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Espectador da Rádio Observador, hoje olhamos para o que está a passar no espaço aéreo europeu. Só nesta quinta-feira, 18 aviões foram alvo de ameaças de bomba, casos em Espanha, França, Itália, Bélgica, Bulgária, República Checa. Até um voo que saiu esta manhã do Porto com destino a Milão se viu envolvido nestes casos. Um dos aviões chegou a aterrar numa base militar francesa. Alguns foram escoltados por caças da Força Aérea dos diversos países. Até o momento, nenhuma autoridade confirmou a presença de explosivos a bordo de nenhum avião. Mas afinal, o que está a passar com estas ameaças de bomba nos céus europeus? Eu sou o Ricardo Conceição, comigo está a Judite França. Judite, quem é o nosso convidado?
Álvaro Neves, foi investigador de acidentes aéreos. Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. A pergunta de partida é mesmo essa: o que está a passar com todas estas ameaças de bomba?
Ora então, boa tarde, aqui de Doha e obrigado pelo convite.
Exato, está no Catar.
Sim, é verdade.
Ainda sou onde trabalha agora.
Onde trabalho agora e continuo a exercer como investigador de acidentes aéreos, responsável pela autoridade aqui do Catar. Portanto, como eu posso desde já afirmar a minha área é mais segurança operacional e nós estamos aqui a discutir uma situação de segurança no âmbito de atos ilícitos. Evidentemente que tenho a minha opinião própria e tenho os meus conhecimentos pra poder convosco dialogar um bocado sobre o que está a passar nesses últimos dias, efetivamente, que causam grande distúrbio, desestabilização das próprias infraestruturas e claro está, prejuízos enormíssimos para as companhias aéreas. Mas temos que recuar um bocadinho e perceber o que a Europa neste momento está a passar, no âmbito de praticamente todos os países, estas convulsões sociais, e como nós sabemos, na minha perspectiva, estes grupos radicais se instalam com as suas motivações, que não têm mais do que interesses em criar mesmo o caos e a instabilização social.
A sua opinião, tantos casos devem estar ligados. Ainda ninguém assumiu que estes casos estão ligados, mas que 18 casos no mesmo dia é um bocadinho estranho.
É estranho. Isto não é mais que uma guerra híbrida que está pensada. Alguns desses intervenientes estão ligados praticamente ao mesmo grupo, que sabe perfeitamente como atuar, sabe perfeitamente como efetuar os telefonemas, sabe efetivamente como usar a tecnologia para que não sejam detectados e não seja verificado qual é a sua localização. Portanto, estão à vontade e geram estes caos, que disse 18, mas provavelmente já serão 20 ou 21.
Sim, se calhar 18 era o número que tinha antes de vir aqui para o estúdio.
Claro, mas provavelmente, aquilo que eu obtive há uns minutos atrás, acho que agora já serão 21. E como diz, e já disse na sua peça de introdução, alguns foram acompanhados por caças militares, aterraram em bases aéreas. É só pra perceber o caos que estas ações coordenadas, na minha perspectiva, são ações puramente coordenadas, que não têm mais do que semear o caos, desestabilizar os próprios países e, no fundo, a sociedade que nós temos na Europa que está a sofrer e estamos a ser impactados. E Portugal também não foge à regra. Estamos a ser impactados diretamente pelos movimentos sociais que são utilizados e camuflados por estes grupos mais radicais pra poder efetivamente usar esta variável.
Perante uma ameaça de bomba, o que decide o comandante? Desviar, aterrar no destino? Quem é que tem a palavra final?
Como é que isto funciona?
Isto é assim, há protocolos que estão devidamente implementados. Quando se recebe uma chamada desta, e eu digo quando se recebe ou se recebe num aeroporto, isto é, na autoridade que gere a infraestrutura ou a própria torre de controle, há protocolos que quem recebe a chamada tem que preencher e vai seguindo. Vai tentando questionar quem está ao telefone para validar o telefonema e tirar daí algumas ilações e perceber se deve ou não ter em consideração.
Para perceber se pode ser uma brincadeira de um adolescente ou algo mais sério.
Algo mais sério. E grande parte desses protocolos funcionam, porque nós sempre tivemos situações como estas. Não é o número que nós temos agora, mas sempre tivemos uns brincalhões que gostavam de vez em quando pegar no telefone para desestabilizar, provavelmente, o voo de um amigo, da namorada ou de quem quer que seja pra brincar. Mas agora, esse protocolo tem funcionado, mas lá está, uma vez, duas vezes, quem recebe a chamada estão treinados para perceber como identificar se tem ou não risco. Agora, numa situação como esta, que provavelmente os telefonemas são feitos para vários países Para várias organizações. E quando digo organizações, pode ser para a polícia, para o Ministério Público, para o aeroporto, para a torre de controle. Eu não sei onde é que estas chamadas vão cair e como é que essas entidades estão preparadas para reconhecer o risco. Evidentemente que o comandante tem a última decisão. Normalmente, a torre vai informar que o avião está em rota, vai receber a mensagem do controle de tráfego aéreo que recebeu uma chamada a indicar a possibilidade de bomba a bordo e o comandante tem a última decisão, que aquilo que está definido e as companhias aéreas, tendo em consideração o que se está a passar no mundo e a instabilidade, infelizmente, é elevada, o risco é elevado. Há muitos países que têm a sua segurança interna em nível cinco, com situações muito apertadas. Evidentemente que o comandante normalmente toma a decisão de divergir e vai divergir para o aeródromo que tem mais próximo.
