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Porque é que há quatro evangelhos se a história é a mesma? Este é o oitavo episódio de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou o Francisco Martins, padre jesuíta e professor do Instituto Bíblico de Roma.
Eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.
E todas as semanas, com a ajuda destes dois especialistas, vamos olhar para uma parte da Bíblia e percorrer este livro do início até ao fim. Na semana passada, com o episódio sobre os profetas, terminamos a nossa viagem pelo Antigo Testamento. Agora, vamos entrar no Novo Testamento. E se até aqui estivemos a falar dos livros bíblicos escritos antes de Jesus Cristo, agora vamos olhar para o conjunto dos livros que foram escritos durante e depois da vida de Jesus. São livros mais recentes e muito diferentes. Há quatro evangelhos, várias cartas e o Apocalipse, um dos livros que mais fascínio tem provocado ao longo da história. Vamos tentar perceber quando e por que foram escritos estes livros, como se relacionam com os do Antigo Testamento e também como é que contribuíram pra criação de uma nova religião. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Ao longo dos últimos episódios, estivemos a falar sobre o Antigo Testamento, a longa história do povo de Israel, que começa com os relatos da criação do mundo e que inclui alguns dos episódios mais famosos da Bíblia. Tem também muita poesia, muitas narrativas históricas e tem os livros proféticos de que falámos na semana passada. Ora, todos estes livros remontam ao período histórico antes do nascimento de Jesus Cristo, que os cristãos consideram ser o Messias, mas que os judeus não reconheceram como tal. E por isso entramos agora numa parte da Bíblia que é exclusiva da religião cristã. Para fazer um enquadramento muito rápido, e neste episódio vamos falar ainda de forma abrangente sobre o Novo Testamento, é um conjunto de 27 livros, que inclui os quatro evangelhos, que contam a história de Jesus Cristo, o livro dos Atos dos Apóstolos, depois 20 cartas, incluindo as famosas cartas de São Paulo, e o Apocalipse. São documentos que foram escritos em grego, e já não em hebraico como no Antigo Testamento, e contam a história de Jesus, dos seus seguidores, das primeiras comunidades cristãs e apresentam Jesus como a concretização das promessas dos profetas do Antigo Testamento. Há, obviamente, grandes diferenças entre estes dois blocos literários, e uma das que mais vezes é apontada por muitos é o facto de no Novo Testamento, o próprio Deus parecer diferente do Antigo Testamento, mais misericordioso e menos castigador. Vamos falar de tudo isto mais à frente, mas João Bastos, queria só começar pelo básico. O que é isto de Testamento? Por que há um Antigo e um Novo? O que esta palavra nos quer dizer?
A pergunta revela claramente uma coisa, que é muito importante fazer todas as perguntas, porque realmente nós podemos estar muito imbuídos desta cultura cristã, mais ou menos católica, e nunca termos pensado realmente o que significa Testamento aqui. Realmente, a palavra Testamento deriva de uma palavra latina, "testamento", que visa traduzir uma palavra grega, que por sua vez, visa também traduzir outra palavra, mas desta vez não grega, nem latina, mas hebraica, que não significa testamento no sentido de disposição testamentária e última vontade, mas aliança. De certa maneira, pacto, promessa e um tipo de pacto especial. Trata-se de um pacto que nem a infidelidade pode quebrar. Isso indica, de certo modo, que o sentido da expressão Antigo e Novo não é outra aliança, primeira aliança e segunda aliança, mas a mesma aliança. O que acontece no Novo Testamento é a mesma aliança, mas renovada. Não há aqui um pacto diferente, não há aqui um Deus diferente. Já falámos disso em episódios anteriores. Há o mesmo Deus, agora, de certa maneira, renovado.
Um pacto entre Deus e a humanidade.
Sim.
Vale a pena fazer um enquadramento histórico muito rápido. Ainda no século IV a.C., Alexandre, o Grande, conquistou a região da Palestina e integrou-a no mundo grego. Nos séculos seguintes, a Judeia viveu no mundo helenístico, que levou a uma grande transformação cultural da região, incluindo, por exemplo, na língua. E depois, no ano 63 a.C., a República Romana conquistou a Palestina, acabou com o Estado judaico independente que ali existia e implementou, de certa maneira, um Estado vassalo dos romanos. Alguns anos depois, no ano 27 a.C., nasceu o Império Romano, a República passou a ser um império, e a Judeia, politicamente, embora tivesse um rei, estava muito dependente de Roma, que era representada ali na figura do governador romano. E vai ser neste contexto que vai nascer Jesus Cristo. Francisco Martins, tudo isto, todo este ambiente cultural, também influencia os textos do Novo Testamento. Por exemplo, o fato de serem escritos em grego e já não em hebraico, talvez seja um sinal dessa transformação cultural da região.
