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Seja muito bem-vindo ao "Aprender a Comer", o programa que lhe dá os melhores conselhos de nutrição com a nutricionista Mariana Chaves. Olá, Mariana, bem-vinda.

Olá, Nelson.

Vamos falar de café. Gosto muito, não tomo assim muito, mas hoje vamos falar de café sem o beber, o que me deixou muito curioso.

Exatamente. Já falámos muito do que acontece quando bebemos café, que é uma bebida que tantos portugueses gostam, é um cheiro que anda pelas ruas. E eu hoje quero falar exatamente desse momento, ou seja, o momento antes de bebermos café, quando entramos num café ou quando acordamos e temos a máquina a trabalhar na cozinha com o cheirinho a café.

Quando alguém já tirou um café antes de nós, não é?

Exatamente. E há logo quem diga que só do cheiro já acordou. Vamos ver o que a ciência nos diz, se isso é realmente verdade. Eu achei que era muito curioso olharmos para isso, porque realmente é um cheiro muito característico.

É verdade. Como se estuda um cheiro? Isso é sequer possível?

Eu acho que na ciência quase tudo é possível. Um estudo foi feito no Japão, numa universidade de farmácia, que foi publicado este ano na revista "Nutrients". E o que eles avaliaram? Avaliaram um pequeno grupo de jovens adultos saudáveis, ao lado de uma cafeteira de café acabado de fazer, a coisa mais ou menos de meio metro de distância, e eles permaneceram lá durante cinco minutos. Ou seja, não beberam, atenção, só respiraram. E avaliaram o quê? O antes e o depois. Avaliaram como eles se sentiam e como é que foi a atividade cerebral e do coração. E engraçado que isso foi feito com café de filtro.

Aquele dos antigos?

Aqueles à moda antiga, que eu acho que faz muita diferença para se cheirar à séria. Já falámos até aqui, já há uns bons programas atrás, sobre o facto de realmente este método de fazer café, o filtro de café, reter parte de uma substância que pode aumentar o nosso colesterol, que se chama cafestol. Fica aqui só a dica para quem tem que controlar o colesterol, o café de filtro é realmente uma boa escolha.

Não sabia. E o que é que provocou? As pessoas sentiram-se, de facto, diferentes só por cheirar café?

Sim, já viste que engraçado. É que é mesmo isso. Os investigadores usaram um questionário que se chama POMS, do inglês é Profile of Mood States, ou seja, perfil dos estados de humor. Isto serve para medir várias dimensões do nosso estado de espírito, ou seja, a tensão com que estamos, o cansaço, o desânimo, a confusão, a irritação, mas também a energia. Depois dos cinco minutos a cheirar café, houve ali uma redução, parece que significativa, em vários destes parâmetros negativos em relação ao humor. Ou seja, a fadiga foi a que baixou mais, a tensão e a ansiedade, a confusão e o desânimo. O indicador global de perturbação do humor também diminuiu. Mas, atenção, a energia, essa aí não mudou. As pessoas não ficaram ligadas à corrente só porque cheiraram o café.

Mas ficaram mais tranquilas, não é?

Ficaram mais tranquilas. Claro que não se trata de tratar ansiedades, nem depressões com isto. Estamos só a falar de pessoas saudáveis, avaliadas por aquele impacto de cinco minutos. Mas é curioso perceber, pelo menos do meu ponto de vista, que uma coisa tão simples e que acaba por ser o dia a dia de muitas pessoas, como cheirar ali um bocadinho durante mais tempo o nosso café, vai ter alteração naquilo que nós sentimos.

Sim, isso é curioso, porque normalmente até pensamos no café como uma coisa que nos estimula. E não até que nos relaxa, que foi o que os estudos indicaram.

Exatamente. Quando pensamos em café, é isso mesmo. Pensamos logo em cafeína, energia, estado de alerta. E aqui estamos a falar só do aroma. O aroma que está ligado a outras coisas. Está ligado a prazer, a hábito, a memória, àquela rotina do café. E o olfato é um sentido muito especial. A informação do cheiro chega diretamente à zona do cérebro ligada às emoções e às memórias. E por isso um cheiro pode nos levar de repente à cozinha da nossa avó, ou só àquele momento de grande prazer em que estamos a beber o café. Portanto, é um hábito. Eu acho que há muitas pessoas que associam, pelo menos vejo hoje em dia, pessoas que gostam de um pequeno-almoço muito calmo e associam o cheiro do café a essa altura ou a pausa no trabalho.

Sim, de facto. Estão associados a esses momentos mais de pausa ao longo do dia.

Exatamente. Eu acho que esta associação do cheiro, milhares de vezes, a momentos de descanso, pode-

Fica guardada no nosso cérebro.

Exatamente. Por isso eu acho que o corpo acaba por aprender. E grande parte daquilo a que nós chamamos sabor, é verdade, se pensarem assim, quando estamos constipados, a comida não nos sabe a nada.

Sim, e até há casos de pessoas que tiveram um acidente e que perderam o olfato, perdem o paladar também. Está muito associado.

