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E começa aqui mais um episódio do podcast "Ao Volante do Futuro". É uma parceria Observador e Critical Tech Works, onde destacamos todas as semanas as principais inovações tecnológicas do mundo automóvel. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje vou estar à conversa com o Marco Nunes. É Product Visionary na Critical Tech Works e vamos falar sobre o carro enquanto gadget. Marco, muito obrigado por se juntar a nós.

Obrigado pelo convite.

Marco, o setor automóvel tem sofrido imensas transformações nos últimos anos. A tecnologia é cada vez mais evoluída. O carro hoje em dia faz muito mais do que apenas nos conduzir a um destino, não é? Quais é que acha que foram as principais transformações que tornaram os nossos carros quase carros gadgets?

É um conceito extremamente interessante. Eu acho que houve dois tipos de transformações que contribuíram para que o carro fosse classificado como, eu digo mesmo, o derradeiro gadget. A transformação tecnológica, onde observamos a introdução de tecnologias mais inteligentes, conectividades de vários tipos, que permitiu alargar o espectro da informação acessível e com isso melhoramos todo o sistema de infotenimento no interior do carro. Como exemplos, podemos ter o GPS, o Bluetooth, mas acho que o mais relevante foi mesmo a internet. Depois, por outro lado, tivemos a transformação funcional, onde encontrámos com toda esta panóplia de tecnologias que ficaram disponíveis, acabamos por melhorar a experiência da condução, incluir diversas câmaras e transformar as suas imagens para auxiliar o condutor, entre outras situações. Mas, de facto, estes dois foram bastante importantes. Aqui, o que há a salientar, e a questão do gadget é exatamente essa, o objetivo é sempre transformar ou adicionar novas funcionalidades com mais comodidade, mais conforto, mais segurança. Enfim, estamos a usar a tecnologia para enriquecer o ecossistema do espaço automóvel.

Marco, mas para além dos sistemas de entretenimento, de resto até já temos um episódio aqui no podcast "Ao Volante do Futuro" sobre esse tema, muitos destes gadgets servem, de facto, ao auxílio, ao condutor. Quais é que considera terem sido os mais importantes nesta área?

É verdade. Uma grande parte deles é mesmo para auxiliar o condutor e a experiência de condução. Eu acho que existem vários que podem ser considerados importantes, mas eu gosto especialmente de um que é o head-up display. O head-up display é um sistema de projeção de informação que usamos para mostrar a informação pertinente, tal como a velocidade máxima de um local, a velocidade do veículo.

É uma projeção no para-brisas, não é?

No para-brisas. E precisamente esta projeção no para-brisas é para manter esta informação enquadrada com a linha de visão do condutor. Esta tecnologia, incrivelmente, foi introduzida em 2004 pela BMW. A BMW foi o primeiro fabricante a fazê-lo e já aqui mostra como havia uma preocupação de disponibilizar a informação de uma forma mais cómoda, mais segura para o condutor. Depois temos outro que foi muito interessante também, tem mostrado grandes avanços, que é o sistema avançado de assistência ao condutor. Esses sistemas usam os vários sensores e as várias câmaras para assistir na condução e alguns bem conhecidos. Temos a manutenção na faixa de rodagem.

Aquele que corrige a direção quando lê a linha contínua, não é?

Exatamente. Se nós nos distrairmos e começarmos a aproximar da linha, o veículo vai corrigir a trajetória. Temos o cruise control adaptativo, em que se nós estivermos no trânsito, vamos com o cruise control, mas estamos aproximados de um carro e ele vai reduzir a velocidade automaticamente, não precisa da intervenção do condutor. Da mesma forma, se o veículo da frente, por exemplo, começar a aumentar a velocidade, ele automaticamente vai até à velocidade que nós estabelecemos como velocidade de cruise control. O parking assistant também é um que é muito interessante, que nos permite auxiliar quando estamos a parquear o carro. Agora, eu acho que há um bastante interessante que foi a transformação do carro no carro digital. O sistema de infotenimento está muito sofisticado, permite ter enormes experiências em termos de entretenimento, navegação, realidade aumentada, quando estamos, por exemplo, na navegação. Uma enorme panóplia de situações. Depois, vimos também esta evolução em termos da interface homem-máquina, com os ecrãs touch a permitirem uma série de novas interações.

Já quase não há botões.

Já quase não há botões, estamos a virtualizar um bocado os botões. Embora hajam várias tendências nesse sentido, há tendências em que a manutenção dos botões é importante, porque quando nós estamos sem olhar, temos uma melhor perceção do botão quando ele é físico. Mas toda esta situação e todo este ecossistema, obviamente, é trabalhado no carro. Mas eu acho que aquilo que afirmou o carro como o derradeiro gadget foi, de facto, esta introdução deste veículo digital, porque as pessoas passaram a ter também o seu ecossistema digital prolongado para o veículo. E isso transformou a relação da pessoa com o veículo.

Adaptado a si, com as suas preferências, até ao nível de cores e de design, isso acontece. Muitos destes gadgets, Marco, são também essenciais para aumentar a segurança da condução. Nestas áreas, têm sido muitas também as inovações que surgiram.

Sim, têm sido bastantes. A perceção, a forma como o veículo perceciona o mundo, como transformamos isso numa imagem virtual e depois como essa imagem pode ser interpretada pelo veículo, isto requer largos volumes de dados e muitas técnicas de processamento desses dados. Por isso aplicamos técnicas de data science, machine learning, para criar estes insights mais significativos para sistemas como otimização de rotas, eficiência energética, diagnóstico do veículo, entre outras situações. Mas creio que onde vimos uma maior inovação, e se calhar a condução autónoma tem ajudado nisso, foi nos sistemas como o lidar e o radar, que têm a ver com a forma como o veículo perceciona o meio ambiente, combinando isso com as imagens das câmaras, por exemplo. Eu acho que este talvez seja dos mais inovadores que nós temos visto.

