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Seja bem-vindo à edição extra do "Aprender a Comer", onde respondemos às suas dúvidas de nutrição. Envie as suas perguntas para marianachaves@observador.pt. E já tenho a Mariana. Olá, Mariana.

Olá, Nelson.

Para responder a mais uma dúvida de uma ouvinte. Foi a Anabela que te escreveu e quer saber se há alguma evidência científica. Repara como os nossos ouvintes estão a ficar pró até nas perguntas que fazem. A Anabela quer saber se há evidência científica que mostre que o kefir é mais benéfico do que o iogurte natural, especialmente para imunidade e inflamação. O que é que podemos dizer à Anabela?

Fantástico. Eu quero agradecer à Anabela. Temos lido todos os e-mails que têm chegado com perguntas muito interessantes e havemos de conseguir chegar a todas. Esta é especialmente importante, porque o kefir é um alimento que, apesar de não ser novo, obviamente, na nossa cultura apareceu recentemente, e é importante perceber exatamente o enquadramento. Isto não vem uns alimentos substituir os outros por magia e que de repente os antigos eram todos péssimos e os novos é que são todos ótimos. Vamos perceber um pouquinho mais a fundo esta comparação e o que existe sobre a comparação, que eu achei engraçado. Já esta pergunta da evidência científica. Então, o kefir e o iogurte natural são ambos alimentos chamados funcionais, ou seja, têm benefícios comprovados pra nossa saúde. São dois alimentos que são fermentados, mas o kefir vai ter aqui uma diferença, porque vai ter um perfil um pouquinho mais complexo. Em vez de ter aqui apenas duas bactérias, que são as fermentadoras, como no iogurte, o kefir já resulta aqui de uma simbiose de dezenas de bactérias e leveduras vivas. Ou seja, vai haver aqui uma diferença microbiológica, que vai resultar em quê? Num perfil um pouquinho diferente de probióticos e do resultado desses probióticos, dos metabolitos. Metabolitos é o probiótico em si, quando se alimenta, o que ele liberta. Portanto, isto vai acabar por ser um probiótico mais diversificado e mais completo, e isso pode influenciar os efeitos sobre a saúde.

Mas isso quer dizer que o kefir é mesmo melhor ou depende do caso?

Não é tão linear. Por quê? Porque o kefir vai ter mais diversidade e isso, à partida, teoricamente, é melhor. Mas depois do teoricamente para a prática, precisam de vir os estudos. E estes estudos diretos a comparar um com o outro, chamado frente a frente, ainda não temos resultados. Nós só podemos dizer que uma coisa é melhor do que a outra se tivermos estudos comparativos mesmo. Nós até já fizemos dois programas sobre o kefir.

Sim, temos falado muitas vezes disso.

Exatamente. Um que era "Um fermento por dia, um fermentado por dia não sabe o bem que lhe faria", e o outro acho que era "Kefir, alternativa à lactose". Porque realmente, no kefir, nós temos uma quantidade de lactose muito inferior. No iogurte natural, que é um alimento saudável também, temos parcialmente digerida a lactose, mas ainda contém bastante lactose. Essa também é uma diferença entre estes dois produtos. Mas então nós sabemos que o kefir pode aumentar a variedade destas bactérias boas, como as bifidobactérias, que são muito importantes e vão produzir aquilo que eu falava há bocadinho dos metabolitos, os chamados ácidos gordos de cadeia curta, porque toda esta atenção que se dá à microbiota e aos fermentados, e ao kefir como fermentado, vem também desta dita produção dos ácidos gordos de cadeia curta. Estes compostos não só ajudam a ter uma parede intestinal saudável, como reduzem a inflamação, é o que está descrito. Comunicam com o cérebro, que é muito engraçado. São estes que viajam no seu eixo intestino-cérebro e vão ter influência no humor, na resposta ao estresse, na regulação do apetite. E esta que é uma das grandes áreas de investigação hoje em dia. Isto é obviamente teórico, na medida em que nós achamos que por estas características do kefir, ele tem essas mais-valias versus o outro produto, mas ainda não temos o frente a frente.

Mas o iogurte natural também tem efeitos semelhantes ao do kefir?

Sim, tem, de forma limitada, porque tende a estimular, sobretudo, as espécies que apenas existem no próprio produto. É um excelente alimento, ajuda na digestão da lactose, ou seja, como eu disse há pouco, parcialmente digerida. É diferente de beber um leite. No leite, nós temos a lactose total e conseguimos digerir melhor a lactose no iogurte. Melhora a saúde gastrointestinal e tem alguma evidência também na redução de gordura visceral, de demarcadores inflamatórios.

Mas aqui no caso da Anabela, ainda não sente diferenças. Ela deve continuar a comer os dois ou optar por um, ou deve começar, se calhar, talvez a escutar o seu corpo e perceber se sente alguma reação diferente com um e com o outro?

