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Será que o Messias é um contador de histórias? Este é o nono episódio de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou Francisco Martins, padre jesuíta e professor do Instituto Bíblico de Roma.

E eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.

Todas as semanas, com a ajuda destes dois especialistas, vamos olhar para uma parte da Bíblia e percorrer este livro do início até ao fim. Na semana passada, abrimos as páginas do Novo Testamento, depois de uma viagem por uma história de milhares de anos no Antigo Testamento. Estamos agora a olhar para os textos deste Novo Testamento, que contam essencialmente uma história: a vida, obra e legado de um carpinteiro judeu que mudou o mundo. Esta semana vamos focar-nos num aspecto central da vida de Jesus: a mensagem que anunciou durante a vida adulta e que ficou registada nos Evangelhos. E vamos tentar perceber melhor por que Jesus falou tantas vezes através de parábolas, por vezes muito misteriosas. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Se há personagem da Bíblia sobre a qual nós podemos usar aquele clichê de que dispensa apresentações, é Jesus Cristo. Todos conhecemos, pelo menos, os traços gerais da história deste homem, desde o presépio até à cruz. No episódio passado, quando começámos a falar sobre o Novo Testamento, também enquadrámos um pouco o nascimento de Jesus no contexto histórico daquela época. O Império Romano tinha ocupado a Judeia e embora a religião judaica ainda fosse praticada com liberdade, aquele território estava subjugado aos romanos e entre os judeus continuava-se à espera de um Messias. Foi neste contexto que nasceu Jesus e a vida dele está registada nos quatro Evangelhos, ainda assim com bastantes lacunas. Sabemos, por exemplo, a história do nascimento e do presépio, que assinalamos todos os anos no Natal. Sabemos também que algures na pré-adolescência, Jesus foi encontrado a discutir teologia com os doutores no templo e depois voltamos a encontrá-lo já adulto, a batizar-se e a passar meia dúzia de anos a pregar a chegada do Reino de Deus por toda aquela terra. Além de um pregador, Jesus foi também um agitador, o que acabou por levá-lo a ser condenado pelos judeus. Acusavam-no de heresia por se intitular filho de Deus e acabou, como sabemos, pendurado numa cruz. O grosso dos Evangelhos diz respeito precisamente àqueles anos em que Jesus andou pela Galileia e pela Judeia a anunciar o Reino de Deus. E nesses textos, há claramente uma coisa que salta à vista, que são as parábolas. Jesus farta-se de falar em parábolas. E temos grandes êxitos como o filho pródigo, o bom samaritano, a ovelha perdida, o grão de mostarda, por aí fora. São histórias que marcam claramente também o nosso imaginário coletivo que nos vem da Bíblia. Francisco, eu acho que gostava de começar por aqui. Por que Jesus, se tinha uma mensagem tão importante para passar, não foi direto ao assunto? Por que andou com parábolas?

Jesus foi direto ao assunto, mas o assunto requeria esta forma original de comunicar. O aspecto central da mensagem de Jesus, tu já disseste isto, era a pregação do Reino de Deus. Esta expressão, Reino de Deus, é um bocadinho ambígua e é difícil para nós e também era provavelmente difícil para as pessoas do tempo de Jesus e podia ser lida politicamente. Esta ideia de um reino onde os romanos já não tinham lugar, os romanos iam ser expulsos e os judeus iam ter outra vez um Estado independente, mas que muito provavelmente, na acepção que Jesus lhe deu, era, sobretudo, um reino teológico, isto é, esta ideia de que Deus vai intervir de forma decisiva na história para a transformar. E Jesus morreu convencido disto, que o Reino de Deus estava à porta e que Deus ia intervir de forma decisiva para mudar a história. As parábolas são quase sempre, senão sempre, sobre o Reino de Deus e são pequenos textos que falam sobre as características deste reino, sobre a sua iminência, muitas vezes, isto é, o reino vai chegar já amanhã de manhã, em princípio, e quais são os atributos necessários para participar deste Reino de Deus. Portanto, as parábolas são enigmáticas nalguns casos, mas apontam, sobretudo, para as várias dimensões do Reino de Deus, no sentido teológico do termo.

