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E já cá temos a Mariana Chaves, está conosco todas as terças, é a nossa nutricionista na tarde em direto, sempre no "Aprender a Comer", também disponível em podcast no nosso site, em observador.pt. Mariana, muito boa tarde, bem-vinda.

Olá, obrigada, Nelson.

Mariana, hoje tens aqui um tema muito interessante, do qual se ouviu falar muito nos últimos dias.

Muito interessante.

Eu gosto muito deste tema.

Eu também. Acho muito útil.

Já tinha pra questionar a Mariana sobre este tema. Ainda bem que tu chegou lá antes da nossa sugestão.

Mas a Mariana percebeu logo que não podia falhar neste assunto.

"Great minds think alike", acho eu. Olha, Mariana, vamos aqui falar de um artigo a propósito da cerveja, que foi viral nas últimas semanas e que apontava os potenciais benefícios desta bebida, quando consumida com alguma moderação. E também desmistificava aquele mito da barriga, que a cerveja faz barriga. Como é que tu, uma especialista nesta matéria, olhaste para este artigo? Aposto que torceste o nariz a uma ou duas coisas, ou não?

Ou mais.

Ou mais.

Eu acredito sempre na ciência e tento ir verificar, primeiro que tudo, o tipo de artigo que estamos a falar. E portanto, eu vinha hoje falar um bocadinho, seriamente, sobre este artigo, tentar desmistificar um bocadinho, falar do contexto desta cerveja. Claro que eu fico de nariz torcido, só pelo fato de ser uma bebida alcoólica, que nós sabemos que o álcool no nosso corpo é considerado uma substância tóxica e portanto, não é igual a comer vegetais. Mas é a bebida mais consumida do mundo, a cerveja, não é?

Mais do que água? Nalguns países, se calhar.

Talvez vamos retificar o que eu disse.

É a segunda bebida.

Mas então, o que acontece? Este trabalho, que foi feito por portugueses, falava do benefício de consumir a cerveja diariamente, todos os dias, 330 ml, que será uma garrafa de cerveja.

Uma média, como se costuma dizer.

Nem é uma mini.

Não é uma mini, é uma média.

Exato. E que não teria qualquer impacto no peso e na nossa microbiota, portanto, na saúde intestinal, que nós sabemos que está diretamente relacionada com a nossa saúde cerebral e com a nossa saúde em geral. Isto foram as conclusões deste estudo. A investigadora principal que levou a cabo este artigo, que foi publicado numa revista ótima, com um bom fator de impacto, que é assim que nós medimos a relevância de onde é que é publicado, porque não é um artigo da internet, este é um artigo científico. E esta investigadora é quem está à frente da nutrição na Universidade Nova e é das pessoas em Portugal mais entendidas sobre microbiota. Engraçado que ela também publicou um estudo sobre o impacto positivo, por exemplo, de enriquecer o pão branco com germe de trigo, e que isso tinha um impacto positivo na diversificação da microbiota, porque é importante entender que quanto mais diversificada a microbiota estiver, principalmente nalgumas bactérias benéficas, melhor. O que é engraçado é que nós também temos que saber que há coisas que são nefastas pra nossa microbiota, como sendo o excesso de açúcar e como sendo as farinhas brancas. Por isso este estudo teve toda a relevância do tal pão branco enriquecido com germe de trigo. Mas eu fui investigar um bocadinho mais sobre este artigo para perceber o que nós tínhamos no passado sobre isto. E encontrei, em 2020, também um grupo de investigação mexicano que publicou numa revista científica chamada "Alcohol", um estudo-

Um estudo favorável?

Um estudo com umas características muito semelhantes a este, só que foi falar sobre outro aspecto que eu acho que vale a pena pôr em cima da mesa, porque só vai cá para fora os aspectos positivos. Então eu acho que vale a pena entendermos de forma um bocadinho mais completa este assunto. Este estudo foi também com dois braços, ou seja, com dois grupos de pessoas a terem ingestões diferentes. Um era com ingestão de cerveja com álcool e o outro ingestão de cerveja sem álcool, exatamente como no estudo que se tornou viral. Agora, para além do impacto na microbiota, que também tiraram a mesma conclusão, que seria positivo, também foram avaliar o impacto da glicemia e o impacto no comportamento das células beta do pâncreas, ou seja, as células responsáveis pela produção de insulina. Ou seja, do metabolismo da glicose ou metabolismo dos hidratos de carbono, pra quem nos quiser acompanhar de forma mais simples. E o que verificou? Claro que tanto a cerveja com álcool como sem álcool não tiveram qualquer impacto no peso, nem no perímetro da cintura, como já tínhamos também visto neste artigo português. Aliás, isto é de 2020, portanto, este foi anterior. Foi o primeiro a dar essa informação, mas realmente a cerveja sem álcool conseguia baixar os valores de glicose no sangue e conseguia estimular o pâncreas a produzir mais insulina. Já a cerveja com álcool não teve esse impacto. Pelo contrário, a cerveja com álcool aumentou os valores de glicose no sangue e baixava a ação destas células beta do pâncreas, portanto, esta produção de insulina. Ou seja, não é indiferente consumir cerveja com álcool ou sem álcool. Isto é um ponto que eu acho que faz toda a diferença.

Mas qual é a vantagem? Falamos com álcool e sem álcool, e na sem álcool, a cerveja em si é benéfica, e é benéfica por quê?

