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Seja muito bem-vindo ao "Aprender a Comer" e a esta edição extra que responde à sua pergunta. Aqui está a Mariana Chaves para isso mesmo. Olá, Mariana.

Olá, Nelson.

Até aperei ao Brasil hoje.

Era ótimo.

Era ótimo. Vamos falar de castanha-do-brasil, porque a Mafalda enviou uma pergunta para marianachaves@observador.pt, que é a seguinte: "Como castanha-do-brasil ou castanha-do-pará e muitas vezes detesto aquele sabor fênico em várias castanhas da embalagem. Será que isto é normal? Faz mal à saúde?" O que é que se passa com as castanhas-do-brasil da Mafalda, Mariana?

Ainda bem que ela está atenta ao sabor. Isto são regras muito simples e importantes para nós detectarmos a celebridade dos nossos alimentos. Portanto, aqui a resposta é simples, que é não, não está normal, não é para comer, porque esse sabor é um bocadinho quase a mofo, a tinta, químico, não sei, mas quer dizer que, na verdade, está rança. É isso o que é provável. Principalmente, porque estamos a falar aqui de um fruto seco que é rico em gordura. E, portanto, quer dizer que a gordura oxidou.

E o que é isso da gordura oxidar? Porque é isso que dá essa sensação de ranço.

Exatamente. Os frutos secos, esta castanha-do-brasil, entra dentro dos frutos secos, que é sobretudo rica em gordura insaturada, que são gorduras ótimas, mas são sensíveis. Sensíveis a quê? Ao ar, à luz, ao calor, à umidade e, portanto, realmente pode-se deteriorar essa gordura boa, essa fonte também de vitamina E e que com o tempo, com o mau armazenamento ou com o tempo, podem oxidar, vão se degradar, vão envelhecer e deixa de ser uma utilidade para nós em termos nutricionais, deixa de ser uma boa fonte desta gordura antioxidante.

E perdemos a gordura e ainda por cima sabe mal, não é?

Pois, exato. É desagradável, sem dúvida. Isso é o paladar a avisar-nos.

E então, se sabe mal, isso é logo uma red flag. É não comer.

Exatamente. Ou seja, antes de comer, temos sempre que reparar nas quatro coisas, que é cor, textura, sabor e odor. Isto para todos os alimentos, mesmo que esteja dentro do prazo validado ou do tempo de vida útil. E principalmente também se comprarmos avulso, em que nós não temos uma embalagem, também é importante. E se a cor está alterada, etc. Se está mais mole, eu também diria que não é para consumir. E, portanto, isto é válido para todos os frutos secos. Não é só para a castanha-do-brasil.

Falemos um bocadinho desta castanha-do-brasil. Não queremos que as pessoas fiquem com medo dela, até porque parece-me que ela tem bastantes benefícios para a saúde.

Sim, sem dúvida. É um fruto seco que é a nossa melhor fonte de selênio, que é um mineral muito importante, principalmente para a saúde da nossa tireoide e, portanto, para o nosso sistema imunitário e as nossas defesas. Funciona como puro antioxidante. Mas nós não temos só o selênio na castanha-do-brasil, mas é realmente a nossa melhor fonte. Normalmente o consumo até se aconselha entre uma a duas castanhas-do-brasil por dia, mas eu entendo que quando ela não está boa, isto deixa de ser totalmente opção. Até porque quando os frutos secos, há aqui uma preocupação com os bolores, em principal aqui com toxinas produzidas pelos bolores, que se chamam aflatoxinas. Também quero aqui fazer uma ressalva, que nós já falamos até disto num programa, que foi sobre a manteiga de amendoim, que também é outro fruto seco que pode desenvolver estas aflatoxinas, que, na verdade, nós não conseguimos detectá-las, ou seja, é uma deterioração que nós não conseguimos perceber. São invisíveis e não dão sabor, portanto, são incolores, não dão sabor e não temos forma de nós identificarmos isto. Portanto, a ausência de mau sabor, na verdade, aqui não vai garantir que esteja livre de contaminação, mas é também a presença de mau sabor é que é prova de que aquele alimento perdeu a integridade e que não deve ser consumido. É um bocadinho por aqui que eu queria dizer sem alarmar.