O Novo Testamento nasce num contexto cultural relativamente diferente em relação ao Antigo Testamento e, sobretudo, em relação aos livros mais antigos do Antigo Testamento. Inicialmente, há uma certa resistência ao helenismo, à helenização, sobretudo no século II a.C., nós temos a famosa Revolta dos Macabeus, que é uma família hebraica que vai recusar a helenização e vai estabelecer depois um reino independente Mas o que é facto é que a helenização acaba por penetrar a língua e a cultura gregas, acabam por penetrar totalmente nesta zona da Terra Santa e da Palestina e dão um colorido particular ao judaísmo do tempo de Jesus, tanto na Terra Santa como noutros sítios, nomeadamente no Egito. Falámos aqui na semana passada da tradução dos Setenta. Esta tradução em grego das escrituras hebraicas feita no Egito e que vai ter um impacto imenso não só no Novo Testamento, como no cristianismo e, de alguma forma, através da história. O Novo Testamento é todo escrito em grego. Às vezes alguns investigadores no passado falavam da possibilidade do Evangelho de Mateus ter sido escrito em aramaico e depois traduzido em grego. Hoje em dia, a grande maioria dos investigadores não acredita que isto tenha sido assim.
Aramaico seria a língua falada.
Seria a língua de Jesus, a língua falada. O aramaico substituiu o hebraico como língua falada. O aramaico é uma espécie de espanhol em relação ao português, se o português fosse o hebraico. Ou talvez o aramaico seria o italiano em relação ao português, se o português fosse o hebraico. Este grego do Novo Testamento, o Novo Testamento é todo escrito em grego, é um grego que revela alguma influência do contexto do ambiente semita. A língua grega não é uma língua semita, como o hebraico, como o árabe, como o aramaico, etc. É uma língua diferente, indo-europeia. E nas próprias expressões empregues, no estilo adotado, o grego aparece com um colorido muito local. Mas o grego era a língua franca, portanto a língua utilizada na comunicação naquela época, em toda aquela região do mundo.
É como o inglês hoje em dia.
Como o inglês, exatamente. E portanto, o cristianismo, que teve desde o princípio uma vocação mais universal, de ir além das fronteiras do povo hebreu, acaba por adotar o grego como essa língua que lhe permite fazer essa transição mais universal.
Porque era mais óbvio escrever, por exemplo, em aramaico, se era a língua que se falava por ali.
Exato.
Ou seja, a intenção de levar a mensagem para fora das fronteiras.
E isso nota-se. Os textos judaicos que vão ser escritos nos séculos seguintes, o famoso Talmud, etc., que é um texto de comentário às leis do Pentateuco, precisamente vai ser escrito em aramaico.
Então vamos falar dos livros que compõem o Novo Testamento e começamos, obviamente, pelos evangelhos, que são os primeiros livros que surgem neste novo bloco de livros. João, que livros é que são estes? E vamos tentar já responder à pergunta que fiz no início do episódio. Se contam a mesma história, a história de Jesus, por que são quatro diferentes?
