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Depois de muita expectativa, a Anthropic deu mais um passo rumo a Wall Street, ao apresentar o prospeto da sua oferta pública inicial (IPO). Ainda que não mencione data da operação ou valores que a empresa de inteligência artificial (IA) ambiciona ao abrir o capital a investidores, o documento revela a situação financeira, as ligações a outras companhias e identifica os rivais. E atira mesmo à concorrência, a pensar em particular na OpenAI: “Todos os sete [cofundadores] ainda trabalham na empresa, o que faz com que a Anthropic seja a única das principais empresas de IA que mantém a equipa fundadora na totalidade.”
Mas há algo que salta à vista no prospeto da Anthropic: os riscos. Ainda que todos os prospetos tenham uma área dedicada a fatores que podem ter impacto no negócio, a da Anthropic é particularmente extensa. São cerca de 90 páginas de alertas, mais do que as 64 páginas em que explica as linhas com que se cose o negócio.
IA. Anthropic avança no processo de entrada em bolsa com apresentação de prospeto
Apesar de o prospeto só ter sido agora apresentado ao regulador da bolsa dos EUA, a SEC (Securities and Exchange Commission), no fim de setembro já havia notícias sobre como a empresa tinha incluído os “riscos para a humanidade” no documento. Quase um mês depois, a Anthropic mantém os avisos sobre “os riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade, em particular se os sistemas [de IA] forem mal usados, replicados, usados como arma ou lhes seja permitido que operem com um alto grau de autonomia”.
Anthropic alerta investidores para “riscos existenciais” da IA para a humanidade
O documento mostra ainda um equilíbrio difícil entre os investimentos “para aproveitar a oportunidade” da IA e as receitas geradas pela empresa. No primeiro semestre de 2026, a Anthropic teve um prejuízo de 80,7 mil milhões de dólares (72,1 mil milhões de euros), mais do que os 13 mil milhões de dólares de há um ano (11,6 mil milhões de euros). Em 2025, o prejuízo chegou a quase 42 mil milhões de dólares (37,6 mil milhões de euros).
Ainda que as receitas tenham disparado — chegaram aos 16,3 mil milhões de dólares no semestre — a empresa está a gastar mais com computação e infraestrutura (8,9 mil milhões de dólares) e com pessoal. Se no fim do ano a Anthropic tinha 1.839 funcionários, em junho já tinha ultrapassado a fasquia das 3.150 pessoas.
O alerta dos perigos da evolução da IA
A Anthropic usa dez vezes a palavra “catastrófico” e três vezes a expressão “risco existencial” ao longo das mais de 300 páginas do documento. Não é surpreendente para uma empresa que já viu o CEO publicar dois extensos ensaios sobre os riscos da IA.
“Os nossos modelos de IA podem, por si só, causar danos ao produzirem resultados indesejáveis ou ao comportarem-se de forma não pretendida, desajustada ou autónoma, nomeadamente ao realizarem ações não pretendidas ou prejudiciais que não tenham sido ordenadas por nenhum utilizador ou terceiro”, avisa a empresa.
A Anthropic admite que esses riscos “podem aumentar à medida que os modelos se tornam mais avançados”. Ao longo dos últimos meses, têm sido divulgados vários incidentes de segurança com agentes de IA, que fugiram às instruções e atacaram outras empresas. A OpenAI teve vários, incluindo um ataque a um serviço governamental da Austrália, e a própria Anthropic teve um agente à solta.
E, apesar dos esforços para ‘policiar’ a IA, a Anthropic avisa possíveis investidores de que a sua tecnologia “tem vindo a demonstrar maior capacidade para contornar essas técnicas [de segurança], nomeadamente ao ocultar objetivos ou comportamentos desalinhados”. Desta forma, a “eficácia das medidas de avaliação, monitorização e controlo, bem como a capacidade de avaliar o grau de alinhamento dos modelos, poderá diminuir”, explica a empresa.
“Se, à medida que os nossos modelos evoluem, ficarmos menos capazes de detetar ou avaliar desajustamentos, poderemos implementar modelos cujo comportamento não consigamos verificar adequadamente, o que poderá aumentar o risco de condutas prejudiciais e desajustamentos não detetados, o que, por sua vez, poderá afetar negativamente a nossa atividade, situação financeira e resultados operacionais”, continua.
