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E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. A PIDE estava de olho em todos os seus movimentos e durante a escrita de "As Mulheres do Meu País", foi novamente levada para Caxias, desta vez, pelo crime de defender a paz. Uma das primeiras memórias que a Alice Vieira tem da prima é de tê-la ido buscar com os tios à prisão. Lembra-se de ficar espantada ao ver a sua expressão. "Como é que ela depois de presa vem com um sorriso?" À porta da cadeia já estava a magicar o atrão. Era uma autêntica revolucionária. Está no ar o último episódio das Desobedientes da Rádio Observador, também disponível em podcast. E a personalidade que encerra esta galeria de 12 mulheres extraordinárias é realmente uma figura digna de grand final. Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas. Se não conhece, vai já começar a perguntar-se o que andou a perder. Eu sou a Margarida Vila Nova e tenho, como sempre, comigo a escritora Maria João Lobo de Carvalho, autora do livro que inspirou estas conversas, "As Revolucionárias: 12 Mulheres Portuguesas Desobedientes", e o escritor e guionista Alexandre Borges. Rapaz que deixámos entrar para depois não virem cá queixar-se que são o sexo fraco e quê. Maria João, Alexandre, esta é uma história de luta, resistência, insubmissão, mas é também a história de uma mulher movida pelo amor. Até porque ela diria: "Pode-se amar não amando ninguém. Pode-se amar a vida". Que vida foi esta, Maria João, Alexandre?
Uma vida que eu acredito que todos os nossos ouvintes vão amar. Vocês não acham?
Absolutamente.
Bom, nasce como Maria da Conceição Vassalo e Silva, de facto, no fim do século XIX, em 1893, na linda terra de Torres Novas e vai, claro, atravessar. Não é tão claro assim na altura, mas vai viver quase todo o século XX. Agora, ela já nasce de uma mistura explosiva. A mãe muito católica e conservadora e um pai republicano convicto. Já isto devia haver grande discussão em casa. O pai tinha diversas profissões, era guarda-livres, era comerciante, era industrial, foi Provedor da Misericórdia, fez de tudo um pouco. Eles têm seis filhos. Pronto, davam-se bem, pelo menos nos lençóis. E ela é a mais velha de quatro irmãos. Seguem-se duas raparigas e depois um rapaz. Um deles, o mais novo, vai ser o último governador da Índia portuguesa.
Vassalo e Silva, justamente, que tem uma história incrível. Podemos contá-la já ou deixar para frente?
Conta.
É o general Manuel António Vassalo e Silva, o último governador da Índia portuguesa, está de boa mão e dio. E é ele que tem o azar de estar no momento errado, à hora errada, que é o bel dia em que a enorme Índia decide tomar conta daqueles bocadinhos que lhe faltavam.
Em 61?
Em 61, 1961. Chega lá com 40 mil soldados e ele tem 3 mil. E recebe a ordem do Salazar, que é para não se renderem, para lutarem até à morte. É evidente que seria a chacina se ele tivesse aceitado isso. Portanto, rendeu-se. Mesmo assim, foram feitos prisioneiros durante imenso tempo, mas pela rendição, e no fundo, foi o ato que salvou a vida àquela gente toda, esteve preso algum tempo, foi expulso das Forças Armadas. Vai ser recuperado só depois do 25 de Abril. Mas ficou, pelo menos este pormenor diz a Wikipédia, eu não o conhecia antes, ficou com este epíteto, que é terrível, era o Vassalo e Silva. E ficou como Vassilo e Salva-se.
Vassilo e Salva-se. Boa, Alexandre.
É o Vassalo e Silva. Mas é curioso reter esta informação deste irmão, que vai ser um general, praticamente um dos últimos generais do império, e qual é que vai ser o trajeto da sua irmã Maria Lamas. Perfeitamente paradoxal.
Vamos ver aqui para a frente. Ela dá uma entrevista excecional, que ainda está, para quem quiser e tiver curiosidade, na RTP Play, à Maria Antónia Palla. E como a Margarida lê muito melhor do que eu, há uma referência muito bonita que a Maria Lamas faz à sua infância em Torres Novas. Aliás, é mesmo filmada por uma Maria Antónia Palla de minissaia, escandalosa na altura.
A entrevista foi dada em 74, 76.
74 mesmo.
E é muito bonito.
Tudo aconteceu em 74. Foi um ano enorme.
Para ela, em particular. Também para nós todos e para ela, como vamos ver.
