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Está no ar mais uma edição do "Aprender a Comer", todas as terças na Rádio Observador, com a Mariana Chaves. Está também sempre disponível em podcast. Olá, Mariana, bem-vinda.

Olá, Nelson. Olá, Judite.

Olá. Está cá também a Judite França. Hoje continuamos, de alguma forma, um programa que deixamos aqui na semana passada. Se quiserem, escutem em podcast. Na semana passada falamos de como a nossa percepção muda, do nosso apetite e daquilo que estamos a comer, conforme o tamanho do prato. E até há um nome para isso: a ilusão de Delboeuf. Ouçam esse episódio. Mas hoje continuamos nessa senda, Mariana, porque para além do tamanho do prato, ao que parece, a cor do prato também tem influência naquilo que comemos, nas quantidades do que comemos.

É, na nossa percepção, sem dúvida. É engraçado, ainda estamos a falar, como falávamos a semana passada, da nossa percepção do que estamos a comer. Portanto, a forma como o nosso cérebro interpreta a quantidade do que está a comer. Ainda não sabemos que impacto é que isto vai ter na ingestão do que comemos e estamos à espera que haja estudos clínicos nesse sentido. Mas então a cor do prato nós sabemos que pode influenciar o apetite.

Mas quase todos são brancos, não é? Porque será? Ou com design, mas brancos. Alguns com design, sim.

Por acaso, eu tenho que dizer, os meus também são brancos, mas no início, quando fui viver fora de casa dos meus pais, não eram. E agora que vejo aqui um bocadinho estas associações, escolhi a cor encarnada para o prato. E hoje é importante falar sobre essa cor. Vou vos dizer aqui uma coisa. A Universidade de Oxford publicou a explicar que realmente o fator que tinha mais impacto na relação da cor do prato era o fato do prato não ter a mesma cor da comida. Ou seja, de nós conseguirmos claramente distinguir. É isso, é a nossa capacidade de distinguir. Se fosse igual à comida, comíamos mais 18%, foi o que eles disseram.

Arroz em prato branco.

É isso.

Dá mais arroz.

Exatamente. Em termos práticos, qual é a estratégia? Arroz em prato branco? Concordo. Acho que se nós queremos comer menos arroz, o prato não pode ser branco. Agora, se nós queremos comer mais verdes, o que é que acontece aqui? Se queremos comer mais verdes ou pôr o filho a comer mais verdes, temos que ter pratos verdes.

Ok.

Certo?

Pois, exato. Essa comparação parece tão lógica, mas tão surpreendente. Fiquei: "Uau, a sério?" Sim, mas faz sentido. Mas é tão lógico. Gosto disso.

Mas acho que são alternativas, porque hoje em dia há pratos de todas as cores e feitios.

Só vou comprar pratos verdes para a minha filha agora.

Mas se isto tiver algum impacto, mesmo que não seja 18%, que é imenso. Mas se isto já tiver um impacto de 5% ou 10%, já é fantástico. Na verdade, há casos específicos em que a cor do prato em si, aqui não estamos a falar de uma cor específica, estamos só a falar do contraste com a comida, mas que a cor do prato tem impacto. E o que se sabe é que nos doentes de Alzheimer, se o prato for encarnado, verdes colocados num prato branco, eles consomem mais, por causa do efeito de contraste. Isto é o que está descrito.

Daí é diferente. Por que será o vermelho?

Até porque nem te sei responder por uma outra razão.

Mas é claramente uma condição da doença, presumo, da percepção que essa pessoa tem.

Eu acho que é uma questão visual também, porque é uma cor muito forte e consegues ter um contraste muito grande, porque estamos a pensar qual será o prato que terá essa cor. Talvez uma massa com molho de tomate, molho bolonhesa. Mas em regra, os brócolos fazem contraste.

Aqui já podia entrar o arroz de tomate.

Mas é engraçado que eu fui verificar. Mas será que isto será para todos? Se nós todos tivéssemos pratos dessa cor, isso tinha impacto. E há aqui uma grande controvérsia. Contradizem-se uns aos outros e eu vou explicar o pensamento que está por trás. É que supostamente, uma parte dos estudos começaram por dizer que comíamos menos em pratos dessa cor, pratos encarnados. Por quê? Porque a cor encarnada estava associada a perigo, aviso, sinal stop, parar.

Também está associada à paixão e ao amor.

Pronto, cá está.

No meu caso não interessa nada.

Mas pronto, cá está. É que há estudos exatamente a dizer que é uma cor que estimula o apetite, porque é usado em logotipos de restaurantes, em menus, em toalhas de mesa, em guardanapos.

É verdade.

Na verdade, temos isso, os quadradinhos.

Essa toalha é muito portuguesa. Os quadradinhos vermelhos, gosto muito.

E por isso acho que não podemos tirar aqui conclusão nenhuma em relação à cor, exceto este caso muito específico, mas que terá com certeza aqui várias razões que não nos interessa quando não há doença. Mas então o contraste é que fazia sentido aqui na relação do prato. Já sabemos da semana passada que o fato de comermos em pratos mais pequenos, temos a percepção de que estamos a comer mais e ficamos mais saciados. E já agora, queremos comer mais verdes, então vamos tentar escolher pratos de sobremesa verdes.

Olha, e há aqui alguma diferença nos copos? Já que falamos do resto da parafernália. Queres saber como é em relação a beber? Como é que é em relação a beber? Exato.