E, portanto, usam situações, por exemplo, familiares com as pessoas da época. Estamos a falar de um mundo rural, agrícola, etc. E por isso é que temos tantas parábolas, por exemplo, sobre o mundo rural, que talvez ajudassem os ouvintes a terem uma imagem mais clara, uma noção mais clara do que seria essa imagem do Reino de Deus.

Sim, as parábolas são do mundo rural. Atenção, não cometer aqui o erro de achar que Jesus era um ruralista nesse sentido, porque muitas dessas parábolas, mesmo a Galileia, é verdade, tinha uma dimensão muito rural, mas Jesus até se foi estabelecer numa zona junto ao Mar da Galileia, que era uma zona, sobretudo, comercial. Hoje em dia, quem visita o Mar da Galileia não tem noção

Daquilo que era um hub comercial na época de Jesus, haveria mais de 30 portos naquele mar. O cruzamento de mercadoria de pessoas naquele mar era muito significativo. Portanto, as imagens muitas vezes são rurais, mas não é uma espécie de apologia ruralista.

Nós neste podcast não temos estado a ler textos da Bíblia propriamente ditos, temos deixado esse trabalho para os nossos ouvintes que se interessarem por ir tirar o pó à Bíblia que possam ter lá por casa, mas queria abrir aqui uma exceção muito rápida para ler uma frase do Evangelho de São Mateus, que diz assim: "Os discípulos aproximaram-se e disseram-lhe: 'Por que razão lhes falas em parábolas?' Jesus respondeu-lhes: 'Porque a vós foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. Pois àquele que tem ser-lhe-á dado e acrescentado, mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. É por isso que lhes falo em parábolas, porque vendo, não veem, e ouvindo, não ouvem nem entendem'." Fim de citação. Ou seja, os discípulos andavam com a mesma dúvida que eu. Por que Jesus andava a falar em parábolas misteriosas? Jesus falava com o povo, com estes textos misteriosos e os discípulos vinham lhe perguntar: "Por que estás a falar com essas comparações e com essas histórias tão curiosas?" Mas João Bastos, a resposta parece que não esclarece muito.

Eu acho que o primeiro ponto que temos que nos aproximar ou do qual nós temos que nos aproximar neste episódio é aquilo que é a parábola ou aquilo que não é uma parábola. Acima de tudo, não é um conto moral. Nós estamos muito habituados a ler as parábolas e depois nos ensinarem uma espécie de chave final de leitura, que é uma espécie de lição de moral, lição de ética. Não sei se isso é o mais adequado. Nós estamos a falar de um estilo literário. Falámos aqui há bocado em off de como é tão difícil definir uma parábola como é definir, por exemplo, o que é um poema. Não sabemos ao certo exatamente o que significa uma parábola. Sabemos que Jesus contou mais ou menos 40, aproximadamente 40, que era um estilo recorrente na época. Voltamos aqui a algo que já temos vindo a falar de uma ligação entre o ambiente social, literário e aquilo que nós vemos na Bíblia, não ser uma coisa quase totalmente original. Sabemos que Jesus e os evangelhos retratam a parábola como central, de uma maneira que às vezes passa por acessória no mundo tecnicamente judaico, se quisermos fazer aqui uma separação que é claramente artificial. Aquilo que uma parábola faz, de certa maneira, é uma despistagem do leitor e do ouvinte. A parábola não está para explicar, não está para informar, não está para descrever. A parábola faz precisamente aquilo que acontece numa outra obra da história da literatura, em Sófocles, quando a certo momento a esfinge diz a Édipo: "Adivinha ou morres". Na parábola, quem as ouve, quem se coloca diante delas, está sempre neste jogo de: "Ou vais adivinhar ou vais morrer". É o mesmo que acontece com Édipo. Se nós quiséssemos até fazer uma analogia com os contos morais, as fábulas, realmente as parábolas parecem partilhar de algumas características que nós vemos em textos, por exemplo, de Esopo. As parábolas são breves, têm uma certa claridade. Algumas nós entendemos a história, no filho pródigo, na ovelha perdida, no bom samaritano, têm uma certa também credibilidade de quem a diz, mas ao contrário das fábulas de Esopo, que terminam, cá está, com uma chave de leitura final, a parábola nunca se deixa encerrar. Nós podemos mesmo olhar para a parábola como algo que desorienta e desorganiza, cria um choque, como quando nós chegamos ao cinema, achamos que vamos ver um filme e vemos "A Branca Neve", do João César Monteiro e saímos da sala mais baralhados, às vezes, do que quando lá entramos.