Antes de mais, perceber o que significa a palavra evangelho, porque nós hoje damos o nome a estes livros de evangelho, mas a palavra evangelho já tinha um uso independente, nomeadamente quando fala de uma boa notícia. É uma palavra que é usada como substantivo 76 vezes no Novo Testamento, 54 como verbo, e que na edição dos Setenta traduz uma outra palavra hebraica que significa anunciar e que surge muito no contexto do profeta Isaías, aquilo que nós chamamos a segunda parte do profeta Isaías. Os evangelhos, que não são historiográficos no sentido clássico, não são duas coisas. Primeiro, uma espécie de originalidade, uma obra de estilo original, uma coisa sui generis, que não depende nada nem ninguém na época, uma espécie de genialidade, nem são uma biografia clássica, porque a biografia só nasce, como nós a entendemos, no século V. Poderíamos compará-la até com aquela ideia romana das vidas, por exemplo, nós temos as famosas vidas paralelas de Plutarco ou as vidas dos doze Césares do Suetônio, mas ao passo que neste tipo de obras, as figuras que surgem, surgem sempre para oferecer uma espécie de modelo moral, são pessoas já reconhecidas. Falamos a Suetônio e a Plutarco, isso é claro, e as obras falam de um conjunto de acumulação de dados com uma pretensão clara de objetividade, nós percebemos que isso não acontece nos evangelhos. Nos evangelhos, existe uma deslocação deste universo, mesmo que possamos falar aqui de uma espécie de contágio, existe uma deslocação porque eles não falam nunca da aparência física. Nós não sabemos, por exemplo, a aparência física de Jesus, mas se nós abrirmos a vida dos 12 Césares, Suetônio, na primeira biografia que aparece, que é de Júlio César, nós percebemos claramente a aparência física de Júlio César. Não falam da sua formação cultural. Isso em Suetônio e Plutarco é claro que existe permanentemente, nos evangelhos não acontece. E os evangelhos não falam de alguém que é propriamente conhecido. Aliás, o seu grande objetivo muitas vezes é mostrar que aquele homem de que eles estão a falar foi rejeitado. Ao passo que em Suetônio e em Plutarco mostra uma espécie de grandiosidade, nos evangelhos parece haver a obsessão, pelo contrário, mostrar como aquele homem foi rejeitado. Era claramente uma pessoa que não seria biografável, mesmo que já tenhamos dito que isto não é propriamente uma biografia, no contexto daquela época. Agora, pergunta: por que há quatro evangelhos? Primeiro, isto é claro, porque para o mesmo facto temos várias notícias diferentes e portanto isso acontece claramente no Novo Testamento. São quatro evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Nós agrupamos geralmente Mateus, Marcos e Lucas num grupo e separamos João. Chamamos a Mateus, Marcos e Lucas, a partir de 1776, os evangelhos sinóticos, no sentido em que eles, como a palavra grega indica, têm uma visão de conjunto. Partilham muitas vezes milagres, parábolas e distinguem-se de João, por exemplo, porque João não fala de milagres, fala de sinais. Ele não fala propriamente em parábolas, não tem parábolas, tem encontros com pessoas, a famosa história de Nicodemos, da Samaritana, etc. E até o relato da Páscoa é às vezes até contraditório e totalmente diferente em dois pontos. Por exemplo, nós não temos propriamente uma última ceia
clássica no Evangelho de São João. Estes quatro evangelhos, principalmente estes três, distinguem-se porque claramente têm todos eles uma espécie de autor diferente, um destinatário diferente e têm um contexto diferente em que são escritos. Temos Mateus, que é claramente um cristão judeu culto, que escreve em grego, conhece muito bem o Antigo Testamento, em especial a versão dos 70, e poderá ter escrito na zona da Síria, da Palestina do século I. Nós temos Marcos, que claramente é um cristão de segunda geração, com um grego muito mais simples. Reparem que até os gregos se diferenciam. E possivelmente terá escrito o evangelho fora da Palestina. E temos Lucas, com um grego muito mais estilizado. Claramente não é uma testemunha ocular. Há na tradição uma certa ligação entre Lucas e São Paulo, profundo conhecimento do helenismo e que é altamente provável que tenha escrito quer o Evangelho de Lucas, quer os Atos dos Apóstolos, que depois falaremos especialmente na segunda parte.
E são pessoas, como dizias, que escreveram com objetivos diferentes, públicos-alvos diferentes, mas sempre com a ideia de espalhar a mensagem e a vida de Jesus por aquele mundo. Uma pergunta que surge, obviamente, é: quando é que eles foram escritos? Eu há pouco, no início do episódio, dizia que estamos a falar de livros escritos durante e depois da vida de Jesus, mas talvez seja um erro que vale a pena corrigir. Foram livros, obviamente, escritos depois da vida de Jesus.
Muitos anos depois.
Até pela, se calhar, não pela primeira geração, mas já pela segunda geração de cristãos. Ou seja, já não tínhamos testemunhas oculares e era preciso começar a deixar por escrito aquilo que tinha acontecido com Jesus.
