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Bom dia e muito obrigada por estar com o Observador. Recebemos agora o diretor artístico do Teatro Nacional Dona Maria II. Tiago Rodrigues é o nosso convidado do ao vivo desta terça-feira. Bom dia, muito obrigada por ter vindo às manhãs 360.
Obrigado.
O Tiago foi distinguido ano passado com o Prêmio Europa de Teatro Realidades Teatrais, por lutar por um novo teatro europeu que vá além de qualquer barreira ou preconceito. Foi o segundo português a ser galardoado com este prêmio. Depois desta distinção, aumenta a responsabilidade. O que tem feito desde então?
Aumenta, certamente, sobretudo estando no Teatro Nacional Dona Maria II, porque tenho consciência de que, além de ser um prêmio que me honrou muito a título pessoal, é um reconhecimento de toda uma casa, da história de uma casa, da importância de uma casa como o Teatro Nacional Dona Maria II, tanto para o nosso país como representante do nosso país fora de portas, mas também um prêmio que se estendeu ao teatro português, que muitas vezes julgamos que talvez não esteja à altura do teatro de outros países. E que, neste momento, eu acredito e conheço cada vez melhor e particularmente bem o teatro que se faz em toda a Europa. Acredito que é um teatro com uma qualidade, com uma diversidade e, sobretudo, com um potencial, com um futuro absolutamente incrível, se o soubermos aproveitar. Temos uma nova geração de artistas absolutamente fenomenais, que têm que ser apoiados, que têm que ter casa para trabalhar, que precisam de teatros. Muitos desses teatros espalhados pelo país que estão ou vazios ou ocupados em intermitência, têm que ganhar nova vida e têm que se abrir a esses inquilinos, que são os jovens artistas, que podem ser realmente um coração a pulsar em cada comunidade deste país.
O Tiago falou do que se faz lá fora e na passada quarta-feira apresentou em Paris a sua reinterpretação de "Ana Karenina", de Tolstói, a peça de "The Way She Dies". A estreia foi no Teatro da Bastille, inserida na Rentrée Cultural da capital francesa. Uma peça em três línguas?
Em três línguas. Em Portugal chamava-se "Como ela morre", como deve ser, porque foi estreada no Teatro Nacional Dona Maria II em 2017. E depois tem este título internacional que serve um pouco para todos os países onde tem circulado, "The Way She Dies". O título é em inglês, porque é uma língua franca que funciona em muitos países, mas na realidade a peça é falada em português, em flamengo ou neerlandês, como quisermos, e em francês. Em português, porque há o Pedro Gil e a Isabel Abreu, que aliás têm sido aplaudidos fortemente pela crítica francesa parisiense nos últimos dias, desde a estreia. Em neerlandês, porque há dois belgas flamengos, dois belgas do norte, Jolente De Keersmaeker e Frank Vercruyssen, dois grandes atores europeus da companhia TG Stan. E quando há cenas entre portugueses e belgas, a língua franca utilizada no espetáculo é o francês, também herdado do "Ana Karenina", porque o próprio Tolstói, no original, muitas vezes tem largas páginas em francês e usa o francês como língua de amor, língua de sedução, língua de cultura e língua de classe. Também era a língua que os aristocratas falavam entre eles para que os seus criados não entendessem o que eles estavam a conjuminar. E trabalhar em línguas diferentes aumenta, imagino eu, a dificuldade do trabalho dos próprios atores, não? É uma dificuldade técnica muito grande passar de língua para língua, conseguir a fluência. Por exemplo, para um português conseguir a fluência no francês que tem em português, que domina completamente.
E no meio disto, não desviar a atenção do público. Fazer com que o público não se disperse.