Já agora, ajude-nos a perceber um bocadinho esta frase que eu li do Evangelho de São Mateus, quando eu te perguntava se a resposta não esclarece assim muito. Parece-me que nesta frase é feita uma distinção entre os discípulos, que é aqueles a quem foi dado a conhecer os mistérios do reino dos céus, e os outros que não o têm, etc. E que vendo, não veem, ouvindo, não ouvem nem entendem. Ou seja, a parábola acaba por ser um recurso que é necessário para Jesus fazer chegar a mensagem àquele auditório.

Eu creio que esta passagem pode ser interpretada mais no sentido de uma relação com o Messias, ou seja, neste caso, com Cristo. Quem tem uma relação com Cristo, tem uma chave de leitura. Da mesma maneira de que a mesma palavra em contextos diferentes podem significar coisas diferentes. Se eu chegar a Nova York, vindo de um sítio onde não há metrô e ouvir alguém dizer, à entrada do metrô: "Eu vou entrar num caixão com desconhecidos", fica assustado. Não vai para o metrô, porque acha que é uma agência funerária, um armazém de caixões. Mas nós que andamos de metrô ou já andamos de metrô alguma vez, entendemos que o metrô tem essa dimensão. E precisamente, eu acho que a parábola exige também aqui um encontro, porque fora deste encontro, desta compreensão ampla da relação com Cristo, pode passar precisamente como uma história, um conto moral e que nos passa redondamente ao lado.

E que também deixa depois ao ouvinte a possibilidade de o interpretar. Francisco, esta dimensão do mistério, da complexidade, enfim, aquilo que eu dizia de não ir direto ao assunto, mas que tu discordaste, parece estar muito presente nas parábolas de Jesus. E como dizia o João Bastos, às vezes Parece que há parábolas, textos e palavras de Jesus que deixam os ouvintes completamente à toa. Isto era uma intencionalidade de Jesus, deixar as pessoas borralhadas sem perceberem exatamente o que estava em causa?

No século XX, há uma escola de estudiosos que defende a ideia de que as parábolas de Jesus não eram para ser compreendidas de todo. Até não tinham significado nenhum. O único objetivo era colocar em crise a nossa capacidade de compreensão, era destabilizar as certezas, um pouco como aqueles ditos dos mestres espirituais, em que o discípulo fica a olhar para o mestre espiritual e não há nenhum significado a não ser o discípulo ficar a olhar para o mestre espiritual. Uma espécie de forma radical de desconversar de Jesus. A investigação atual não é tão negativa na sua avaliação das parábolas. Reconhece o caráter enigmático de algumas delas. Algumas são muito enigmáticas. O que Jesus quereria dizer nesta parábola? Ainda estamos à volta destas parábolas 2000 anos depois. Mas a tônica parece ser esta ideia, que o João já referiu, da provocação. São histórias que provocam um olhar diferente sobre a realidade a partir desta relação com o Messias Jesus. Por exemplo, a história da ovelha perdida. Este pastor que deixa 99 por guardar e vai à procura de uma. Este pastor, que é a imagem de Deus, que de alguma forma faz as contas da salvação de uma forma radicalmente diferente da nossa. Por um, vale tudo.

Vale a pena deixar os outros. Exatamente.

Isto é provocador para a nossa forma de entender a realidade e até da forma de entender Deus e a nossa relação com os outros cristãos.

Ajudem-nos a perceber um pouco isto. Jesus dizia as parábolas, segundo os relatos dos Evangelhos, naqueles momentos em que reunia uma multidão ou um grupo de pessoas à sua volta e tinha um ensinamento para lhes passar, tinha algo para lhes contar. Isto na vida de Jesus era assim tão comum? Ajudem-nos a perceber em que momento da história é que entram as parábolas. Jesus andava por ali, como eu dizia, pela Galileia, pela Judeia, e sentia que tinha um público à sua volta e que havia ali uma mensagem a passar e dizia: "Sentem-se aí, vou vos contar uma história". Era assim que acontecia? Podemos imaginar que era assim que isso acontecia?