"A minha infância tem qualquer coisa de conto de fadas. Lembro-me de uma luzinha pequenina, brilhante e serena, que iluminava o meu quarto todas as noites. Eu era muito medrosa do escuro. Não conseguia dormir sem a proteção daquela doce claridade vinda da lamparina de azeite. Uma luzinha que nunca mais se apagou. Ainda hoje, nas minhas horas sombrias e escuras, ou quando tenho de me isolar e refletir, lá está a tal luzinha a brilhar, a dar-me força e esperança, acentuando o meu amor pela vida."
E é isso mesmo que ela tem, um amor incrível pela vida.
Um amor pelos outros, um amor pela vida e por ela própria.
Por ela própria no sentido em que ela percebeu que podia ser um elemento importante para mostrar não só a força da mulher, como o valor da liberdade. E o que era preciso lutar e desafiar as convenções, sempre. Então ela faz a instrução primária no Colégio Conde Ferreira, vai para o internato, isto era como era de costume, no Convento de Santa Teresa de Jesus, mas os exames formais, os chamados exames da quarta classe de liceu, só o fez já depois de casada. Logo em pequenina começa a escrever, a redigir poemas, que eram lidos em voz alta, peças de teatro, por aí fora. Não é uma miúda física, no sentido de correr, saltar, jogar à bola, saltar à corda, que era muito na altura. Ela, pelo contrário, ficava sempre horas a pensar, a escrever, a ter ideias, à procura de qualquer coisa que ela dizia que não sabia bem o que era, indefinível, que estava dentro de si.
Todos os escritores são assim, ou não, Maria João? Tu eras assim uma grande máquina ginástica.
Não, era a pior de todas.
Tal e qual.
Queixo na minha cara.
Não, acho que é normal. Acho que se nós fôssemos muito bons a fazer surf, não sabíamos escrever.
É que eu não sou boa a nada, o problema é esse. Nem a pôr a pasta de dentes na escova acerto. Bom, ela termina os estudos em 1910, quatro meses antes da República. Mas aí acontece uma história extraordinária, que é: ela era uma miúda super responsável e como tinha irmãos mais pequenos, iam muitas vezes ao Teatro de Torres Novas. E um dia, como nós vamos aqui ver o teatro da Margarida, só que nos acontece um Teófilo na parte de trás.
Não é o Braga, atenção.
Na fila imediatamente atrás dela, estava o Teófilo, um aspirante de cavalaria, que fica fascinado com a maturidade daquela rapariguinha de 16 anos, na altura, a tomar conta de quatro irmãos. Fica de tal forma embasbacado por ela que resolve passar várias vezes a cavalo à porta de casa dela, a olhar quem estava à janela e quem sabe declarar-se. Não sabemos o que se passava naquela janela, que ela também não contou muito. Mas eis que ela recebe uma carta através do irmão, uma carta que era uma declaração de amor. E o que ela faz? Em vez de responder à carta, vai dar a ler aos pais, está a ver o respeito que ela tinha, de como é que havia de responder àquela primeira carta de amor.
Estás a ver? Isso perdeu-se nos dias que correm, com a brincadeira dos WhatsApps, vê lá se me vem mostrar as mensagens.
Ora bem, exato. Manda DM.
Não gosto. Bem, ele tinha 25 anos, era republicano, oficial da Escola Prática de Cavalaria de Torres Novas, estava com ótimas intenções e acabam por se casar. Tinha ela 17 anos.
E vai atrás dele.
E vai atrás dele e é o primeiro casamento civil, isto é muito importante, alguma vez realizado em Torres Novas. Agora reparem só como eram as coisas antigamente. Ela em dois anos, tem dois filhos, a Maria Manuel e a Maria Emília, portanto, teve a primeira com 18 anos, a segunda com 19 anos. Em 1913, quando já estava grávida da segunda, decide deixar o marido, que entretanto estavam em Angola, passaram uns tempos em Angola, e viver para Portugal. É claro que ela achava que ia conseguir o divórcio e a tutela das filhas, mas nada é fácil neste país e em relação a tudo isto.
E à época em particular que viviam. Sete anos até.
Agora, a Alice Vieira, que é prima, a nossa Alice Vieira, escritora de literatura infantil, uma mulher com a melhor gargalhada de Portugal, acho eu, sempre cheia de energia, que me contou histórias inacreditáveis e infinitas sobre esta Maria Lamas, de forma que eu fiquei apaixonada por Maria Lamas. Uma das coisas mais tristes, que nós estamos aqui a discutir antes de gravarmos isto, é o episódio, que hoje podemos dizer, de violência doméstica. Margarida, és capaz de dar a tua achega. Parece que a Alice Vieira não era muito bem tratada pelo Teófilo.
A Alice não é.
Desculpem.
