lado é que estava a puxar. António José Seguro nunca fará isto, porque não é o perfil dele, mas dentro do que é o perfil dele e que ele sempre falou na prioridade que dá aos consensos, ao diálogo. Eu lembro-me de muito antes de ele ser presidente da República, quando começou com aquelas intervenções que nós íamos seguindo, às vezes a pensar: "Que estranho, o António José Seguro aparecer aqui e ali em conferências e em eventos de repente." E era sempre esse o fio condutor dele, que é que o tempo está demasiado crispado e que ele vinha para descrispar.
Isso também é o mínimo que se pode dizer quando não se tem responsabilidade política, é: dialoguem. No caso dele como presidente da República, não, é totalmente diferente, mas quando ele dizia nessa altura, era um bocadinho aquela coisa de quem não se quer comprometer com nada, essa neutralidade que ele foi sempre-
Só que, pelo visto, é a mesma posição dele.
Quer dizer, foi a posição dele a dada altura. Não é que ele não achasse e não tivesse falado já durante a campanha, até na necessidade de os partidos se encontrarem para encontrarem soluções e como a resposta concreta aos problemas das pessoas era uma forma importante de travar os populismos. Mas neste caso concreto e no exercício de presidente da República, esta foi a primeira crise que António José Seguro teve que enfrentar e não a pegou de forma certeira. Demorou muito tempo.
Eu acho que ambos demoraram muito tempo, ambos estes protagonistas.
A intervir publicamente. E aliás, toda a reação que António José Seguro teve depois desta carga do último fim de semana, parece que é uma correção daquilo que ele não tinha feito na semana passada.
Eu acho que está a haver uma correção de rota, tanto de Montenegro como de Seguro. Só que Montenegro ainda precisou de Seguro para fazer a sua.
No caso de Montenegro é contrariado, não é?
É, exatamente.
Aliás, tu há bocado dizias uma coisa, Mariana, que era Luís Montenegro finalmente a portar-se como o adulto na sala. Eu vejo-o mais como uma criança a ser obrigada a comer a sopa.
A ser arrastada pelo adulto para se sentar à mesa.
Sim, pareceu-me mais isso, aquela declaração, aquela comunicação ao país.
Mas essa é a tua sopa instantânea, Rita. Ou seja, o António José Seguro, apesar de tudo, tem aqui uma vitória, mesmo que tardia, pelo menos passa a imagem pública.
De que foi a única cabeça serena e sensata no meio disto tudo a conseguir travar. Vamos ver, mas em princípio, esta coisa de fim de semana sim, fim de semana sim, estarmos dependentes de existirem tendas montadas no Rossio e na Praça Dom João I, no Porto, a partir da meia-noite e meia para sabermos que às 3h da manhã havia uma carga policial, não é maneira de gerir o que quer que seja. E António José Seguro, a dada altura, acho que teve a sensibilidade de perceber isso e de avisar Luís Montenegro que também era melhor que começasse a ganhar essa sensibilidade. E Luís Montenegro já apareceu algo contrariado a fazer aquela declaração. Agora, a minha sopa instantânea, eu vou já para o futuro, que é: estas negociações, e Luís Montenegro na declaração que faz ao país, a dada altura fala numa ideia consensualizada de toda a gente percebe que é necessário mais oferta de casas. A questão é que esta é a parte mais fácil de consensualizar, de facto, e é também aquela que não produz efeitos imediatos.
Exato. Porque não era a mostrar que ia acontecer alguma coisa.
Não é a resposta urgente. Onde vai ser mais difícil é mesmo na resposta, nas medidas de resposta urgente, que permitem desbloquear algumas situações, seja nas rendas, seja nos preços das casas em si. PS e PSD têm coincidido muito neste diagnóstico. Por exemplo, se pegarmos no caso concreto da lei das rendas, vemos que aquilo que os distancia é uma imensidão. No caso do PSD, aposta mais no reforço das garantias para os senhorios e das condições para os incentivar a pôr casas no mercado de arrendamento. Os socialistas defendem que seja o Estado a assumir o papel na resposta aos riscos que os contratos trazem. Portanto, vamos ver agora se isto é uma sopa instantânea de Luís Montenegro para se safar rapidamente ou se há mesmo uma intenção real de chegar a um acordo, porque há duas maneiras de olhar para aquilo que se passa e como o governo está a responder à rua, que é ou deixar isto adensar ao ponto de, um dia destes, desgastar-se tanto que Luís Montenegro mostre ao país que não consegue governar e que é preciso ir a eleições, ou então não está interessado em eleições e tem de haver um diálogo que dê frutos rapidamente para travar este ambiente social. Sendo certo que se o desgaste continuar por esta via, o Luís Montenegro também dificilmente sairia no fim de uma crise política como a melhor figura para ficar no day after à frente do PSD e a candidatar-se novamente a eleições.
E vencer as eleições, que também é necessário. Miguel, a tua sopa é instantânea?
É mesmo instantânea que estamos mesmo já a fechar.
Gere aí o tempo como tu bem sabes.
Apesar de Luís Montenegro insistir em tentar dar solidez às comunicações às 8 p.m., o problema é que nas duas últimas que fez, foi falar sem qualquer medida no bolso e acaba por ditar que esse tipo de comunicações realmente sejam um bocadinho desvalorizados, porque tanto no aumento do custo de vida como nesta questão da habitação, o que vem fazer é um resumo da matéria dada e procurar entendimentos e consensos. E não se pagam contas ao fim do mês com consensos.
Se calhar António José Seguro também não lhe disse o que ele tinha de propor.
Pois, se calhar só marcou a comunicação e não lhe deu o guião, também é uma possibilidade. Pode ter sido má-fé do presidente.
Estamos a brincar, mas isso pode marcar as negociações. Fica na mão da oposição e das medidas que vierem. Será que está ou não mesmo interessado nestas negociações?
Pode ter dito também: "Ó Luís, veja lá, se quiser eu arranjo-lhe um coordenador também para isto, como arranjei o Adalberto para a saúde, arranjo aqui outro para a habitação." E depois essa dessintonia entre membros do governo, que agora já vai sendo corrigida, e é aí que era preciso Luís Montenegro ter aparecido. A história de falar quatro vezes em 15 dias. A verdade é que deu espaço para que Luís Neves adotasse uma postura, Miguel Pinto Luz adotasse outra e entretanto até já vimos Rita Judice adotar uma terceira, também na audição do Orçamento de Estado, em que acaba por admitir que a polícia teve excessos de parte a parte, assim como os manifestantes. Essas várias vozes sobre aquilo que foram estas últimas semanas não jogam muito a favor de uma coordenação e de uma liderança política do governo.
Muito bem, ficamos a aguardar a comunicação ao país sobre o novo plano de ação da conservação do lince ibérico. Um dia acontecerá. Virgílio Soares volta já a seguir para a segunda parte.