Pelo menos não haveria um jornalista do "Observador" atrás com um gravador para gravar a parábola. Isso não existiria. Mas se calhar até fazendo uma referência a uma série recente, "The Chosen", a série muitas vezes monta as parábolas mais do que em momentos de grande multidão, às vezes em encontros. Agora, é perceptível que Jesus realmente falou a um conjunto de pessoas, que terá guardado alguns ensinamentos até numa ou noutra circunstância mais específica. Isso nós veremos até na Páscoa, isso é claro. Agora, efetivamente, nós também percebemos o contexto, não sei se o padre Francisco tem alguma .

A apresentação das parábolas no texto dos Evangelhos é relativamente esquemática. Por exemplo, o evangelho de Mateus concentra as parábolas todas numa secção do evangelho. Muito provavelmente, como estava a dizer o João, as parábolas foram sendo contadas em circunstâncias diferentes. Também não sabemos se todas as parábolas vêm exatamente de Jesus. Pode ser que das 41 ou 40 que estão nos evangelhos nem todas sejam exatamente de Jesus, tenham sido já elaboradas posteriormente.

Posteriormente, e foram passando pela tradição também das gerações de cristãos a seguir e chegaram até os dias de hoje, ainda informam muito da nossa cultura contemporânea. Nós vamos voltar já a seguir para a segunda parte de "As Histórias da Bíblia" e vamos continuar a conversar sobre Jesus e sobre o amor que ele tinha pelas parábolas. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Francisco Martins. Esta semana estamos a conversar sobre Jesus e as parábolas e eu não resisto a trazer para aqui uma reflexão que eu vi num outro podcast estrangeiro sobre a Bíblia, que estavam justamente a refletir sobre as parábolas e diziam o seguinte: imaginemo-nos no lugar de um agricultor judeu daquele tempo, talvez fosse analfabeto, por exemplo, e que tinha na sua cabeça toda aquela mitologia do Antigo Testamento, sentia-se ligado à história do povo de Israel, aguardava por um Messias prometido pelos profetas, estava revoltado com a ocupação romana, por exemplo, e sonhava com um Deus que havia de voltar a libertar o povo. Do nada, aparece ali na terra dele esta figura, Jesus, a fazer uns milagres e a contar histórias do tipo: o reino de Deus é como um grão de mostarda ou como um agricultor que deita sementes à terra e espera o crescimento. Realmente, João, Jesus parece estar a anunciar a salvação com palavras que este ouvinte em específico percebe. Mas para elaborar um pouco melhor aquilo que dizíamos na primeira parte, uma pessoa que ouça este tipo de comparações, este tipo de alegorias, é muito difícil definir o que é este gênero literário, acaba por ficar mais confuso ou mais esclarecido quando ouve estas histórias?

Acho que como falámos na primeira parte, realmente o objetivo das parábolas é deixar as pessoas confusas e possivelmente não estar aqui a esclarecer grande coisa. Ou seja, a parábola quer, como já dissemos, criar um choque, é ser uma provocação e também isso ajuda-nos a entender Aquilo que pode ser o objecto das parábolas é o reino de Deus. Ou seja, o reino de Deus não é uma coisa evidente, não é uma coisa que nós possamos explicar numa definição matemática e axiomática de 2+2=4. E ao utilizar-se o estilo das parábolas, nós entendemos pelo estilo esta conclusão. O reino de Deus pode ser contado numa espécie de história provocadora, mas é muito difícil definir e não estamos aqui no âmbito, claramente, de uma ciência exacta.

Mas assumindo que Jesus queria falar a um público concreto, específico do seu tempo e do seu espaço, as parábolas que temos hoje registadas na Bíblia ajudam-nos também a perceber qual era o contexto da generalidade das pessoas que o ouviam. Ou seja, o facto de ele recorrer a estas imagens diz-nos qualquer coisa sobre quem é que ele tinha à frente quando ouvia as suas histórias?