Sim, ela partilha que o marido a arrastava pelos cabelos em casa e que era-lhe insuportável viver com um homem assim, e que por essa razão, dois anos depois de estar casada e ainda grávida da segunda filha, decide divorciar-se dele. E consegue, são precisos sete anos, mas contra tudo e contra todos, e numa altura em que o divórcio não era bem visto e era insultada na rua, mal vista na rua. Não havia palavras que a demovessem e seguiu firme na sua luta, quer pela custódia das miúdas, quer pelo seu divórcio.
E entretanto, entra a Primeira Grande Guerra, o Teófilo vai para a Flandres e ela, com as miúdas, como a Margarida estava a dizer, tinha que as financiar, tinha que lhes pagar a educação e então trata de começar a escrever loucamente, usando, como sempre, o quê? Os pseudónimos. Maria Fonseca, Serrana Dário, e o mais bonito de todos que é Madre Silva.
E não é o único, ela usa Madre Silva, também adorei Madre Silva, e depois também usa Rosa Silvestre. O que ela tem com as flores?
Torres Novas. Entretanto, imaginem que ela começa a trabalhar, claro, como elas todas se cruzam, como vimos dizendo, na Agência Americana de Notícias, que falámos da Virgínia Quaresma, que lhe dá um trabalho para ela se conseguir sustentar. E aí cruza-se, como não podia deixar de ser, com todas as outras feministas da altura. Umas mais velhas do que outras, mas tínhamos a Virgínia Castro Almeida, a Adelaide Cabeta, a Quintanilha, e publicavam um pouco nos mesmos jornais. Na Época, no Século, na Civilização, e no suplemento infantil, muito importante, chamado Reino dos Miúdos, que mais uma vez foi ideia da Maria Lamas.
Mais uma na literatura infantil.
Mais uma que começa na literatura infantil. Começa e continua, porque ela é muito forte. Eu lembro-me em pequena de ler o "Correio da Tia Filomena", que vamos falar adiante, da Maria Lamas. Em 1920, finalmente, como a Margarida dizia, depois destes anos todos, é-lhe concedido o divórcio, mas ela não desiste de se casar.
Ela não desiste do amor, eu acho isso bonito. Alguém que nunca--
Mas desde quando é que amor e casamento é a mesma coisa, Margarida?
Pronto. Estamos nos anos 20.
Ela vai já aprender isso a seguir. Ela vai continuar no amor e menos no casamento.
Quando chegamos ao terceiro casamento, percebemos que não há duas sem três.
É isto, ela casa-se então com o que ela própria considera um erro de casting, que é espetacular. Com, imaginem, um jornalista não só católico, como apoiante monárquico, que escrevia na Época, um jornal, aliás, conservador, que vai depois seguir a ideologia toda do Estado Novo, é um jornal católico e com apoiantes monárquicos. E este Alfredo da Cunha Lamas é um dos mais importantes do jornal à época, e ela, não sei como, com estas convicções políticas tão diferentes. Às vezes o encanto está na variedade.
Os opostos se atraem. Mas já com os pais dela tinha funcionado.
Os pais dela, seguindo esse exemplo, acaba por se casar com ele, tem mais uma filha, Maria Cândida, em 1936, e logo a seguir, volta o quê? A separar-se.
Vai voltar a separar-se, mas vai ficar sempre com o nome Lamas, curiosamente. Eu não sei se ela alguma vez teve verdadeiramente o divórcio aqui do Ou foi só quando ele morreu. Não tenho a certeza se eles simplesmente não se separaram. Agora, isto é o Alfredo Cunha Lemos? Porque ela ficou sempre Maria Lamas.
Tu sabes tudo o Alfredo Cunha Lamas.
Sei só uma coisa, que é: ele dirigiu revistas satíricas e uma delas, por acaso, era muito gira, que era o Talassa. Eu vi isto quando andei no centenário da República a escrever comentários sobre o assunto. E o Talassa era o grande suplemento satírico da Primeira República, sobretudo nos cartoons, nas caricaturas. Era muito giro. Era o inimigo público da época, de há 100 anos. E ele era o diretor, o que faz sentido, porque de facto ele era um monárquico convicto e aquela era a grande sátira à República. Mas era muito fixe.
Mas não resultou mesmo. Então, nos loucos anos 20, ela torna-se, de facto, não era uma jornalista de reportagem como era a nossa Virgínia Quaresma, mas sim, trabalhava nos jornais, era poeta, era escritora, era tradutora, usava esta Rosa Silvestre, que falámos há pouco, escreveu um livro de poesia, "Humildes", muito bonito, e depois um romance chamado "A Diferença de Raças". Na literatura infantil, temos então Maria Cutovia, "A Montanha Maravilhosa", vários outros, e o jornalzinho, o Pintainho. E além disso, o Correio da Tia Filomena, que era muito giro, porque a tia Filomena era mais um pseudônimo da Maria Lamas, onde ela respondia às crianças que lhe escreviam. As crianças escreviam-lhe a dizer: "Gostei muito deste conto" ou "Tenho um namorado que não quer saber de mim, gosta mais da minha amiga".