O carro passa a ter uma perceção do que vai à sua frente, de lado e atrás também.

Sim, ele passa a saber o seu contexto no mundo atual, ou seja, na realidade em que ele está inserido, ele passa a perceber esse contexto, e isso é muito poderoso.

Num outro episódio deste podcast falamos de condução autónoma e falávamos até da geografia que ele consegue ler, os passeios ou os declives que estão à volta. Isso parece-me uma inovação interessante. Como é que a Critical Tech Works se posiciona no desenvolvimento desta vertente nos veículos?

A BMW é uma empresa que traz muita tecnologia, muita lealdade, muita experiência no setor automóvel, não só a fabricar carros de alta tecnologia, mas também a forma como os Os torna ultraconfiáveis. A Critical TechWorks, por sua vez, traz toda uma cultura, valores, talento no desenvolvimento de software, onde as nossas metodologias mais ágeis já têm provas dadas. O nosso ADN é, de facto, fantástico. Um dos valores que nós temos é: entregamos engenharia de excelência e isso permitiu-nos, ou permite-nos, participar em projetos de vanguarda e projetos inovadores, muito relacionados com esta vertente funcional e com esta vertente tecnológica. Estamos claramente nas duas posições.

Vamos olhar só um bocadinho para o futuro, para tentar perceber se há inovações neste campo, até da forma como o próprio carro tem uma data de tecnologia que, há dias, num outro episódio, falávamos até na personalização ou trazer o ambiente do seu telemóvel para o carro. Falava um bocadinho até de termos uma imagem de fundo de uma fotografia nossa que está no fundo do telemóvel, isso quase que é possível aplicar até ao próprio ambiente do carro. Acho que era um exemplo que tinha sido dado aqui a propósito do modelo da Mini. Mas há inovações nesta área do que toca à personalização, de acordo com as preferências do condutor, que estejam para breve, mas que ainda pareçam uma série de ficção científica?

É uma pergunta que eu acho que tem tanto interessante como dificuldade em responder, mas claramente que sim. A cada ano que passa, nós vemos que as tecnologias evoluem bastante, e com a evolução das tecnologias vêm também estas novas funcionalidades. A conectividade foi claramente uma que veio revolucionar este conceito do veículo e daí o veículo enquanto gadget.

A conectividade tem que ver com...?

A ligação à internet, ou a Bluetooth, o GPS, todas estas situações.

Ter outros aparelhos.

Exato. E se juntarmos isso ao facto de conseguirmos ter no nosso veículo uma perceção de onde o veículo está e o que é que eu posso fazer autonomamente, eu acho que isso é muito poderoso, porque nós podemos combinar estas duas vertentes. Eu acho que aqui, na parte da condução autónoma, vamos ter algumas surpresas e toda a customização que depois pode vir com isso, porque nós depois, com a condução autónoma, vamos ter tempo de conteúdo. Vamos poder estar mais focados em outras coisas, no nosso ecossistema, no nosso telemóvel, nas nossas redes sociais, e o veículo tem que estar preparado para isso. Eu acho que podemos ter coisas interessantes a vir no futuro nesse âmbito.

Marco, e os gadgets podem ser perigosos à condução? O trabalho, presumo que da CTW, também incida um bocadinho sobre essa preocupação.

Sim. Os gadgets têm que ser desenvolvidos com cuidado, todos eles, e o carro não é diferente. Embora haja legislação aplicável, aqui a própria CTW tem preocupação quando estamos a desenvolver, com estes perigos de distração, complexidade, à volta da experiência de utilização. Nos produtos onboard, as nossas equipas que têm um impacto direto com as coisas do condutor, trabalham cada ecrã para que esta user experience, esta experiência do utilizador, seja de facto otimizada, reduza distrações e mantenha o condutor focado aquando do momento da condução. Uma garantia para a segurança de todos, por exemplo, é quando o condutor está focado na estrada, não permitimos que o YouTube, por exemplo, esteja a trabalhar, porque isso seria fomentar a distração.

Ele desliga-se automaticamente.

Ele para, porque não faz sentido nós estarmos a mostrar um vídeo. Ia estar claramente a desfocar o condutor daquilo que era mais importante. Outro exemplo é, se nós não tivermos — e este mais focado, este foi muito focado aqui na distração, o outro focado na complexidade — imagine que a nossa chave BMW ID não está associada àquela chave e nós entramos no carro. Se o carro começar a andar, não vamos conseguir fazer login no BMW ID, porque isso obrigava nós estarmos atentos a um teclado no monitor, de fazer várias interações com o teclado. Isso obrigava a vários momentos de distração e, por isso, isto é uma situação que seria bloqueada também. O objetivo é ter um gadget seguro e não um gadget perigoso.

E é aí que incide também o trabalho da CTW. "O carro enquanto gadget" foi o tema deste episódio de "Ao Volante do Futuro", um podcast sobre inovações tecnológicas no mundo automóvel, que é uma parceria do Observador com a Critical TechWorks e que encontram sempre no site do Observador e também nas plataformas de podcast. Eu sou o Nelson Ferreira, hoje estive ao volante com o Product Visionary da CTW, Marco Nunes. Marco, muito obrigado por esta viagem.

Obrigado eu, foi um gosto.