O contexto da maior parte das parábolas é realmente a Galileia. A Galileia, só para esclarecer, é a zona norte do que é a Terra Santa. Jesus estaria muito ligado à cidade de Nazaré, que é ali mesmo no meio da Galileia, e depois provavelmente a certa altura deslocou-se e provavelmente até se estabeleceu em Cafarnaum, que é esta outra cidade que é junto ao lago. É naquele contexto que combina diversas dinâmicas, combina realmente agricultura e uma região agrícola, sobretudo a zona da Galileia. Combina também uma experiência, por exemplo, de cobradores de impostos. Também administradores que provavelmente não estariam exatamente no meio do campo, mas em zonas mais centrais, eventualmente até na zona portuária para poder administrar o que recebiam daqui, dali, etc. Portanto, combina todo aquele universo que as pessoas que gostavam de escutar conheceriam. Não sei se conheceriam todas com o mesmo detalhe tudo, mas conheciam aquele ambiente. Sabiam o que era uma figueira, sabiam o que era uma oliveira, sabiam o que era pagar impostos aos romanos, sabiam o que era administrar azeite, etc. Portanto, conheciam aquele contexto.

E essa ideia da ocupação romana também acaba por estar ali presente.

Sim, está um bocadinho ali presente, mas mais como contexto de fundo. Só dizer aqui uma coisa em relação às parábolas. Nós se calhar pensamos que as parábolas possam ser ou podiam ser de alguma forma mais diretas. Eu gostava de comparar as parábolas a uma espécie de caramelo que colocamos na boca, porque é isso que são as parábolas. Vamos saboreando o caramelo. Quando eu era miúdo, muitas vezes recebia o caramelo na boca e partia-o logo ao meio, que não é o objectivo do caramelo. Eu sempre fui um bocadinho impaciente com o caramelo.

Deixá-lo ali a fazer o seu trabalho.

Exatamente. Para verdadeiramente saborear caramelo, é preciso deixá-lo na boca durante um bom bocado. E eu creio que estas parábolas funcionam da mesma forma. É preciso ler a parábola, revisitar a parábola, ver se a parábola tem ali aspetos que não são imediatamente evidentes e deixar que isso fique a trabalhar na nossa consciência para que a parábola consiga, no fundo, cumprir o seu objectivo. Esta é a minha impressão do que são as parábolas.

Então vamos falar um pouco sobre parábolas concretas, para também podermos olhar para estas histórias que estão realmente escritas nas páginas da Bíblia. E eu lancei-vos o desafio aos dois, antes deste episódio, de escolherem a vossa parábola favorita e vocês chegaram agora aqui, antes de começarmos a gravação, e disseram-me que tinham escolhido exatamente a mesma.

Eu entretanto mudei.

Entretanto mudaste.

Eu gosto de ser original.

Isto é uma bocada inaceitável.

Vamos então tentar perceber quais é que são as vossas parábolas favoritas e também de que maneira é que elas, na vossa opinião, são significativas ou mais significativas ou representativas deste género literário que está tão presente nas palavras de Jesus. Não sei se queres começar, João.

A minha, que eu escolhi, que o padre Francisco escolheu pela primeira vez, foi a do grão de mostarda, que pra mim tem uma coisa importante que é pequena. É uma parábola um bocado minúscula, quase invisível. Se compararmos, por exemplo, a grandes parábolas como o bom samaritano e o filho pródigo, tem muitas palavras e muitos verbos lá no meio, muitas histórias, muitas personagens. É uma parábola mais pequena.

O bom samaritano e filho pródigo são talvez das mais conhecidas.

Sim, provavelmente sim, das mais conhecidas, mais citadas, mais referidas. Aquilo que me fascina nesta parábola é: acho que toda a gente olha pra esta parábola, como é que há a desproporcionalidade entre o grão e a árvore, mesmo que o grão de mostarda não seja propriamente o grão mais pequeno.

Podes sintetizar muito rapidamente o que é que diz a parábola?

Basicamente, é Jesus que diz que o reino de Deus é como o grão de mostarda, que apesar de ser a mais pequena das sementes, torna a mais frondosa das árvores ou a maior das árvores. E cá está, como estava a dizer, o grão de mostarda possivelmente não é a semente mais pequena, também não é propriamente uma árvore, é mais um arbusto, mas isso é mais pra botânica. Primeiro, esta desproporcionalidade, eu acho que quem está a ouvir pela primeira vez, é muito interessante esta desproporcionalidade. Depois, há um estudioso e há um conjunto de estudiosos que indicam uma coisa interessante, que é: na versão de Lucas, porque a mostarda está relacionada com o jardim, na versão de Lucas, a plantação da mostarda, desta semente, violaria uma espécie de lei judaica de De certas espécies serem plantadas umas com as outras. Por quê? Porque a mostarda tem uma dimensão de praga. Quando ela é plantada, espalha-se pelo jardim, toma conta dele. Qual seria o problema? É que ao misturar-se, depois acabaria com a pureza do jardim. E esta dimensão subversiva do grão de mostarda é particularmente interessante. Esta ideia de que uma coisinha pequenina, o reino de Deus, é uma coisa como uma praga, que depois é capaz de "arrebentar com o jardim", tomar conta dele como se fosse uma espécie de veneno.