Dizem que ela não deixava ninguém sem resposta, que ela respondia a todas as cartas que recebia.
Imagina.
É incrível.
Como é que ela tinha tempo, como é que ela conseguia se desdobrar nisto tudo. Para além das traduções, Marguerite Yourcenar, a Condessa de Ségur, que eu acho que muitos dos nossos ouvintes viram, não sei. Para mim, as Desastrosas Five fazia a minha infância. O Charles Dickens, todos eles. Até que em 1928 aparece um homem importantíssimo na vida dela, Ferreira de Castro. Um belo homem, aliás, podem ver as fotografias, que era diretor da revista Modas e Bordados, que não é propriamente uma revista só de modas e bordados, era um suplemento semanal do jornal O Século e que estava a passar por um período muito difícil financeiramente. E o que lhe pediram? Pediram para ela levantar a revista, para tornar a revista em algo que fosse vendável, que as pessoas pudessem gostar, que as pessoas comprassem, que saísse um bocadinho do que era aquele ramram. E o que a Maria Lamas fez? Acrescentou temas muito mais profundos, acrescentou a parte cultural, a ideia da mulher que podia trabalhar em casa, mas também que podia trabalhar fora de casa. E tudo isso ela foi escrevendo e foi dando um novo alento à revista. Só para ficarmos cientes de uma coisa. Em 1912 foi criada a revista Modas e Bordados, em 1977 foi fechada por Manel Alegre, imagina. Que era então secretário de Estado da Comunicação Social, por uma razão simples, porque não era rentável. Mais uma vez, a Modas e Bordados deixou de ser rentável. Diz, Maria.
Não, eu ia dar aqui um salto na história, ia saltar para 1930, 1934, 36, quando ela prepara a exposição e dá visibilidade a um trabalho de todas as mulheres, de todas ou de muitas mulheres do país, desde os tapetes de Arraiolos aos tiares de Trás-os-Montes, quando se atravessa à frente para fazer uma exposição que simbolize, de certa forma, as mulheres deste país e dar-lhes voz, dar-lhes um espaço. Uma exposição de 11 salas no jornal O Século, onde ela tem o apoio do Conselho Nacional das Mulheres, na altura, onde também passa a fazer parte. Não só esta primeira exposição lança, eu diria, nas bocas da censura portuguesa, como mais tarde, quando prepara uma exposição de mais de 3 mil livros escritos por mais de 1400 mulheres de 30 países do mundo. E esta visibilidade, esta exposição, este olhar sobre o feminino, este espaço que a mulher ganha na sociedade portuguesa impulsionado pela Maria Lamas, isto traz-lhe aqui alguns problemas com Salazar e com a censura.
Salazar explode de raiva com a popularidade daqueles eventos. Em menos de nada, Maria Lamas é encostada à parede pela direção do Século. Ou bem que é diretora da Modas e Bordados ou ativista no Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas. Recusando ceder à chantagem, bate com a porta da revista, fica desempregada e como se não bastasse, vê o conselho receber ordem de extinção. Mas aos 54 anos, a desobediência em Maria estava apenas a começar. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. Segunda parte das desobedientes. Por causa do seu ativismo na luta pelos direitos das mulheres, a escritora e jornalista Maria Lamas é despedida do jornal O Século e vê o regime extinguir, no turno dela como presidente, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, uma organização histórica fundada por Adelaide Cabete 33 anos antes e que tinha sido fundamental para a evolução, apesar de tudo, da causa feminista. Aos 54 anos, nesta situação e em plena ditadura, seria normal, normalíssimo, uma pessoa quebrar, mas não Maria Lamas. O que ela fez? O que esta nossa desobediente e como ela lutou pela liberdade, pela paz, pela educação, pelos direitos das mulheres? Como é que foi este seu caminho?
É um caminho complexo. E já agora, para situar as pessoas um pouquinho, ainda que esteja sendo este o nosso último episódio, há todas estas organizações feministas, mas se calhar vale a pena destacar que houve aqui duas mais importantes do que as outras: a Liga Portuguesa das Mulheres Republicanas e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.
Fundado por Sepé tia Magalhães Lima.
Exatamente. Muitas das pessoas são as mesmas, de facto. Adelaide Cabeta está nas duas, Ana de Castro Osório está nas duas, a Carolina Beatriz Ângelo está só na Liga porque morreu muito nova, ao contrário das outras, antes da fundação do Conselho. Qual é a diferença? Para mim, dá uma ideia que o Conselho acaba por ser a mais importante de todas. Este órgão que estamos aqui a falar e que lá está, que é extinto no turno da nossa Maria Lamas.