É verdade, e normalmente o desfecho não é bom, mesmo em termos depressivos.

É verdade. E no cérebro, o que aconteceu com este estudo do cheiro do café?

O que eles foram avaliar, temos que explicar aqui uma palavra mais complicada, que é o EEG, que significa eletroencefalograma, foi desta maneira que eles foram avaliar. E o que aconteceu foi que os autores dizem que neste índice que eles avaliaram, não conseguem retirar aqui a informação de que houve realmente relaxamento. Podem dizer é que houve uma mudança na atividade cerebral, no sentido de associar a um estado de relaxamento. Não há uma ligação direta, não se pode dizer que isto de repente passa a ser uma terapia, aromaterapia.

Claro. E o coração?

Não se notou grande diferença. O coração bateu praticamente ao mesmo ritmo, mas quem melhorou mais no humor não foi necessariamente quem teve mais mudanças no cérebro. Somos um bocadinho mais complexos do que o botão de ligar e desligar. Eu acho que essa parte é importante.

O que parece claro é que quem cheira café parece ter alguns resultados ao nível da ansiedade. Este parece-me o dado mais claro do estudo.

Esta questão que eu te falava do EEG, o que acabou por acontecer é que verificaram realmente estados mais calmos e de relaxamento. Aqueles estados, não é dizer que provoca mesmo relaxamento, mas daí a nós extrapolarmos para a ansiedade, eu acho que talvez seja um bocadinho precoce, até porque é um estudo com poucas pessoas, durante só cinco minutos, portanto ainda precisamos de aprofundar um bocadinho mais. Não sabemos se foi o aroma, se foi a expectativa, se foi a familiaridade com o café.

O cérebro é difícil de ler.

Exatamente. E obviamente que quem sofre de ansiedade, que é uma coisa diagnosticada, precisa de acompanhamento profissional. Isso claramente. Mas é bom nós percebermos que há certas estratégias no nosso dia, como tirar partido desse cheiro, que nos podem ser úteis.

E posso comprar uma vela a cheirar a café. Será que existe? Era uma boa solução.

Aqui fica uma ideia para um estudo. Imagina que isso era assim, que seria a mesma coisa. Não foi testado, mas eu tenho as minhas dúvidas, mais porque realmente há muitos compostos associados ao café e poderiam esses compostos possivelmente ter mais impacto do que mimetizarmos esse cheiro numa vela. Porque não será o cheiro do café verdadeiro.

E dicas práticas para quem nos ouve e quiser testar esta teoria?

Eu tenho aqui duas. Eu acho isto muito interessante também para levarmos para a mesa.

Para outras coisas que comemos.

Exatamente, porque toda a gente fala do cheirinho a pão quando entras no supermercado, do cheiro da comida já feita, que nos abre o apetite.

Eu tenho um que é o meu favorito de todos, espero que haja um estudo ou que alguém o faça, que é o cheiro do frango assado.

Por exemplo, estás a ver. Se calhar ativa aí algumas memórias.

Quase toda a gente reage ao cheiro do frango assado. Parece que quando passas por ele, é difícil não apetecer frango assado.

Exatamente. Vamos levar isso pra mesa, ou seja, antes da primeira garfada, temos que estar atentos. Um bocadinho, quase como se fosse um ritual. Olhar, cheirar o prato. Não é cheirar literalmente, mas é sentir o aroma, porque na verdade, se estiver quente, conseguimos sentir. E já falámos cá dessa cidade sensorial específica, que é quando comemos com atenção, ficamos mais satisfeitos com o que comemos e normalmente comemos menos, também para as pessoas ficarem a pensar. Acho que outra conclusão prática para os dias de hoje com este estudo será quem tem de reduzir a cafeína, porque tem problemas de sono, de ansiedade, refluxo ou mesmo na gravidez, pode manter o ritual com descafeinado. Porque não foi isso que o estudo testou, só com o descafeinado, foi com o café, mas o cheiro na verdade é muito semelhante e continuam naquela pausa quente e a cheirar o café e se calhar vão ter essas ativações todas relacionadas com o relaxamento.

O que é que fica desta conversa? Que a alimentação não é só na boca, pelos vistos também é no nariz e no nosso olfato.

Exatamente. Talvez da próxima vez que se fizerem um café, antes de o beberem 30 segundos a olhar para o telemóvel, aproveitem um bocadinho mais aquele momento. Eu acho que isso também fica aqui em cima da mesa.

E saborear o cheiro. Dá para fazer.

Exatamente, sem dúvida. Agora sabemos que vale a pena. Vale a pena estudar o que acontece ao nosso corpo antes do primeiro gole de café.

Falamos de café e da influência que ele tem ao nível do cheiro, o cheiro a café. Foi feito um estudo que falamos precisamente de que influências ele tem no nosso comportamento, no nosso cérebro, nos nossos níveis de ansiedade e até de colesterol. Pode partilhar este programa através das redes sociais do Observador e também das plataformas de podcast. Para a semana estou de regresso de novo com a nutricionista Mariana Chaves. Até lá, Mariana.

Até lá, Nelson.