Francisco, tu que originalmente tinhas escolhido a parábola do grão de mostarda, não queres dar uma nota também?

Era um bocadinho por este aspecto que o João estava a dizer ao final. Esta ideia de que o reino de Deus é uma espécie de erva daninha, é uma coisa um bocadinho contraintuitiva. Nós achamos sempre que o mal é que tem esta capacidade de se multiplicar de forma imparável. E Jesus conta uma parábola que parece insistir no contrário. É o bem, é o reino de Deus, que tem uma capacidade de se multiplicar e de entrar de forma invasiva em toda a realidade.

Uma planta selvagem.

Se calhar são os nossos olhos é que não veem. A parábola, no fundo, chama-nos a olhar para a realidade com outros olhos, que não os nossos normais, que se calhar são muito pessimistas e isto vai sempre de mal para pior ou de pior para ainda pior.

Exato. Mas não sei se queres então agora apresentar o plano B.

Conto a segunda parábola.

O plano B. A tua parábola favorita.

O plano B, que foi aqui na hora. Há uma parábola que é literalmente um caramelo com o qual já ando há imensos anos, que é esta parábola do administrador infiel. Esta é uma parábola que Jesus conta, no Evangelho de Lucas, onde havia um homem rico que a certa altura percebe que aquela pessoa que lhe administra os bens está a dissipá-los, está a roubá-lo, praticamente. E chama-lhe e diz-lhe: "O que é que eu ouço sobre ti? Vou despedir-te", etc. E o administrador diz para si próprio: "O que é que eu hei de fazer? Para cavar, não tenho força. Para pedir esmola, tenho vergonha". E começa a chamar os devedores do seu patrão e diz-lhe: "Tu deves 40 talhas de azeite, senta-te aí, escrevemos 20", etc. E faz isto com três ou quatro. E quando o patrão percebe que ele fez isto, em vez de se irritar, elogia-o. Diz: "És administrador infiel, mas procedeste pensando no teu futuro". E Jesus conclui com esta afirmação: "É que os filhos deste mundo são mais chagases, mais espertos que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes". É uma parábola muito enigmática, parece que Jesus está a elogiar a corrupção e a mentira, mas de alguma forma parece-me que esta chave da esperteza é interessante. Nós às vezes pensamos que ser cristão e ter fé é ser uma pessoa boazinha, é deixar-se espezinhar. Também é isso, de vez em quando é dar a outra face, mas sobretudo deixar-se espezinhar, não ter opinião, não ter nada, pensar: "Ok, não conseguimos, acabou". E Jesus aqui diz: "Não, atenção, uma certa esperteza do bem é ótima". E às vezes aqueles que são espertos do mal, podíamos aprender alguma coisa com eles. Para o bem, não para o mal, evidentemente.

Para usar no bem, exatamente.

Não sei se é esta a compreensão da parábola. Depois de mastigar muito este caramelo, é aquilo que me faz perceber desta parábola.

Tenho uma curiosidade, vocês os dois estão aqui neste podcast para nos ajudar a decifrar e a compreender a Bíblia, mas obviamente também não nos podemos esquecer que vocês são dois padres católicos que frequentemente têm a missão de pegarem textos destes nas missas aos domingos e durante a semana também, e ter que fazer homilias. Isto para vocês é uma curiosidade minha, isto para vocês é um desafio grande preparar assim? Chega a um domingo, aparece-vos uma história destas, uma parábola destas, vocês ficam: "Como é que eu agora vou fazer uma homilia sobre isto?"