Sim, os evangelhos começam a ser escritos a partir dos anos 70, até ao final do século I depois de Cristo. Provavelmente o mais antigo é Marcos, depois Mateus e Lucas e depois o João, o último final do século I, início do século II depois de Cristo. Eles recolhem realmente histórias que circulavam sobre Jesus e provavelmente até utilizaram fontes escritas mais primitivas, não sei, uma fonte de ditos de Jesus ou um relato da paixão de Jesus. Eu gostava só de dizer aqui uma coisa sobre a questão das testemunhas oculares que estão na origem destes relatos. Aqui há duas aproximações. Alguns investigadores dizem: estas histórias circulavam de forma totalmente livre, tal forma que de convertido a convertido, os detalhes iam mudando totalmente e ninguém controlava e, portanto, quando foram escritos os evangelhos, já metade daquilo era meio inventado. Outros investigadores dizem, e eu concordo com estes últimos: isto não circulava no vazio. As testemunhas oculares não subiram ao céu no dia em que Jesus morreu, ficaram aqui e de alguma forma exercem um certo controle sobre a transição e sobre a transmissão dos conteúdos. E esta tradição de que, por exemplo, o texto de Marcos depende de Pedro ou o texto de Lucas depende de Paulo, mesmo que não corresponda exatamente, fala desta ideia de que as testemunhas oculares tiveram um papel decisivo não só a criar o relato, mas também a controlar a transmissão dos detalhes.
E há um fundo de consistência que atravessa essas décadas até chegar aos textos escritos. Nós no próximo episódio vamos dedicar-nos especificamente à vida de Jesus e aos evangelhos e, portanto, vamos só mesmo deixar este teaser no ar. E vamos agora fazer um curto intervalo e voltamos já em seguida, depois para a segunda parte das histórias da Bíblia e tentar perceber por que tantos dos primeiros textos do cristianismo foram cartas. Até já. Segunda parte das histórias da Bíblia com os padres João Basto e Francisco Martins. E esta semana estamos a conversar sobre o Novo Testamento. Francisco, se no Antigo Testamento fiz esta pergunta, aqui também tenho que fazer. No que toca aos evangelhos, qual é que é a linha entre o que é histórico e o que poderá não ser? Por exemplo, os milagres, que na cultura contemporânea podemos ter um pouco mais de dificuldade em compreender, ou até algumas incoerências que aparecem nos vários evangelhos, nos relatos entre uns e outros, podem apontar aqui pra alguma falta de veracidade histórica?
A busca do Jesus histórico é um tema, de alguma forma, que fascinou a investigação histórica desde o início, desde o século XVIII, XIX para frente, muitas vezes até motivada por esta dicotomia entre o Jesus da história e o Cristo da fé. Uma dicotomia muitas vezes exagerada. O Jesus da história é um revolucionário, o Cristo da fé é um conservador. Este gênero de dicotomias que não corresponde realmente à realidade dos factos e àquilo que conseguimos reconstruir com as ferramentas da reconstrução histórica. A investigação histórica, recentemente, nos últimos anos, nas últimas décadas, isolou um grupo de elementos que são praticamente incontestáveis entre os investigadores. Que Jesus morreu crucificado sob Pôncio Pilatos, há poucas dúvidas. Que foi muito provavelmente um pregador que contou parábolas, também há poucas dúvidas. Há poucas dúvidas que foi um rabino milagreiro. Eu sei que pra nós escandaliza-nos um bocadinho, mas que Jesus fez milagres, independentemente da compreensão que possamos ter daqueles milagres concretos que fez, não parece haver dúvidas sobre isso. É algo que a tradição gere, às vezes até gere com alguma dificuldade. Quando Jesus faz milagres, por exemplo, com saliva, no Evangelho de Marcos, os evangelistas Mateus e Lucas retiram a parte da saliva, porque lhes incomoda um bocadinho aquela referência, parece quase magia, nesse sentido. Ou seja, milagres, seguramente. Veio muito provavelmente da Galileia, foi muito provavelmente batizado por João Batista. Há, no entanto, espaço para questionar alguns elementos ou a historicidade de alguns elementos que podem ser mais teológicos ou mais de elaboração literária, que servem para explicitar a identidade de Jesus. É que eu dizia ao João: se é uma biografia, é uma biografia muito especial, porque aqui mais do que tudo, quer-se explicitar a identidade profunda de Jesus. Vou dar aqui um exemplo, que se calhar escandaliza um bocadinho as pessoas, mas também estamos cá para isso. Jesus nasceu em Belém? Talvez sim, talvez não. Este pode ser um elemento de elaboração teológica, porque interessava ligar Jesus à descendência de David, que era de Belém, porque o Messias é da descendência de David.