1914 a 47.
Isso mesmo, são muitos anos, são 33 anos, porque a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas é uma organização que dura só nove anos, é de 1909 a 1918.
Depois há cisões internas.
Há cisões internas logo ali, a partir de 1912, sobretudo entre Ana de Castro Osório e Adelaide Cabeta, que é a tal história de que acusavam umas eram só feministas, as outras eram só republicanas, no fundo. E portanto, a partir do momento em que há essa cisão, Adelaide Cabeta, pouco depois, em 1914, funda o Conselho Nacional das Mulheres Republicanas. É este que vai durar até aqui, estes anos todos, que depois passou pra mão da Maria Lamas e que aqui o Estado Novo foi deixando isto existir muito tempo, enquanto não fazia grandes ondas, mas de facto a Maria Lamas revitalizou o conselho. Com estas exposições de que tu, Margarida, falavas no final da primeira parte e que incidiam sobre o talento das mulheres, os dons artísticos das mulheres, as capacidades e o seu questionamento.
Foi uma total afronta ao Estado Novo, sobretudo na questão das mulheres escritoras.
Exatamente.
Imaginem todo mundo e quase todas sempre pseudônimos e a expressarem livremente as suas opiniões. Deve ter feito os nervos em franja ao Salazar.
Tal e qual.
Imaginemos.
Era aquele perfil muito diferente.
Uma das coisas giras na exposição dos trabalhos delas, e que me diz especialmente respeito, muito aqui às desobedientes também, a mesa de trabalho da Carolina Michaelis e da Maria Amália Vaz de Carvalho e o ateliê da Marquesa da Lor, tudo pessoas que nos são muito queridas e que ela trouxe outra vez, ressuscitou. A Carolina Michaelis ainda foi a presidente honorária do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, mas que ela, tal como nós agora estamos a perpetuá-las, ela também perpetuou. E isto é muito bonito de se ver. Por outro lado, a história do romance que atravessou toda esta vida com o Ferreira de Castro.
Pois é, deixamos o tease.
Mas olha, sabes que ele casou também três vezes, tal como ela.
Eles tiveram um romance clandestino.
Ele era casado.
Segundo li, era a expressão "amitié amoureuse", ou seja, amizade colorida. Já vi este conceito que foram inventar não sei onde.
Escreviam cartas.
Mas é isso, as cartas, Margarida, estás a dizer bem. Há um espólio, atenção a quem esteja a ouvir, o espólio da troca de cartas, que eu adorava ver, da Maria Lamas com o Ferreira de Castro, que são centenas, senão milhares delas, ou estaria na Biblioteca Nacional ou na Imprensa Nacional e desapareceu.
A sério?
Desapareceu. Ninguém consegue encontrar este espólio.
Mistério. Gosto.
Gosta destes mistérios. O que lá estaria?
Acuse-se quem está a ouvir.
Quem é que tem este espólio que nós queremos ir lá ver e fazer outro programa só com as cartas.
O Ferreira de Castro, vale a pena dizer, foi o autor da Selva, célebre romance português.
Lindo, um romance maravilhoso.
Que o internacionalizou, que foi criticado nos Estados Unidos, que o fez ingressar no Pen Club, que partia também de histórias pessoais, porque ele viveu jovem na Amazônia.
Sim, viveu no Brasil.
Ele escreveu para o Século, escreveu para a Batalha, foi diretor do Diabo e também teve, de facto, essa vida amorosa tumultuosa. Teve uma primeira relação com uma mulher que tinha este nom de plume, Diana de Lis.
Pois.
Que morreu muito nova.
Escrevia também.
Escrevia também, exatamente. Morreu aos 38 anos. E depois ele tem um casamento que tem a louca duração de um ano com a Fernanda das Dores Marques. A Fernanda pede o divórcio, com fundamento em adultério masculino. Portanto, é bom saber que isto não começou agora.
Apanhou com a Maria Lamas.
Quando se diz: "Antigamente os casamentos duravam." 1936, 37, meus amigos. E ele depois volta a casar em 38, em Paris, com Helena Muriel, uma pintora espanhola, que viveu refugiada no Estoril, mas sempre com esta relação.
Sim, mas é preciso ver que a Maria Lamas era linda.
Não, mas assim, a Maria Lamas estava ocupadíssima a fazer política no país. Ela não tinha vagar para estar a namorar. Ela estava a escrever, ela estava a pensar, ela estava a discutir.
São 24 horas o dia.