Seria outro podcast sobre isto. É muito difícil, porque o texto não é fácil. Nós não temos um manual de instruções do IKEA, nem uma receita, com todo respeito da cozinha tradicional portuguesa Maria Lourdes Modesto. Portanto, é muito difícil nós explicarmos isto, até porque nós temos sempre um equilíbrio entre, acho eu, pelo menos na minha visão, entre tentar ser fiel à radicalidade do texto e à sua dificuldade, e depois tentar passar de maneira muito pragmática, uma mensagem para quem vai à Eucaristia. Quer dizer, nós não podemos estar lá a falar de uma coisa tão densa e crítica, que depois não tem qualquer ressonância na vida concreta das pessoas e sem muitas vezes fazer a homilia que já está programada na cabeça de quem está a ouvir, porque é o filho pródigo e, portanto, nós temos que agora aqui falar de misericórdia, de perdão. Nós às vezes acho que devemos tentar sempre fazer com que as parábolas deixem de ser familiares, ou seja, trocar as voltas. Não dar o produto já feito ou já como é habitual.

Já dá, já conheço esta.

Já conheço a história. Pronto, o padre hoje vai dizer aquilo, é aquilo, tem que se dizer isto, porque senão não é uma homilia bem feita. Acho que é tentar tornar as parábolas menos familiares às pessoas, tentar complicar, tentar tirar o tapete Sem aleijar ninguém.

E desafia também o leitor e o ouvinte a olhar para a Bíblia, sobretudo para os Evangelhos, mais como um produto literário, como um objeto de literatura que exige uma interpretação.

Acho que às vezes temos que tirar um pouco as nossas certezas e as nossas convicções. Às vezes, nas aulas, a gente tem essa experiência, quer como aluno, quer como professor. Estamos a explicar uma matéria e há um aluno bastante irritante que continua a fazer perguntas e está à espera que o professor lhe diga aquilo que ele quer ouvir. E nós às vezes temos que dizer: "Desculpe, é assim, eu posso lhe explicar como é que isto é. Agora, se o senhor quer que eu diga aquilo que o senhor quer ouvir, lamento, mas eu não posso dizer".

Francisco, parábolas como, por exemplo, a do bom samaritano, que é altamente conhecida, muito citada, aliás, bom samaritano até meio que se tornou uma expressão idiomática das nossas línguas, podem, à primeira vista, como dizia agora o João relativamente à questão das homilias, parecer simples historietas com uma moral no fim, quase como aqueles contos que chegamos ao fim e têm uma lição de moral que nós temos que levar, já muito fechada, já totalmente definida. Isto pode ser uma leitura redutora das parábolas. Aliás, estávamos a dar agora um exemplo que à primeira vista quase parece elogiar a desonestidade e a corrupção. Portanto, nem todas as parábolas são como esta do bom samaritano, que nos parecem trazer uma lição de moral.

Eu acho que há um perigo grande de reduzir a fé a um moralismo, em geral, entre nós cristãos, mas se calhar também noutras religiões. No fundo, a fé é uma espécie de regras e que se te portares bem, recebes os presentes de Natal.

A recompensa no fim, que é o céu.

A salvação seria uma espécie de presente de Natal pelo bom comportamento ao longo da vida. Não estou obviamente a dizer que não é preciso comportar-se bem, não é essa a ideia, mas reduzir a fé a isso. As parábolas de Jesus são para gente adulta, não são historietas de embalar. Isto é talvez a dificuldade grande que nós temos com estas histórias, porque parecem historietas de embalar. Lá vem o agricultor e vai semear, e lá vem também o pássaro, ou então está aqui este a contar isto e aquilo e o outro, e a figueira, não sei o quê. Parecem historietas de embalar, mas não são, são para gente adulta, porque quando bem compreendidas, reclamam uma conversão, um certo virar a cabeça e voltar a olhar para a realidade com novos olhos. Já falámos aqui um pouco sobre isto. Eu diria que as parábolas, e isto toca aqui um pouco o que o João estava a dizer, que é também, creio eu, a missão de um padre numa homilia onde o texto é uma parábola. As parábolas são uma espécie de bomba-relógio nos Evangelhos. Estão ali nos Evangelhos à espera de ser detonadas, num certo sentido, de detonar, sobretudo, os nossos esquemas muito certinhos da realidade e da fé. E por isso, se forem ativadas estas parábolas, têm uma grande capacidade de nos mudar, num certo sentido. Mas isso requer tropeçarmos nas parábolas. A maior parte das pessoas já não tropeça nas parábolas. A maior parte até dos padres já não tropeça nas parábolas.