Aqui temos tido vários voos que acabam por chegar ao destino. A avaliação é feita pelo comandante, é feita pela companhia, pelo controle de tráfego aéreo? Ou seja, por que temos um avião que acaba por aterrar numa base aérea militar escoltado em França e temos outro, como aquele que saiu do Porto esta manhã e que acabou por chegar a Milão?
Claro. Lá está, é o que eu digo, os protocolos estão instruídos e depois as próprias companhias também têm o seu nível de triagem e há companhias ou a própria informação que lhes chega já vai filtrada e já diz: "Nós validamos isto como um alerta falso" e a própria companhia também já permite ao comandante, por quê? Tem os seus critérios menos apertados e o comandante toma a decisão de validar também como falso e continuar o voo para o destino. Há outras companhias que têm, evidentemente, os seus critérios muito mais apertados. Os próprios países também obrigam que os protocolos sejam bem apertados. E aquele que aterrou numa base militar, eu nem sei que companhia aérea corresponde, mas provavelmente tem instruções muito mais apertadas, rigorosas de validar. E depois a decisão onde vai aterrar será feita pelo protocolo do próprio país, que diz: "O risco é implícito, vamos levar o avião para uma base militar". Isso por quê? Porque um avião com ameaça de bomba a bordo, se aterrar num aeroporto normal, um aeroporto civil, está no plano de emergência, tem um local definido para estacionar, que é fora das zonas do terminal, são zonas afastadas, todos os aeroportos têm a zona onde esse avião vai estacionar.
O avião era da Aer Lingus.
Da Aer Lingus, estamos a falar irlandês.
Um A320.
Lá está. Eu não conheço os protocolos da companhia, nem da Irlanda, mas provavelmente a validação foi considerada como positiva e tomaram a decisão de divergir e tendo a instrução depois para aterrar numa base aérea.
Por exemplo, deixe-me só interrompê-lo, porque as autoridades checas classificaram a ameaça que lhes chegou por e-mail como baixa e mesmo assim ativaram os protocolos.
Claro. Pois, a questão, mais uma vez, é esta: a entidade que recebe a ameaça valida como baixa, mas depois a companhia aérea tem os seus critérios mais elevados, porque isto é assim, nós temos que olhar, como eu estava a dizer, aquilo que nós estamos a passar atualmente no mundo, o risco é elevado. As companhias aéreas têm a percepção que com toda a certeza é falso, mas não estão para arriscar que haja uma situação que possa efetivamente ser validada e não vão cometer o risco de continuar a voar e haver efetivamente-
Álvaro Neves, com as viagens de avião tão pressionadas, que os aparelhos praticamente não param. Chegam a um sítio, estão meia hora ou uma hora na pista, despejam passageiros, enchem outra vez e seguem. Imagino que isto também acabe por ser um dinheirão para as companhias, porque tudo isto complica o sistema, não?
Não, não tenha a menor dúvida. Isto causa, efetivamente, imensa desestabilização operacional, porque um avião que tem que divergir automaticamente vai estar várias horas fora de operação e vai faltar depois para completar o resto da agenda daquele dia para aquele aeronave. E como diz, hoje em dia, as companhias estão muito pressionadas para cumprir os seus horários, os aviões no ar é que estão a ganhar dinheiro, no chão é para perder dinheiro. Uma situação destas, depois tem que seguir no protocolo, o avião aterra, os passageiros têm que fazer conciliação de bagagem, vai demorar duas, três horas a correr bem. A polícia vai ter que fazer uma vistoria minuciosa ao interior do avião, aos porões, para efetivamente validar que não há nenhum artefato instalado que possa provocar a explosão. Tudo isto toma horas.
Claro. Há risco de fadiga de alerta, ou seja, as ameaças começarem a ser desvalorizadas de alguma forma?
Eu vou-lhe ser muito honesto, isto enquanto não se criminalizar e começar a ser muito mais rigoroso na verificação destas ameaças e começar a fazer o tracking para identificar essas pessoas e começar a responsabilizá-los, a brincadeira pode continuar por mais algum tempo. Não é só as tendas, esta brincadeira também pode continuar por mais algum tempo. Porque este tipo de grupos, sabendo como agem, porque isto não tenha dúvidas que esta guerra híbrida, eles percebem como é que não ser detetados e sabem perfeitamente o impacto que causam, pode continuar a acontecer. Agora, na minha perspetiva, os Estados têm que urgentemente identificar com as polícias, como identificar e começar a atingir essas pessoas e responsabilizá-las criminalmente, porque senão isto vai continuar, com toda a certeza, ao longo dos próximos dias, semanas, quiçá, este caos.
Álvaro Neves, muito obrigado, mais uma vez, pela sua disponibilidade e pela sua ajuda, para nos ajudar aqui a perceber melhor o que é que estará a passar aqui nos céus europeus com estas ameaças de bomba. E um abraço para Doha, no Catar, onde está e é responsável pela segurança aérea.
Muito obrigado e sempre disponível e esperemos que esta situação se resolva o mais depressa possível. Muito obrigado e um bom resto de dia para vocês aí em Lisboa.
Obrigado.