A empresa salienta que está comprometida “em fazer valer os seus valores em situações críticas” de segurança, “mesmo quando isso tenha custos comerciais”. São dados como exemplos cenários em que possa vir a ter de atrasar ou adiar lançamentos para acautelar questões de segurança dos modelos.
Irmãos Amodei foram aumentados em 2026. Segurança do CEO e presidente da empresa custou 4 milhões em 2025
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O prospeto do IPO da Anthropic detalha algumas das compensações que foram atribuídas às principais caras da empresa: Dario Amodei, o CEO, Daniela Amodei, a presidente da empresa, e Krishna Rao, o diretor financeiro.
É explicado que os salários dos três executivos têm em conta “os dados de mercado, nível e localização”, assim como a importância que têm na empresa. Entre janeiro e junho de 2025, Dario e Daniela Amodei receberam um salário anual base de 600 mil dólares (536 mil euros), a que ainda se juntavam compensações como ações e benefícios de viagens. Foram aumentados em junho de 2025 para receber um salário base anual de 700 mil dólares (625,9 mil euros).
Já o diretor financeiro começou 2025 com um salário base de 700 mil dólares por ano, que foi atualizado para 850 mil dólares a 16 de dezembro de 2025 (760 mil euros).
Assim, no fim de 2025, Dario Amodei recebeu um salário de 654.167 dólares, o mesmo que a irmã.
Mas, feitas as contas, o valor total de compensações é bem diferente: Dario Amodei recebeu um total de 17.958.298 dólares (16.057.412 euros), Daniela Amodei 16.408.998 dólares (14.672.105 euros) e Krishna Rao recebeu 720.250 dólares (644.011 euros).
Os salários dos três executivos já foram aumentados este ano, como uma forma de “reconhecer os papéis de liderança”. Rao passou para um salário base anual de 1,25 milhões de dólares, enquanto os dos irmãos foi revisto para 915 mil dólares (818,5 mil euros) em janeiro e, em julho, subiu para 1,38 milhões de dólares (1,23 milhões de euros).
Os irmãos Amodei recebem ainda ações da empresa e despesas de viagens. Desde 2025, têm segurança privada paga pela empresa, devido à notoriedade e destaque que têm. A segurança de Dario Amodei custou em 2025 mais de 2,7 milhões de dólares (2,4 milhões de euros) e a de Daniela Amodei 1,3 milhões de dólares (1,2 milhões de euros).
O número “limitado de clientes”
As receitas da criadora do Claude têm origem num número “limitado de clientes”. “Uma parte substancial das nossas receitas e contas a receber provém de um número limitado de clientes e canais de distribuição, pelo que a perda ou uma redução significativa das despesas de um ou mais dos nossos principais clientes, ou ainda uma perturbação nesses canais, poderá afetar negativamente as nossas perspetivas, a nossa atividade e a nossa situação financeira.”
Até 30 de setembro, a empresa dizia ter “mais de 11.900 clientes” que geravam receitas de “100 mil dólares ou mais nos últimos 12 meses”. Tinha “mais de 1.900 clientes” responsáveis por um milhão de dólares de receitas e “cerca de 250 clientes a gerar 10 milhões ou mais das receitas”.
Ainda que “nenhum cliente represente mais de 10% das receitas dos nove meses”, alerta que os cinco maiores clientes são responsáveis por um quarto das receitas. E também que “muitos dos principais clientes não estão sujeitos a contratos de longa duração”.
No futuro, a empresa considera que continuará “a obter uma porção significativa de receitas de um número limitado” de compradores. Mas também avisa que “os clientes poderão desenvolver as suas próprias soluções para concorrer com os modelos” da Anthropic.
O alerta para “as relações multifacetadas e complexas” com os fornecedores de cloud
“Existem alguns fatores de risco preocupantes (mas não inesperados) no formulário S-1, incluindo a área da informática, onde a procura tem historicamente excedido a capacidade disponível”, diz o analista Dan Ives, da Yorkville Ives & Co, numa nota partilhada com o Observador após a divulgação do prospeto.
A Anthropic resume a questão: as relações que tem com os fornecedores de cloud são “multifacetadas e complexas”. “A nossa dependência de um número limitado de CSP [prestadores de serviço de cloud] e fornecedores, alguns dos quais mantêm relações estratégicas e de investimento connosco e são nossos clientes, cria dinâmicas complexas que podem dar origem a conflitos de interesses e afetar negativamente o nosso acesso a recursos de computação”.
