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Todas as semanas na Rádio Observador recebemos a nutricionista Mariana Chaves no "Aprender a comer". Olá, Mariana, boa tarde.
Olá, Nelson. Obrigada.
Mariana, estão dias de muito calor e já percebemos que isto tem uma interferência muito grande na nossa alimentação. Primeiro, eu confesso, eu por mim não como aquilo que comia no inverno. Há falta de apetite com todo este calor. E depois também há uma apetência maior para pratos frios, as saladas, coisas que associamos normalmente a refeições mais leves. Parece que o nosso corpo está também a pedir isso.
Gelados.
Bebidas muito frias, com muito gelo. Mas no que toca a refeições, de facto, vemos nesta época do ano essa apetência pelas pessoas pelo consumo de refeições que principalmente são frias, que não são tão quentes. E tu trouxeste aqui uma dúvida muito engraçada que é: como é que a temperatura do que comemos interfere com a nossa perceção calórica do alimento? Se o prato for frio, nós comemos mais ou menos?
Isso é uma excelente pergunta, Nelson. Houve uns investigadores que no ano passado publicaram um artigo exatamente sobre isso, porque é pouco estudado. Exatamente isso que dizias, que um prato frio é um prato mais leve. A nossa perceção é essa, que um prato frio é mais leve. E o que eles foram estudar e publicaram numa revista científica conceituada, que faz parte da Academia de Oxford, que estuda o comportamento dos consumidores. Portanto, isto não é um estudo de nutrição, é um estudo apenas de comportamento. Chama-se "Journal of Consumer Research", se as pessoas quiserem pesquisar. E este estudo foi com muitas pessoas, com mais de 2500 adultos de três nacionalidades: franceses, americanos e brasileiros, que é para não dizerem que isto é só uma questão cultural. E a grande conclusão deste estudo foi que se estamos a comer o mesmo prato, mas frio, vamos comer mais quantidade. Isto porque a nossa perceção das calorias no prato vai variar consoante a temperatura do prato. Exatamente isso que dizias.
Ou seja, se for uma feijoada, o nosso cérebro automaticamente ou subconscientemente nos diz: "Atenção, isto é altamente calórico, é muito quentinho e é muito bom".
Exato. Comida de conforto.
Comida de conforto.
Comida de conforto. E é aqui um bocadinho o que este estudo veio dizer, é exatamente isso, que olhamos para a comida quente como comida de conforto, logo à partida terá mais calorias. É uma perceção. Isto é quase como se fosse um instinto. É o que o nosso cérebro, de forma inconsciente, analisa o que estamos a comer. Mas aqui a comparação não será entre feijoada e uma salada, será mais o mesmo prato quente ou frio. E por isso eu gosto de pensar, por exemplo, no salmão. Se eu fizer um salmão e o comer quentinho na altura, versus eu pôr no frigorífico e no dia seguinte comê-lo exatamente com a mesma coisa, se calhar com uma salada, mas em frio. E aí a perceção é de que ele possivelmente terá menos calorias. Isto é o que o estudo nos diz. E o engraçado foi que eles foram fazer aqui a análise da realidade, do que foi de diferente no comportamento do consumidor com o prato quente e com o prato frio, e chegaram à conclusão que as pessoas que escolhiam o prato frio acabavam por consumir mais 31% das calorias, mais 37% de gordura e mais 22% de hidratos de carbono. Acho isto extraordinário, porque assim nós ganhamos aqui uma ferramenta para perceber, como dizias, Nelson, e bem, que no verão apetece-nos coisas frias. Claro que sim. Ninguém quer comer sopa quente, toda a gente gosta da sopa mais fria ou ninguém quer comer uma feijoada ou um cozido à portuguesa. Apetece-nos mais as saladas ou pelo menos, agora entram muitos cuscuz e as quinoas e essas coisas assim em refeições frias. Mas, na verdade, se nós sabemos que uma refeição quente nos sacia mais. E é verdade que sacia mais. Entra dentro dos três tópicos que nos saciam mais, que é o crocante, sabor intenso e quente. Também há aqui uma vertente, porque não é só a informação que chega do estômago ao cérebro, que demora 15 minutos a chegar, é também a parte sensorial, que é o olfato, o paladar. Tudo isso é estimulado quando uma comida é quente. E não é estimulado quando uma comida é fria, que não cheira a nada.
Eu acho muito engraçado toda esta questão, porque estamos, de facto, ao nível da perceção, de como estamos a ser enganados pelo nosso cérebro e por determinadas conceções. "Ah, é fresco e tal". E de facto, este estudo prova que comemos mais, damos mais garfadas quando é essa refeição. É um bocadinho a conclusão aqui.
É, sem dúvida. E como é que nós podemos dar a volta a isso?
Pois, essa era a minha questão. Tu tens sugestões e conselhos para isto?
Tens uma nota, tens um bloco.
É desconfiar. Está frio, desconfia.