Engraçado, porque é isso que diz o comentário que ela fez, que ainda não sente diferenças. Ou seja, as pessoas estão à procura de, se calhar, ter uma sensação nova, o intestino a funcionar melhor. E realmente, o kefir, por esta diversidade de bactérias, está mais associado a ajudar em casos de obstipação, e penso que era o caso da Anabela também aqui. Mas é normal não haver uma sensação imediata, ou seja, os efeitos, mesmo esta questão do kefir, dos fermentados, da renovação ou de uma microbiota mais saudável, são lentos, são silenciosos. O importante é verificar se tolera bem o produto. E acho que é importante variar com o iogurte natural, porque a diversidade é sempre amiga do intestino, isso sem dúvida.

E o kefir pode ter efeitos fora do intestino? Porque já percebemos as mais-valias que tem pra esse órgão e pra microbiota, mas há outros efeitos conhecidos positivos do kefir?

É engraçado que nesse dito programa que nós falamos dos fermentados, que também o kefir faz parte. Esta história de que o intestino tem que estar saudável e com isso nós temos que De forma consistente tentar introduzir fermentados, prende-se com o facto de hoje em dia se falar muito de um intestino muito permeável, ou seja, que nós estamos a aumentar a permeabilidade intestinal, que estão a passar coisas na nossa malha intestinal que não deveriam passar e provocar intolerâncias alimentares, entre outras coisas. Fala-se de que se optarmos por estes alimentos, conseguimos na verdade ajudar nesse processo do intestino menos permeável. E isso vai ajudar o nosso sistema imunitário, porque muitas das vezes, quando acabamos por ter um intestino mais permeável, nós estamos a hiperestimular o nosso sistema imunitário, como se passando aquela barreira, alimentos e às vezes até vírus e bactérias que não deveriam passar, nós estamos a estimular o nosso sistema imunitário, a lutar contra isso, e haver uma inflamação localizada também. Ainda há muito por investigar, mas os resultados são promissores e as pessoas que têm o intestino desta forma, a sentir que tem mais permeabilidade, que tenham esse diagnóstico, também faz sentido. Agora, atenção, é um fermentado, tem bactérias vivas, portanto, para pessoas com baixa imunidade, o kefir não é adequado.

Essas são as pessoas que não devem consumir kefir?

Sim, os imunocomprometidos, com doenças inflamatórias graves. Não esquecer que estamos a falar à mesma de um alimento, quando é fermentado, que tem bactérias vivas lá dentro e quem está a fazer imunossupressores também não deve, ou pelo menos deve falar com o seu médico, profissional de saúde que o está a acompanhar. Porque a verdade é que é muito benéfico, mas assim como um suplemento de um probiótico, nós também não tomamos só porque sim. Um alimento fermentado também devemos ter esses cuidados. E quem tem alergia à proteína do leite, existem outros kefirs que não o kefir do leite de vaca. Existe o kefir de água, existe o kefir de leite de coco, também fermentados, com outro perfil, obviamente, mas também benéficos neste aspeto de fornecer estas bactérias muito diversificadas e positivas.

Como é que incluímos o kefir na alimentação? Há alguma hora melhor para o tomar? Ao pequeno-almoço ou não?

Pequeno-almoço é excelente, até porque é muito importante sair do frigorífico direto para ser ingerido. O estar morno, à temperatura ambiente, não é uma boa ideia, porque as bactérias não vão sobreviver assim tanto tempo. E o que nós pretendemos é consumir um produto que esteja no seu-

No auge.

No seu auge. Sem dúvida. E um pequeno-almoço, sem dúvida, se estivermos em casa à tarde, também claro que sim. No almoço e no jantar não fará sentido, mas com fruta, com frutos secos, com uma fatia de pão, com cereais integrais, com sementes, faz todo o sentido.

Não conseguimos escolher um, kefir ou iogurte natural?

Os dois.

Variar.

Exatamente. E diversificar e juntar se calhar os kombuchas, os misos, os picles, e ler o nosso corpo um bocadinho, como dizias, Nelson, ouvir o nosso corpo. São tudo soluções saudáveis, sem açúcar, aliados à nossa saúde, mas temos que ouvir o nosso corpo para perceber se toleramos realmente.

Muito bem, esta semana respondemos à pergunta da Anabela, que quer saber se o kefir é melhor ou mais benéfico para a saúde do que o iogurte natural. Envie as suas questões de nutrição e de alimentação aqui para a Mariana Chaves, marianachaves@observador.pt. À sexta-feira temos aqui esta edição do Aprender a Comer, onde respondemos à sua pergunta. E para a semana regressamos. Até lá, Mariana.

Até lá, Nelson.