Por quê? Porque já estão ali à espera do texto que vem, já estão com uma interpretação pré-formatada?

Eu creio que isto é natural. A boa literatura, a grande literatura, tem uma certa capacidade de destabilizar, de provocar, de reclamar um olhar diferente. E nós tendemos para a inércia, ou seja, tendemos para: "Ok, já percebemos, está aqui, a receita é esta, não nos chateiem mais". E as parábolas e outros textos do Evangelho, mas as parábolas, concretamente, têm uma capacidade ainda muito grande, realmente, de detonar a nossa calma.

Nós estamos quase a chegar ao fim deste episódio. Gostava só de tocar ainda num aspeto que me parece interessante em relação às parábolas. Em 2024, escrevi um livro sobre a fé e o humor com o Ricardo Araújo Pereira, e aqui o padre João Basto também participou nesse livro, num dos capítulos, e nós falávamos da dimensão cômica de Jesus. Ou seja, um bocado a ideia de: será que Jesus também tinha uma veia de comediante? E fazíamos esta pergunta justamente a partir de algumas das parábolas que parecem alguns exercícios de comédia. Usam, por exemplo, alguns dispositivos narrativos semelhantes, tipo a inversão, os pobres serem ricos, os cegos verem, ou o absurdo, a ideia de uma casa construída na areia, por exemplo. A minha pergunta, muito rapidamente, já no final deste episódio, é: será que as parábolas eram também, ao mesmo tempo que eram teologia, também eram entretenimento para quem as ouvia?

O meu ponto de vista sobre isto é que a ideia de que Jesus é humorista porque faz rir, é uma ideia que não tem fundamento. Ou seja, o raciocínio cristão partilha com o humor uma ideia de antilógica permanente. Aquilo que Jesus faz é muito próximo daquilo que o inglês, o trickster, o malandro faz. Há aquela figura mítica na Turquia do Nazarin Roger, que é um homem que está sentado num burro ao contrário. E Jesus é precisamente isso. Da mesma maneira que o ladrão, mesmo de maneira fictícia, altera o regime de propriedade, Jesus, quando fala, e o cristianismo desta maneira, mas Jesus, neste caso, inverte a razão. Aquilo que já falaste dos últimos serem os primeiros. Mas se nós formos ver, por exemplo, que no Evangelho de São João, o Evangelho fala no grego original até de alguns mal-entendidos linguísticos entre as personagens. Nós vemos isso no encontro com Nicodemos, o nascer de cima, nascer do alto. Vemos com Pedro no final, mesmo que sendo um acrescento, a ideia de tu amas-me, da amizade. Jesus parece usar, e os evangelhos consagraram isso, métodos que às vezes estão no trocadilho linguístico, às vezes na boca foleira para quem está à beira, na despistagem permanente. Jesus parece ter, às vezes, até no Evangelho, creio que é em Marcos, essa passagem em que Jesus é expulso de uma cidade, colocam-no numa ravina e querem atirá-lo, ele parece que passa no meio da multidão. E há um texto curioso do Dinis Machado, em que ele diz que o humorista tem uma espécie de corpo de borracha. E Jesus parece que tem um corpo de borracha. E só mesmo uma última nota. Se nós fizermos uma comparação de Jesus com uma obra clássica de Shakespeare, que é o Henrique IV, onde há aquela distinção entre o príncipe Hal, que será o Henrique V, e depois temos o Falstaff. Ao passo que o Hal quer reinar no sentido propriamente do termo, quer ser rei, poderoso, o Falstaff quer ser um rei no sentido em que as crianças estão a reinar enquanto brincam. E eu creio que Jesus é realmente um rei como Falstaff é rei. É uma criança que reina na medida em que brinca, e isso é muito claro nos Evangelhos.

Vamos deixar esta ideia no ar. Chegamos ao fim do nono episódio de As Histórias da Bíblia e na próxima semana vamos continuar a olhar para estes quatro livros, estes quatro Evangelhos, para falar da morte de Jesus e da ressurreição, esse acontecimento absolutamente inacreditável, e também do modo como estes momentos transformaram a história religiosa da humanidade. Até para a semana. As Histórias da Bíblia é um podcast da Rádio Observador com Francisco Martins e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.