Não, olha, eu acho que é assim, o instinto que nós temos nesta altura do ano, verão, quente, é comermos coisas frias. Mas o que faz sentido, e no estudo eles sugerem isso, que eu acho engraçado, que é para pessoas com problemas de peso e que estão mais atentos ao que comem, se calhar, faz sentido juntar alguma coisa quente. Aí, se calhar, faz sentido juntar uns legumes aquecidos e dou aí a sugestão dos cogumelos estufados ou dos pimentos, ou do feijão-verde cozido. Feijão-verde cozido dentro de uma salada que esteja fria, claro está, que não dá para levar isto para a praia. É mais em casa que conseguimos fazer isto. Mas esta mistura do quente com o frio, já temos essa perceção. A outra maneira será a proteína ser quente, portanto, temos um peixe acabado de grelhar, temos uma carne acabada de fazer com uma salada fria. E isto foi o que foi falado no estudo e eu tento acrescentar mais duas hipóteses, ferramentas, que será ter um chá morno para acompanhar a minha salada, porque estou a levar tudo, vai tudo em andamento, então isso eu consigo levar num termo.
Começo logo a imaginar Hábitos chineses.
Sem dúvida, eles têm muitos hábitos bons para nos ensinar. E a outra solução seria a sopa morna no início, mas que eu também percebo que há dias em que não apetece.
Com este calor, pedir sopa.
Mas, ainda assim, nós ganhamos aqui uma ferramenta que é: se o nosso cérebro nos está a tentar enganar, então vamos tentar enganar ele.
É exatamente isso que eu ia dizer. Estás aqui a fazer contrainformação com ele. Ele está a te levar para um lado e há estas técnicas para o desviar.
A verdade é que há, culturalmente e historicamente... Por exemplo, a minha avó bebia sempre água morna com alguma coisa à refeição, porque dizia que lhe ajudava na digestão.
Os habitantes do deserto, que bebem chá.
Sim, bebem chá morno.
Só que depois é de menta.
É de menta.
Parece também que ali confunde um bocado. É fresco, mas é quente.
Certo, mas ajuda na digestão. A menta é frequente em problemas de digestão. E uma das coisas que eles falavam, que achavam que podia ser a justificação, para além desta questão de comfort food, a comida que nos parece de conforto por ser quente e então mais calórica, esta associação, também a associação inconsciente do cérebro de que a comida cozinhada, a comida quente, vai ter uma melhor digestão e é melhor aceita pelo cérebro, e nós estamos mais predispostos a essa comida. Isso foi o que foi falado, isto dá azo à discussão. Mas tens toda a razão que a água morna ajuda na digestão, porque é a temperatura que nós funcionamos por dentro.
Sim, eu lembro-me da minha avó fazer isso exatamente por causa de digestão e muitas vezes acompanhar a refeição com algo não quente, mas morno.
Sabes que achei engraçado também aqui umas notas que me deixaste, Mariana, e corrige-me se eu não percebi bem esta questão. As pessoas também estão dispostas a pagar mais por uma refeição quando ela é quente.
Exatamente.
Em vez de fria. Tudo ao nível da perceção também, não é?
Exatamente. Isto foi também tirado desse estudo, em que diziam que as pessoas estavam dispostas a pagar mais 25%, que é imenso, só por essa comida ser quente ou ter no rótulo que poderá ser aquecida. E eu lembro-me logo daqueles sítios onde se pode pedir para a massa ser aquecida ou comê-la fria. E que isso vai ter essa diferença no nosso comportamento.
Portanto, aquelas saladas que se compram agora, que têm massa e que se pode comer frio ou pode-se aquecer.
Sim.
Portanto, se se puder aquecer, as pessoas têm a perceção de que pode ser mais caro do que a outra, que é apenas massa fria ou salada fria.
Sim, estão dispostas a pagar mais, porque associam a uma comida que lhes dá mais conforto e que então vale a pena gastar esse dinheiro.
Que engraçado.
Isso é muito engraçado. É quase um programa tudo ao nível da perceção.
Não, isto é psicologia, não é? Isto é psicologia comportamental.
Que tem muito a ver com a parte da alimentação, porque muito do que nós fazemos com a alimentação é o nosso reflexo de como estamos. O nosso bem-estar.
Ainda um dia destes falamos da comida de conforto e da compulsão alimentar.
Certo. É um bom tema.
É o contraponto a este desta semana. Estamos em pleno verão, falamos esta semana com a Mariana Chaves no "Aprender a Comer" de pratos frios e de como há uma perceção um pouco enganadora do nosso cérebro de que a comida fria, as saladas, muito típicas desta altura do ano, são mais leves, menos calóricas. E isso pode ser tudo uma questão de perceção, porque há um estudo que falamos hoje, que prova que numa situação dessas nós até costumamos é dar mais grafadas. E então podemos estar a estragar essa ideia da refeição mais leve. Bem, boas refeições, no verão ou fora dele. Todo ano estamos com a Mariana Chaves no "Aprender a Comer", sempre às terças-feiras e sempre disponível em podcast. Até para a semana, Mariana. Obrigado.
Até para a semana. Obrigada.