E não é só esse o problema, de facto, são esses outros riscos que agora falavas.

Sim, esta aflatoxina é considerada um carcinogênico, principalmente a nível do fígado e, portanto, que pode estar presente em alguns alimentos e que tem a ver com a conservação desses alimentos. Quando nós os compramos, estamos à partida a supor que está tudo bem. Não conseguimos identificar que se tem ou não tem essa aflatoxina, mas neste caso, tendo um sabor mau, uma textura má, etc, nós devemos descartar à partida, porque já sabemos que a integridade ficou afetada desse alimento. Sabes que a alteração climática também vem baralhar aqui um bocadinho esta questão.

Eu sei. Imagina que estes produtos às vezes fazem a cadeia de transporte, o sítio onde estão armazenados, mas agora as alterações climáticas, o que é que o clima tem a ver com esta história?

Não está. Tem porque antes de seca extrema, os fungos que também começam a entrar em estresse e produzem mais toxinas. Portanto, é verdade que há alguns relatórios a mostrar isto, que as alterações climáticas, o calor extremo, e também pode provocar falhas na questão das secas e dos armazenamentos, vai alterar as condições e que também pode agravar um bocadinho essa dita concentração. Isto é só um tom de informação extra, curiosidade.

Eu também tinha uma curiosidade, que presumo que interesse também à Mafalda, que é: quando ela apanha uma destas castanhas que tem mau sabor, deve eliminar todo o pacote?

Se ela apanhar mais do que uma, deve eliminar todo o pacote. E, na verdade, deve contactar com o fornecedor, portanto, com a marca, enviar um e-mail e explicar a situação, porque isso tem que ser identificado. Provavelmente, é o lote e não faz sentido que se deixe passar assim pelos pingos da chuva, sem dúvida.

Ajuda tostar? Eu costumo tostar os meus frutos secos, por isso se eles não estiverem em grande condição, se calhar eu perco um bocado esse sabor.

Sem dúvida.

Ajuda ou não?

Não podemos. Se o sabor não está espetacular, é descartar. Não é para tostar, não é para lavar, nada disto. Não é para enfiar numa receita, não façam isso. Como eu expliquei aqui, não é só uma questão de sabor. Pode haver aqui outras questões associadas a esta gordura já não estar intacta e, portanto, não é para fazer isso.

Tens alguma sugestão também para guardar estes frutos secos, a castanha-do-brasil e outros em casa? O que é que devemos fazer?

Sem dúvida. Aqui o ponto principal é não pode haver humidade. Se na nossa cozinha estamos a falar de um sítio que tenha uma cafeteira por baixo, o fogão por baixo, nada disto deveria ser o sítio onde nós guardamos os nossos frutos secos. Idealmente protegemos sempre da luz, portanto, um armário. Protegemos da humidade, protegemos do calor. E isto quer dizer que no verão eles não deviam ficar no armário, eles deviam ficar dentro do frigorífico. Sem dúvida.

A sério?

Sim, sem dúvida.

Nunca pus frutos secos no frigorífico.

Nunca? Sim.

Deves fazê-lo?

Sem dúvida. A linhaça, por exemplo, moída, essa nunca deve ficar cá fora. Deve ficar sempre dentro de um frasco, de preferência opaco, dentro do frigorífico.

Não me digas.

Já viste, não abres assim tantas vezes o frigorífico. E portanto, está ao abrigo da luz, do calor, da humidade, está sempre lá dentro, bem fechadinha e conserva-se muito mais.

Muito bem. Já que falamos também, farei referência a há pouco num outro episódio parecido em termos de tema com este, que é: a manteiga de amendoim é saudável? Falamos de algumas questões relacionadas com a manteiga de amendoim nesse episódio que está disponível nas plataformas de podcast. Hoje debruçamo-nos aqui sobre a dúvida da Mafalda sobre a castanha-do-brasil. De vez em quando ela apanha umas com um sabor menos bom e deixamos aqui conselhos de como agir, como as guardar. Mariana Chaves, estamos de regresso hoje há uma semana para esclarecer mais dúvidas dos nossos ouvintes. Até lá.

Até lá, Nelson. Obrigada.