Mesmo que ele não tenha nascido em Belém, o que ficaria nos registros é que-
Teria nascido em Belém, pelo menos nos registros teológicos.
Exato. Já agora, só pra fazer uma pergunta, por exemplo, um aspecto que não aparece muito nos evangelhos, isso é altamente comentado, é, por exemplo, a ideia da infância de Jesus. Temos os relatos do que aconteceu no nascimento, no presépio, etc. Depois passa-se um longo período em que há apenas uma referência a Jesus adolescente encontrado no templo e depois passamos logo pra ele com 30 anos, batizado e com as parábolas, que falaremos no próximo episódio. Mas a verdade é que depois existem, por exemplo, aqueles textos apócrifos, outros evangelhos que não entraram no cânon. Qual é o lugar desses textos na tradição cristã? Só pra não deixarmos isso de fora.
Sim, os apócrifos. Uma palavra sobre isso, talvez, até porque toda a gente ouviu falar do Dan Brown e do Código Da Vinci, tenha lido ou não tenha lido.
Falam sobre a infância de Jesus, alguns desses textos.
Mas há uma grande mitologia à volta dos evangelhos apócrifos, como se fossem uma espécie de versão alternativa de acesso à história.
E isso é escondido da parte da Igreja, que a Igreja esconde.
Os evangelhos apócrifos, a grande maioria dos evangelhos apócrifos é muito tardia em relação aos evangelhos que entraram no cânon, estes quatro evangelhos. Eventualmente, o Evangelho de Tomé podia ser aqui considerado mais relevante num aspecto ou noutro para a reconstrução histórica de Jesus, mas mesmo isso é muito duvidoso. Estes evangelhos refletem, sobretudo, a reflexão sobre Jesus, muitas vezes marginal, feita a partir do século II depois de Cristo. Isto é, comunidades muitas vezes isoladas, que começam a desenvolver tradições à volta da figura de Jesus, que pretendem justificar determinadas práticas, a sua própria doutrina, etc. Muitos destes evangelhos são os chamados evangelhos gnósticos, que servem um propósito muito diferente daquele que será o propósito dos evangelhos, os quatro evangelhos canônicos.
E se nós olharmos e agora pensarmos que realmente os evangelhos têm pouca coisa sobre a infância, se nós descêssemos àquele tempo, se calhar íamos achar que até são excessivos. Ou seja, o fato de o nascimento de Jesus, por exemplo, no Evangelho de São Lucas ou de São Marcos, demorar um, dois capítulos, é excessivo, porque se nós formos ver, na mesma linha, as já referidas obras de Plutarco e Suetônio, o nascimento, a infância, nunca é um ponto de reflexão.
Vamos logo ao que interessa.
Vamos logo ao que interessa. Formação, no máximo, diz-se que é filho de não sei quem e depois vamos ao que interessa. Não estão a perder tempo com a infância, até porque a ideia de infância é uma ideia muito posterior a este momento.
João, na próxima semana vamos voltar aqui aos evangelhos com mais detalhe, mas vamos continuar a fazer aqui um sobrevoo sobre o Novo Testamento. E depois dos evangelhos aparece um livro único, muito particular, que é o livro dos Atos dos Apóstolos. Já mencionaste na primeira parte que se acredita ter sido escrito pelo mesmo autor do Evangelho de São Lucas e até pode funcionar como uma espécie de continuação ou segunda parte.
Sim, acho que é mais ou menos incontestável que nós estamos aqui a falar de um livro que é uma segunda obra do mesmo projeto literário e teológico. Começa com o Evangelho de São Lucas. Nós temos vários indícios dessa continuidade. Nós temos o mesmo autor implícito, o mesmo destinatário. Reparem que os Atos dos Apóstolos começam: "No meu primeiro livro ao Teófilo", e depois começa o prólogo a desenvolver que agora ele vai falar de outra coisa. No primeiro livro, falou dos ensinamentos e das obras de Jesus e agora vai falar da ação do Espírito Santo. Portanto, isto é claro. Há o mesmo estilo helenístico cuidado e a mesma perspectiva histórica e teológica. Vocês às vezes brincam com o fato de eu trazer sempre livros, quase por segurança emocional. Eu trago aqui um livrinho, tem um esquema que não tive pra passar pelos apontamentos.