O grande desafio é transformar a questão da língua, que aqui, só pela natureza do elenco, portugueses e belgas no mesmo elenco, já era um grande desafio. Pelo futuro que a peça tinha, nós sabíamos que ia rodar muito em França, na Bélgica, noutros países. Era um problema. Foi transformar o obstáculo numa razão de ser, ou seja, transformar um problema num trunfo. E então o próprio espetáculo fala dessa questão da língua. A história que foi criada é uma história entre dois casais, um casal português em 1963, em que a mulher do casal está a ler "Ana Karenina" e isso transforma a sua visão do casal, do seu futuro, da felicidade. E um casal em 2017, em Antuérpia, na Bélgica, em que o homem do casal, desta vez, está a ler o mesmo volume. Não é só a mesma obra de Tolstói, é exatamente o mesmo livro, com partes sublinhadas por essa mulher portuguesa de 1963 em Portugal. E de repente, um mesmo objeto livro ganha vida e é uma espécie de quinto ator deste espetáculo. Esta peça virá para cá, para Portugal, depois? Já esteve em Portugal, em Lisboa e no Porto, no Teatro Nacional Dona Maria, onde estreou e depois no Teatro Nacional São João. É possível que ainda volte. É uma peça com uma vida longa. Uma das coisas importantes que nós descobrimos na forma como o Teatro Nacional Dona Maria II se tem relacionado com artistas internacionais, com parceiros internacionais, festivais, teatros, é que o tempo de vida das peças, que infelizmente em Portugal é muito curto, porque há poucos teatros por onde rodar as peças. De repente, está-se a trabalhar três meses e isto é um verdadeiro drama, sem ironia. É um drama para o teatro português. Trabalha-se três, quatro meses numa peça, às vezes mais, e depois apresenta-se talvez em Lisboa três ou quatro dias, talvez no Porto, dois ou três dias, se tiver sorte, ou vice-versa. Ou estreia-se no Porto e vem-se a Lisboa. Depois talvez mais três, quatro cidades, mas se tiver muita reputação e ficou por ali. Ora, este, "Como ela morre", tem dois anos de vida, há de continuar a rodar e muitos dos espetáculos que temos feito no Dona Maria, lembro-me, por exemplo, do "Sopro", que estreamos no Festival de Avignon, também em 2017, vai rodar até maio de 2021, se tudo correr bem. O tempo de vida das peças alarga-se quando o território, o mapa de público, se alarga também. E isso é muito importante para o teatro, porque estamos a falar, no caso do Dona Maria, de investimento público, dinheiro dos contribuintes. Queremos que haja não só portugueses pelo mundo que possam descobrir o seu teatro, embora estejam na diáspora, não estejam a viver em Portugal. Queremos também que Públicos de todo o mundo conheçam a cultura portuguesa através do teatro que fazemos com o dinheiro dos contribuintes portugueses. Portanto, é muito importante dar essa esperança de vida às peças e para isso é preciso ter muitos parceiros. É possível que este espetáculo, "Como ela morre", volte a Portugal, mas entretanto teremos muitas e boas surpresas no Teatro Nacional D. Maria II, para ocupar a curiosidade e a encantação do público enquanto este "Como ela morre" não volta.
Só para as pessoas perceberem, este espetáculo é acompanhado de legendas, porque de outra forma não seria possível ter esse tipo de internacionalização.
O que é muito interessante é que em Portugal legendamos o neerlandês e o francês. Em França, legendamos o neerlandês e o português. Na Bélgica, às vezes nem o francês, depende da zona da Bélgica, legendamos só o português. Mas a legendagem faz parte, desde o início sabíamos que ia ser um espetáculo com esta vida, sabíamos que tínhamos um elenco misto em termos de línguas e nacionalidades e portanto a legendagem faz parte da própria cenografia, do esquema do espetáculo e funciona muitíssimo bem. E nós temos grandes talentos a fazer legendagem em Portugal.
As pessoas não estranham um espetáculo de teatro legendado?
Absolutamente. Em Portugal, por exemplo, não estranham nada. Temos um público muito habituado à criação internacional, mas em Portugal, ao contrário da França, por exemplo, nós somos, como sabemos todos, não estou a dar nenhuma surpresa a ninguém, somos um povo aberto às outras línguas, somos hospitaleiros, mas também o português vai sempre tentar falar a língua do outro. E quando não consegue, fala português muito alto e muito devagar para dar a tal indicação, a tal informação e estabelecer um diálogo. Mas em Portugal nós vemos cinema, vemos televisão, sempre legendados. É perfeitamente natural para nós a legendagem e portanto funciona muito bem. Os franceses, por exemplo, têm mais resistência à legendagem, porque têm a tradição de dobrar tudo. São um povo mais monoglotas, talvez menos curioso em relação às línguas dos outros, mas no caso do português, e porque também há francês na peça, exerce-se ali um charme. Há uma redescoberta que eu sinto muito forte em França, nomeadamente em Paris, mas em muitas cidades de França, uma redescoberta da cultura portuguesa, de um novo Portugal, um Portugal que não é aquela imagem estereotipada do Portugal antigo, embora a nossa tradição cultural, atenção, seja enorme e muito importante, mas Portugal já não é só o Portugal da Amália Rodrigues. Embora eu seja um fã incondicional, saltava de um abismo para poder ouvir Amália Rodrigues ao vivo lá embaixo, coisa que nunca tive, infelizmente, a oportunidade de ouvir, mas há uma nova visão de Portugal e acho que de alguma forma, ínfima, talvez pequena, o Teatro Nacional D. Maria II em França tem contribuído para isso.