Porque o que se sabe é que na produção da cerveja, nós acabamos por ter no produto final bastantes polifenóis. Polifenóis são compostos antioxidantes que nós Temos, neste caso, na cerveja e que vão ter um impacto positivo na microbiota, mas também existem nas vegetais e nas frutas. Vou dar exemplos, porque em vários podcasts nossos temos vindo a falar sobre estes nomes esquisitos. Por exemplo, um dos polifenóis é a quercetina, que existe na cerveja e também existe na maçã.

Portanto, o teu conselho é: comas uma fruta, não é?

Podes. As catequinas que existem na cerveja, mas também existem nas cerejas. Também aqui um ponto engraçado, que verificaram que a cerveja preta poderia ter mais benefício na nossa microbiota do que a cerveja dita regular. Mas eu acho que ninguém bebe cerveja para ter um intestino mais saudável.

Mas se pudermos, dois em um.

Sim. Eu conheço uma história que é: na época medieval, dizia-se que a cerveja fazia bem à saúde. E sabem por quê? Porque a água era contaminada e a cerveja, na sua produção, eliminava as bactérias que a água tinha. Então, naquela época medieval, cerveja era bom.

Claro, a outra ainda morrias de tifo.

Exato, a água era péssima naquela altura.

Mas cá está, isso é saúde pública, ou seja, é nós conseguirmos orientar os comportamentos das pessoas para o melhor possível. E entendo. E aqui o melhor possível será sempre a cerveja sem álcool. Ou a cerveja preta, em alguns aspectos. Mas eu também gostaria só de acrescentar aqui uma coisa, que nós estamos a falar disso porque o álcool ser benéfico para a microbiota, porque é uma bebida fermentada. Mas há mais bebidas fermentadas. Ou seja, o chá preto, o kefir, o kombucha.

Mas nenhuma dessas sabe a cerveja, pois não?

Nenhuma sabe.

Alguma dessas vai bem com tremoços?

A kombucha por acaso não deve ir mal.

Se calhar.

Estás a ver? Exatamente.

Eu adoro chá preto, acho que chá preto vai bem com qualquer coisa.

Chá preto e tremoços, não.

Pois, e se calhar já não. Mas já vi coisas mais estranhas acontecerem.

Mas é verdade que eu tenho que dar a mão à palmatória em relação a um aspecto, é que encontrei um estudo de 2020, também bastante credível, já com 78 indivíduos, enquanto este nosso português tinha 22. Portanto, acho que temos que ter alguma cautela e esperar por dados com mais amostra, com uma população maior, para podermos tirar recomendações mesmo. Encontrei este estudo de 2020 com 78 indivíduos, mas já selecionados de 260 indivíduos, o que quer dizer que foram mesmo selecionados para que não houvesse margem de erro para dúvidas. E quando compararam os indivíduos que não bebiam a cerveja com aqueles que bebiam de forma moderada, surgia um potencial benefício para a saúde do intestino para aqueles que bebiam de forma moderada. Acho que ainda vamos ouvir falar um pouquinho sobre isto.

Eu acho que um dos maiores mitos que aqui cai, e pelo que percebi, tu com isto concordas, Mariana, é aquela questão da barriga, que era muito falada. Sempre: "A cerveja faz". E há muita gente que diz: "Eu não bebo cerveja porque faz muita barriga".

Ou "eu tenho barriga porque bebo cerveja".

Ou isso, sim.

Certo.

Veja-se o Homer Simpson.

Sim, passa a vida a beber cerveja.

Mas há dois pontos aí, um é a quantidade, com certeza. Aqui fala-se em 330 ml.

Mas por uma questão calórica, não é?

Não só. Não é só uma questão calórica, é o facto de ser o álcool. Nós temos uma produção enzimática para tolerar a nossa ingestão de álcool, que não se multiplica. O homem, por exemplo, para que não se torne tóxico o álcool no sangue, o limite máximo aconselhável, como limite máximo, não é para fazerem isso, será dois copos por dia, sendo que na mulher é um copo por dia. Normalmente, referem-se ao vinho. Isso é o que as organizações internacionais dizem. Quer dizer que se nós bebemos quatro e cinco cervejas, nós não produzimos mais enzimas, ou seja, aquilo torna-se tóxico no nosso corpo. Eu queria só referir que essa questão da barriga, também há aqui outro ponto, que é: a cerveja é uma bebida com glúten, e quem é intolerante ao glúten, uma das manifestações é o aumento do perímetro abdominal. Portanto, com certeza que quem é intolerante ao glúten e bebe cerveja vai ter barriga, isso não há dúvida.

Afinal, o problema estava no glúten, não estava na cerveja. Está explicado porque é que há tantos barrigudos em Portugal. E não só, até se calhar há países que têm esse problema muito maior que o nosso, de facto. Bem, hoje falamos desse estudo que se tornou viral há algumas semanas e que falava aqui para os benefícios da cerveja. Ok, a maioria dessa informação está correta, pelo que percebemos aqui da Mariana Chaves, mas atenção a uma coisa: a cerveja tem álcool e o álcool é tóxico para o nosso organismo, e disso o estudo não apontava tanto, e fizemos aqui essa ressalva também no "Aprender a Comer" de hoje com a Mariana Chaves.

Eu vou dizer uma coisa provando que aprendo muito com a Mariana: é que o álcool inflama o organismo.

Claro, aí está.

Verdade.

Soubemos isso numa das últimas edições do "Aprender a Comer", que encontram em podcast e no nosso site, em observador.pt. Mariana, voltamos a falar para a semana com conselhos de nutrição. Obrigado e bom resto de dia.

Obrigada, igualmente.