Alerta que depende de um “número limitado” de companhias na qualidade de fornecedoras de infraestrutura cloud: a Amazon, a Google e a Microsoft. Que, nota, “podem ter feito e vir a fazer” investimentos ou “apoiar” empresas rivais da Anthropic.
O desafio dos centros de dados, da energia aos chips
No documento, a Anthropic avisa que “vai fazer investimentos (em particular em computação) que poderão parecer amplamente irresponsáveis à primeira vista”.
É preciso um elevado número de recursos de computação para desenvolver modelos e serviços de IA. Na lista de riscos, a Anthropic explica que o seu negócio pode sofrer “se não for capaz de assegurar a computação adequada”. A empresa sublinha que “o mercado da computação é altamente competitivo”, dizendo que “está a concorrer contra algumas das maiores e mais bem capitalizadas empresas de tecnologia do mundo”. E que, em alguns casos, essas empresas “operam infraestruturas de centros de dados de computação em nuvem”, “têm capacidades próprias de fabrico ou conceção de chips” ou “mantêm relações estratégicas de longa data com fornecedores-chave de hardware”. No prospeto, identifica a Alphabet, a dona da Google, como concorrente direta, e também a OpenAI, a dona do ChatGPT.
Além do acesso à infraestrutura, a empresa teme a dificuldade de acesso a “eletricidade e a localizações de centros de dados com energia suficiente” para o treino de modelos. E, mais uma vez, refere que o seu acesso está dependente da vontade de outras empresas.
Outro risco é o acesso aos chips para assegurar o desenvolvimento dos modelos. “Dependemos de empresas terceiras de conceção de chips e de prestação de serviços para a conceção, fabrico e assistência de determinadas plataformas de aceleradores personalizadas, bem como para acordos de financiamento de infraestruturas relacionadas”, explica. “Qualquer perturbação nestas relações, ou qualquer incumprimento por parte dessas entidades no fornecimento de hardware ou serviços nos prazos e de acordo com as especificações previstas” poderá ter efeitos negativos.
A Anthropic inclui ainda as tensões geopolíticas nessa lista de fatores, admitindo que o negócio poderá ser impactado por “limitações às exportações de chips avançados” impostas pelos EUA. “Estas restrições afetaram a distribuição global do abastecimento de chips e de equipamento relacionado, e futuras alterações na política de controlo das exportações poderão afetar a disponibilidade ou os preços dos recursos informáticos de que dependemos.”
▲ A Anthropic quer ser cotada no Nasdaq
ANGELINA KATSANIS/EPA
Os atuais e futuros litígios, dos direitos de autor até ao confronto com o Pentágono
A lista de riscos da Anthropic dá também atenção a atuais e futuros litígios. “A nossa atividade está sujeita a um contexto regulatório e político em constante evolução e incerto, o que poderá aumentar os nossos custos, restringir as nossas operações ou afetar negativamente a procura pelos nossos modelos, plataforma e aplicações”, explica a dona do Claude.
“Podemos estar sujeitos a responsabilidade civil, litígios e medidas regulatórias decorrentes de danos associados aos nossos modelos de IA”, diz a companhia. “As nossas proteções contratuais e seguros podem revelar-se insuficientes, o que, em qualquer um desses casos, poderá afetar negativamente a nossa atividade, situação financeira e resultados operacionais.”
Por exemplo, a empresa menciona o processo contra o Departamento de Defesa dos EUA. Desde fevereiro que trava um braço de ferro com o Pentágono, que classificou a empresa como um “risco para a segurança nacional” quando a companhia disse que não queria que a sua tecnologia fosse usada em cenários de guerra sem supervisão. Concretamente sobre este processo, alerta que podem surgir “perdas de receitas significativas ou perturbações na atividade empresarial” devido ao processo.
Também menciona litígios decorrentes de processos ligados a direitos de autor. Por exemplo, inclui na situação financeira uma despesa de 1.500 milhões de dólares (1.300 milhões de euros) com o acordo do processo Bartz, um acordo histórico entre uma empresa de IA e escritores e artistas visuais.
Anthropic paga 1,28 mil milhões de euros a autores por usar livros pirateados para treinar IA
O prospeto da Anthropic foi divulgado no mesmo dia em que surgiram notícias sobre mais um processo, em que os herdeiros de Elvis Presley contestam o uso de músicas do artista para o treino de IA.