Tiago Rodrigues, esta semana foi anunciado que no próximo ano o Teatro D. Maria II vai atribuir pela primeira vez o prémio Revelação a novos talentos. Como é que vai ser feita esta atribuição? Quem é que pode concorrer? Estamos a falar de €5.000.
Estamos a falar de um prémio que achamos que era importante que fosse, em primeiro lugar, um prémio que distinga, que dê visibilidade, mas que fosse também pecuniário. Porque um dos grandes problemas dos jovens talentos em teatro, dos artistas de teatro jovens, neste caso estamos a falar de um prémio que será atribuído a artistas até 30 anos, é também um problema financeiro. Temos ainda um território profundamente precário. Não depende apenas de apoios financeiros do Estado, embora isso também seja extremamente importante e devam continuar a crescer, mas depende do território português ser um território quase por explorar. Temos um país por desbravar, onde há muitos teatros e há pouca programação e há pouca criação. Para isso é preciso criar mecanismos. As autarquias em Portugal são o maior investidor em cultura, mais do que o Estado central, portanto, honra lhe seja feita, mas em muitos casos não usam o teatro como uma ferramenta mesmo de transformação das suas comunidades. Aqui o que queremos é, em primeiro lugar, que haja um prémio, a Revelação em Teatro em Portugal, porque já houve, eu julgo que o último até 2004, e portanto desde 2004 não há um prémio Revelação, não há um prémio que promova os jovens talentos. É uma evidência, tem que haver, somos um país onde tem que haver um prémio de Revelação para todos os setores da sociedade e, portanto, para o teatro também.
Tiago, nós estamos mesmo a terminar. Queria perguntar-lhe que espetáculos podem ser vistos no D. Maria II neste início de temporada. E muito rapidamente, peço, por favor.
Muito fácil. "Antígona" de Sófocles, a grande tragédia grega de Sófocles, encenada neste caso por Mónica Garnel. Antígona conta uma história de rebeldia de uma jovem, a jovem Antígona, que se indigna contra o seu tio e portanto contra a cidade, de alguma forma, porque defende valores que acha que o seu tio, o novo rei, não está a aplicar. É curioso, quando olhamos para esta peça, recordamo-nos porque é que voltamos a estas tragédias, porque é que voltamos às histórias antigas. Nós estamos a ver a peça, embora não haja referência direta, é inevitável pensar, por exemplo, em Greta Thunberg. É inevitável pensar no poder transformador dos jovens que olham para a sociedade e dizem: "Estas pequenas melhorias que vocês fazem de vez em quando não chegam. É preciso mudar o sistema". E portanto, esta Antígona, que ainda por cima tem uma história muito bonita por trás, completamente acidental, descobri já depois de estarmos a começar os ensaios, é que Mónica Garnel é neta de Mariana Rey Monteiro, que precisamente há 73 anos estreou-se como atriz a fazer a Antígona neste palco, onde Mónica Garnel encena pela primeira vez. Até me estou a arrepiar só de contar isto. Isto são as histórias que acontecem todos os dias no Teatro Nacional Dona Maria II, porque é uma casa com tanta história, mas também uma casa de inovação. O caso do segundo espetáculo, Coleção de Artistas, de Raquel André. Raquel André é talvez a mais internacional das jovens artistas de teatro português e tem feito uma série de espetáculos muito bonitos, que são coleções. Primeiro, uma coleção de amantes, em que fala da intimidade e mostra a sua coleção ao público. Depois, uma coleção de colecionadores. Ela colecionou colecionadores de vários tipos e são os seus colecionadores. E agora, uma coleção de artistas, um espetáculo que apresenta a solo, lindíssimo, que conta os vários encontros artísticos que foi tendo ao longo da sua carreira e que a influenciaram, e mostra-nos partes de peças de outros que já fazem parte de si e do seu corpo.
Ficam então as sugestões. Tiago Rodrigues, o diretor do Teatro Nacional Dona Maria II, o nosso convidado ao vivo de hoje. Muito obrigada por ter vindo às Manhãs 360.
Eu é que agradeço.