Devidamente apontado e compostito.
Compostito laranja, em que o autor do livro mostra como existe aqui uma sequência. No Evangelho de São Lucas, nós começamos na Galileia, depois passamos para a Samaria e para a Judeia, para Jerusalém, e ocorre a ascensão, também em Jerusalém, mais ou menos naquela zona. E o que acontece nos Atos? Começa na Ascensão, vai para Jerusalém, Judeia e Samaria, e depois para os confins do mundo. Existe quase aqui uma estrutura quiástica, ou seja, uma espécie de circularidade que nós entendemos. Ou seja, entre que estes dois escritos Os Atos retomam onde Lucas termina e fazem o percurso inverso que Lucas faz. Isto mostra que os Atos não são propriamente uma continuação do Evangelho por si só, nem uma espécie de repetição ou apêndice.
Não é do gênero: "o Evangelho estava a vender tão bem, vamos fazer uma sequel".
Exato. Por exemplo, como Dom Quixote. Nós sabemos, neste momento, que Cervantes escreveu a segunda parte do Quixote porque, por um lado, para fazer frente a uma versão paralela do Quixote e, por outro, porque aquilo estava realmente a ser um sucesso. Não é o caso. Trata-se de uma obra claramente pensada para isto e que até retoma algo que na cultura grega e latina também era muito comum, a ideia de haver um livro dos atos de uns certos heróis. Havia o livro dos atos de Hércules, o livro dos atos de Édipo, e isso é também, de certa maneira, retomado neste livro.
Ajudem-me só aqui a compreender um pouco. O título Atos dos Apóstolos já nos remete pra ideia de que agora o protagonista, no sentido estritamente literário, já não é Jesus, mas já são os apóstolos, já são os seguidores, já são a segunda geração. Nos Atos dos Apóstolos, nós vemos aquilo que é o início do cristianismo, o início da Igreja. Quando vemos, por exemplo, as referências às primeiras comunidades cristãs, é isso que encontramos ali, o primeiro passo da Igreja contemporânea, por exemplo.
O título é enganador num certo sentido. São os Atos dos Apóstolos. Realmente, o livro fala sobre o que acontece com os apóstolos, primeiro Pedro e, sobretudo, depois Paulo, a partir de certa altura. Mas há um autor cristão, não me recordo agora aqui do nome, que tem esta feliz expressão de chamar ao livro dos Atos dos Apóstolos, o livro dos atos do Espírito Santo. E realmente, o livro dos Atos dos Apóstolos centra-se sobre a ação do Espírito Santo que conduz a Igreja. E conduz a Igreja a fazer várias coisas. Primeiro, a dar exemplo como comunidade já em Jerusalém, aquilo a que te referias, a primeira comunidade que partilhava os bens, que dava o exemplo de comunhão, com problemas. O livro dos Atos dos Apóstolos também tem aqueles que vendem um campo, tiram metade do dinheiro, entregam a outra metade, depois aquilo é descoberto e a comunidade não fica muito contente com a situação. Portanto, há aqui um retrato idealizado, mas também um retrato realista das dificuldades da Igreja desde o início. Mas depois, o Espírito Santo é também aquele que inspira, por exemplo, o partir ao encontro dos não judeus. Isto parece-nos uma coisa muito óbvia, mas este passo de dizer: "Atenção, que a salvação no Messias Jesus não é só para os judeus, mas é também para os não judeus", foi um passo muito importante e difícil na primeira Igreja e os Atos dos Apóstolos coloca o Espírito Santo a ajudar a Igreja a dar esse passo, nomeadamente Pedro. E depois vemos a história de Paulo, que vai precisamente enviado aos gentios.
Aliás, existe sempre aquela expressão que é: "o Espírito Santo e nós decidimos". É uma espécie de refrão tônico na primeira parte dos Atos. Quando existe alguma decisão, o Espírito Santo e nós decidimos. Isto é particular nestas coisas.