Ela não tinha tempo pra namoricos. Portanto, sim, era um romance por carta, por e-mail, se houvesse e-mail à época. Mas sobretudo nesse mergulho que ela faz política entre o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e aqui e ali, ela vai mergulhar na política e é curioso o que ela diz sobre a política, que diz: "A coisa mais importante da minha vida foi a minha tomada de consciência política. É que esta palavra política assume proporções cada vez mais importantes, mais prometedoras e ao mesmo tempo ameaçadoras."
E ela faz parte do MUD logo a seguir.
Sim.
O Movimento de Unidade Democrática, que imaginem quem é que fazia parte do MUD, a Maria Barroso, que nós conhecemos, e a nossa Irene Lisboa. E havia aqui uma tensão absolutamente louca entre o MUD e a Obra das Mães e a Mocidade Portuguesa. Aquela cisão. Sem surpresa, eram totalmente opostos na sua ideologia, no que defendiam, etc.
Nesse mergulho político que ela faz, as mulheres do meu país Aos vossos olhos, é uma forma de ativismo político, é uma forma de denunciar um Portugal analfabeto.
Para já, o MUD eram simpatizantes do PCP. Tanto havia simpatizantes do PTC, como havia do PCP, como havia católicos, como havia republicanos, como havia socialistas. As pessoas, um bocadinho do descontentamento. Agora, sim, "As Mulheres do Meu País", é giríssima a ideia. Maria Lamas partiu de carroça, de cavalo, a pé, de carro de bois, do que fosse, pelo país inteiro, como tu estavas a dizer, e muito bem, para denunciar que as mulheres não são só as mulheres de Lisboa. As mulheres é todo o país.
Denorta-se do país.
E as pessoas às vezes estamos habituadas a pensar só em Lisboa, Porto. Não, mas o país interior e o litoral, naquela altura, não havia estradas, praticamente, ou eram muito deficientes. Como é que ela teve esta coragem de andar meses, se não anos, a percorrer o país todo?
Dois anos.
Eu acho isso maravilhoso. Uma mulher de 54 anos.
Sim. Giro.
De repente estás desempregada e pegas em ti e decides ir percorrer o país todo nessas condições que estás a dizer, Maria João, para fazer este trabalho e fazer esta denúncia com conhecimento de causa.
Sim, eu falo do que eu sei. E muito giro era que incentivava as mulheres a visitarem as barraquinhas de tiros que havia nas feiras. Para quê? Para aprenderem a manejar as armas para se saberem defender dos homens, mais nada. Esta é de mestre. A ideia que ela teve. "Vocês vão ali treinar uns tirinhos."
Pronto, mas a violência que ela sofreu ficou para sempre marcada na pele.
Ela diz uma coisa bonita: "Sonhar e lutar são as únicas coisas que interessam na vida." Eu acho que este caminho de percorrer Portugal é uma forma de luta, de resistência, de resiliência e de trazer o sonho destas mulheres e denunciar as vidas destas mulheres a público. É um manifesto, quase.
Margarida. E depois dessa, "A Mulher no Mundo", que também mostra muitas mulheres excluídas da história, umas como maus exemplos, outras como bons exemplos. Só para terem a noção, estes livros têm cada um 600 páginas, são dois volumes, só trouxe aqui um.
A Margarida está ali a trabalhar.
Eu estou a trabalhar.
Ela está a trabalhar nos pés e halteres. E eu abro este livro, folheio este livro e penso: como é que ela teve tempo de fazer isto tudo e de saber tanto sobre as mulheres que vivem nas Ilhas Fiji, que vivem na Indonésia, que vivem aqui, que vivem ali, o que passam, o que sofrem.
Queres ler um bocadinho, Margarida?
Eu leito aqui uma passagem.
Abrimos aqui um só ao calhas e ficamos os três maravilhados ou horrorizados, melhor dizendo.
"Ainda não há muitos anos, nas Ilhas Fiji, os chefes, quando casavam uma filha ou irmã, falavam ao futuro marido nos seguintes termos: 'Aqui está a minha filha. Eu vos dou. É propriedade vossa. Podeis fazer dela o que quiserdes. Espero que ela vos dará muitos filhos, que serão guerreiros e chefes poderosos como o seu pai. Mas se, pelo contrário, vos aborrecerdes dela, vendei-a, matai-a, comei-a. Vós sois o seu dono absoluto.'" Ai, que dor! Isto foi escrito em 1948, 1950.
Em 52, "As Mulheres no Mundo" e a outra, "As Mulheres do Meu País", um bocadinho antes. Terminado, quer dizer, que não fosse escrito durante. É claro que o nosso conselho não estava nada feliz com isto.
Até que o dia chega em que a prendem, que a tiram pela porta.