Vamos ver. Beber o quê? Porque se é para beber água, eu vou dizer, tem que ser um copo largo. E vou explicar porquê. Então, existe outra ilusão, o nosso cérebro novamente a ser enganado, que é a chamada ilusão vertical-horizontal de Piaget. O que é que acontece? As pessoas tendem a focar-se e a superestimar a dimensão vertical de um objeto em detrimento da sua dimensão horizontal.

É por isso que os bares servem bebidas em tubo. Em copo tubo. Claro.

Pronto, é isso.

Porque parece mais e no fundo não é.

É isso. Mas estão a fazer bem, diz a nutricionista, não é verdade? Porque sejas sumos, sejas bebidas alcoólicas, devem ser em copos finos e altos, exatamente, porque vamos estar a beber menos, a achar que estamos a beber mais. E a água tem que ser em copo largo, exatamente porque estamos sempre a achar que: "Será que já chegamos ao nosso objetivo?" E assim vamos estar a beber mais sem termos essa percepção.

É basicamente fazer o contrário do que o nosso cérebro inicialmente pode pensar.

Exato.

Não é?

Exatamente.

Para não sermos enganados. Por fim, vamos aos talheres. Colheres mais pequenas, por exemplo. Temos a percepção de que comemos mais?

Olha, sabemos o oposto disso. Sabemos que colheres maiores, as pessoas servem-se de mais.

Sim, isso é mais ou menos evidente.

Mais ou menos, porque nós, nutricionistas, falamos muito em colheres de sopa. Imagina servirmos de arroz, três colheres de sopa de arroz rasas, que é a colher da nutricionista, como se passássemos uma faca por cima. Mas poderíamos dizer que essas três colheres de sobremesa poderia ser uma colher de servir muito rasa. Mas o que os estudos dizem é que a nossa percepção, cá está, quando servimos com a colher maior, é que estamos a servir menos. Então lá vamos nós pôr mais. E isto é especialmente importante por esta razão que estou a dizer. Ou seja, vamos pôr uma travessa na mesa e queremos pôr lá uma colher para servir. E se está esse grupo de pessoas a tentar controlar o que come, se calhar, faz mais sentido colocar nessa travessa uma colher de sopa, em vez de colocar uma colher de servir. E depois encontrei um estudo no British Journal, que comparava consumir a papa de aveia em dois grupos, uns com uma colher mais pequenina e outros com uma colher maior. E o que se verificou é que aqueles com a colher mais pequenina, realmente, eles chamam à dentada, que era uma dentada menor, ou seja, que era uma quantidade de comida menor, que colocavam várias vezes à boca, acabavam por acabar mais cedo, porque estavam saciados mais cedo. E eu acredito que isto tenha mais a ver com o tempo que demora a informação a chegar do nosso estômago ao nosso cérebro, que normalmente são 15 minutos. Ou seja, se nós comermos muito rápido, nós não damos tempo para o nosso cérebro entender que estamos cheios. E se nós comermos devagar, e um dos truques de comer devagar é comer com uma colher que seja mais pequena, um garfo que seja mais pequeno. Também há estudos sobre o garfo.

Ou com dois pauzinhos, por exemplo.

Eu ia dizer.

Onde é que entram aqui os pauzinhos?

Mas olha que é muito engraçado isto das colheres, porque encontrei numa revista científica que se chama "Ciência Multisensorial", a falar sobre o peso da colher com que se come o iogurte. Era tudo à volta do iogurte. Então a colher com que se comia mudava a nossa percepção de densidade do iogurte, também da percepção do preço do iogurte. Portanto, aquilo que se falava era que o iogurte com colheres mais leves, parecia mais caro, por exemplo. E o efeito mais engraçado, a meu ver, enquanto nutricionista, era o peso da colher, o tamanho e a doçura, ser mais doce ou não. Então que as colheres mais pesadas de chá, portanto, as mais pequeninas, mas mais pesadas, e as maiores, mas mais leves, faziam parecer mais doce o iogurte.

Que estranho. Percebo a coisa da quantidade, agora da doçura não consigo entender tão bem.

Também não sei, porque isto, na verdade, são pesquisadores que acabam por utilizar amostras de pessoas e ver qual é a percepção que elas têm do sabor da comida, mudando os talheres. Mas sabes que é engraçado? Que se faz também estudos sobre isso de a cor do prato ter impacto ou não no sabor que tu tens, sentires mais salgado ou não. Isto claro que vai precisar ainda de muito artigo científico e grupos de estudo muito maiores para podermos tirar conclusões e por isso não te trouxe. Mas isto é uma informação valiosa para quem? Para a indústria dos laticínios, que tem que pôr colheres, às vezes, nos iogurtes que vendem.

Muito bem, falamos de talheres, também de copos e de pratos. As suas cores e as suas formas podem nos iludir na percepção que temos da nossa satisfação com a comida. De resto, já é o segundo episódio em que falamos nisso. Na semana passada, olhamos para o formato e o tamanho dos pratos e como eles podem influenciar o nosso comportamento alimentar. Dois episódios do Aprender a Comer, que podem escutar sempre que quiserem em podcast e no nosso site observador.pt. E sempre com a Mariana Chaves, que está de regresso de hoje a uma semana. Até lá, Mariana.

Obrigada, até lá.

Até para a semana.