Mas consigo lançar a batata quente só pra uma resposta muito simples, porque já que mencionamos que o protagonista é o Espírito Santo, conseguimos sintetizar, explicar o que é o Espírito Santo. Talvez seja a personagem da Trindade mais difícil de explicar, não?
Talvez dizer que aqui ainda estamos antes dessa reflexão profunda dos séculos seguintes sobre o que significa o Espírito Santo na sua relação com o Pai e o Filho. Isso é a reflexão teológica, dogmática posterior. Aqui, o Novo Testamento pensa no Espírito Santo, sobretudo como o Espírito de Jesus. De alguma forma, um espírito, isto é, uma parte de Jesus continua ativa na Igreja, a guiar a Igreja até o fim dos tempos.
Muito bem, há outro aspecto que é necessário realçar quando olhamos pro Antigo Testamento. Depois dos Evangelhos e do livro dos Atos dos Apóstolos, entramos num bloco de documentos, o maior bloco de livros do Novo Testamento, que são as cartas. São muitas cartas. Temos as mais famosas, que são as cartas de São Paulo. Temos também, depois, cartas de Tiago, Pedro, João e Judas. Francisco, por que dentro do Novo Testamento são cartas? O que podemos saber sobre estes textos, sobre os autores, sobre os destinatários? Por que tantas cartas?
Este fenômeno epistolário no Novo Testamento, como tu dizias, é um bloco muito grande no Novo Testamento, reflete a rápida disseminação do movimento cristão, logo ali naquela zona oriental do Mediterrâneo. Nós, no final do século I depois de Cristo, 60, 70 anos depois da morte de Jesus e da sua ressurreição para estes discípulos, temos o cristianismo já na Turquia, na Grécia, no Egito, além da Terra Santa, e já a chegar a Roma e aos limites da Gália. Ora, o fenômeno epistolário está seguramente ligado a esta figura de Paulo de Tarso, São Paulo, que começa a um dado momento a escrever cartas. Não começa a escrever cartas logo que se torna apóstolo. Aliás, começa a escrever cartas numa época já mais adulta ou mais tardia da sua vida, a mais antiga das quais é a primeira carta aos Tessalonicenses, que é escrita por volta do ano 50. O que é que são estas cartas? Não são tratados de teologia, tirando talvez um bocadinho a carta aos romanos Mas são uma forma que São Paulo e depois os outros apóstolos tiveram de se tornar presentes nas comunidades que tinham fundado ou nas quais tinham passado e tinham tido uma atividade apostólica importante. Muitas vezes afrontam problemas concretos. Dois exemplos: Carta aos Tessalonicenses. Qual era a dúvida destes cristãos em Tessalónica, na Grécia? Paulo tinha lhes dito: "O Messias vai regressar depois de amanhã ou amanhã de manhã". Entretanto, morreram alguns membros da comunidade. E a comunidade tem uma preocupação: estes que já morreram, o que lhes vai acontecer quando voltar o Senhor? E São Paulo tenta esclarecer: "Calma, não, esses também ressuscitarão, até serão os primeiros a ressuscitar quando voltar o Senhor". Ou os coríntios. Os coríntios tinham outro problema completamente diferente. Pensam que ser livre em Cristo é o vale tudo. Passa de ser à vontade, passa a ser à vontadinha. E há uma situação de incesto. Um homem que vive com a mulher do pai, que não é sua mãe, mas a mulher do seu pai. E São Paulo escreveu uma carta a dizer: "Calma, é liberdade, mas nem tudo que podemos nos convém. Então vamos aqui moderar a nossa compreensão do que significa a liberdade". Portanto, cartas a comunidades concretas que depois começam a circular como conjunto de cartas. Isto é também um dado importante.
Logo nessa altura começam a circular.
Nós hoje em dia até pensamos que foi São Paulo que criou o bloco de cartas de São Paulo. Eu sei que isto é um assunto que nós talvez não estejamos a par, mas na antiguidade, se eu escrevia uma carta a alguém, sobretudo se era um autor importante, eu fazia sempre uma cópia da carta, até porque a carta é levada por alguém e essa pessoa apanhava uma chuvada, quando lá chegava a carta não tinha uma letra para ler. A comunidade podia dizer: "Recebemos aqui realmente uma carta na qual não conseguimos ler nada. Podes voltar-nos a enviar a carta?" E a pessoa que envia a carta tinha cópias das cartas. Nós sabemos isto por causa de Cícero. Cícero refere-se a isto e às cópias que fez das suas cartas. É possível que Paulo, ele mesmo, tenha criado o conjunto inicial das cartas que começaram a circular pelas várias igrejas.