E eram miseráveis as condições. É bom que nós tenhamos noção do que a Maria Lamas passou. "Esta cela era do mais miserável que imaginar se possa. Dois catres, uma caixa de madeira, um lavatório, um balde e um jarro, mais nada. Fomos muito maltratadas nessa noite."
Exato, é um relato da primeira vez que é presa. Nas "Mulheres Portuguesas na Resistência", ela recorda a segunda prisão como uma das mais duras. "Dessa vez puseram-me sozinha, durante três meses. Eu não suporto a solidão. Preciso de comunicar. De modo que em breve estava com alucinações." E é giro, porque a gente percebe que ela, de facto, precisa de comunicar. É interessante.
Ela escrevia as cartas para as outras reclusas.
Há uma reclusa que é analfabeta, e a quem ela vai escrever as cartas para o namorado, julgo eu, as cartas de amor.
E a bordar paninhos a ponto de cruz para as filhas e a dar passos no corredor e a somar os passos, 17 passos e meio de comprido, 14 de lado.
Falam umas com as outras através do autoclismo, aparentemente, comunicam puxando o autoclismo com números de vezes que puxam a água para passarem mensagem.
O que é giro é que ela sabendo disso tudo, conta à Alice Vieira, cada vez que iam buscar a Caxias, ela dizia: "O que é que eu vou fazer agora para voltar para aqui?"
Exato, que foi como a Margarida começou o nosso episódio. Foi ela sair da prisão já a rir e a preparar a próxima. Isso é magnífico.
Ela esteve presa três vezes.
Três vezes, exatamente. Aos 50 e tais e 60 anos.
Sim.
Dureza, não era uma miúda de 20.
Não era uma inconsciente, ela sabia o que estava a fazer.
E não ia desistir nunca do que ela achava que estava certo. O que ela achava que era a luta pelas mulheres e pela liberdade e por pensar pela própria cabeça e tudo isso.
Exato. Ela depois junta-se a uma organização chamada Congresso Mundial da Paz.
Sim. Ela vai viajar.
É isso, vai viajar por muitos sítios. É uma organização muito ligada aos partidos comunistas internacionais, porque embora é uma organização pacifista, mas que nasce no pós-guerra. Muitos movimentos anti-nazis, antifascistas, e sobretudo contra a bomba. O grande pavor do apocalipse nuclear. Mas depois é uma organização que vai estar muito ligada às Uniões Soviéticas, às Chinas, a defender as lutas dos trabalhadores em Cuba, na Nicarágua, nestes territórios mais conectados politicamente, que depois é o que a Maria de Lamas obviamente vai assumir. Mas neste lugar e nesta organização e com esta idade que já sabemos e com este currículo/cadastro das três prisões e da perseguição política, ela vai começar mesmo a viajar pelo mundo, para ir a estes congressos. Queres falar-nos disso?
Entretanto, há aqui uma paixão. Que terá sido, imaginem, uma pessoa aos 80 anos apaixonar-se por nem mais nem menos do que o chefe do governo da República Popular da China, de seu nome, que eu não sei ler bem isto. Talvez a Margarida saiba melhor, Chu Shen Lai.
Eu também não sou bem entendida.
Sou fluente.
Fluente. E este amor acontece a todas as idades, como se vê. E ela nunca deixou de estar viva, de viver e se deixar contagiar pelas emoções.
Mas ela vai a Moscovo. Vamos voltar aos anos 50, 60.
Naquela altura, ir a Moscovo.
Por Estado Novo, uma mulher vai participar nestas conferências a Moscovo, à China, a Pequim, onde é recebida pelo primeiro-ministro chinês. Em dois, ser recebida pelo primeiro-ministro chinês, é qualquer coisa. Uma mulher que não desempenhava qualquer cargo político, ser recebida pelo primeiro-ministro chinês, pode ver-se a sua dimensão e o seu carisma. Cingapura, Japão, pós-bombas atómicas, aliás, esteve em Hiroshima, foi ao Sri Lanka, andou reunida nestas comissões para a paz e o desarmamento e depois já não tem condições de voltar a Portugal.
E fica em Paris.
Ela percebe que se voltar a Portugal vai ser presa imediatamente, então decide ir para Paris. E olha que bela altura de estar em Paris. Se todas são belas, ela ainda viveu lá uns anos, mas vai presenciar o Maio de 68. Ela está lá nessa altura.
E as pessoas com quem ela se cruzou: Pablo Neruda, Margarida Ursular, Manuela Alegre, Jorge Amada, Zélia Gatta, sei lá mais quem, é que ela terá convivido. Imaginas o que era aquele melting point em Paris de intelectuais naquela altura.
E tem um papel importantíssimo com os variadíssimos exilados.
Os refugiados.
Os refugiados que a Paris chegaram e que ela não deixava um para trás. Abria a porta da sua casa e fazia as honras.
A Alice Vieira esteve lá, bateu à porta, como era prima, entrou para desabafar os seus dramas de amor.
Lá ficou dois anos.
E lá ficou dois anos. E viveram o Maio de 68 da maneira mais intensa que é possível. Iam correr pelas ruas, insultavam a polícia, atiravam pedras à polícia. Às tantas, houve um dia em que a Alice Vieira estava a tentar mandar um pedregulho a um polícia e Maria Lamas puxou-a. "Não, a esse não pode ser. Espera, até eles passarem já mandas as pedras outra vez." Agora reparem a idade que Maria Lamas tinha.
Ela já tinha 70 anos.
A lutar ao lado dos estudantes.
No Maio de 68, se não estou em erro, ela já tinha 70 anos. Ela regressa a Portugal com 74.
Ela nasceu em 93, portanto, tinha 75.
E já com a garantia.
A atirar pedras e baldes de água.
E a baldes de água fria, baldes de água para a rua para ajudar as pessoas que estavam na rua a suportarem os gases. Regressa a Portugal e acaba por viver em Évora com a filha, com a Maria Cândida, mas falta-lhe tudo. Às vezes diziam-lhe assim: "Mas ó dona Maria, está tão jovem, a juventude está na cabeça." E diz ela, pragmática como tudo: "Mas a juventude de espírito não me ajuda a descer as escadas."
Exato. Até que finalmente recebe uma grande recompensa da história.
Uma grande recompensa da história.
O 25 de Abril. Ela vai viver o 25 de Abril, vai assistir finalmente ao corolário daquilo por que lutou toda a vida. Queres ler um bocadinho, Margarida?
"É uma exaltação e uma evocação trazer hoje aqui ao presente todas as passagens da minha vida como mulher, como lutadora, como mãe, como ser humano. Tenho 80 anos, litei no Partido Comunista Português, sou uma socialista que preza o valor da independência e é histórico o que se está a passar no meu país. Vivo quase há um século e vi o mundo passar por todo o tipo de transformações, num encadeamento e precipitação constantes. Entre tantas guerras e revoluções, passei pelo sonho de Júlio Verne, pela ida do homem à Lua. O que é preciso é transformar o homem. Quando se trata do bem comum, é preciso sacrificar qualquer coisa. Essa é que é a conquista de que eu sou uma espectadora privilegiada."
Muito bem. É uma entrevista que ela dá ao Radio Clube Português a 30 de abril de 64, seis dias depois da Revolução. É nesta altura que ela se filia finalmente no Partido Comunista Português.
Converte. Vamos converter.
Exato. Agora já podia ser assumida.
É agraciada várias vezes, é reconhecida.
Oficial da Ordem da Liberdade.
Tudo isso é verdade, mas Maria Lamas era amor e era isso a grande arma. Foi por muitas pessoas chamada como mãe. O amor para ela exprime a vida, explica a existência, assim como define a sua personalidade. E mais uma vez a Alice Vieira diz com muita graça: "Quem fez aquela esgotou o molde, nunca mais fez uma igual." Esgotou-se o molde da Maria Lamas.
One of a kind. E vai falecer depois aos 90, não é?
Aos 90 anos. E escreve as suas últimas palavras num cartãozinho que deixa às filhas e que diz: "Muito obrigada por tudo o que fizeram por mim." Quando ela fez tanto por nós todos, por Portugal, pelas mulheres, pela liberdade.
José Cardoso Pires descrevia-a como a mulher mais bonita de Lisboa e acrescentava: "Uma mulher ferozmente independente, incapaz de levantar a voz. A Maria Lamas manteve sempre o aspeto de quem desfolha margaridas. Conservou-se até o final da vida como uma mulher bonita, vaidosa, entusiástica e sedutora. Apaixonou-se doidamente aos 80 anos, sem dizer a ninguém quem era o destinatário desse amor. Passou por revoluções, guerras, quedas de regime, a República, a Primeira Grande Guerra, a ascensão do fascismo, a Segunda Guerra, o Maio de 68, a guerra colonial e a democracia, por fim." Que melhor maneira de terminar esta série de Desobedientes? Obrigada, Maria João, obrigada, Alexandre, obrigada a si, que nos acompanhou, e a todas e todos os que se inquietam em nome da igualdade. "O meu temperamento é um misto de sonho e de ação", dizia Maria Lamas. Sejamos assim. Se gostou deste episódio das Desobedientes, pode seguir-nos nas plataformas de podcast, no YouTube e no site do Observador. O podcast As Desobedientes tem o alto patrocínio da Toyota. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história.