Era comum esta actividade epistolar. O Francisco falou de Cícero. Nós temos umas cartas muito conhecidas, dá um pequeno exemplo, são as cartas a Lucílio de Séneca. A actividade epistolar no mundo romano é muito densa e Paulo e os outros autores de cartas reflectem-na claramente.
Já agora, era interessante percebermos um pouco melhor o que aconteceu. Parte destas cartas, não todas, mas uma boa parte destas cartas são escritas a comunidades recém-fundadas de cristãos, fundadas até, por exemplo, pelo próprio Paulo. Nós havemos de voltar a São Paulo num episódio mais à frente, exclusivamente dedicado a esta figura importantíssima. Mas antes disso gostava só de perceber melhor esta dinâmica. Ou seja, Jesus morreu ali por volta do ano 30 e pouco. Depois temos a vida dos apóstolos, que se começam a dispersar e a fundar pequenas comunidades, mas estamos a falar ainda de uma comunidade religiosa absolutamente minoritária, suponho eu que muito perseguida, com muitas dificuldades. E, portanto, a ideia destas cartas era, de certa maneira, tentar abordar aquilo que mais inquietava, os problemas que mais inquietavam essas comunidades que estavam ainda, suponho eu, a aprender o que significava aquela nova realidade religiosa. O que te parece, João?
Parece-me que nós quando estamos aqui a falar das cartas, estamos a falar de um percurso muito lento, em que as pessoas vão se apropriando do fenómeno de Jesus e apesar de ser uma religião que claramente não tem um direito de cidadania, as cartas são até o meio mais fácil de a fazer circular. Eu não tenho propriamente dados sobre a política de repressão do Império Romano, se existiria uma forma até de vasculhar as coisas, mas claramente é uma forma rápida e fácil de disseminar informação. Nós no episódio passado falámos dos influencers, quando falámos dos profetas, estamos aqui a falar de coisas que poderiam ser hoje como mensagens do WhatsApp, coisas fáceis de circular num contexto onde a religião não era propriamente a mais conhecida.
Muito bem, nós haveremos no final deste podcast de dedicar um episódio inteiro ao último livro da Bíblia, o Apocalipse. Mas se calhar podemos aqui, na reta final deste episódio sobre o Novo Testamento, tentar levantar um pouco o véu sobre este livro. Nós associamos esta palavra habitualmente a uma desgraça, ao fim do mundo, uma coisa assim meio obscura. Dizemos: "Vem aí o apocalipse", quando vemos um grande drama. O que esta palavra quer dizer e que livro é este que surge aqui?
De maneira muito telegráfica, nada de zumbis nem de vampiros, não é o apocalipse zumbi. O apocalipse não significa catástrofe. O apocalipse não significa fim do mundo, nem catástrofe. É entendido mais como a apocalipses, no sentido grego, uma espécie de revelação e desvelamento. Aliás, o título completo do livro é Revelação de Jesus Cristo. Estamos a falar de um livro escrito no final do século I, possivelmente sob o imperador Domiciano, cerca de 95 depois de Cristo, embora alguns sugiram o imperador Nero, e as comunidades cristãs, particularmente da Ásia Menor, onde hoje localizamos a Turquia, viviam sob uma pressão e graves conflitos, quer externos, com o Império Romano, devido ao culto imperial obrigatório, quer com as sinagogas locais, de onde os cristãos estavam a ser expulsos, mas também havia conflitos internos sobre como lidar com a cultura pagã. Se se deveria assimilar a cultura pagã ou resistir. E é por isso que o livro do Apocalipse até começa com as cartas às igrejas. E depois começa com toda aquela linguagem se calhar mais surrealista que nós lhe atribuímos com alguma facilidade.
Muito simbólica, muito cheia de imagens.
Sim, que iremos explorar no último episódio.
Exatamente. E haveremos de lá voltar e na próxima semana vamos olhar especificamente para a literatura dos Evangelhos, dos quatro livros sobre a vida de Jesus, e com grande detalhe para a figura de estilo favorita de Jesus, que era a parábola. Até para a semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Francisco Martins e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.